Os grandes momentos de Barrichello na Stock Car

Na esteira das suas 111 largadas na principal categoria do automobilismo brasileiro, o GRANDE PREMIUM elenca os maiores momentos de Rubens Barrichello como piloto da Stock Car

Fernando Silva, de Sumaré

De todos os pilotos, Rubens Barrichello é, de longe, o mais procurado pelos fãs durante as visitações aos boxes antes das corridas da Stock Car. O carismático e vitorioso piloto, recordista de largadas na F1 e campeão da principal categoria do automobilismo nacional em 2014 — além de dois triunfos na Corrida do Milhão —, chegou a 111 largadas no certame, justamente o número que ostenta ao longo de quase toda a sua trajetória no grid.

Mesmo atualmente com 46 anos, Rubinho mostra que tem muita lenha para queimar e está sempre no rol dos pilotos mais competitivos da categoria, lutando frequentemente por poles e vitórias. Como foi, por exemplo, em Curitiba e Londrina, onde abriu o grid, além do triunfo milionário em Goiânia neste ano. Ao todo, a carreira de Barrichello traz um cartel de oito vitórias, nove poles, 26 pódios e o Olimpo alcançado há quatro anos.

Assim, até como forma de homenagem a Barrichello, o GRANDE PREMIUM lista dez dos grandes momentos vividos pelo piloto desde sua estreia, no fim de 2012, quando seu número não foi exatamente o ‘Triple One’, mas sim o de uma verdadeira lenda do esporte a motor brasileiro.

Fotos: Duda Bairros e Fernanda Freixosa/Arquivo Stock Car; Rodrigo Berton/Grande Prêmio


10 – Estreia e reverência a Ingo
 

21 de outubro de 2012. Há quase seis anos, a Stock Car era brindada com a presença de um dos pilotos mais emblemáticos do automobilismo brasileiro pós-Ayrton Senna. Naquele fim de temporada, depois de ter competido na Indy pela hoje extinta KV, Rubens Barrichello fazia seu debute na categoria nacional pela Full Time. Apoiado pela farmacêutica Medley, o paulista, com 40 anos, resolveu homenagear um grande ícone do esporte a motor do Brasil: Ingo Hoffmann.

Com o numeral #17 eternizado pelo ‘Alemão’ durante toda a sua carreira de 12 títulos na Stock Car, Barrichello iniciou sua trajetória na categoria em Curitiba. Não foi uma estreia fácil, ainda mais para quem se acostumou a competir praticamente toda a carreira nos monopostos.

Após ter largado em 15º lugar, Barrichello sofreu com as sempre tumultuadas largadas na Stock Car, sobretudo para quem parte do meio do pelotão. E assim foi. Rubinho sofreu com os impactos no seu carro e ainda teve de lidar com um pneu furado no fim para terminar em 22º lugar no geral. Começo difícil, mas bastante valorizado pelo piloto.

“Como fã da Stock Car, quando sentei a primeira vez no carro, vi a real diferença que é para um monoposto e as dificuldades de largada e tudo mais. Quer dizer, a experiência do dia de hoje foi muito, muito válida”, disse. E era o começo de uma jornada muito, muito vitoriosa que estava por vir.
 

Foi em Salvador que Rubens Barrichello faturou seu primeiro pódio na Stock Car
Duda Bairros/Arquivo Stock Car

9 – Pódio com muito axé
 

Há nove anos, Barrichello vencia pela última vez como piloto de F1, no GP da Itália, em Monza — conquista que também foi a última do Brasil no Mundial. Desde então, o piloto não conquistava um pódio no automobilismo profissional. O jejum foi quebrado em 19 de maio de 2013, no início da sua primeira temporada completa na Stock Car, na disputa da etapa de Salvador.

Foi uma conquista na base da estratégia, acima de tudo. Depois de um começo de jornada naturalmente difícil e ainda de adaptação naquela temporada, Barrichello acertou em tudo: fez uma boa classificação para largar em quarto, ficou longe dos erros, seguiu a estratégia do ponteiro e vencedor — Ricardo Maurício, hoje seu companheiro de equipe —, acertou ao arriscar em não fazer o pit-stop e finalmente faturou seu primeiro troféu na Stock Car.

Diante de um grande público no circuito de rua de Salvador, Barrichello começava a saborear as glórias da principal categoria do automobilismo nacional.


8 – A primeira pole, no peito e na raça
 

Cascavel recebe neste fim de semana a oitava etapa da temporada 2018 da Stock Car. Foi lá, há cinco anos e três dias, em 31 de agosto, que Rubens Barrichello faturou pela primeira vez a posição de honra no grid da categoria. Foi uma conquista com muito braço e raça para superar aquele que seria o grande campeão daquele ano, Ricardo Maurício.

Rubens começou muito bem aquele fim de semana sendo líder do primeiro treino livre e segundo colocado na sessão seguinte, nesta logo atrás de Ricardinho. Tudo apontava para uma batalha ferrenha entre os dois pela pole no sábado. E assim foi: no Q1, vantagem de Maurício por apenas 0s036. Mas a melhor parte do duelo estava por vir com a fase decisiva da classificação, que compreendia os dez primeiros colocados.

