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Por trás do escândalo

No palco de abertura da Stock Car em Curitiba, o GRANDE PREMIUM rondou os bastidores de todo o episódio que chocou o automobilismo com um foco: a ação da CBA

Divisor de águas é um termo comum no paddock desde que estourou este novo escândalo no automobilismo nacional, com o qual concorda Waldner Bernardo, presidente da Comissão de Velocidade no Asfalto da CBA. Só que antes ele quer esperar para saber se realmente será possível punir alguém.
 
Braço-direito do presidente Cleyton Pinteiro, Dadai, como é mais conhecido, foi quem apareceu no Autódromo Internacional de Curitiba na etapa da Stock Car para representar a entidade e falar a respeito do caso revelado pela 'Folha de S.Paulo'. O jornal teve acesso a conversas de WhatsApp entre comissários técnicos da CBA que sugeriam represálias a pilotos — Cacá Bueno e Thiago Camilo foram os competidores citados nominalmente.
 
A notícia pegou Dadai e a CBA de surpresa, mas o dirigente vai além: será motivo de surpresa ainda maior se irregularidades forem comprovadas.
 

Dos pilotos, Cacá Bueno foi o principal alvo das mensagens de texto dos comissários (Cacá Bueno (Foto: Bruno Terena/Red Bull Content Pool))

Desde o princípio, o tom dado pela entidade à suspeita de manipulação é de que os comissários técnicos não têm o poder de punir um piloto. Eles têm como função "emprestar conformidade ou desconformidade ao veículo de competição diante do regulamento da categoria", segundo o comunicado divulgado na última segunda-feira, quando o assunto veio à tona. As sanções são efetivamente aplicadas pelos comissários desportivos.
 
Em Curitiba, Dadai conversou por mais de uma hora com o GRANDE PREMIUM a respeito do caso. Falou da notícia em si, do vazamento das conversas — sabe quem foi, porém não tem como provar —, dos procedimentos da CBA e dos próximos passos, o primeiro deles sendo a Comissão de Inquérito criada. Além disso, o comissário Clóvis Matsumoto e o auxiliar Paulo Ygor Dias estão afastados por tempo indeterminado.

O pernambucano, que antes de assumir um cargo diretivo na CBA passou pelo posto de comissário desportivo, deixou claro que não imagina como alguém conseguiria manipular o resultado de uma corrida. "Eu ficaria tão surpreso quanto fiquei com a revelação das conversas se ficasse provado que houve manipulação. Não consigo enxergar de forma prática como manipular o resultado de uma corrida. Não estou dizendo que não possa ter, mas, da experiência que a gente tem, é difícil que possa ter", diz o dirigente.
 
"Existem fatos e tudo vai ser apurado. Hoje não posso condenar ou absolver ninguém", esclarece.

As vistorias

 

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A CBA diz que punições técnicas não podem ser inventadas porque: 1) o regulamento é objetivo; 2) as vistorias são acompanhadas pelas equipes e pelo próprio piloto. É uma lógica dualista: preto no branco, certo e errado, isso ou aquilo. Não há meio termo.
 
Diz o comunicado divulgado no dia 29 de fevereiro: "As vistorias técnicas são realizadas, de ofício, pelos comissários técnicos ou por reclamações de pilotos ou de equipes concorrentes, na forma do Código Desportivo do Automobilismo e, em qualquer hipótese, são acompanhadas, pessoalmente, no local em que os carros são vistoriados, por membros da equipe proprietária do veiculo, inclusive pelo piloto, se assim o desejar. Os regulamentos técnicos das categorias são objetivos, não se prestando, em regra, a interpretações divergentes."
 
Na prática, não é bem assim. O GRANDE PREMIUM ouviu pilotos e membros de equipes, e entende que se, por um lado, realmente é difícil se inventar uma punição, é, sim, possível existir um rigor maior com um ou outro. Também é possível que uma punição tenha deixado de ser dada: que um comissário faça vista grossa com uma irregularidade em um carro para, assim, não beneficiar um adversário. O resumo da ópera é que não adianta estudar as punições aplicadas a Cacá Bueno para saber se ele foi realmente prejudicado, pois, no fundo, todas as provas que não tiveram punições aplicadas estariam sob suspeita. E, claro, não há mais como se refazer a vistoria de um veículo. Não é acusar ninguém, é apenas buscar compreender como se pode burlar o regulamento.
 
