As melhores corridas da Indy 500

Se a edição de 2018 das 500 Milhas de Indianápolis ficou devendo em emoção, o GRANDE PREMIUM relembra as dez (ou seriam 11?) melhores corridas no Speedway

Renan Martins Frade, de São Paulo



Vamos ser sinceros: as 500 Milhas de Indianápolis de 2018 foram um anticlímax. Vítima das novas especificações aerodinâmicas da categoria, a prova teve bem menos ultrapassagens e disputas que o habitual. Mais do que isso: a falta de controle dos carros vitimou mais os pilotos do que os adversários. O resultado foi uma vitória que, se não foi fácil, foi relativamente sem sustos para Will Power, da Penske.

Para não ficar com esse gostinho ruim na boca, o GRANDE PREMIUM selecionou dez grandes provas da Indy no Brickyard, daquelas históricas e com grandes disputas. Claro que são mais de 100 corridas, então é difícil chegar em uma lista definitiva – até porque, por décadas, as corridas só ficaram registradas em transmissões de rádio, em textos e na memória de quem lá esteve.

Preparado para voltar ao passado?

Alonso: o cara da Indy 500 em 2017
McLaren

10) 2017, o ano da Alonsomania

 

Nossa primeira parada é no ano passado. De forma surpreendente, Fernando Alonso, o bicampeão da Fórmula 1, anunciou que não só correria as 500 Milhas de Indianápolis, como também com um carro laranja da McLaren – marcando o retorno da equipe à categoria, mesmo que em parceria técnica com a Andretti.

Tal fato deu um sabor especial para a corrida centenária, que foi uma das mais interessantes na pista, também. Foram 14 pilotos diferentes que lideraram a prova, incluindo o próprio Alonso – que abandonou com a quebra de seu motor Honda, partindo milhões de corações, depois de ter liderado por nada menos que 27 voltas.

Mas quem liderou a Indy 500 por mais tempo foi outro ex-F1 que veio do Velho Continente: Max Chilton, que ficou à frente por um total de 50 voltas e liderava após a última bandeira amarela, que terminou faltando 11 voltas para o final. E aí surgiu um OUTRO ex-F1: Takuma Sato, que ultrapassou Chilton e Hélio Castroneves para ser o primeiro japonês a levar a prova. Surpreendente.

DePalma tentando completar a Indy 500 de 1912
United States Library of Congress

9) 1912, quando Ralph DePalma perdeu uma corrida ganha

 

Em 1912, segundo ano da prova, “apenas” 24 carros competiram no Brickyard naquele 30 de maio para competir por cerca de seis horas e meia. Sim, você leu certo: o vencedor recebeu a bandeirada após 6h21m06s. E teria sido uma corrida extremamente chata se não fosse por um pequeno grande detalhe...

Após largar em quarto (o que, naqueles tempos, representava a primeira fila), o ítalo-americano Ralph DePalma assumiu a liderança logo no começo e ficou lá por impressionantes 194 voltas com o seu Mercedes #4. No giro 194, o piloto tinha uma vantagem de 11 minutos. Não, não são 11 segundos. Você leu certo: 11 minutos.

Só que aí existe a mão pesada do destino. No começo da volta 197, DePalma começou a sentir uma perda de potência no Mercedes. Ele até tentou remediar, diminuindo o ritmo, mas na volta 199 – a penúltima – uma biela do motor se quebrou e o carro parou no meio da pista.

Fim de corrida? Não: sob os olhos estarrecidos de 80 mil pessoas nas arquibancadas, DePalma e seu mecânico (sim, naqueles tempos os pilotos são só corriam com um mecânico ao lado, como era algo obrigatório) saltaram do carro e passaram a empurrá-lo. Mesmo com uma grande vantagem, ambos não conseguiram evitar que Joe Dawson os ultrapassa-se e vencesse a segunda Indy 500 da história. DePalma acabou em 11º.

Dawson, aliás, ficou com um interessante recorde, que durou até 2011: ele venceu tendo liderado apenas duas voltas. Mas já falaremos sobre essa outra corrida...

Jacques Villeneuve, após vencer a Indy 500 de 1995, junto com Tony George
IMS

8) 1995, quando Scott Goodyear levou bandeira preta enquanto liderava

 

A Indy 500 de 1995 representa o fim de uma era: foi a última corrida no Brickyard antes da cisão entre a CART e Tony George, que fundaria a IRL Por isso, por si só, já é uma corrida especial, mas teve mais.

