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Farfus: "O Brasil é um país imediatista"

Perdendo a sua "Disney", Augusto Farfus partiu do fechamento do Autódromo Internacional de Curitiba para fazer uma reflexão sobre o automobilismo nacional e o próprio Brasil, um país que está "tapando o sol com a peneira"

Uma entrevista com poucas perguntas e longas respostas. O que começou com um simples questionamento sobre o fim do Autódromo Internacional de Curitiba virou uma reflexão de Augusto Farfus a respeito não só do fim do circuito de sua terra natal, mas do automobilismo brasileiro como um todo.

O piloto da BMW no DTM ao menos teve a oportunidade de se despedir. Andou uma última vez no AIC durante o fim de semana que abriu a temporada 2016 da Stock Car, correndo como convidado de Rubens Barrichello. Foi, inclusive, o mais rápido entre os convidados no treino classificatório. Na corrida, estava em quinto até ser punido por um toque em Lucas Di Grassi em meio a uma confusão no S de Baixa.

O bate-papo passou também pelo escândalo que estourou na Confederação Brasileira de Automobilismo na última semana, com a divulgação de conversas privadas de comissários sugerindo prejuízos aos pilotos Cacá Bueno, principalmente, e Thiago Camilo.

Pelo modo como Farfus desenrolou suas ideias e se estendeu nos assuntos, a entrevista nem será apresentada ao leitor do GRANDE PREMIUM no habitual formato de perguntas e respostas. Ela vem em tópicos, com os comentários do piloto de 32 anos. Concordando ou não, o raciocínio tem seu sentido.

O FIM DO AIC

Em 2007, Farfus estreou no time da BMW no WTCC em Curitiba e em grande estilo: com vitória (Augusto Farfus vencendo no WTCC com a BMW em Curitiba (Foto: BMW))

“É muito triste. Curitiba é um dos poucos autódromos que, durante todos esses anos, sempre manteve uma condição boa. Você nunca chegou e falou ‘putz, a grama está muito alta’, ‘não está pintado’, ‘está largado’. É um autódromo que teve uma manutenção sempre regular durante muitos anos. Se você caminhar no paddock, não acha um piloto que fale que não gosta de Curitiba. É uma pista espetacular? Talvez não seja. Mas ela é simpática, agrada todo mundo. Tem o S de Alta, a curva da vitória, e infelizmente isso vai acabar.

Eu comecei a andar de kart em São José dos Pinhais, e daí, quando tinha meus seis ou sete anos, meu pai me trouxe aqui para assistir um treino de Stock do Paulo de Tarso. Ele guiava no meio do carro, é coisa de mais de 20 anos atrás. Foi a primeira vez que entrei em um autódromo, vi um carro de corrida. Aquele negócio mudou a minha vida. Eu já corria de kart, gostava, só que assim: você tem que levar em consideração que, há 20 anos, não tinha internet. Meu pai assinava a ‘Quatro Rodas’ e a ‘Duas Rodas’, que chegavam uma vez por mês em casa. Eu esperava meu pai ler para depois pegar. Hoje em dia, na internet, você vê vídeos, fica sabendo de tudo. Então, na primeira vez que entrei aqui, falei ‘noooosssa!”. O barulho, ver o carro passar na reta…

Daí em diante, toda vez que eu tive a possibilidade de vir aqui, eu vinha. Esse autódromo foi como uma Disney para mim. Criança pequena, uma época em que não existia tanta informação. Chegar aqui e ver tudo isso, para mim, foi um sonho. Ainda foi aqui que ganhei minha primeira corrida com a BMW. Assinei com eles em 2007, a abertura do WTCC era aqui, e eu venci. Isso foi espetacular, foi único.

E essa perda não é só para mim ou para Curitiba. É a segunda capital do sudeste, desse eixo Curitiba-São Paulo-Rio, que vai deixar de ter um autódromo. É onde os patrocinadores estão focados. A gente fica desfalcado nessa região e todo mundo perde: o esporte, as equipes, os patrocinadores. Aqui ainda é uma prova onde o público sempre comparece."

É um trabalho fácil? Não é. Mas sem dúvida nenhuma é viável ter um autódromo em uma cidade como Curitiba.

"A culpa é de quem? De ninguém, na verdade. É de um conjunto de fatores que você vai começar a elencar… Tem um governo federal muito ineficiente, que cuida do esporte no momento em que interessa. Agora, os atletas olímpicos recebem um apoio. Em setembro, provavelmente vão ser esquecidos. É um governo péssimo, extremamente corrupto, uma vergonha para o país. Você tem todas as entidades esportivas que, por causa dessa corrente que vem do governo, também sofrem para poder dar um suporte necessário, com pessoas que talvez não estejam à altura de comandar o esporte. Aí passa pela crise que tem no Brasil, que não ajuda também. E, no fundo, você tem um governo local que não fez a utilização correta do autódromo. Por último, tem a família proprietária do autódromo, não gerando uma renda, o que acontece? Eles têm que fechar.

