Grandes surpresas de um 2018 intenso

Ninguém vai poder reclamar que o ano que está prestes a findar foi monótono. E isso também se aplica aos esportes a motor, carregados de muitas surpresas ao longo de uma temporada que mexeu com as emoções dos fãs e agitou as redes sociais

Fernando Silva, de Sumaré

2018 está perto do fim e, para o bem ou para o mal, é um ano que dificilmente vai ser esquecido. No esporte a motor, a temporada trouxe a consolidação de pilotos que, definitivamente, entraram para a lista dos maiores de todos os tempos: Lewis Hamilton na F1, Marc Márquez na MotoGP, Scott Dixon na Indy e Sébastien Ogier no Mundial de Rali. Por aqui, em meio a um ano agitado nas pistas, Daniel Serra faturou o bicampeonato da Stock Car, com Raphael Reis levando o título da Stock Light e Roberval Andrade alcançando o Olimpo na Copa Truck.

O mundo do esporte viu florescer o talento do herdeiro de Michael Schumacher, com o menino Mick conquistando o título da F3 Europeia, presenciou a coroação de Joey Logano como campeão da Nascar e viu o retorno de Carlos ‘El Matador’ Sainz como vencedor do Rali Dakar.

Os fãs das corridas também se depararam com muitas surpresas ao longo do ano, e é disso que se trata o 10+ desta véspera de Natal. Quem poderia imaginar, por exemplo, que Daniil Kvyat, o mesmo que foi rebaixado duas vezes pela Red Bull/Toro Rosso, pudesse voltar à F1, pela mesma Toro Rosso? E o que dizer do inesperado retorno de Kimi Räikkönen à Sauber em 2019?

A seguir, confira dez grandes surpresas — umas ótimas e outras, nem tanto — de um intenso 2018 dentro das pistas ao redor do mundo.


Acordo entre Sébastien Loeb e a Hyundai
 

O que era inimaginável tempos atrás se consolidou como um dos movimentos mais surpreendentes do ano. Meses depois de coroar o retorno esporádico ao Mundial de Rali com a vitória no Rali da Catalunha defendendo a Citroën, Sébastien Loeb, o maior campeão e vencedor da história do esporte, mostrou o desejo de seguir no esporte com mais frequência em 2019.

No entanto, a Citroën, que já havia confirmado o retorno do hexacampeão Sébastien Ogier, não tinha como satisfazer o desejo de Loeb. Assim, um casamento de quase 20 anos com as marcas do Grupo PSA (Citroën e Peugeot) foi desfeita. E o icônico piloto de 44 anos fechou um acordo de dois anos com a sul-coreana Hyundai para disputar o Mundial de Rali, sendo que, para 2019, o francês está confirmado em seis etapas, a começar pelo Rali de Monte Carlo, em janeiro.

A parceria vitoriosa entre Loeb e o navegador monegasco Daniel Elena, no entanto, segue inabalável. Seja no WRC ou no Rali Dakar.
 

A volta de Robert Kubica ao grid da F1
 

Em fevereiro de 2011, quando sofreu o gravíssimo acidente no Rali Ronde di Andora, Robert Kubica teve praticamente sua carreira encerrada como piloto de F1. As sérias lesões que afetaram braço e mão direitos do polonês indicavam que mesmo sua permanência no esporte a motor seria improvável, quanto mais um retorno ao Mundial.

Mas o polaco não desistiu e lutou muito pelo seu sonho. Primeiro, se aclimatou novamente ao ambiente competitivo nos ralis, disputando até provas do WRC entre 2013 e 2016. No ano seguinte, teve sua primeira chance de testar um carro de F1 desde o acidente. E foi aí que a esperança de um retorno do piloto ao Mundial começou a ganhar força. 2018 quase foi o ano: Kubica tinha tudo certo com a Williams, mas perdeu a batalha graças ao dinheiro russo trazido por Sergey Sirotkin aos ’48 do segundo tempo’.

Mas depois de passar o ano todo como piloto reserva e desenvolvimento da Williams, Robert foi atrás de patrocínio e conseguiu o primeiro passo para a realização do sonho. Confirmado como titular para 2019, Kubica conseguiu o impensável e vai ter a chance de, oito anos depois do acidente que quase o matou, estar novamente no grid mais cobiçado do automobilismo mundial.

