As decisões emocionantes da F1

Para compensar o final sem graça da temporada 2018, selecionamos dez decisões de campeonato que são inesquecíveis

Renan Martins Frade, de São Paulo

A decisão do campeonato de pilotos da Fórmula 1 em 2018 não foi uma dos mais emocionantes. Havia um maior equilíbrio entre Ferrari e Mercedes, é verdade, mas o ótimo desempenho de Lewis Hamilton e os erros de Sebastian Vettel e do time italiano facilitaram o pentacampeonato do inglês neste último domingo, 28. Sem sustos, mas sofrendo com os pneus, Hamilton conquistou o campeonato com um simples quarto lugar no GP do México.

Mas, na realidade, ele teria sido campeão até com um abandono, já que, nessa condição, Vettel ainda precisaria vencer para postergar a decisão para o GP do Brasil. 

Para não deixar esse gosto ruim na boca (ou, melhor dizendo, gosto algum), selecionamos dez grandes decisões da história da F1 que, certamente, foram muito melhores que a de 2018 - tudo em ordem cronológica.

1959

A temporada de 1959 foi muito difícil dentro e fora das pistas. Diversos pilotos perderam a vida naquele ano, incluindo o campeão de 58, Mike Hawthorn. A última etapa foi o GP dos EUA, disputado em 12 de dezembro de 1959. Naquela corrida, Jack Brabham, da Cooper, chegava liderando com 31 pontos contra 25,5 de Stirling Moss, também da Cooper, e 23 de Tony Brooks, da Ferrari.

Naquela época a vitória contava 8 pontos e apenas os cinco primeiros pontuavam – com direito a um ponto extra para a volta mais rápida. Além disso, apenas os cinco melhores resultados entre as nove corridas do ano (incluindo as 500 Milhas de Indianápolis) seriam contabilizados. Por isso, tanto Moss quanto Brabham dependiam apenas de si para serem campeões, enquanto Brooks ainda precisava contar com uma combinação de resultados.

Moss começou a corrida na liderança, abrindo uma vantagem de dez segundos rapidamente, mas um câmbio quebrado lhe tirou a vitória e o possível título depois de apenas cinco giros. Já Brooks se envolveu em uma confusão, indo para os boxes e perdendo dois minutos lá. Parecia, então, título fácil para Brabham.

Parecia.

Na última volta, o Cooper do australiano ficou sem combustível. Ao ver o companheiro desacelerando, Bruce McLaren, que vinha atrás, chegou a tirar o pé. Eventualmente ele ultrapassou e conseguiu aquela que seria a primeira vitória na carreira. Jack ainda foi superado pelo Cooper particular de Maurice Trintignant. Depois, foi a vez de Brooks ultrapassá-lo

Com os outros três carros que sobraram na corrida voltas atrás, mas querendo a ainda terminar a prova, Jack Brabham não pensou duas vezes e começou a empurrar o seu Cooper até a linha de chegada. Quando conseguiu, garantindo o quarto lugar, desmaiou.           

Foi assim que ele conquistou o seu primeiro título mundial.

Confira também, com mais detalhes, o relato feito pelo GRANDE PRÊMIO no Na Garagem

1976

A decisão do campeão de 1976 é famosa, já virou até filme – o ótimo ‘Rush: No Limite da Emoção’. A verdade é que até o fatídico acidente em Nuburgring, Niki Lauda tinha um caminho fácil para o título. O austríaco liderava o certame com 58 pontos, contra 35 de James Hunt, 28 de Jody Scheckter e 26 de Patrick Depailler (estes dois últimos na Tyrrel). Hunt também tinha uma já defasada McLaren M23, que competia desde 1973, ainda que fosse um carro consistente e confiável.

Acontece que a ausência de Lauda por dois GPs e o esforço da Tyrrel com o P34, o famoso carro de seis rodas, abriram o caminho para um grande desempenho do inglês na segunda parte do ano. Quando voltou, o austríaco também havia claramente perdido parte de sua velocidade – o que é totalmente compreensível.

Com tudo isso, Lauda chegou ao último Grande Prêmio, no Japão, com 68 pontos, contra 65 de Hunt.