Para começar, a Penske, após dominar em 1994, teve um péssimo mês de maio e a dupla Emerson Fittipaldi e Al Unser Jr. não conseguiu se classificar após diversas tentativas desesperadas. De certa forma, isso abria as portas para um resultado surpreendente na prova – e foi o que aconteceu.

Quando foi dada a largada da 79ª 500 Milhas de Indianápolis — marcada por um gravíssimo acidente sofrido por Stan Fox, que morreu anos depois, por conta de outro acidente —, o canadense Jacques Villeneuve era o quinto pela então pequena Team Green, que tinha sido fundada dois anos antes ainda com o nome de Forsythe Green.  Na volta 38, Villeneuve, que vinha em uma estratégia diferente, assumiu a liderança após uma série de pit-stops dos ponteiros em bandeira amarela. Só que Jacques não sabia que estava liderando e, em um baita erro de comunicação da Green, ultrapassou o Pace Car duas vezes, sendo que deveria ter ficado atrás do carro de segurança. Por causa disso, algumas voltas depois, a direção de prova puniu o canadense, que caiu de terceiro para 27º.

Villeneuve então começou uma corrida de recuperação. Na volta 84, o filho de Gilles Villeneuve era 20º, uma volta atrás do líder. Na 124, era 12º. No 138º giro, o canadense estava em sexto. Faltando 11 voltas, Villeneuve era segundo, logo atrás de Scott Goodyear.

É aí que acontece uma das mais interessantes relargadas da história da Indy 500. Ainda em bandeira amarela, mas faltando poucos metros para a relargada, os dois ponteiros começaram a acelerar – e Goodyear simplesmente disparou na frente, ultrapassando o Pace Car em bandeira amarela, enquanto Villeneuve tirou o pé e ficou para trás. A bandeira verde veio mesmo assim, e Goodyear acabou recebendo um stop-and-go. Só que o norte-americano ignorou a penalização e continuou na pista!

Na volta 195, a USAC desclassificou Goodyear e passou a creditar Villeneuve como o líder a partir da volta 196. A partir daí, o canadense correu tranquilamente para a vitória. Christian Fittipaldi foi o segundo colocado naquela tarde.

7) 1985, o ano do “spin and win” de Danny Sullivan

 

As lendas de Indianápolis são mais conhecidas por suas grandes recuperações do que, necessariamente, por suas vitórias acachapantes. Por isso, a vitória de Danny Sullivan no Brickyard em 1985 se transformou em uma verdadeira lenda por lá.

O piloto da Penske largou na terceira fila, em oitavo. Porém, ainda na primeira metade da prova, o norte-americano já era segundo, atrás de Mario Andretti. Já na segunda metade, Sullivan passou a apertar Andretti, no que, diz a lenda, teria sido um erro de comunicação com a equipe: o piloto entendeu que faltavam apenas 12 voltas para o fim, e não que haviam sido completadas 120 voltas. Acelerando mais do que deveria, Danny errou, rodando 360º. Por sorte ou pericia, Sullivan saiu da rodada sem nenhum dano maior e caiu para terceiro.

Se passaram mais 20 voltas até que Danny chegasse mais uma vez em Andretti. Com uma manobra limpa, o piloto da Penske assumiu a liderança e, depois, venceu a corrida.

6) 1991, da batalha Rick Mears vs. Michael Andretti

 



Poucos nomes são mais respeitados no automobilismo norte-americano do que Rick Mears. E poucos são mais idolatrados do que os da família Andretti. Os motivos para a Indy 500 de 1991 entrar na história já estão bem claros, não é mesmo?

Era para Mears, aliás, ter uma vitória fácil: ele largou na pole, e os carros da Penske eram os melhores do grid, mas as coisas nem sempre são tão simples assim no Speedway. No começo a da prova era a Newmann/Haas que ditava o ritmo, com Mario Andretti ultrapassando Mears no 12º giro e com Michael Andretti assumindo a ponta no 34º. A partir daí, a Penske equilibrou mais as coisas, com Mears e Emerson Fittipaldi se alternando na ponta com Michael. Ao total, o Andretti mais novo liderou 97 voltas – quase metade da corrida.

Faltando seis voltas para o final, a corrida foi reiniciada após uma bandeira amarela. Rick Mears ultrapassou Michael Andretti por fora, faltando duas voltas. Aí foi só receber a bandeirada, sacramentando a quarta vitória de Mears na Indy 500.

