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Máfia do Parque Fechado

O afastamento dos ‘moleques’ comissários que disseram prejudicar Cacá Bueno volta a colocar a CBA no lodo e deixa Stock Car em dúvida às vésperas do início do campeonato

A notícia surgiu como uma bomba na manhã da última segunda-feira (29) e atingiu em cheio a credibilidade da principal categoria do automobilismo brasileiro. Em reportagem publicada pelo jornal ‘Folha de S.Paulo’, a jornalista Paula Cesarino Costa dá detalhes de uma conversa de um grupo de WhatsApp que envolve comissários de prova da Stock Car. Nas mensagens, as quais a publicação teve acesso, comissários de prova revelaram ter prejudicado Cacá Bueno, o maior campeão em atividade na Stock Car, implicando inclusive na perda de títulos. São declarações que, diante de tais confissões, configuram manipulação de resultados.

O tom adotado pelos comissários é de ameaça, deboche e abuso de poder. Em 7 de abril de 2015, dois dias antes da polêmica corrida de Ribeirão Preto — a qual Cacá, depois de não receber a bandeirada na corrida 1 em razão de um erro de uma comissária, esbravejou contra “o bando de imbecis”, se referindo aos “caras da CBA”, a Confederação Brasileira de Automobilismo —, o auxiliar de comissário Paulo Ygor Dias escreveu: “Vamos desclassificar ele (sic) por alguma coisa na próxima etapa…”.

Na mesma conversa, pouco depois, o engenheiro Clóvis Matsumoto, comissário técnico que hoje não atua na Stock Car, segundo a reportagem, também fez menção ao piloto carioca. “Bom, na minha época o Cacá foi 3 vezes vice pq eu não estava a fim de deixar ele ser campeão! Kkk”, episódio confirmado por Ygor. “Eu presenciei essa época do matsu… E tbm não faz muito que ele não foi campeão por uns pontinhos que tiramos dele…”

Cacá está inconformado. Mas não surpreso com o que percebe ser uma "quadrilha". 
(Simulação da mensagem dos comissários da CBA (Arte: Grande Premium))

“Obviamente, é algo repugnante e absurdo, porém não me surpreende, não. É algo que todos nós já sabíamos à boca pequena e que já desconfiávamos no ambiente, mas a gente nunca teve provas, nunca podíamos afirmar nada", diz Cacá ao GRANDE PREMIUM. Mas nunca fiquei quieto, nunca me conformei com as atitudes dos comissários, chegando a um ponto de a gente se estressar e ficar bravo, de qualquer coisa que aconteça eu falar no rádio o que falei no ano passado, e nada mais prova que o que eu disse lá no rádio. Você vê que o relacionamento não é bom porque o que eles fazem é um absurdo”, brada.

Na visão de Cacá, a conversa, ou “molecagem” dos comissários, é algo muito mais sério do que uma mera brincadeira. “Para mim, aquilo soa como uma confissão. Pode ser uma conversa entre eles, pode ser quem seja, mas é uma confissão do que eles fizeram, claramente me tiraram alguns títulos da Stock Car. Eles mesmos dão risada sobre isso e confirmam isso. O que a gente suspeitou hoje tem uma confissão. E isso é absurdo e gravíssimo. Manipulação de resultados no esporte é algo muito, muito grave. Eu lembro que o último juiz que confessou isso no futebol foi ameaçado de prisão e banido do esporte…”, citando o escândalo de arbitragem vivido pelo futebol brasileiro em 2005 e que teve como personagem principal o árbitro Edilson Pereira de Camargo.

Máfia do Apito

 

PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro

Não é a primeira vez que o esporte brasileiro de vê às voltas com um caso de manipulação de resultados. O mais famoso caso veio no futebol há pouco mais de uma década: a Máfia do Apito, que abalou as estruturas da arbitragem nacional e transformou 2005 num ano completamente diferente de qualquer outro na história do futebol brasileiro.

Na ocasião, a reportagem da revista 'Veja' descobriu e levou ao Ministério Público a informação de um esquema que envolvia dois árbitros negociando resultados de jogos com o apostador Nagib Fayad, o 'Gibão'. Os preços eram de R$ 10 mil por jogo. 

O então árbitro de destaque Edílson Pereira de Carvalho — que inclusive pertencia ao quadro da FIFA — e Paulo José Danelon foram rapidamente afastados e subsequentemente banidos do esporte. Os 11 jogos apitados por Edílson no Campeonato Brasileiro daquele ano foram anulados pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva e jogados novamente. A decisão é uma das mais controversas de toda a história do futebol brasileiro e se mostrou decisiva no resultado final da competição, que mudou o campeão: seria o Inter, foi o Corinthians.