O raciocínio foi apresentado a Dadai. "Possível é, não adianta dizer que não é. Se eu medi e vi que não está [de acordo com as regras], se eu não for honesto — não estou dizendo que são desonestos —, eu posso deixar passar", concorda o dirigente.
 
As inspeções realizadas após as classificações e as corridas são baseadas em itens pré-estabelecidos — não há como verificar todos os carros de cabo a rabo. É assim até na F1. Também é possível que uma equipe solicite que os comissários investiguem um item específico em algum carro — neste caso, submetendo também o próprio carro à inspeção. E os comissários ainda podem solicitar aleatoriamente durante um evento que um time desmonte o seu carro para que algo seja avaliado. Enfim, fora dos eventos, os carros dos líderes dos campeonatos são ocasionalmente levados à fábrica da JL, na Grande São Paulo, para uma varredura.
 
Dadai destaca mais de uma vez que o nível dos engenheiros e mecânicos das equipes da Stock Car é alto, logo, é difícil enganá-los. E ainda apresentou outro motivo para acreditar que tal tipo de manipulação é improvável. "Se você analisar a vistoria como ela é feita no domingo, vou lhe perguntar: 'Será que é possível o cara fazer vista grossa para alguém?'. Na hora em que o carro está sendo vistoriado e medido, os engenheiros das outras equipes estão ao lado. Até sugiro que você pergunte para as equipes se eles são proibidos de acompanhar a vistoria técnica."
(O que os comissários da CBA fizeram é molecagem, diz Cacá Bueno (Arte: Grande Prêmio))

O GP* conversou com mais de dez pessoas, e o coro foi unânime: as equipes acompanham apenas a vistoria do próprio carro. Não se acompanha a vistoria de uma equipe rival. Engenheiros e mecânicos até ficam por perto, mas não o bastante para conferir os procedimentos. "É até invasivo", diz um piloto. Um chefe de equipe vai além no exemplo dado. "Imagina na F1, o carro da Mercedes todo aberto na inspeção e os caras da Ferrari ali vendo tudo". O mais importante: "Parte-se do princípio de que os comissários são honestos no trabalho que fazem.”
 
Como sublinha Dadai, o alto nível dos engenheiros e mecânicos permite que eles, ao se aproximar de um carro desmontado, entendam como os adversários acertam seus carros. De certo modo, é um acordo de cavalheiros, embora um mecânico inclusive tenha dito que acontece de os próprios comissários pedirem para que eles se afastem na hora da inspeção de um carro de uma equipe rival.
 
Ao se aproximar do Parque Fechado após a Corrida de Duplas em Curitiba, um segurança alerta que o acesso é permitido apenas ao pessoal das equipes.
 
Por fim, um outro ponto levantado diz respeito ao rigor que se tem com um ou outro. Segundo um engenheiro, "nenhum carro do grid da Stock Car está 100% dentro das regras". No entanto, há irregularidades que não representam ganho de performance. Aí, depende do rigor com que um ou outro é tratado. Mais de uma pessoa conta ao GRANDE PREMIUM que não fala publicamente a respeito justamente por temer que, em uma situação dessas no futuro, seja alvo de tal rigor.

 

Felipe Giaffone foi indicado pela Associação de Pilotos para comandar a Comissão de Inquérito (Felipe Giaffone foi indicado pela Associação de Pilotos para comandar a Comissão de Inquérito)

A comissão de inquérito

 

Apenas um dia depois da matéria-bomba publicada pelo jornal ‘Folha de S.Paulo’, a CBA decidiu responder ao escândalo e se apressou em criar uma Comissão de Inquérito, com o objetivo claro de apurar a veracidade dos comentários feitos pelos comissários e se houve, de fato, a manipulação de resultados de provas da Stock Car.

E a entidade que rege o esporte a motor no Brasil chamou duas pessoas ligadas ao automobilismo e também, ainda que de forma mais sensível à própria Confederação, para integrar o grupo. Foram eles: o ex-piloto Chico Serra, tricampeão da principal categoria nacional, e o presidente da Federação de Automobilismo do Espírito Santo, Robson Duarte. Um terceiro nome foi indicado pela recém-formada Associação dos Pilotos: Felipe Giaffone, com larga experiência no automobilismo nacional e internacional.

