'Schuremelas' para vender notícia sobre Schumacher

Cinco anos depois do grave acidente de esqui, é impossível saber o real estado de saúde do heptacampeão mundial de F1. ‘Há controvérsias’ em manchetes que dizem que ex-piloto acordou do coma, respira sem ajuda de aparelhos ou ajuda na carreira do filho

André Avelar, São Paulo

A proximidade dos cinco anos do acidente de Michael Schumacher, completados neste sábado (29), mobilizou a imprensa internacional na busca por notícias sobre o real estado de saúde do heptacampeão mundial de F1. Não demorou muito e surgiram manchetes não comprovadas de que o ex-piloto teria acordado do coma, estaria respirando sem ajuda de aparelhos ou até estaria empenhado em ajudar na carreira do filho Mick. Apesar do imenso desejo de fãs além do automobilismo, tudo não passa de ‘chorumelas’ para vender notícia, aqui singelamente escritas como ‘Schuremelas'.

Ao longo de cinco anos, o desrespeito ao ídolo atropelou o trabalho jornalístico em sucessivas ocasiões. O informado recentemente sobre o tabloide inglês The Sun, claro, pode ser verdade mas, como diria o personagem Pedro Pedreira, interpretado originalmente por Francisco Milani, na ‘Escolinha do Professor Raimundo’, “há controvérsias”. Nas esquetes, o aluno nada aplicado sempre exigia o equivalente a “uma foto”, “um laudo médico” ou “uma declaração oficial da família”. Sem isso, por favor, “não me venha com chorumelas” — referente à palavra "chorume" mesmo, no sentido de uma notícia insignificante, pouco esclarecedora, para não dizer 'irreal'. O assunto é, e sempre será muito delicado, para a desinformação.

Schumacher, como isso sim todo mundo sabe, sofreu um grave acidente em 29 de dezembro de 2013, em uma estação de esqui em Méribel, na França. Inicialmente, foi levado para o hospital de Moutier e depois, devido à gravidade da lesão, provavelmente um profundo traumatismo craniano, foi encaminhado ao hospital de Grénoble. Pronto. A partir daí, muito pouco se soube sobre o real estado de saúde do alemão. A família, como lhe é de direito, fez questão de proteger a figura daquele que para muitos é o melhor piloto de todos os tempos ainda que tivesse de privar o grande público.

Fãs além do automobilismo há cinco anos convivem com falta de notícias concretas sobre Schumacher
Divulgação/Site oficial/Michael Schumacher

As notícias, parcas, eram passadas lá atrás somente pela porta-voz Sabine Kehm. A mulher do ex-piloto, Corinna Schumacher, inclusive chegava a repreender publicamente quem sequer comentasse o estado de saúde do alemão. Felipe Massa, companheiro de Ferrari e de ótima relação com a família, se viu em uma polêmica por dizer o mínimo que sabia sobre as condições de Schumi. Até hoje, as pessoas mais próximas entendem que o alemão precisa de tranquilidade para se recuperar. A natural superexposição traria pouco de positivo ao paciente.

Ao longo de todos esses anos em trabalho de recuperação, Schumacher certamente passou nas mãos de incontáveis pessoas. Em plena era digital, ainda que abominável, seria fácil que alguém independente da atividade profissional tivesse uma imagem dele. Sem isso, diferentes órgão de imprensa procuravam notícias. Talvez, algumas dessas orgranizações, com intenções melhores do que vender notícia.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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O ex-piloto, em seu primeiro ano da aposentadoria definitiva, buscava na terra, na água e no ar alguma atividade em que a adrenalina ao menos chegasse perto da sentida nas pistas. Schumacher se aventurou por adestramento de cavalos, competições de lancha e até salto de paraquedas. Exímio esquiador como era possível ver nos eventos da Ferrari em Madonna di Campiglio, na Itália, era difícil pensar que o ex-piloto se envolveria em um acidente tão grave.

Ainda na época do acidente, em outra hipótese de que não se tem plena clareza, foi divulgado na imprensa alemã que Schumacher teria se acidentado ao tentar ajudar o filho de um amigo da família que estaria caído fora da pista de esqui. Foi aí que teria também se machucado e batido a cabeça em uma pedra. Para piorar, a câmera de ação presa no capacete teria perfurado o equipamento de proteção e lesionado ainda mais o ex-piloto.

Mas e as imagens dessa câmera? Se é que existem, nunca foram divulgadas. E talvez nem sejam. Longe da curiosidade da coisa, mas muito mais para esclarecer o acidente. O episódio lembra aquele último trecho da câmera onboard de Ayrton Senna antes de se chocar violentamente no muro da Tamburello. A imagem do trágico GP de San Marino tem a câmera cortada no exato momento em que a Williams passa reto na curva. Lá se vão quase 25 anos e nada dessas imagens.

Alvo de paparazzi

Oito meses depois do acidente, a equipe médica que cuidava do ex-piloto no hospital de Grenoble decidiu que Schumacher poderia se recuperar em casa. Tão logo a mansão em Glaid, na Suíça, foi cercada de paparazzi. Foi aí que a revista alemã Die Aktuelle publicou em sua capa uma imagem que dava a entender que Schumacher, forte e saudável, tomava sol no jardim de sua mansão. Os hoje cinco anos em provável coma sugerem que aquela imagem era insustentável.

Já em 2017, outra possível imagem agitou o entorno de Schumacher. Um fotógrafo teria conseguido uma imagem atual do piloto pela qual cobrava, na época, aproximadamente R$ 1,5 milhão para a sua comercialização. A imagem não só não foi veiculada em lugar algum como a família também entrou na justiça com processo pela invasão de privacidade. As fotos de Schumacher ainda são de cinco anos atrás. No mais, Jean Todt, o então chefe da Ferrari na Era Schumacher, foi cauteloso ao dizer que assistiu ao GP do Brasil ao lado do alemão. "Ele sente as pessoas amorosas ao se redor", limitou-se.

No atual cenário de recuperação, apenas Corinna — ou quem ela autorizar — poderá informar o real estado de saúde de Schumacher. De resto, tudo não passa de Schurumelas.