Grandes esperas da F1

Exatos 18 anos atrás, Michael Schumacher derrotou Mika Häkkinen na briga pelo título da F1. Mais do que um feito pessoal, era também o fim do jejum de 21 anos sem ferraristas campeões. Recordamos aqui outros grandes hiatos e esperas

Vitor Fazio, de Berlim

18 anos atrás, exatamente em um dia 8 de outubro, a F1 conhecia o campeão mundial de 2000. Foi Michael Schumacher, que derrotou Mika Häkkinen no GP do Japão e conseguiu um feito dos mais importantes: acabar com o longo jejum da Ferrari, que não fazia um piloto campeão desde 1979, com Jody Scheckter. Foram 21 anos de espera e de quases, que só terminaram com a formação do time que dominaria o começo dos anos 2000.

Inspirado no feito de Michael Schumacher, o 10+ dessa semana traz uma série de outras grandes esperas, daquelas que vale a pena aguardar sentado. São dez grandes intervalos, jejuns ou simplesmente demoras para conseguir algo pela primeira vez. É difícil superar a espera de 21 anos da Ferrari, mas alguns itens da lista exigiram tanta paciência quanto.

Primeira vitória de Jack Brabham pela Brabham (5 anos)

Jack Brabham teve dois anos dois melhores com a Cooper em 1959 e 1960, mas bastou um 1961 tenebroso para decidir mudar tudo. De 1962 em diante, o australiano apostaria todas as fichas em sua equipe própria, a Brabham.

A missão começou com claras dificuldades. Independente de correr com seus próprios carros ou com alguns comprados da Lotus, a equipe não conseguia ir além de alguns pontos. O ânimo cresceu em 1963, quando Black Jack conseguiu um segundo lugar no México. A vitória começava a parecer possível, cedo ou tarde.

Mas ficou para tarde. Mais dois pódios vieram em 1964, ano que também reservou mais problemas mecânicos. Em 1965, depois de abrir mão de três das dez corridas, Jack conseguiu mais um terceiro. Foi só em 1966, quinto ano da empreitada, que a vitória veio. Foi na França, aproveitando problemas mecânicos de rivais, que o australiano matou a saudade de erguer o troféu de vencedor. E tudo se encaixou: as três corridas seguintes também tiveram vitórias do piloto-proprietário, em uma reação que renderia o título, terceiro e último da carreira.

Jack Brabham esperou alguns anos antes de vencer corridas na equipe que fundou
Reprodução/Twitter

Primeiro pódio de Schumacher pós-Ferrari (6 anos)

Depois de 2006, ano da primeira aposentadoria na F1, Michael Schumacher só voltaria a beber champanhe na F1 em 2012. É verdade que essa estatística vem com um asterisco, já que Schumi passou três anos sentado no sofá de casa, mas serve para representar algo: como foi difícil trazer resultados na Mercedes.

Michael deixou a Ferrari em alta, com último pódio na vitória da China em 2006, sob chuva. Quando voltou em 2010, na Mercedes, a expectativa inicial era de vitórias pessoais sobre Rosberg, se afirmando como um visitador frequente do pódio. Nada disso aconteceu: não só Nico foi um adversário mais forte do que se imaginava, a Mercedes também estava claramente atrás de Ferrari, McLaren e Red Bull. Foi a receita perfeita para um 2010 apático, assim como 2011.

Em 2012, a história mudou um pouco: em uma temporada marcada pelo maior equilíbrio, a Mercedes começou a ter suas chances. Prova clara disso foi o GP da China, quando Rosberg venceu. Para Schumacher, seria necessário um pouco mais para viver um momento de glória: no caótico GP da Europa, em Valência, o alemão capitalizou em cima de uma série de acidentes para ir ao pódio pela primeira e única vez antes da aposentadoria definitiva.

Michael Schumacher demorou até ir ao pódio com a Mercedes
Mercedes

Primeira vitória de Barrichello na F1 (8 anos)

Rubens Barrichello estreou na F1 em 1993 como um talento dos mais elogiados, aparentemente destinado a ser a próxima estrela brasileira. A estreia pela modesta Jordan seria o primeiro passo rumo ao sucesso – que acabou demorando um bocado para chegar.

Isso porque a ascensão de Barrichello através das equipes da F1 foi demorada. Foram quatro anos com a Jordan, onde um ou outro pódio era o máximo possível. Ao fim de 1996, a solução foi a Stewart, que precisou de mais algum tempo até fazer Barrichello brilhar, isso em 1999.

A grande chance veio na Ferrari em 2000, onde Barrichello viveria o oitavo ano na F1. O brasileiro fazia um trabalho decente, virando presença frequente no pódio. A vitória teimava em não vir, até que veio com contornos épicos: no GP da Alemanha, Rubinho fez uma atuação ousada com pneus slicks em pista molhada para finalmente vencer. Foram 124 GPs até vencer, marca que foi recorde até Mark Webber, que esperou 130 provas, ir ao alto do pódio em 2009.