Gordon Johncock naquela tradicional foto pré-Indy 500
IMS

5) 1982, a melhor Indy 500 da história?

 

Há muitos que juram que as 500 Milhas de Indianápolis de 1982 foi a melhor da história. Para começar, Kevin Cogan, que largava em segundo pela Penske, fez uma enorme atrapalhada enquanto os carros aceleravam antes da largada, batendo e tirando Mario Andretti, Roger Mears e Dale Whittington da prova. Depois, Rick Mears (Penske), Tom Sneva (Bignotti-Cotter) e Gordon Johncock (Patrick) travaram grandes disputas durante as 200 voltas da prova.

Ao receber a bandeira branca informando a última volta, Mears e Johncock estavam lado a lado. Na volta seguinte, o piloto da Patrick entrou na última curva na frente, mas o da Penske não desistiu e, poucos metros antes da chegada, Mears botou o carro ao lado do adversário e tentou a ultrapassagem. Não deu certo. Gordon Johncock venceu a Indy 500 de 1982 com uma vantagem de apenas 0s16, a menor até então.

4) 2011, a redenção de Dan Wheldon

 

Indianápolis parece ter vocação – e amor – pelos chamados underdogs. Quanto maior a adversidade, maior a glória. E foi isso que aconteceu com Dan Wheldon em 2011.

O britânico tinha visto tempos de glória anos antes, se sagrando o campeão da IndyCar em 2005, pela Andretti-Green, além de ter vencido a própria Indy 500. Depois de trocar para a Chip Ganassi, o piloto foi o vice de 2006. Porém, Wheldon foi perdendo espaço e foi parar na Panther, por onde conseguiu alguns bons resultados – incluindo dois segundos lugares nas 500 Milhas. Porém, ao final de 2010, ele acabou ficando sem carro.

Para 2011, Wheldon conseguiu uma vaga na Bryan Herta Autosport, em um carro operado em parceria com a Sam Schmidt Motorsports – daquelas coisas que só Indianápolis proporciona. Com a equipe, o inglês teve um mês de maio consistente, classificando em sexto.

Apesar disso, Wheldon fez uma corrida até que discreta. Na verdade, o piloto só surgiu como postulante à vitória nas últimas voltas, graças à estratégia de pit stop. Também por causa dessa mesma estratégia, um surpreendente Bertrand Baguette, da Rahal Letterman Lanigan, liderava com um cheiro de metanol no tanque. Baguette acabou parando para reabastecer, enquanto Dario Franchitti tirou o pé para economizar combustível. O novato J.R. Hildebrand, que havia assumido o lugar de Wheldon na Panther, assumiu então a liderança faltando apenas uma volta. Vitória fácil.

Ou não.

Hildebrand foi, na última curva, ultrapassar o carro bem mais lento de Charlie Kimball, errou e acertou o muro. Dan Wheldon saltou então para a vitória, tendo liderado apenas uma volta – a última. J.R. cruzou a linha de chegada em segundo, enquanto se arrastava no muro do Speedway.

Dan Wheldon morreria ao final daquela temporada, em um acidente terrível no oval de Las Vegas.  

Tony Kanaan venceu a Indy 500 com o maior número de troca de líderes em toda a história
IMS

3) 2013, o ano recorde de mudanças na liderança: 68

 



Ter 68 ultrapassagens em uma corrida é legal, né? Imagine então 68 trocas na liderança. Não é sobre um ciclo de mudanças no meio do pelotão, mas sim de 68 ultrapassagens na disputa pela vitória! Isso aconteceu nas 500 Milhas de Indianápolis de 2013 e foi um recorde – a marca anterior, de 34 mudanças de liderança, era de 2012.

Nada menos que 14 pilotos, dos 33 que largaram, sentiram o gostinho de serem o primeiro colocado de uma prova tão mítica. Ao final, a vitória acabou com Tony Kanaan, na então mediana KV Racing, em uma vitória que, em termos de significado, parecia muito com a de Dan Wheldon em 2011.

Aliás, podemos colocar a vitória de Kanaan no crédito do “jeitinho brasileiro”: Tony reassumiu a liderança após uma relargada faltando três voltas para o fim e, logo em seguida, Dario Franchitti acertou o muro. Nova bandeira amarela, mas o piloto brasileiro – sabendo que seria difícil manter a ponta em mais uma relargada – continuou acelerando mesmo com a bandeira amarela, completando mais uma volta. Com apenas dois giros faltando, não havia mais tempo para limpar a pista. Tony recebeu tranquilamente a bandeira quadriculada.