Com muita chuva em Fuji, foi aquilo que vimos no filme dirigido por Ron Howard: Lauda desistiu depois de apenas duas voltas, afirmando depois que “minha vida vale mais que um título”. Depois de um começo difícil e com problemas nos pneus, James Hunt teve uma grande recuperação nas últimas voltas e terminou em terceiro, se tornando campeão por apenas um ponto de diferença.  

1986

Os anos 80 foram pródigos em grandes disputas, mas nenhum delas supera a decisão de 1986. Nada menos que quatro pilotos lutaram pelo título: Ayrton Senna (Lotus), Alain Prost (McLaren), Nigel Mansell e Nelson Piquet (ambos da Williams). Na última prova, na Austrália, apenas os três últimos continuavam na disputa, com 70 pontos para Mansell, 64 para Prost e 63 para Piquet.

Aquele ano foi marcado pelo grande carro da Williams-Honda, mas também pelo acidente de Frank Williams (que o deixaria tetraplégico) e pela cisão que aconteceu dentro do time. Os pilotos tiraram pontos um do outro, dando chance para que Prost, que vinha com um menos potente motor TAG/Porsche, crescesse.

Na última corrida a dupla da Williams largou da primeira fila, com Senna em terceiro e o francês em quarto. Mansell partiu mal, perdendo a primeira posição para Ayrton, que depois seria ultrapassado por Piquet. Em seguida, Keke Rosberg, na outra McLaren, ultrapassou o então bicampeão e passou a construir uma boa vantagem. Nelson ainda rodaria, perdendo várias posições. Prost também teve um pneu furado e foi obrigado a ir aos boxes. Nigel Mansel tinha uma mão na taça.

Quer dizer...

Prost se recuperou e, com abandono de Rosberg, já era o segundo, atrás apenas de Piquet. O terceiro lugar ainda garantiria o título do inglês, mas um pneu estourado de forma espetacular na volta 64 adiou o sonho em alguns anos. Tudo porque a Goodyear, impressionada com a vitória de Gerhard Berger numa Benetton com pneus Pirelli no México, exagerou na agressividade dos compostos para a corrida australiana.

Com medo do mesmo acontecer com Piquet, a Williams chamou o brasileiro para os boxes, que trocou os pneus e perdeu muito tempo. Já Alain Prost, que havia trocado os calçados mais cedo, arriscou continuar na pista. O francês acabou vencendo, sagrando-se campeão com dois pontos a mais que o inglês e três à frente do pai do Nelsinho.

1989

Alain Prost seria o protagonista de mais duas decisões emocionantes, ambas contra Ayrton Senna. É difícil, porém, encarar aquelas duas situações como casos isolados. Uma é causa e consequência da outra.

A primeira foi em 1989. Senna conquistou o campeonato de 88, logo em seu primeiro ano de McLaren. Os ânimos se acirraram entre os companheiros de equipe logo em seguida, que passaram a ter uma animosidade pública e racharam o time.

Mas a verdade é que francês foi mais consistente que o brasileiro durante todo aquele ano. Foram 11 pódios em 16 provas para Alain, enquanto Ayrton teve mais vitórias (6 contra 4) e mais abandonos (7). Dessa forma, na penúltima etapa, no Japão, o então bicampeão tinha tudo para confirmar o tri.

A história daquela corrida todos nós conhecemos: os companheiros de McLaren dispararam na liderança, até que, na volta 46, Prost jogou o carro para cima de Senna, que ia ultrapassá-lo. O francês abandonou, enquanto o brasileiro pediu para ter o seu carro ser empurrado, foi para os boxes, trocou o bico, retornou e ainda teve forças para ultrapassar Alessandro Nanini, da Benetton, para ficar com a vitória. Ou melhor...

Logo após a prova, Senna foi desclassificado pelos comissários por ter cortado caminho após a batida com Prost – de acordo com eles, a McLaren #1 deveria ter retornado à pista no exato mesmo local por onde saiu dela. Para Ayrton, aquela era uma decisão do presidente da FISA (o braço esportivo da FIA), Jean-Marie Balestre, que queria favorecer o seu compatriota. E assim, com uma decisão do tapetão, Alain Prost foi tri.

Vale lembrar que, com a vitória, Senna não teria vida fácil para ser campeão na Austrália. A diferença ficaria em 7 pontos, com o brasileiro precisando vencer a corrida em Adelaide e ainda torcer para que o companheiro fosse apenas quinto.

