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Campeões do endurance na F1

A chegada inesperada de Brendon Hartley ao Mundial de F1 faz os dois mundos quase sempre distintos se cruzarem. Apesar do caminho inverso, Hartley não é o primeiro piloto com glórias nos protótipos a ter uma carreira na F1

Brendon Hartley já era campeão mundial do WEC muito antes de chegar à F1. Ao lado de Mark Webber, levou à Porsche ao primeiro dos três títulos dessa estadia relâmpago que finda no crepúsculo de 2017. Mas agora, com a vaga surpreendente que ganhou para terminar o ano da F1 na Toro Rosso – e se colocar como o grande favorito para a vaga ao lado de Pierre Gasly em 2018 -, Hartley ganhou todos os holofotes. E, bem como as luzes, ganhou também o campeonato mundial de endurance novamente.

Na esteira da chegada à F1 de alguém com tanto renome no mundo dos protótipos, o GRANDE PREMIUM destaca uma lista dez campeões mundiais de endurance que tiveram – antes, durante ou depois de seus reinados – uma carreira na F1.

Jacky Ickx – 1982, 1983

Para começar, é importante ressaltar que a lista se baseia apenas nos campeões de Pilotos sancionados pela FIA – algo que começou a acontecer apenas na temporada 1981. Ickx dominou o campeonato em 1982 e 1983, ganhando inclusive as 24 Horas de Le Mans. O belga havia feito seu nome na F1 nas duas décadas anteriores.

Talento reconhecido sobretudo em pistas molhadas, Ickx foi campeão da F2 em 1967 pela Tyrrell, que foi a equipe que o colcou em duas corridas da F1 nas temporadas 1966 e mesmo 1967. Uma pequena estadia na Cooper serviu de ponte para que ele pintasse na Ferrari em 1968 – e ficou por lá até 1973. Neste período, foi duas vezes vice-campeão mundial, em 1969 e 1970, e venceu oito corridas. Ainda passou por McLaren, Williams, Lotus, Ensign e Ligier antes de deixar a categoria a valer, em 1979. No total, além das oito vitórias, foi ao pódio 13 vezes em 116 corridas. Venceu Le Mans por seis oportunidades e ainda ganhou o Rali Dakar.

Jacky Ickx faturou as 24 Horas de Le Mans em seis oportunidades

Stefan Bellof – 1984

A história de Stefan Bellof é uma daquelas que faz os apaixonados por automobilismo lamentar pelo que poderia ter sido. Talvez o piloto alemão mais talentoso do pós-guerra até o surgimento de Michael Schumacher, Bellof havia ganhado nas categorias alemãs e mostrou na Europa o que era capaz de fazer. Muito por isso chegou ao Mundial de Endurance pela Porsche. Demorou um ano, mas em 1984 ele dominou o campeonato completamente e venceu seis das nove corridas do calendário para assegurar o título.

Ao mesmo tempo, Bellof ganhava espaço também na F1. Em 1984, com a Tyrrell, Bellof impressionou. Ao lado de Ayrton Senna, também novato naquele ano, eram tidos como os mais talentosos da nova geração. A rapidez na chuva naquele famoso GP de Mônaco de 1984 em que Senna também se destacou fez dele uma estrela. No fim, os resultados de Bellof naquele ano foram apagados por uma irregularidade da Tyrrell; em 1985, porém, o carro era ruim e a equipe lançou mão de cinco pilotos durante o ano. Bellof correu dez das 16 provas do ano e fez quatro dos sete pontos da escuderia de Ken Tyrrell.

A carreira e a vida de Bellof, no entanto, foram abreviadas no dia 1º de setembro daquele ano. Um acidente durante os 1.000 km de Spa pelo Mundial de Endurance matou Bellof e privou o público de ver a história dele florescer.

Stefan Bellof é uma daquelas que faz os apaixonados por automobilismo lamentar pelo que poderia ter sido

Hans-Joachim Stuck – 1985

O título mundial de endurance de Hans-Joachim Stuck se aproximou em 1984, quando ele disputou a maior parte da temporada ao lado de Bellof, mas acabou se separando por algumas corridas. Em 1985, porém, não tinha para onde correr. Ao lado de Derek Bell, Stuck venceu quatro de seis etapas e dominou completamente o Mundial. Nos dois anos seguintes, embora não repetisse o título, fez a dobradinha em Le Mans.