Os envolvidos chegaram a ser presos, mas responderam em liberdade ao processo de estelionato. O Tribunal de Justiça de São Paulo, porém, concluiu que nenhum crime foi cometido, já que ações fraudulentas no esporte não eram tipificadas em 2005 — na verdade, só passaram a ser em 2010. Uma ação civil ainda corre na justiça, mas não há data prevista para o julgamento.

Mesmo com o esquema desenvolvido durante 2005, o STJD resolveu não fazer cancelamentos fora da Série A mesmo que Edílson e Danelon tivessem arbitrado diversas partidas da Série B e do Campeonato Paulista — e o árbitro FIFA havia feito jogos da Libertadores da América e da Copa Sul-Americana daquela temporada. A decisão do tribunal teve em vista que a Série B estava na antiga fase final — e cancelamentos poderiam impedir a continuação do campeonato – enquanto o Paulistão já tinha terminado há meses.

 

 

 

 

 
(Máfia do Apito chacoalhou com o futebol em 2005 (Arte: Grande Prêmio))

Cacá venceu a prova de Interlagos da Stock Car em 2004, mas acabou sendo desclassificado (Pódio da etapa de Interlagos da Stock Car em 2004 tinha Cacá Bueno, Giuliano Losacco e Ricardo Maurício (Foto: Vicar))

Bueno foi campeão da Stock Car em 2006, 2007, 2009, 2011 e 2012. Foi vice em 2003, 2004, 2008, 2010 e 2015. A punição sofrida por conta do episódio de Ribeirão Preto no ano passado acabou por lhe suspender da rodada dupla de Curitiba, no meio do ano, justamente na etapa em que o campeão Marcos Gomes mais pontuou. Cacá até hoje não engoliu a suspensão, mas ao falar sobre um passado mais distante, considera que os campeonatos de 2004 e 2010, especificamente, foram manchados.

“Não vou tirar os méritos dos pilotos que ganharam”, afirma o piloto da Red Bull. Em 2004, o título ficou com Giuliano Losacco, enquanto Max Wilson faturou a taça em 2010. “Não é chororô, mas os comissários confessam que manipularam os resultados com desclassificações minhas. Mas o que era suspeita, hoje uma certeza. Me tiraram dois títulos. Esse é o meu sentimento hoje, eles confessaram isso. Está escrito. Eu estou interpretando uma conversa deles”, diz.

Diretor de competição da CBA e presidente do CTDN (Conselho Técnico Desportivo Nacional), Nestor Valduga disse, à reportagem da ‘Folha’, que a entidade “vai instaurar uma sindicância, embora não tenha havido perda de pontos”, admitindo que existe certa deficiênciaporque são “decisões subjetivas”, mas absolvendo Matsumoto, um “engenheiro capacitado com um ótimo currículo”.

Cacá questiona o escudo de Valduga. “A parte que mais surpreende não é a confissão deles, não são eles dizendo que são moleques. O que mais surpreende é a CBA: o próprio presidente do CTDN, mesmo com a confissão dos seus comissários, defende dizendo que não tem nada errado e que a postura deles sempre foi correta.”

“Se nem com uma confissão o cara não trata isso como um fato absurdo, de que isso não pode existir de forma alguma, a gente só pode ver a confederação com absoluta desconfiança sobre a forma como ela trabalha com o automobilismo. Um chefe não pode, perante uma confissão do seu comandado, fingir que nada aconteceu. Isso é terrível”, emenda.

Apesar de um contexto que volta a coloca-lo no olho do furacão e diante de mais uma polêmica extra-pista, Cacá nega desânimo com o automobilismo brasileiro e com a situação em si. Na visão do pentacampeão, trata-se de uma chance de ouro para moralizar de vez o esporte a motor.