1990

O fato é que Ayrton Senna nunca engoliu o que aconteceu no Japão em 1989. Prost acabou indo para a Ferrari e, no ano seguinte, a disputa entre os dois foi mais uma vez acirrada. O brasileiro teve seis vitórias durante a temporada, contra cinco do francês. Porém, com mais consistência, o Senna chegou no Japão em uma situação inversa ao do ano anterior, com 11 pontos de diferença na liderança e podendo ser o campeão já em Suzuka.

Ambos postulantes ao título dividiram a primeira fila. Senna, o pole, estava descontente com a posição na qual largaria, não acreditando que fosse a ideal. Por esse motivo ou não, o piloto da McLaren largou mal e deu espaço para o adversário da Ferrari de aproximar. Ambos dividiram a primeira curva, Senna não aliviou e... bom, o resultado todo mundo sabe. Batida e título para Ayrton Senna, que era bicampeão.

Ao final, dobradinha do Brasil: Nelson Piquet e Roberto Moreno, ambos da Benetton, foram primeiro e segundo.

1997

O ano de 1994 teve uma grande disputa na Austrália, com Michael Schumacher jogando o carro contra Damon Hill. Porém, aquela decisão foi muito parecida com a de 1997, que, vamos combinar, foi ainda mais emocionante. Por isso, vou dar espaço apenas para a segunda.

Na última prova, um GP da Europa em Jerez, Espanha, Schumacher liderava com apenas um ponto de vantagem para Jacques Villeneuve, da Williams. A Ferrari não conquistava um campeonato desde 1979, um jejum que tinha tudo para acabar ali.

Só que estava reservada uma disputa impressionante para o título, que começou logo no sábado, quando Villeneuve, Schumacher e Heinz-Harald Frentzen (na outra Williams) marcaram exatamente o mesmo tempo na classificação: 1m21s072. A ordem no grid acabou definida pelo momento no qual cada uma vez a melhor volta, com vantagem para o canadense.

Em ritmo de corrida, o alemão tinha o melhor desempenho e liderou boa parte do GP. Porém, Villeneuve começou a tirar a vantagem e, na volta 48, foi tentar ultrapassá-lo. Desesperado, Schumacher jogou o carro contra o adversário, causando uma colisão. Diferentemente de Hill em 94, Jacques Villeneuve conseguiu continuar, enquanto Michael abandonou. A manobra também custaria uma exclusão do campeonato para o futuro heptacampeão.

Com o carro mais lento por causa dos danos causados pela batida, o piloto da Williams foi ultrapassado pelas McLarens de Mika Häkkinen e David Coulthard. Aquela foi a primeira vitória do finlandês.

O terceiro lugar foi o suficiente para Jacques Villeneuve ser o campeão – e garantir o último título da Williams.

2007

Dez anos depois a F1 nos reservou uma outra decisão emocionante. Em 2007 a McLaren tinha mais uma vez um grande carro e, como a Williams de 1986, se viu dividida entre seus dois pilotos: o já grandioso Fernando Alonso e o então novato Lewis Hamilton, em seu primeiro ano na categoria.

Com quatro vitórias no ano, Hamilton chegou no GP do Brasil, o último da temporada, liderando o campeonato com 107 pontos. Ele já havia desperdiçado a chance de ser campeão na China, quando escorregou para fora da pista ao ir para os pits. Dessa forma, ele ainda era ameaçado por Alonso (103 pontos) e Kimi Räikkönen (100), este último já na Ferrari. Era uma decisão tripla.

No GP, o verdadeiro show foi de Felipe Massa, que dominou aquele fim de semana. Já Hamilton e Alonso foram disputando posições um pouco mais atrás, com o inglês saindo da pista logo no começo e, depois, sofrendo com problemas no câmbio, chegando a ficar em 18º.

Lewis fez uma grande corrida de recuperação, apesar dos problemas. Ele fechou o GP em sétimo, marcando o que na época eram 2 pontos – não foi o suficiente. Lá na frente, Kimi fez o necessário: foi segundo durante boa parte da prova, com Massa abrindo o caminho para o finlandês vencer e ser o campeão com apenas um ponto para Hamilton. Já Alonso não fez frente às Ferraris, ficando em terceiro na prova e também em terceiro no campeonato, com os mesmos 109 pontos do companheiro.