Stuck foi um daqueles pilotos que acertava a mão em qualquer coisa que guiasse. Foi vice-campeão na F2, depois chegou a conquistar o título do DTM, em 1990. Sua história na F1 não foi tão longa, mas teve lá alguns bons momentos. Por March, Theodore, Rothmans, Brabham, Shadow e ATS, ele disputou seis temporadas entre 1974 e 1979 e foi ao pódio por duas vezes – em corridas seguidas, pela Brabham, em 1977. Numa época em que apenas os seis primeiros de cada corrida pontuavam, Stuck conseguiu ir aos pontos em todas as temporadas que disputou. Por ser muito alto – 1,94m -, Stuck tinha problemas em caber no cockpit da F1. Deixou a categoria com 74 largadas e 29 pontos no currículo.

Hans-Joachim Stuck oi um daqueles pilotos que acertava a mão em qualquer coisa que guiasse

Raul Boesel – 1987

Existe apenas um campeão mundial de endurance brasileiro: Raul Boesel. Em 1987, o curitibano tinha nas mãos um Jaguar XJR-8 que era uma máquina de ganhar corridas e colocou Porsche e Ford no bolso naquele ano. Por boa parte daquela jornada, dividiu o carro com Eddie Cheever, mas também teve em determinado momento Johnny Dumfries e John Nielsen a seu lado. Seja quem fosse, era Boesel quem chamava o protagonismo para si. Foi campeão com sobras.

Na F1, no entanto, Boesel fez parte de uma geração de pilotos brasileiros que teve sua vez. Participou de apenas duas temporadas, 1982 e 1983, e não marcou pontos – um P7 no GP do Oeste dos Estados Unidos foi a melhor colocação. A carreira dele na Indy foi maior e durou entre 1985 e 2002 com um certo destaque. Mas o título de 1987 é o grande momento da carreira.

O hoje DJ Raul Boesel é ainda o único brasileiro campeão mundial de endurance

Martin Brundle – 1988

Em 1988, Martin Brundle era uma ameaça de duas frentes. De certa forma, era um piloto consolidado na F1 e que foi convidado pela Jaguar para guiar um dos carros que já haviam dominado um ano antes. Durante a temporada, teve Cheever, Nielsen e Andy Wallace ao lado em diferentes momentos. Mas, assim como Boesel um ano antes, foi ele que dominou. Foi campeão com sobras e ficou na Jaguar por mais três anos, até ganhar as 24 Horas de Le Mans em 1990.

Brundle foi mais um dos que chegou à F1 em 1984. Grande rival de Senna nas categorias-satélite foi ser exatamente companheiro de Bellof na Tyrrell. Ao todo, guiou na F1 por 13 temporadas – Zakspeed, Williams, Brabham, Benetton, Ligier, McLaren e Jordan também contaram com ele. Brundle participou de 158 GPs e foi ao pódio nove vezes. Seu melhor ano foi 1992, então pela Benetton, quando fez 38 pontos e ficou com o sexto lugar do campeonato.

Martin Brundle hoje é um respeitado comentarista e narrador de TV das corridas da F1 na Inglaterra

Teo Fabi – 1991

O bicampeonato da Jaguar com Boesel e Brundle precedeu uma resposta da Sauber, que também emendou dois títulos em sequência. Mas, em 1991, Teo Fabi foi o responsável para devolver à Jaguar a coroa o Mundial de Endurance. Em temporada extremamente parelha, Fabi venceu apenas uma etapa, os 430 km de Silverstone, mas foi o bastante para assegurar a conquista.

Fabi já era um veterano em 1991. A carreira do italiano na F1 não foi das mais longas, durou de 1982 e 1987, com Toleman, Brabham e Benetton. Durante esse tempo, Fabi foi ao pódio por duas oportunidades em 64 provas. Fez, no total, 23 pontos e até somou duas voltas mais rápidas à baila. Depois, em quase uma década e meia na Indy, conseguiu várias vitórias e até chegou ao segundo lugar no campeonato de 1983.

Teo Fabi foi o responsável para devolver à Jaguar a coroa o Mundial de Endurance

Derek Warwick – 1992

Em 1992, Derek Warwick mudou dos protótipos da Jaguar para a Peugeot e acertou em cheio. Ao lado de Yannick Dalmas, Warwick venceu três das seis etapas do campeonato daquele ano – inclusive as 24 Horas de Le Mans. Foi segundo em Monza e Donington Park e chegou campeão mundial à última etapa da temporada. O quinto lugar em Magny-Cours foi apenas para colocar um ponto final na conquista.

