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Análise

A escolinha do professor Helmut Marko

O pódio do GP do Brasil foi 100% composto por pilotos formados pelo Red Bull Junior Team – um programa de formação de pilotos que está moldando a F1 atual

Max Verstappen, Pierre Gasly e Carlos Sainz. Os três primeiros pilotos do GP do Brasil, que aconteceu ontem (17) em Interlagos, dividem um fato em comum: todos o foram formados pelo Red Bull Junior Team, o programa de formação de pilotos da empresa austríaca de energéticos. O ápice para um projeto que eventualmente pode ser criticado, mas que também já mostrou e continua mostrando grandes resultados.

Tudo começou ainda no final dos anos 1990. A Red Bull já patrocinava a Sauber na Fórmula 1 e, a partir de 1999, se tornou a parceira de uma equipe de sucesso na F3000: a RSM Marko, vencedora do campeonato de 1996 com Jörg Müller e de propriedade de Hemult Marko, ex-piloto da F1. O time, então, passou a ser chamado simplesmente de Red Bull Junior Team. 

Entendeu de onde vem o nome do programa?

Enquanto equipe, a iniciativa não deu muito certo. Ela, no entanto, revelou o brasileiro Enrique Bernoldi, que depois teve a passagem na Fórmula 1 bancada pela fábrica de bebidas. Foi o primeiro, sem muito sucesso em sua passagem pela Arrows, infelizmente. No entanto, as engrenagens já estavam em andamento e, aos poucos, Helmut Marko e a Red Bull foram ampliando a iniciativa e abraçando novos pilotos nas categorias anteriores à F3000. O programa em si ganhava forma. 

Curiosamente, naquela mesma época, a McLaren construía um projeto parecido. Além de criar uma equipe de F3000 que foi campeã com Nick Heidfeld, bancou a formação e Lewis Hamilton – mas esse é um outro papo.

(Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

Após a punição a Hamilton, Sainz e a McLaren comemoraram em uma festa improvisada no pódio

Eventualmente, os austríacos compraram a Jaguar, que foi renomeada Red Bull Racing para a temporada 2005 da F1 – e Marko foi apontado como consultor do time, além de continuar coordenando a formação de pilotos. Naquele primeiro ano, dois pilotos que eram cria do programa dividiram o carro #15: Christian Klien (que já tinha corrido no ano anterior, quando a equipe ainda era da Ford) e Vitantonio Liuzzi.

O projeto ganhou mais uma camada de complexidade em 2006, quando a Red Bull também comprou a simpática Minardi, que foi renomeada Scuderia Toro Rosso. Dessa forma, os austríacos passaram a contar com um time na F1 que poderia não só formar, mas também testar os alunos em condições reais de competição. A estratégia fazia sentido: ainda que sem essa intenção, a equipe italiana já era a grande formadora de pilotos no começo dos anos 2000 – boa parte do grid, tirando exceções como Michael Schumacher e Rubens Barrichello, tinham passado pelos carros de Faenza. 

Dentro desse contexto, Sebastian Vettel se transformou no grande exemplo de formação para o Red Bull Junior Team.

O alemão entrou para o programa ainda no kart, ainda em seu início. Com as cores azul, vermelha e amarela, foi campeão da Fórmula BMW e vice da F3 Euro Series – e, em 2006, conseguiu um lugar como piloto de testes justamente da BMW Sauber. No GP dos EUA do ano seguinte, foi convocado para substituir Robert Kubica após aquele famoso acidente do polonês no Canadá. Com o oitavo lugar em Indianápolis, o alemão se tornou o mais jovem piloto a marcar um ponto na categoria e garantiu um lugar na Toro Rosso a partir do GP da Hungria.

Como você sabe, a passagem de Vettel na Toro Rosso foi marcante. O piloto venceu a primeira corrida no GP da Itália de 2008, com muita chuva e pilotando uma ex-Minardi. No ano seguinte, foi promovido para a Red Bull (que ainda não tinha vencido na F1) e logo foi vice-campeão, com quatro P1 naquele ano. Em 2010 veio o primeiro título mundial e o resto, como você sabe, é história.

Vettel: o maior sucesso do programa de formação de pilotos da Red Bull

Com o sucesso vieram as críticas. Entre elas, a falta de paciência – principalmente de Helmut Marko – com os pilotos alçados à F1. O principal exemplo desse comportamento é Daniil Kvyat: o russo foi elevado para a Red Bull Racing em 2015, substituindo Vettel, mas rebaixado no começo do ano seguinte – e o seu substituto, Max Verstappen, venceu logo na primeira corrida pela equipe principal. Em 2017, Kvyat foi sacado da Toro Rosso nas últimas corridas, trocado por Pierre Gasly, mas teve que ser chamado de volta depois que Carlos Sainz preferiu ir para a Renault e outro formado pelo programa, Brendon Hartley, correspondeu menos ainda às expectativas de Marko. 

E aí chegamos aos dias atuais. Dos 20 pilotos titulares da Fórmula 1, sete foram formados pela Red Bull – e, claro, quatro estão atualmente na folha de pagamento da empresa. 

O pódio paulistano foi bem representativo sobre esse atual momento. Verstappen é o novo Vettel, a atual joia da coroa: uma demonstração do sucesso do programa. O segundo, Gasly, foi ele mesmo vítima da impaciência de Marko após resultados ruins na Red Bull Racing, sendo rebaixado para a Toro Rosso e, mesmo assim, conquistando o melhor resultado do time italiano desde aquela vitória de 2008. Já Sainz preferiu buscar a felicidade em outros lugares, e agora é parte da reconstrução da McLaren – que não conseguia um top 3 desde 2014.

Leclerc: a grande joia do programa de formação da Ferrari (Divulgação/Ferrari)

Enquanto isso, outros times tradicionais vão tentando mimetizar o sucesso de Helmut Marko. A Ferrari é a mais adiantada nessa iniciativa, com o Ferrari Driver Academy – Lance Stroll, Sergio Pérez e Jules Bianchi passaram pelo programa, mas Charles Leclerc foi o primeiro a conseguir um lugar na famosa Scuderia. A passagem de Felipe Massa é anterior ao projeto, mas a trajetória do brasileiro é ainda é o grande exemplo caseiro para os italianos.

A McLaren, após o sucesso do próprio Hamilton e da Red Bull, aumentou a aposta na formação de pilotos – revelando Stoffel Vandoorne e Kevin Magnussen, mas que parece ter em Lando Norris como a maior expectativa de conquistas. 

George Russell, piloto da Williams, é a atual grande aposta do Mercedes Junior Programme – que conta também com Esteban Ocon, que já assinou com a Renault para 2020. Falando nos franceses, vale dizer que a Renault possui o próprio programa de formação – pelo qual, até hoje, o maior sucesso na F1 ainda é Romain Grosjean. Atualmente, o brasileiro Caio Collet é um dos integrantes. 

E assim, com o sucesso da Red Bull e quem vem atrás tentando copiá-lo, a Fórmula 1 vai se tornando um campo de atuação dos pilotos que se formaram nas escolinhas das equipes. Sinal dos tempos. 

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