2008

A decisão do ano seguinte veio mais uma vez para o Brasil. Lewis Hamilton, agora hegemônico na McLaren, liderava o campeonato com 94 pontos ao chegar em Interlagos, contra 87 de Felipe Massa. Apesar de ser uma disputa acirrada entre os dois pilotos, erros da Ferrari e do próprio brasileiro haviam custado essa vantagem para o inglês.

Felipe teve um desempenho irretocável em Interlagos, como em 2006 e 2007, dominando os treinos livres e marcando a pole. Ele, porém, precisava mais do que isso. Ele precisava do imponderável. Que veio a forma de chuva forte, que começou a cair momentos antes da largada.

Com pneus intermediários, o brasileiro da Ferrari largou bem e manteve a ponta. Enquanto isso, Hamilton foi fazendo uma corrida burocrática, sem arriscar muito e ficando sempre por volta da quarta posição – ele precisava ser ao menos quinto. Com a pista secando, os pilotos foram trocando para pneus para este tipo de situação.

Lá pela volta 63, Massa ainda liderava de forma tranquila e o inglês era quinto. Foi aí que começou a chover novamente. Uma chuva leve, é verdade, mas os ponteiros foram parando, um a um, para colocar pneus intermediários mais uma vez.

Só que a chuva piorou. Na volta 69, Lewis saiu da pista e foi ultrapassado por Sebastian Vettel, da Toro Rosso, caindo para sexto. Naquelas condições o título era de Massa, que completou as 71 voltas em primeiro. Vitória.

Só que aí o impossível aconteceu: a piora nas condições atrapalhou Timo Glock, que se mantinha na pista com seu Toyota com pneus de pista seca. Na subida dos boxes, metros antes da linha de chegada, o alemão foi presa fácil para Hamilton, que vinha mais rápido. Quinto lugar para Lewis, que garantia ali o seu primeiro título mundial por apenas um ponto de diferença – 98 a 97.

2010

A temporada de 2010 da Fórmula 1 também foi extremamente disputada. Se a Brawn GP havia dominado 2009, o ano seguinte viu um grande equilíbrio de forças entre Red Bull, Ferrari e McLaren.

Na última corrida, em Abu Dhabi, eram nada menos que quatro os postulantes pelo título: Fernando Alonso, da Ferrari, com 246 pontos; Mark Webber e Sebastian Vettel, ambos da Red Bull, com respectivamente 238 e 231; e Lewis Hamilton, da McLaren, com 222 e ainda chances remotas. Aquele foi o primeiro ano no qual a vitória passou a valer 25 pontos.

Foi aí que Vettel foi espetacular. O alemão foi forte, fazendo logo a pole e liderou boa parte da corrida – foi só superado por Button, que estava em uma estratégia diferente de paradas, por algumas voltas. Enquanto isso, Alonso teve uma corrida abaixo da média, ficando inclusive várias voltas trancado atrás da Renault de Vitaly Petrov. No final, o espanhol acabou a corrida em terceiro.

Webber também ficou devendo, naquele que tinha tudo para ser o seu título mundial.

Ao final, Vettel venceu a corrida em Yas Marina, se sagrando o campeão mais jovem da história da categoria. Nada mal para quem estava em terceiro na tabela de classificação antes do último GP...

2012

A temporada de 2012 foi outra extremamente disputada. Tivemos nada menos que oito vencedores de GPs, sendo sete vitoriosos diferentes se alternando nas primeiras sete corridas. Porém, Vettel fez um segundo semestre muito bom, chegando no Brasil (a última prova do ano) com 13 pontos de vantagem para Alonso.

Mais uma vez foi uma corrida que alternou pista seca com molhada. As McLarens tinham melhor desempenho, com Jenson Button conquistando a vitória com certa facilidade após o abandono de Hamilton. Já Vettel sofreu com as condições, perdendo posições logo no começo da corrida e ficando atrás de Alonso. Para piorar, quando voltou a chover, mais para o final do GP, um erro de comunicação fez com que o alemão fosse aos boxes e o time não estivesse preparado para recebê-lo, o que resultou em bastante tempo perdido.

O espanhol, que largou em sétimo, correu muito naquele dia. Ele já estava em segundo, atrás apenas de Button, quando uma forte batida de Paul di Resta trouxe o safety-car para a pista. Faltando três voltas para o fim, não havia tempo para mais nada. Sebastian Vettel era campeão com um sexto lugar.