A primeira vitória de Barrichello na F1 veio em 2000, após longos anos de espera
Reprodução/Twitter

Primeiro título de Räikkönen na F1 (7 anos)

Kimi Räikkönen estreou sem criar tantas expectativas na Sauber em 2001, mas logo ganhou status de estrela ao assinar com a McLaren em 2002. Em uma equipe gigante, o objetivo era dar sequência ao legado de Mika Häkkinen, recém-aposentado.

A primeira grande chance de título veio em 2003, quando Michael Schumacher levou a melhor por pouco. Na segunda, com um carro tão rápido quanto frágil em 2005, o algoz foi Fernando Alonso. Em 2006, a falta de competitividade da McLaren foi o sinal: era hora de ir para uma outra equipe.

A Ferrari foi a escolhida. Mas a McLaren acertou a mão em 2007, significando que Räikkönen estava longe de ser um grande candidato ao título. Quando o finlandês chegou ao GP do Brasil, último do ano, parecia que era só para bater na trave uma terceira vez.

Que nada: Hamilton teve uma corrida complicada, terminando em um distante sétimo lugar, enquanto Alonso foi terceiro. Essa combinação de resultados permitiu que Räikkönen, vencedor, levantasse o caneco de campeão. Foi no ano mais improvável e com mais dificuldades, mas a pecha de cavalo paraguaio estava definitivamente no passado.

Räikkönen foi vencer o título justamente no ano em que era mais improvável
Ferrari

Primeira vitória de Senna no GP do Brasil (8 anos)

Esse talvez tenha sido um dos hiatos mais curiosos e marcantes da lista. Entre o fim dos anos 1980 e 1990, Ayrton Senna venceu um monte. Já eram dois títulos na bagagem e o status de lenda cada vez mais consolidado. Faltava apenas uma coisa: conseguir uma vitória em solo brasileiro, algo que teimava em não acontecer.

Nas seis primeiras tentativas, entre 1984 e 1990, o que se viu foi um único segundo lugar. Todo o resto foi uma sequência de quebras e azares que minaram as chances de vitória. Em 1990, aliás, foi uma tolice: liderando, Ayrton quebrou a asa em um toque com o retardatário Satoru Nakajima e cedeu a vitória para Prost.

1991, por sua vez, reservou um verdadeiro conto de fadas. Em Interlagos, Senna liderava com certa tranquilidade até começar a sofrer com problemas mecânicos na segunda metade da prova. Na caixa de câmbio, para ser preciso: a quarta marcha foi a primeira a falhar, logo seguida de outras. Nas últimas voltas, era preciso pilotar apenas com a sexta. Sorte que Riccardo Patrese, segundo colocado, também tinha problemas com marchas. Senna conseguiu levar o carro até a linha de chegada, e o resto é história.

Ayrton Senna teve exibição memorável no GP do Brasil de 1991
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Primeira vitória da Williams pós-BMW (8 anos)

A Williams começou os anos 2000 cheia de fôlego, consequência de uma promissora parceria com a BMW. Tendo Juan Pablo Montoya como estrela, o título chegou a ser uma possibilidade real, só não acontecendo por causa da imbatível dobradinha Michael Schumacher-Ferrari. A boa forma, todavia, se perdeu quando Montoya foi para a McLaren em 2005, mesmo ano em que a Williams desenvolveu um carro bastante mediano. Ainda não dava para saber, mas era o início de um longo jejum para a equipe de Grove.

A parceria com a BMW terminou ao fim de 2005, transformando de vez a Williams em equipe mediana. Correndo com motores Cosworth e Toyota, a equipe passou a ir ao pódio apenas em raras oportunidades.

Isso até 2012, temporada já mencionada nessa lista por conta do rendimento parelho das equipes. A Williams vivia um começo de ano mais promissor do que de costume, apesar de não capitalizar grandes resultados. Tudo mudou em Barcelona: o GP da Espanha teve Pastor Maldonado com rendimento surreal. O venezuelano foi o segundo melhor na classificação, mas herdou a pole de Lewis Hamilton, punido por sofrer pane seca e não voltar ao boxes ao fim do Q3.

Na corrida, Maldonado teve como maior adversário Fernando Alonso. E, ao invés de ficar para trás, o venezuelano se manteve na frente até conseguir a vitória. Estava encerrado o hiato de oito anos sem vitórias da Williams – e que já parece muito capaz de se repetir mais uma vez...