Ele está de volta: Robert Kubica retorna ao grid do Mundial de F1 em 2019
Rodrigo Berton/Grande Prêmio

A seca de vitórias de Valentino Rossi
 

O multicampeão mundial de MotoGP viveu um ano atípico em 2018. Ainda que tenha mostrado a competitividade e raça de sempre, o italiano, que vai completar 40 anos em 16 de fevereiro, teve dificuldades com uma Yamaha que jamais conseguiu entregar a melhor moto ao longo da temporada e passou o campeonato todo sem vitórias.

A seca de vitórias do ‘Doutor’ na MotoGP chegou a nada menos que 27 corridas, somando as 18 deste ano e nove desde o GP da Holanda, vencido pelo italiano em 2017. Mesmo Maverick Vinãnles, que viveu uma temporada bem mais apagada que a do seu companheiro de equipe, conseguiu abocanhar uma vitória no último GP da Austrália.

Entretanto, mesmo com o jejum de triunfos na classe-rainha, Rossi mostrou muita lenha para queimar. Como sua expectativa é de encerrar a carreira em 2020, até lá os fãs da MotoGP podem esperar Valentino com muita gana para voltar a vencer. Desde que, claro, tenha às mãos uma moto minimamente capaz de fazê-lo chegar lá.

Valentino Rossi está a 27 corridas sem vencer na MotoGP
Yamaha

A ida de Jorge Lorenzo para a Honda
 

Tricampeão do mundo, Jorge Lorenzo foi contratado a peso de ouro pela Ducati, mas quase nunca teve sossego em Borgo Panigale. O fato é que a moto fabricada pela marca italiana exige um estilo de pilotagem muito peculiar, e o espanhol, mesmo com todo seu reconhecido talento, levou muito tempo para se adaptar. E, ao mesmo tempo, Andrea Dovizioso brilhava para ser o grande rival de Marc Márquez na luta pelo título no ano passado.

Com a seca de resultados também no início de 2018, o clima entre Lorenzo e a cúpula da Ducati azedou de vez, com a tensão cada vez maior entre o espanhol e Dovizioso. Até que o #99 conseguiu o que parecia impensável e encaixou três vitórias (Itália, Catalunha e Áustria) em seis corridas.

Em meio à sua ascensão em 2018, Lorenzo deu uma tacada de mestre e fechou um surpreendente acordo com a Honda para substituir Dani Pedrosa a partir da próxima temporada. Um contrato que o coloca novamente com uma moto mais ao seu estilo, mas que também vai confrontá-lo com o maior piloto da geração pós-Valentino Rossi, Marc Márquez, trazendo grandes expectativas para 2019.

Já a Ducati optou pela solução caseira chamada Danilo Petrucci para completar dupla com Dovizioso.

 

Os grids cheios da Stock Light
 

A Vicar implementou uma boa novidade para 2018 e revitalizou a categoria de acesso à Stock Car. Entre 2013 e 2017, a classe então chamada Brasileiro de Turismo ganhou novo nome e virou a Stock Light. Desde a primeira corrida, a categoria reuniu um grid bastante sólido mesclado por grandes talentos da nova geração e também alguns veteranos do grid. Todos em busca de uma premiação total de R$ 650 mil, sendo R$ 600 mil oferecidos ao campeão.

No início da temporada, o grid já contava com mais de 20 carros. Houve até certo ceticismo se a quantidade e a qualidade dos pilotos seria mantida até o fim. A estabilidade de fato se confirmou, com o campeonato sendo encerrado em dezembro, em Interlagos, com nada menos que 26 competidores. Definitivamente, um alento ao automobilismo brasileiro.
 

O Rali Dakar vai ser disputado apenas no Peru em 2019
Duda Bairros/photosdakar.com

Dakar, de ameaçado a palco único em 2019
 

A edição 2019 do Rali Dakar ficou seriamente ameaçada de não acontecer. Pela primeira vez desde 2009, quando o maior rali do mundo começou a ser disputado na América do Sul, a Argentina não vai receber o evento. O Chile, que teve no Atacama o ‘coração’ da prova por muitos anos, também não chegou a um acordo, assim como Bolívia e Paraguai, que ficaram fora do roteiro.

Assim, a ASO (Amaury Sports Organisation), empresa que promove e organiza o Rali Dakar, enfrentou uma encruzilhada: ou fechava um acordo exclusivo com o Peru ou então cancelaria a prova, já que não havia tempo hábil para buscar outros países e costurar um novo acordo.