2) 1989, a primeira vitória de Emerson Fittipaldi

 

A Indy 500 de 1989 já tem tudo para ser mágica para nós, brasileiros, por representar a primeira vitória do país no Speedway, com Emerson Fittipaldi – mas esse não é o único motivo para colocar aquela edição nos livros de história.

Fittipaldi, com um Penske da equipe Patrick, tinha um grande carro naquele domingo, dia 28 de maio. O brasileiro largou em terceiro e, ajudado pelos problemas dos carros da equipe matriz da Penske, dominava a prova lá pela metade das 200 voltas. No entanto, quando faltavam apenas 20 voltas, Emerson se viu obrigado a fazer um pit stop. Uma falha na parada o fez perder preciosos segundos. Isso, somado a uma bandeira amarela, aproximou o segundo colocado, Al Unser Jr, da Galles.

Na volta 196, Unser Jr. ultrapassou o brasileiro e assumiu a liderança. Faltando duas voltas, o norte-americano se aproximou do tráfego e tirou o pé, o que deu espaço para Fittipaldi colocar o carro lado a lado do adversário. Nesse instante acontece algo controvertido: o carro de Emerson derrapa levemente, tocando roda com roda no de Unser, que escapa de vez e encontra o muro. Bandeira amarela até o final da prova, que era vencida pelo brasileiro.

A chegada mais apertada da história de Indianápolis
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1) 1992, a chegada mais apertada da história

 

Al Unser Jr reclamaria bastante daquele final da Indy 500 de 1989, mas a sorte sorriria para ele em 1992. Agora chamada de Galles-Kraco, a equipe do norte-americano resolveu copiar aquilo que parecia o segredo do sucesso da Penske: a construção de um chassi próprio. Nascia os Galmer, que acabariam sendo usados apenas naquela temporada de 1992.

Após largar apenas na quarta fila, o Galmer de Unser Jr. demonstrou ter um desempenho consistente durante a prova – ajudado, também, pelos diversos abandonos em múltiplos acidentes. No começo da segunda metade, apenas 17 carros continuavam na corrida, com seis na volta do líder – Michael Andretti. Com um misto de sorte e competência, Unser Jr. chegou ao primeiro posto na volta 144. Porém, Andretti, com um grande desempenho, reassumiu a liderança e disparou na frente. Faltando 12 voltas para o fim, o herdeiro de Mario Andretti chegou a botar 28s de diferença para o segundo colocado, Scott Goodyear.

Foi aí que, mais uma vez, a maldição da família Andretti deu as caras: uma falha na bomba de combustível fez com que Michael abandonasse. Unser Jr. herdou a liderança, mas não era uma vitória fácil: Goodyear vinha babando atrás do piloto da Galles-Kraco. Os dois travaram uma grande disputa nas últimas voltas, com Goodyear colocando o carro lado a lado de Unser Jr. na saída da curva 4, na última volta. Não deu: Unser venceu, naquela que é, até hoje, a chegada mais apertada da Indy 500.

Menção honrosa: 2002, o ano do bi de Castroneves

 



A Indy 500 de 2002 pode não parecer na lista das melhores corridas no Speedway feitas pelos norte-americanos, mas ela mora no coração dos brasileiros por representar mais uma vitória nossa no Brickyard – além, claro, de ter tido um final inusitado.

Em uma estratégia diferente de combustível, Hélio Castroneves assumiu a liderança faltando menos de 20 voltas para o fim. Paul Tracy, da Green, vinha com um carro muito mais rápido e foi tirando a diferença, enquanto o brasileiro precisava economizar metanol. Faltando duas voltas, o novato Laurent Redon bateu em Buddy Lazier, causando uma bandeira amarela. Ao mesmo tempo, Tracy ultrapassou Hélio, assumindo a liderança e comemorando aquela que seria a vitória do canadense. Só que não.

Com a bandeira amarela, passou a valer a classificação da volta anterior, colocando Hélio novamente na liderança. Castroneves acabou com a vitória, em um final que ainda teve uma grande lambança da cronometragem – Tracy e Felipe Giaffone, respectivamente segundo e terceiro, acabaram dando uma volta a mais.

Vale dizer que o brasileiro terminou a corrida com apenas um galão de combustível no tanque. Se não fosse pela bandeira amarela final, dificilmente ele teria metanol para terminar a corrida...