Maldonado fez o impensável em 2012, acabando com jejum de vitórias da Williams
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Primeira pole de Räikkönen pós-WRC (9 anos)

Kimi Räikkönen deixou a F1 ao fim de 2009 em baixa: depois do título de 2007, o finlandês murchou em 2008 e pouco pôde fazer com o carro medíocre do ano seguinte. Sem espaço na Ferrari, que traria Fernando Alonso, a solução foi dois anos no Mundial de Rali. O retorno só viria em 2012, e foi dos melhores: com a Lotus, o finlandês conseguiu um inesperado terceiro lugar no Mundial. 2013 também reservou um alto nível de atuações antes da ida para a Ferrari em 2014.

O problema: nesses dois anos, mesmo com duas vitórias, Räikkönen não conseguiu nenhuma pole. E definitivamente seria mais difícil de 2014 em diante, anos em que a Mercedes virou dominante.

O jejum de poles, que já durava desde o GP da França de 2008, só foi terminar no GP de Mônaco de 2017. Foi lá que, com a Ferrari novamente conseguindo competir com a Mercedes, o finlandês conseguiu a melhor volta rápida de todas. Agora só falta acabar com o jejum de vitórias, que dura desde 2009.

Räikkönen segue sem vencer, mas recentemente acabou com o jejum de poles na F1
Ferrari

Primeiro título de Mansell na F1 (13 anos)

Se Räikkönen já estava demorando demais para ser campeão da F1, o que dizer de Nigel Mansell? O britânico estreou na categoria em 1980 e, apesar de um começo de jornada pouco empolgante, conseguiu virar um grande nome da categoria com o passar do tempo.

Essa mudança de patamar ficou evidente em 1986, na Williams. Competindo contra ninguém menos que Nelson Piquet, Mansell chegou ao ponto de parecer favorito ao título. Só pareceu: um abandono em Adelaide significou perder a taça para Alain Prost. Em 1987, a disputa foi só entre a dupla da Williams – e Piquet, apostando na regularidade, também deixou o britânico para trás.

As temporadas de 1988, 1989 e 1990 passaram sem grandes destaques para Mansell, que sofria com falta de um bom carro e com companheiros mais fortes. O jogo só foi virar em 1991: novamente na Williams, Nigel tinha um companheiro inofensivo chamado Riccardo Patrese e um carro tão bom quanto o da McLaren. O resultado? Outro vice, o terceiro da carreira.

Foi só em 1992, com uma Williams ridiculamente dominante, que o título veio. Além de um dos melhores carros da história, Nigel trouxe uma pilotagem com poucos erros. Demorou 13 temporadas, mas o título veio com muito merecimento.

Mansell precisou bater na trave três vezes antes de ser campeão
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O jejum antes da bonança da Alemanha (17 anos)

Falar do sucesso atual da Alemanha na F1 é quase lugar comum. A equipe atualmente tetracampeã mundial é alemã, assim como um piloto tetracampeão do grid. Mas nem sempre foi assim: alguns anos atrás, vitórias tedescas eram uma raridade imensa.

Por muito tempo, a vitória de Jochen Mass no GP da Espanha de 1975 foi a última. Isso porque, desde então, a combinação de um piloto minimamente competitivo com um carro bom não voltou a acontecer. Piloto alemão na F1 virou raridade nos anos 1980.

Foi só nos 1990 que o jogo virou. Michael Schumacher surgiu como nova estrela em 1991. Quando a oportunidade surgiu, no GP da Bélgica de 1992, foi lá e venceu. Agora diga: tem como imaginar um hiato desses, de 17 anos, hoje em dia?

Michael Schumacher devolveu as vitórias na F1 à Alemanha
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Retorno da Mercedes à F1 (55 anos)

A lista se encerra com um item que chama atenção por outro motivo. A Mercedes pode ser considerada uma das primeiras marcas a exercer domínio na história da F1, sobrando em 1954 e 1955. O problema é que logo veio a tragédia na 24 Horas de Le Mans, em que um acidente envolvendo carro Mercedes resultou na morte de 83 espectadores. Mesmo tão bem na F1, a decisão foi de se afastar do automobilismo.

E levaria um longo tempo até voltar. Enquanto outras grandes marcas flertavam com a categoria com o passar dos anos, caso de Lamborghini e Porsche, a Mercedes só acompanhava de longe. A situação mudou em 1994, quando os alemães toparam fornecer motores. Seriam mais 15 anos assim, e com algum sucesso: apesar de não acompanhar os sucessos de Ferrari e Renault, o motor Mercedes conseguiu resultados expressivos com a McLaren.

O longo jejum com equipe de fábrica só foi acabar em 2010. E em situação peculiar: a Brawn, que nasceu e morreu no mesmo ano, tinha uma estrutura interessantíssima para quem quisesse herdar uma equipe de F1. A Mercedes aproveitou a chance, tirando proveito de vínculos como o vigente fornecimento de motor. Com 2018 perto do fim e um quinto título quase na mão, como dizer que foi erro?

A Mercedes, mesmo com sucesso na década de 1950, só voltou ao grid da F1 em 2010
Mercedes