O acerto com o governo peruano quase não aconteceu, mas a competição foi salva e vai acontecer entre 6 e 17 de janeiro. Vai ser a primeira vez na história que o maior rali do mundo será disputado num único país.

A terceira chance de Daniil Kvyat
 

Quando a Toro Rosso anunciou que Daniil Kvyat estava fora para as últimas corridas da temporada passada, parecia que a carreira do russo na F1 estava mesmo terminada. Afinal, o piloto amargava seu segundo rebaixamento seguido num espaço de dois anos — depois de ter perdido a vaga na Red Bull para Max Verstappen em 2016.

Sem espaço no programa da Red Bull, Kvyat encontrou lugar na Ferrari para trabalhar como piloto de desenvolvimento, atuando no simulador como auxílio aos titulares. Desde então, o piloto ficou sumido, não apareceu no paddock e ficou longe até do Instagram.

Até que seu nome começou a pipocar novamente: primeiro, como um dos cotados a assumir uma vaga na Williams, algo que não se confirmou. Mas eis que, pouco depois, Daniil foi confirmado pela mesma Toro Rosso que o escorraçou um ano atrás. O piloto, ainda jovem, com apenas 24 anos, tem uma raríssima terceira chance para se estabelecer na categoria. Se vai lograr êxito ou não, só o tempo vai responder.

 

A não-aposentadoria de Kimi Räikkönen
 

Virou quase um lugar comum no mundo da F1 dizer que Kimi Räikkönen não tinha mais motivação para seguir no esporte e que sua aposentadoria das pistas seria meramente uma questão de tempo. Mas o ‘Homem de Gelo’ seguiu contrariando todos os prognósticos mesmo depois de ver decretada sua saída da Ferrari.

Pouco antes de completar 39 anos, o finlandês, o mais longevo da F1 na atualidade, não só confirmou sua permanência no grid da F1 como também acertou seu retorno à Sauber, onde tudo começou, lá no longínquo ano de 2001.

Uma das grandes surpresas do ano e que reafirma, de uma vez por todas, o quanto Kimi está motivado e ama competir, sendo um personagem único da F1 nos dias de hoje.
 

Daniel Ricciardo na Renault
 

Mais até que a volta de Kimi Räikkönen à Sauber, o grande e mais surpreendente movimento do mercado em 2018 foi a ida de Daniel Ricciardo para a Renault. É sabido que a fábrica francesa tem dinheiro e disposição para investir na F1 em um projeto de longo prazo, com vistas a lutar pelo título a partir de 2021. Mas também era esperado que Ricciardo, oriundo do programa junior da Red Bull, fosse renovar seu acordo com os taurinos.

Mas como o próprio australiano escreveu numa emocionante carta ao ‘Players’ Tribune’, era chegado o momento de dar uma virada na carreira para assumir o posto de protagonista, ainda que tenha de correr riscos, como fez Lewis Hamilton em 2013 ao sair da zona de conforto da McLaren para uma viagem rumo ao desconhecido na Mercedes.

Assim, Ricciardo sai da sombra de Max Verstappen, o queridinho e escolhido para ser o #1 da Red Bull, para buscar na Renault o sonho de ser campeão do mundo.

Daniel Ricciardo deixou a Red Bull para correr pela Renault a partir de 2019
Red Bull Content Pool

Uma edição sem graça das 500 Milhas de Indianápolis
 

A Indy 500 é sempre aguardada pelos fãs do esporte por vários motivos: pela tradição, pela imprevisibilidade, altíssimas velocidades e emoção até à última volta. Contudo, poucas vezes uma edição da prova foi tão maçante e ruim. Culpa dos novos kits aerodinâmicos universais adotados pela Indy nesta temporada.

Ocorre que os carros em 2018 ficaram mais ariscos e difíceis de controlar em virtude da adoção dos novos kits, que gerou grande turbulência na aproximação com os outros carros. Assim, as habituais disputas roda a roda, uma das grandes marcas das 500 Milhas de Indianápolis, foram raríssimas. A vitória obtida por Will Power foi deveras previsível, com vantagem confortável para Ed Carpenter, o dono da pole-position.

A esperança é que a Indy 500 de 2019 traga um pouco mais de emoção. Até porque também vai contar, novamente, com a presença de Fernando Alonso. O mundo do esporte a motor merece que as 500 Milhas de Indianápolis sejam novamente o que sempre foram: o ápice da emoção nas pistas.

Will Power venceu a edição de 2018 das 500 Milhas de Indianápolis
Rodrigo Berton/Grande Prêmio