A batalha se repetiu, mas foi a vez de Rubinho rir por último. Com 1min01s857, cravou a volta que lhe garantiu a pole pela primeira vez na Stock Car, superando Ricardinho por meros 0s062.

Na corrida, Barrichello começou bem e comandou a fila, mas sucumbiu à estratégia de pit-stops. Na verdade, uma falha no pneu traseiro direito acabou por tirá-lo da briga pela vitória, que ficou nas mãos de Marcos Gomes, então piloto da Carlos Alves.
 

7 – A vitória milionária e a arrancada rumo ao título
 

A primeira vitória de Rubens Barrichello na Stock Car foi memorável. E milionária. Na Corrida do Milhão de 2014, disputada em Goiânia, o #111 largou na pole-position e despontava como um dos favoritos. Mas o piloto da Full Time teria pela frente um osso duro de roer: Thiago Camilo.

Rubens mostrou ótimo ritmo desde o início da prova. Só que a estratégia também contaria muito para o sucesso ou fracasso na sempre escaldante Goiânia. Depois da janela de pit-stops, Camilo e Barrichello se revezaram na liderança graças ao acionamento do botão de ultrapassagem.

Com menos de quatro minutos para a bandeirada final, Rubinho foi para o tudo ou nada. Deu tudo. O botão de ultrapassagem foi decisivo para a execução da ultrapassagem, por dentro, e daí em diante valeu o espírito de luta para se segurar na ponta. Barrichello cruzou a linha de chegada com apenas 0s186 de frente para Camilo. A primeira vitória do #111 foi logo a mais importante do ano, na Corrida do Milhão.

Barrichello mal poderia imaginar que aquele triunfo representaria sua arrancada rumo à conquista do título da Stock Car, ao fim daquela temporada.

Barrichello festeja com o filho a conquista do título da Stock Car
Duda Bairros/Arquivo Stock Car

6 – É campeão
 

1991. Foi o ano em que Rubens Barrichello havia conquistado seu último título como piloto. Isso na F3 Britânica, vencendo David Coulthard e Gil de Ferran. Depois de uma trajetória vencedora na F1, e discreta na Indy, o piloto tinha a chance de voltar a festejar a conquista de um campeonato em 2014, provando grande forma em meio ao sempre forte grid da Stock Car aos 42 anos.

O título de Barrichello foi pavimentado com muita regularidade e consistência. Antes da etapa final, em Curitiba, o piloto havia vencido duas provas, além de outros cinco pódios. Mas outro grande piloto, este da nova geração, surgia como grande concorrente na fase final do campeonato: Átila Abreu. A tabela apontava 198 para Rubens contra 183,5 para o sorocabano. Matematicamente, no entanto, outros seis pilotos ostentavam chances de título: Camilo, Júlio Campos, Antônio Pizzonia, Sergio Jimenez, Cacá Bueno e Allam Khodair.

Em qualquer corrida, ainda mais quando se decide o título, é fundamental uma boa posição de largada para evitar as eventuais confusões. Foi assim que Rubinho fez o dever de casa e, com volta precisa, marcou 1min18s695 para assegurar a pole, com Serra partindo ao seu lado em segundo. Cacá e Átila dividiram a segunda fila.

Na largada, Barrichello manteve a liderança, mas pouco depois levou um susto ao escapar depois de passar por cima de uma mancha de óleo na pista, caindo para quarto. No entanto, durante a janela para troca de pneus, Rubens subiu para terceiro lugar. Serra assumiu a dianteira e sustentou a ponta até a bandeira quadriculada. Átila bem que tentou, lutou até o fim e finalizou logo atrás. O #111 fechou o pódio e comemorou um título histórico em Curitiba.


5 – Lado a lado com o ídolo
 

Rubens Barrichello jamais escondeu a admiração por Ingo Hoffmann. No GP do Brasil de 2008, quando defendia a Honda na F1, correu em Interlagos com o desenho de capacete usado pelo ‘Alemão’. A homenagem com o #17 nas primeiras corridas da sua jornada na Stock Car também refletem o carinho pelo multicampeão.

Faltava compartilhar o volante do carro da Stock Car. Ingo aceitou o convite feito por Rubinho e voltou à Stock Car para uma participação esporádica na Corrida de Duplas que abriu a temporada 2015. Daquela vez, em Goiânia, era a oportunidade de Hoffmann pilotar o carro com o número #111 já clássico de Barrichello.

A dupla conseguiu um grande resultado e finalizou a corrida em nono lugar. Pouco depois, o carro #111 foi punido por conta de excesso de velocidade no pit-lane, teve 20s acrescidos ao tempo total de prova e finalizaram em 14º. Nada, contudo, que invalide a grande jornada e, definitivamente, a última prova de Ingo Hoffmann na Stock Car.
 

4 – Duelo de gerações em Interlagos
 

Marcos Gomes era o campeão vigente, mas Felipe Fraga despontava como o grande nome da temporada 2016 e, além do talento ímpar, contava também com o ‘Foguete Verde’ da Cimed.

