A proteção excessiva a Vettel

Com o desempenho abaixo da Mercedes também no GP da China, a Ferrari tenta a todo custo blindar o alemão, sobretudo, psicologicamente na hoje improvável luta pelo título da F1. Preferência da escuderia pode também frear crescimento do próprio Leclerc

André Avelar, São Paulo

Se antiguidade é posto também na Ferrari, Sebastian Vettel não tem lá muita razão para dar satisfação para o recém-chegado Charles Leclerc. Por outro lado, a dobradinha da Mercedes neste domingo (14), com o rival na briga pelo título Lewis Hamilton em primeiro e Valtteri Bottas logo atrás, só descarregou nova tonelada de pressão sobre os ombros do alemão, apenas o terceiro colocado no GP da China. O resultado da milésima corrida da F1 inclusive chega a levantar a dúvida sobre uma possível excessiva proteção da escuderia italiana.

Para efeitos do Mundial de Pilotos, Hamilton agora assume a liderança com 68 pontos, seis a mais que Bottas. Max Verstappen é o terceiro colocado (39); só aí seguido pelas Ferrari, com Vettel (38) e Leclerc (36 pontos).

Desde 2015 na equipe, tetracampeão mundial, dono de 52 vitórias, Vettel tem credenciais de sobras para justificar tal posição. O circo da F1, com tamanhos investimentos, não é e não pode ser tão simplista e ter em conta apenas o desempenho puro dos seus pilotos. É esperado que tais preferências aconteçam realmente. Além disso, a postura da Ferrari disfarça o baixo rendimento do SF90 em relação ao W10. Isso sem falar no quanto os carros prateados costumam a evoluir ao longo da temporada.

Assim que as luzes vermelhas se apagaram para a corrida histórica, o #5 perdeu a terceira posição para o companheiro de equipe na primeira curva do circuito de Xangai e nem precisou gastar muito dos seus argumentos pelo rádio para pedir a posição. O #16, apesar de jovem, sem a mesma experiência, mas com inegável talento, demonstrou ao mundo que não ficou satisfeito com a mensagem que recebeu ainda que tenha cumprido a ordem. Na parte final da prova, com estratégia diferente de pneu, acabou novamente ultrapassado com facilidade.

Tudo isso no fim de semana em que o chefe da equipe, Mattia Binotto, afirmou categoricamente que Vettel teria prioridade em detrimento de Leclerc. Sem entrar no mérito de certo ou errado, o discurso ganhou pelo menos por ser bastante corajoso, logo na abertura dos trabalhos na China.

“Como eu disse no começo da temporada, se houver uma situação de 50 a 50% onde precisarmos tomar uma decisão, a vantagem seria dada a Sebastian simplesmente porque Sebastian tenha mais experiência com a equipe da F1. Ele ganhou quatro campeonatos e certamente que tem maior probabilidade de brigar pelo título”, disse o homem dos óculos engraçados.

Proteção a Vettel ajuda a desviar foco do baixo rendimento da Ferrari em relação à Mercedes na China
Divulgação/Mercedes

A frase deixa nas entrelinhas que a Ferrari mais uma vez fará de tudo para que Vettel bata Hamilton — apesar de líder do campeonato até esta prova, Bottas não dá verdadeira pinta de repetir Nico Rosberg em 2016 e atrapalhar a jornada de Hamilton. Mais do que isso, é um reforço ao psicológico abalado de Vettel desde pelo menos o GP da Alemanha do ano passado, quando ele se perdeu na pista úmida, bateu contra a barreira de pneus, jogou a vitória e, como se não bastasse, o título no colo de Hamilton. A impressão é que o alemão nunca mais voltou a ser o mesmo daquele revés.

Enquanto teve Kimi Räikkönen como companheiro de equipe, a blindagem fazia bastante sentido. Outro excelente piloto, o campeão mundial de 2007 por inúmeras vezes deu sinais de que se importava mais com os seus polpudos vencimentos do que propriamente com os resultados de pista. No ano passado, quando o próprio Vettel fez declaradamente campanha para a renovação de contrato do finlandês, a coisa até mudou de figura. Já era tarde. A grande promessa da Academia de Pilotos da Ferrari fazia grande trabalho pela modesta Sauber e tinha seu futuro na escudeira italiana traçado.

 

Definitivamente entre os pilotos mais rápidos, Leclerc literalmente pede passagem na Ferrari. Apesar da até agressividade pelo rádio nas voltas iniciais, quando chegou a andar mais rápido, não fez a corrida das mais brilhantes e inclusive acabou em quinto, atrás de Max Verstappen. Mesmo assim, sabe-se que o monegasco tem capacidade para ir muito mais longe e tal proteção ao companheiro de equipe pode frear seu próprio crescimento.

Sem o chamariz da milésima prova, claro, o GP de Azerbaijão é o próximo compromisso da F1. A quarta etapa do Mundial acontece em 28 deste mês, nas estreitas ruas de Baku, com ao vivo e tempo real do GRANDE PRÊMIO em todas as atividades.


LEIA MAIS:

+ As corridas mais controversas da história recente da F1

++ Dallara IR-18 x McLaren MCL34