Tem gente que fala que não é viável. Sem dúvida nenhuma é. É um trabalho fácil? Não é. Mas sem dúvida nenhuma é viável ter um autódromo em uma cidade como Curitiba. A República Tcheca é um país claramente mais pobre que o Brasil, e Brno é uma cidade muito mais pobre que Curitiba. Tem um autódromo fantástico que recebe até o Mundial de Motovelocidade. Por que aqui não poderia? Posso fazer uma lista de autódromos espalhados pelo mundo afora que não têm um décimo do que se tem aqui no Brasil, e isso não acontece.

Se olhar na Europa, os autódromos sediam shows, feiras de carro, corridas de atletismo, ciclismo, 500 mil tipos de eventos, para que se gere uma renda. Aqui, tirando track-day e arrancadas, não tem um automobilismo de base que poderia fazer uso da estrutura. E se fosse criado um campeonato que, por mais que pequeno, que não fosse o ideal, tivesse custo baixo e andasse em Curitiba, São Paulo e no Rio? Seria fácil para as equipes se locomoverem. Poderia fazer várias etapas, o que é ótimo para o menino que é jovem, ele precisa andar. Poderia usar o autódromo para curso de carteira de habilitação. A formação do motorista no Brasil hoje é muito fraca, é muito pobre. Você pode utilizar um autódromo, por exemplo, em vez de usar o pátio do Detran. Dá cursos aqui. São milhões de oportunidades."

O Brasil é um país que muitas vezes acaba sendo muito imediatista. Pensa só no que precisa agora. Está tapando o sol com a peneira, mas o problema de base não é resolvido.

"É uma pena a gente ver o Rio sumir, agora Curitiba fechar, Brasília está nesse impasse, vai ou não vai. Eu não vou culpar a corrupção por isso, mas o Brasil é um país que muitas vezes acaba sendo muito imediatista. Pensa só no que precisa agora. Está tapando o sol com a peneira, mas o problema de base não é resolvido.

Tenho casa aqui no Brasil, sou brasileiro e gosto muito do Brasil, mas não sei… O que me deixa muito triste aqui também é a insegurança. Faz 16 anos que moro fora. Chego aqui e vejo tanta coisa, os assaltos, toda essa corrupção, essa palhaçada com o governo, então tudo isso me deixa muito triste. A gente é um país extremamente rico. A gente tem frio no sul, calor no norte, terra para plantar, mão-de-obra, petróleo. Tem tudo. Talvez seja o país mais completo do planeta. Comandado por incompetentes.”

O NOVO ESCÂNDALO NA CBA

Augusto Farfus se despediu de Curitiba na Corrida de Duplas da Stock Car, correndo como convidado de Rubens Barrichello (Augusto Farfus se despediu de Curitiba na prova da Stock Car (Foto: Fernanda Freixosa/Vicar))

“Eu acompanhei, mas não segui tão de perto. Primeiro, independente de quem colocou na mídia, não sei se foi o Cacá, fulano, beltrano… Mas isso é um tiro no próprio pé. É uma atitude extremamente egoísta em que você prejudica todo mundo. Todos os pilotos, todos patrocinadores, toda a entidade que está envolvida aqui; a Vicar e o Maurício Slaviero, que fazem um trabalho excepcional. Você acaba prejudicando todos.

Tem que separar. Primeiro: não pode acontecer; é inaceitável e as medidas têm de ser tomadas. Mas isso cair na mídia prejudica a todos. No ano que vem, o piloto vai conversar com um patrocinador e o negócio não anda. Ou pior, você questiona se outros campeonatos no passado não foram ‘chunchados’. Quando acontece um troço desse, o esporte inteiro perde. Entendo e concordo que é um absurdo, independente de ter sido brincadeira. Não pode acontecer. Mas esse fato, e o fato de ter vindo à mídia, estraga o trabalho. Isso aqui é o trabalho de todas as pessoas envolvidas." 

Talvez eu seja muito altruísta, muito bonzinho, talvez tivesse que ser mais sacana. Mas eu acho que se a gente dividir o bolo para todo mundo, todo mundo ganha.

“Eu acho que o automobilismo é um esporte tão bonito, que fascina tanto as pessoas, e o bolo é grande o suficiente. Todo mundo pode ter uma fatia. E não é só no automobilismo. É em qualquer esporte, qualquer negócio. A partir do momento em que uma pessoa fale ‘é o meu bolo’, ‘é o meu negócio’, vai para o buraco.

O automobilismo é um troço lindo. Talvez eu seja muito altruísta, muito bonzinho, talvez tivesse que ser mais sacana. Mas eu acho que se a gente dividir o bolo para todo mundo, todo mundo ganha. É grande para todo mundo.

O cara que colocou isso na mídia, primeiro que não gosta do esporte e não tem respeito pelo esporte. No carro, a gente tem que ser egoísta. Na hora de disputar para ganhar a corrida, também vou ser. Mas tem situações em que a gente precisa se ajudar. Se eu te dou uma entrevista bacana, você põe um material bacana no site, o cara lê. Você consegue dar uma cobertura melhor, eu consigo ter uma visibilidade melhor. Eu consigo ter uma visibilidade melhor, vou vender melhor o meu patrocínio. E assim vai. Eu te ajudo, você me ajuda, e assim a gente cresce. É assim que eu penso.”

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