A Corrida do Milhão, disputada naquele ano em Interlagos, representou o primeiro grande embate entre Fraga, de 21 anos, e Barrichello, com 44. E no primeiro ato do duelo, melhor para o veterano, que marcou a pole-position, enquanto Fraga obteve o quarto lugar, com Maurício e Marcos Gomes entre ele e o #111.

A prova em si foi um verdadeiro jogo de xadrez. Barrichello manteve a dianteira, enquanto Fraga fez boa largada e escapou do incidente que envolveu Ricardinho e Gomes para assumir a segunda colocação. Daí em diante, a história da Corrida do Milhão foi escrita pelos dois pilotos.

Rubens foi raçudo e tentou de todas as formas se segurar na frente, mas Fraga tinha o melhor carro da temporada e conseguiu fazer a ultrapassagem. Só que Barrichello jamais ficou longe e tentou de tudo, até o fim das 28 voltas, para tentar seu segundo milhão. Milhão que foi conquistado por Fraga, porém Rubinho deu mais uma amostra do quanto seguia competitivo e muito forte em meio ao grid ‘cascudo’ da Stock Car.

Barrichello viveu um fim de semana quase perfeito em Santa Cruz do Sul na temporada passada
Fernanda Freixosa/Stock Car

3 – Perto da perfeição
 

Santa Cruz do Sul foi palco de mais um grande momento da carreira de Barrichello na Stock Car. Na quinta etapa da temporada passada, o paulista foi arrasador e viveu um fim de semana perfeito, com pole-position e vitória na corrida principal da rodada dupla.

Rubinho costuma trabalhar com um programa distinto nos treinos livres e, por isso, não tem o hábito de estar entre os melhores colocados. Mas na hora da definição da pole, aí o campeão de 2014 mostrou a velha competitividade de sempre.

Tanto que, no Q2, fez exatamente o mesmo tempo em relação ao líder, Marcos Gomes. Mas, no Q3, o #111 fez a diferença e, com uma volta perfeita, cravou 1min20s189, 0s277 à frente de Gomes, segundo colocado. Uma enormidade em termos de Stock Car.

Durante a corrida, foi tudo sobre confirmar a superioridade e caminhar para a vitória. O triunfo veio com autoridade, de ponta a ponta, sem dar chances aos adversários. Um triunfo pra lá de marcante no interior gaúcho.


2 – Nos braços do povo com o segundo milhão
 

Dois anos depois, a mesma Goiânia que viu Rubens Barrichello vencer pela primeira vez a Corrida do Milhão foi palco do seu segundo triunfo milionário. Que, assim como em 2014, veio na base da raça e depois de um grande duelo restando poucas voltas para o fim.

A pole escapou por pouco, míseros 0s012. Daniel Serra, campeão e atual líder do campeonato, partiu na frente, enquanto o luso António Félix da Costa, um dos favoritos ao Milhão, largou em terceiro depois de ter ficado somente 0s018 do tempo de Serrinha. Max Wilson e Lucas Di Grassi fecharam o rol dos cinco primeiros.

Durante a corrida, um revés nos pits tirou de Serrinha a chance de repetir a vitória na Corrida do Milhão conquistada no ano passado. Aí a batalha ficou entre Max, Barrichello e Félix da Costa. O luso, sem a experiência de Stock Car para competir com duas ‘velhas raposas’, não se atentou ao push-to-pass que poderia ajudar a faturar a vitória milionária.

Restando duas voltas para o fim, Barrichello travou grande duelo com o velho amigo Max Wilson. Levou a melhor e partiu para mais uma vitória em Goiânia. A conquista do R$ 1 milhão foi ao melhor estilo Fórmula E: nos braços do povo.
 

1 – A vitória da vida
 

Janeiro de 2018. Enquanto aproveitava férias com a família na sua casa em Orlando, na Flórida, Barrichello passou mal e sentiu fortes dores de cabeça enquanto foi tomar banho. Imediatamente internado, o piloto teve suspeita de AVC e ficou por alguns dias no hospital da cidade sob observação até se recuperar prontamente.

Após um problema de saúde tão sério, serial natural que sua carreira nas pistas fosse interrompida por algum tempo. Mas, de forma heroica, tão logo anunciou ao mundo que estava liberado pelos médicos, confirmou que disputaria normalmente a Corrida de Duplas, prova de abertura da temporada, ao lado do amigo português Filipe Albuquerque.

Barrichello foi um dos grandes nomes da corrida e mostrou que a velocidade e a competitividade ainda estavam lá. Renascido depois de tudo o que passou, Rubinho viveu uma jornada incrível ao lado de Albuquerque e terminou em segundo lugar, só atrás de Daniel Serra e João Paulo de Oliveira.

Mas o resultado na pista pouco importava. A grande conquista era uma só. Barrichello comemorava no pódio a maior dádiva que alguém pode ter: o fato de estar vivo e bem. Com muitas lágrimas, e abraçado ao filho, Dudu, Rubens se emocionou com a vitória da vida.

Ao lado do filho, Barrichello comemora a vitória mais valiosa: o fato de estar vivo
Rodrigo Berton/Grande Prêmio