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Análise

Hamilton e LeBron carregam o peso da história

O piloto da Mercedes igualou o recorde de 91 vitórias no GP de Eifel, enquanto o jogador de basquete dos Lakers conquistou o seu quarto título de NBA. Ao mais críticos, os dois por vezes têm suas marcas do presente desvalorizados por feitos do passado dos Michael: Schumacher e Jordan

LeBron James, NBA Finals 2020,
(Foto: Reprodução/Twitter/@NBA)

O último domingo (11) foi especial para quem gosta de grandes histórias. Não só para quem tem algum envolvimento com o esporte. Os acontecimentos são genuinamente daqueles de no futuro reunir as crianças no chão da sala e os dimensionar para essas gerações. Pela manhã no horário brasileiro, Lewis Hamilton igualou o antes inimaginável recorde de 91 vitórias na Fórmula 1. Já no fim do dia, quando normalmente a ‘síndrome da segunda-feira’ já começaria a atacar se não fosse o feriado nacional, foi a vez de LeBron James conquistar mais um título de NBA. Tanto um quanto outro, no entanto, carregam sobre os seus ombros o peso da história. 

O piloto da Mercedes venceu o GP de Eifel, em Nürburgring, justamente na Alemanha, e assim igualou a marca de vitórias de Michael Schumacher na principal categoria do automobilismo. Já o astro do Los Angeles Lakers comandou a vitória do seu time sobre o Miami Heat, conseguiu seu quarto título de NBA, a principal liga de basquete do mundo, e com isso ficou a dois troféus de igualar outro Michael: o Jordan. As conquistas eram mais que bolas cantadas por jornalistas esportivos e fãs mas, nem por isso, perderam sequer um mísero brilho do encanto que o esporte também proporciona.

Evidentemente, que essas tão injustas quanto saborosas comparações movem o esporte. Hamilton e LeBron não são os primeiros, tampouco os últimos, a terem questionadas as suas conquistas aos olhos mais críticos. No caso do piloto, as comparações mais comuns vão ainda além de Schumacher, com sete títulos mundiais, recorde que o inglês também só não igualará neste ano se um desastre na tabela de pontos acontecer. Muita gente acredita que Juan Manuel Fangio (cinco títulos), Alain Prost, Sebastian Vettel (ambos com quatro títulos), Niki Lauda, Nelson Piquet e Ayrton Senna (esses com três títulos cada) e outros tantos foram melhores que o atual piloto.

Hamilton tem uma velocidade — claro que também tem carro para isso, e fez por merecer esse carro — que o coloca entre os grandes competidores da história do automobilismo. Além disso, há ainda uma impressionante capacidade de adaptação a diferentes condições que as corridas apresentam e uma dose extra de vitórias cinematográficas que ficam na memória mesmo de quem não é muito ligado no automobilismo. A chegada com apenas três pneus no GP da Inglaterra é só um desses exemplos de histórias que também podem ser contada separadamente para as crianças ficarem maravilhadas.  

Lewis Hamilton, Mercedes, 91 vitórias, GP de Eifel 2020,
Assim como LeBron, Hamilton transborda para fora do esporte questões sociais (Foto: Reprodução/Twitter/@MercedesAMGF1)

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Ter preferências por outros pilotos, tudo bem. Sem problemas. É do jogo e não aceitar isso que seria prejudicial ao debate. O que não se pode aconselhar é a ranzinzice diante da beleza de outro ser-humano cravar 91 vitórias com carros de F1. Para todos os tempos, esse número de vitórias foi, é e sempre será grandioso. Se os adversários são mais fracos, os carros são mais fáceis de guiar, há mais corridas… Isso pode até ser uma outra discussão. Mas o importante neste momento é se deliciar a cada troféu jogado para cima quando esse inglês de 35 anos está no alto do pódio. 

Para voltar a analogia com o jogador do basquete, também com 35 anos, e sem alongar muito o raciocínio com o esporte da bola laranja, LeBron sofre ainda com números que certamente não conseguirá alcançar. Enquanto Hamilton extermina todos os recordes possíveis, o agora vencedor pelos Lakers soma ‘apenas’ quatro anéis de campeão — havia conquistado dois títulos com o Heat e um com o Cleveland Cavaliers. Jordan, por exemplo, tem seis, todos com o Chicago Bulls. Mas, para piorar o quadro comparativo do também camisa 23, o maior campeão da NBA, Bill Russell, tem 11 títulos. As análises pelas friezas dos números podem ser um ponto de partida, mas há dúvidas se são assim tão determinantes. A escolha pelo melhor fica então a cargo da seletividade da memória de cada um, em geral, com maior peso por feitos do passado.

LeBron James, NBA Finals 2020,
Hamilton é comparado com Schumacher, assim como LeBron é com Jordan (Foto: Reprodução/Twitter/@NBA)

Imagine então o desperdício de talento que seria descreditar Hamilton por que o carro dele tem muitos botões. Ou ainda não valorizar LeBron por que os arremessos dele não fazem ‘chuá’ como os de Jordan. Ou pior ainda: não gostar de nenhum dos dois por que eles falam de temas que incomodam como os problemas raciais e a violência excessiva de polícias. É fundamental conhecer e respeitar as épocas de grandes atletas, mas pode-se ter preferência pelos atuais também. Só o saudosismo e a vergonha dos tempos atuais não podem eliminar alguém da subjetiva resposta para a intrépida pergunta de quem foi o melhor da história. 

Hamilton pode ser o melhor, mas não por que ganhou mais corridas e, em breve, mais títulos de Fórmula 1 que os demais concorrentes. Do mesmo modo, LeBron pode não ser o melhor, mas não por que ganhou menos títulos de NBA que os demais concorrentes. Vale curtir o presente independentemente do passado. Pode-se ter para si os atuais acontecimentos como o melhor de todos os tempos.

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