A carreira de Warwick na F1 começou mais de uma década antes. Pegou uma Toleman com extremas dificuldades de se classificar para as corridas em 1981 e entregou, ao fim de 1983, um time que pontuou nas quatro últimas corridas do ano – o que, naquela época, significava top-6. Foi para a Renault, onde buscou quatro pódios em 1984. Passou ainda por Brabham, Arrows e Lotus até 1990. Ainda voltou para mais um ano, com a Footwork, em 1993. Ao todo, foram 71 pontos além dos quatro pódios.

Derek Warwick conquistou as 24 Horas de Le Mans em 1992

Sébastien Buemi – 2014

Numa Toyota tida como zebra frente ao poderio de Audi e até a renovada Porsche, a dupla formada por Sébastien Buemi e Anthony Davidson – e que teve Nicolas Lapierre por parte da temporada. Buemi se tornou campeão mundial de endurance e renovou a carreira. Foram 166 pontos contra 127 do time Audi mais próximo – e quatro vitórias.

Buemi estava no WEC desde 2012, sempre pela Toyota, após ser cortado da Toro Rosso ao fim de 2011. Em três anos, Buemi não brilhou por uma equipe que passava momentos difíceis. Entre 2009 e 2011, Buemi participou de 55 provas e marcou 29 pontos. No fim do tempo lá, parecia claramente resignado. Não foi só no WEC que o suíço brilhou no pós-F1: ele também é campeão da F-E.

Sébastien Buemi esteve na F1 antes de conquistar o Mundial de Endurance pela Toyota (Sébastien Buemi)

Mark Webber – 2015

Ao não conseguir impedir Sebastian Vettel de conquistar quatro títulos mundiais em sequência, Mark Webber se aposentou da vida da F1 e partiu para o endurance. Capitão do projeto da Porsche, levou a marca alemã ao primeiro título da nova era em 2015 – ao lado de Timo Bernhard e Brendon Hartley. Na ocasião, um começo que indicava briga intensa foi seguida por quatro vitórias seguidas: Nürburgring, Austin, Fuji e Xangai. A briga pelo título foi até o fim, mas o trio da Audi formado por André Lotterer, Marcel Fässler e Benoît Tréluyer acabou com o segundo vice em sequência.

A carreira de Webber na F1 foi longa e até próspera. Piloto de Minardi, Jaguar, Williams e Red Bull, pegou o período de transformação da marca dos energéticos numa força da F1. Em 12 anos, Webber disputou 215 corridas e venceu nove. Teve também 13 pole-positions e 42 pódios. Foi terceiro colocado do Mundial em três oportunidades.

Mark Webber capitaneou o projeto vencedor da Porsche no Mundial de Endurance (Mark Webber, Timo Bernhard e Brendon Hartley (Foto: Porsche))

Brendon Hartley – 2015, 2017

Sim, Hartley já havia sido campeão ao lado de Webber. Mas Mark parou e Brendon seguiu pilotando e continuou defendendo as cores da Porsche. Em 2017, após a marca anunciar que deixava o Mundial de Endurance, Hartley – ao lado de Bernhard novamente e agora Earl Bamber – dominou completamente o campeonato para um adeus glorioso. Com direito a vitória nas 24 Horas de Le Mans, o trio da Porsche engrenou quatro triunfos na sequência para ficar com o título com uma rodada de antecedência.

A carreira de Hartley é inversa aos outros pilotos citados nessa lista. O piloto da Nova Zelândia tentou a carreira nos monopostos para chegar à F1, mas não foi muito longe. Descartado pela Red Bull, encontrou outros meios. Endurance, por exemplo, e chegou a flertar com a Indy para substituir Tony Kanaan na Ganassi em 2018. Mas chegou a chance tão esperada no começo da carreira. A Toro Rosso precisava de pilotos. Com Daniil Kvyat descartado e Carlos Sainz cedido à Renault, Helmut Marko foi criativo. Chamou Hartley e efetivou: ele provavelmente continuará na equipe em 2018. Aos 28 anos, ainda tem lenha para queimar.

Brendon Hartley foi campeão mundial de Endurance e agora tem uma chance na F1 (Daniel Ricciardo e Brendon Hartley)

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