“Acho que me anima. Me anima porque nós vimos escândalos no futebol, e mesmo assim a torcida continua assistindo, os patrocinadores e os clubes estão lá. A gente viu escândalos recentes no vôlei, no tênis, no basquete, e acho que isso é uma oportunidade ímpar para limpar, expulsar quem é moleque, quem é incompetente, quem é mal intencionado, quem é corrupto — não estou dizendo que seja este um caso de corrupção —, mas em todos os casos. É uma chance de limpar o que há de podre, é a chance de conseguirmos uma investigação. Seria excelente chamar a atenção do Ministério Público para termos uma investigação maior e pudéssemos expulsar as laranjas podres do nosso esporte. Não sei se vai acontecer agora ou daqui a dez anos, mas vejo como uma luz no fim do túnel. E que seja a ponta do iceberg, que a gente elimine quem não tem de estar envolvido no esporte", fala.
(A chefia do automobilismo nacional para por estes caras: Cleyton Pinteiro e Nestor Valduga (Foto: Diário Motorsport))

Bueno repete que não confia na gestão e tampouco na lisura da CBA. “Essa investigação tem de ser de fora, seja da imprensa, seja do Ministério Público ou de alguém porque, como já disse o presidente do CTDN, eles não estão querendo levar isso muito adiante. Talvez seja o momento certo para pressionar por uma limpeza no nosso esporte, mesmo que seja uma limpeza da molecagem. Como falei, não há espaço num esporte sério, profissional e de alto risco para moleques. E assim, no mínimo, eles têm de estar fora do esporte. Que eles façam esporte só no videogame da casa deles, porque isso, sim, é coisa para moleque”, brada.

Diante de uma evidência que não foi necessariamente uma surpresa, Cacá só revelou uma preocupação: “É poder ver se isso foi uma iniciativa dos comissários — se foi de uma quadrilha, porque foi de algo ali entre eles, da cabeça deles — ou se foi a mando de alguém, da confederação ou de promotores. A única coisa que importa para mim é se foi algo dos caras ou a mando de alguém”, disparou Bueno, para depois lamentar: “Isso afetou minha imagem como piloto de forma absurda, afetou meus resultados, minhas premiações, meus contratos futuros por ter menos títulos e menos vitórias. Me causou um prejuízo financeiro e de imagem incalculável", queixa-se.

A partir de quarta-feira, Cacá e toda a caravana da Stock Car já vão estar em Curitiba para os preparativos visando a primeira corrida da temporada 2016. Bueno terminou 2015 tendo de responder sobre como lidar com uma punição injusta que acabou por prejudicá-lo diretamente na luta pelo título. Em 2016, antes mesmo de acelerar, o piloto volta a ver seu nome envolvido em polêmicas com a CBA. Mesmo assim, o pentacampeão mantém sua motivação inabalável.
(O que os comissários da CBA fizeram é molecagem, diz Cacá Bueno (Arte: Grande Prêmio))

A única coisa que importa para mim é se foi algo dos caras ou a mando de alguém

“Vou com o mesmo espírito de sempre, de tentar vencer. Ano passado, por uma briga com a confederação, não corri duas corridas, de modo que acho que o campeonato poderia ser bem diferente. E mesmo sendo tirado dessas duas corridas, eu não desisti do campeonato, briguei até o final, então continuo com muita vontade de vencer, com o espírito ainda lutador, inconformado com a derrota. Eu gosto de vencer e trabalho para vencer…”

“Agora, não sei se vai ser o sexto campeonato, se seria mais que o sexto, se conseguir ganhar [risos]. Então vou para Curitiba com o intuito de vencer de novo o campeonato, de fazer meu trabalho, que não é nenhum trabalho de moleque, bem feito. E a gente espera que essas confissões façam a gente zerar uma conta, que o assunto seja sempre automobilismo, que não seja escândalo. Infelizmente, a Stock Car é muito fértil em escândalos, e geralmente vindo de fora para dentro, do lado da confederação para dentro da competição. Tomara que este seja o começo do fim."

Tudo o que Cacá junto com os outros pilotos e equipes, fãs do esporte, patrocinadores e marcas envolvidas querem é que a Stock Car se livre de uma vez por todas das polêmicas que insistem em rondar a categoria. Polêmicas que, invariavelmente envolvem a CBA, gente de terno e gravata que jamais sentou num carro de corrida e manda e desmanda no automobilismo nacional, arrecada rios de dinheiro com track-days da vida e não é capaz de garantir minimamente a lisura e isenção de comissários que, a partir de agora, colocam em suspeita resultados de uma categoria que se reergueu a duras penas para se tornar uma das mais importantes do esporte a motor.

Sem interferência técnica

 

Maurício Slaviero, diretor da Vicar, empresa que promove e organiza a Stock Car, manifesta-se sobre o escândalo e defende o afastamento dos comissários citados. Por outro lado, entende ser muito difícil ter havido alguma interferência externa que pudesse causar uma manipulação de resultados.

“A matéria nos deixou perplexos, surpresos e indignados com o que foi revelado. A notícia é realmente preocupante. A gente tem certeza de que foi uma atitude isolada e estamos de acordo com o que o piloto Cacá Bueno citou na matéria e que os culpados devem ser sumariamente banidos do automobilismo se eles tiverem feito algo de errado. É a opinião do Cacá e também é a minha em particular e da Vicar.”

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“O regulamento é muito amarrado, muito detalhado, e é quase uma ciência exata, não existe nada subjetivo. É tudo muito específico. Então não há nada que seja feito. Mas acho que é fundamental a investigação, e a CBA já confirmou que abriu o inquérito e vai investigar para ver o que houve de errado”, afirma o dirigente.

Slaviero reitera que o papel da Vicar fica restrito a organizar e promover o evento, e que o poder de ditar as regras propriamente ditas cabe exclusivamente à CBA.

“A Vicar não dita as regras. Ela sugere regras. Essas regras são oficializadas pela CBA. Quem faz essas regras serem cumpridas são os comissários técnicos e desportivos. Não temos nenhuma ingerência sobre isso. A Vicar é totalmente dedicada à parte organizacional e promocional do evento. Essa carga desportiva é da CBA. Por outro lado, é óbvio que eles não vão continuar na categoria até que as investigações sejam concluídas. Ele estão afastados, é algo que a CBA nos comunicou”, finaliza.
(Maurício Slaviero, diretor-geral da Vicar (Foto: Vicar | Arte: Grande Prêmio))

Os caras 'chatos' 

 

RENAN DO COUTO, de São Paulo

Entre as mensagens enviadas por Paulo Ygor Dias, outro nome do grid apareceu em meio ao assunto Cacá: “Nos (sic) temos que foder ele e o Tiago (sic) Camilo”. “Os caras mais chatos”, seguiu. Ainda sugeriu que na etapa seguinte, no Velopark, ele fossem escolhidos para o teste de saída do cockpit para “ralar as canelinhas”. Dito e feito: no RS, Camilo 'ralou as canelinhas'.

O piloto da RCM fica dividido dentro da polêmica. Por um lado, ele lamenta ter sido citado. Em seu Instagram, resumiu o sentimento: “Que vergonha, é só o que posso sentir depois de ler um absurdo desses”. Por outro, sente certo “alívio” e não se arrepende das vezes em que reclamou e, por isso, acabou rotulado como “chato” e sendo mencionado na reportagem que trouxe o escândalo à tona.

“Com relação à matéria, não tenho muito o que falar. É mais em cima do Cacá. É triste saber que pode ter havido manipulação de resultado e o Cacá sofrido com isso, e ao mesmo tempo eu fico me questionando se, por meu nome ter surgido ali, de repente não possa ter acontecido comigo também em alguma situação”, afirma Camilo em entrevista por telefone ao GRANDE PREMIUM. “Como que eu não vou pensar? Depois dessa, nunca vou ter certeza se foi algo pessoal ou não.”

“Comigo não tem politicagem. Eu defendo o certo e acredito no que é correto sempre. Não fico dando volta e falando em círculos para fugir do assunto e deixando a situação de lado porque posso sofrer com isso no futuro, de os comissários me perseguirem. Não tenho medo desse tipo de coisa. O que eu acho certo, falo, e acho que o Cacá tem uma postura muito parecida, por isso que o nosso nome vem à tona nesse tipo de matéria”, continua.

A CBA tem que se responsabilizar. Isso tem que ser o divisor de águas

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Camilo fala que sempre prefere acreditar que uma decisão da qual discorde tenha sido tomada de forma equivocada, e não com segundas intenções e agora espera que o jogo vire e as pessoas sérias do automobilismo deixem de ser prejudicadas por causa de atos de quem veste a camisa da CBA.

“A CBA tem que se responsabilizar por isso. A categoria não tem nada a ver. No final das contas, quem sofre são as pessoas sérias que trabalham e estão envolvidas no circo da Stock Car, que tentam fazer o show para os fãs e o público, e ao mesmo tempo aparece uma situação complicada dessa. É lamentável e triste para todos nós que fazemos parte do esporte”, diz.

“Eu estou aliviado por essa matéria ter vindo à tona, por ter vazado essa conversa. De verdade, vai ser o divisor de águas. Tem que ser o divisor de águas. A gente tem que usar muito o que aconteceu para que isso se reverta, para que não aconteça mais e para que pessoas sérias possam ser colocadas no poder e as corridas sejam disputadas na pista e de forma limpa."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
(Thiago Camilo recebe bem a notícia da molecagem dos comissários da CBA (Foto: Fernanda Freixosa))

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