A CBA ainda informou que a Comissão terá um prazo de 30 dias para apresentar um relatório final sobre as atividades dos comissários da Stock Car. Obviamente, os dois nomes envolvidos no imbróglio, Paulo Ygor Dias e Clóvis Matsumoto, devem receber atenção especial na investigação que será guiada pelo trio.

A primeira reunião da Comissão aconteceu no sábado da Stock Car em Curitiba. O encontro, que foi conduzido por Dadai, teve como principal assunto a forma como a investigação será feita. 

Ao GRANDE PREMIUM, o presidente da Comissão de Velocidade no Asfalto da CBA garantiu que o grupo é livre e que terá acesso a todas as informações necessárias para checar as denúncias. Admitiu, entretanto, que os próprios membros da Comissão manifestaram dúvidas com a forma de atuação grupo. “Felipe estava com dúvidas, alguns pilotos disseram que talvez a Comissão não desse em nada… O Chico também manifestou dúvida. Mas eu disse a eles na conversa que tivemos: ‘Acho, sim, que vocês podem, a partir do ponto de vista dos resultados, analisar o que aconteceu’”, explica. 

“Sendo objetivo, o que foi posto em questão é o seguinte: alguns campeonatos poderiam ter sido tirados por punições inexistentes ou manobras de punições. Mas se você pegar as pastas de provas e analisar os campeonatos em questão, você já vai ter efetivamente uma prova se houve um prejuízo ou não”, garante o dirigente. “A Comissão vai ter condição de levantar todas as punições e verificar efetivamente o que aconteceu. E, ainda, se esses pilotos que foram citados tiveram nestes anos prejuízos efetivos.”

A isenção do grupo também foi colocada em xeque, mas Dadai defende e que diz que “não faria sentido colocar membros da própria CBA na Comissão”. E insistiu que a escolha foi acertada, uma vez que o grupo terá um ex-piloto bastante experiência e que hoje “assiste às corridas na sala dos comissários”, se referindo a Serra, além de pessoas idôneas como Giaffone e Duarte. 

“Acho que não faria sentido a CBA criar uma Comissão e colocar só gente da CBA lá dentro. Não que a gente não tenha pessoas capazes de fazer isso, mas se nós estamos sendo investigados — não é uma questão técnica, nós estamos sendo investigados, quer dizer, estamos falando de credibilidade, porque isso tudo afetou a entidade —, é importante que seja assim”, esclarece.

O dirigente, então, sai em defesa dos escolhidos. “A nomeação não foi para Felipe Giaffone. A gente pediu que a Associação de Pilotos indicasse um nome. Inclusive, na conversa que tive com o Felipe, disse a ele: ‘Felipe, se estão falando que a CBA está empurrando essa bucha para os pilotos, se estão criticando e dizendo que vocês não tem condição de julgar, então nomeie alguém. Nomeie uma auditoria esportiva. Faça isso’”, conta.

“A nomeação não foi de Felipe Giaffone. Se você pegar o documento divulgado à imprensa, vai ver que a CBA oficiou a Associação de Pilotos para que ela indicasse um representante. Mas também poderia ter sido qualquer pessoa. A Comissão é que tinha de indicar”, justifica. “O Felipe é uma pessoa idônea, respeitada no meio pelos pilotos, promotor de eventos também e alguém que sabe como as coisas funcionam. Mas não existiu nenhum pedido para que fosse o Felipe. No caso do Chico Serra, a ideia surgiu porque ele é um ex-piloto, ainda que pai de piloto, mas é uma pessoa idônea. E você nomear pessoas que não tem noção disso aqui, pode ser mesmo que não dê em nada. Acho que temos pessoas do meio, honestas, que podem efetivamente buscar essas informações. O Chico tem experiência suficiente para entender que se uma punição foi maldosa ou não. É uma questão apenas de ter pessoas capacitadas.” 

“E nós pensamos no Robson porque seria bom ter alguém da CBA para ajudar no acesso e trabalhando com Chico e Felipe”, acrescenta.

Uma das grandes queixas, especialmente dos pilotos citados nas conversas dos comissários, é quanto ao acesso às informações. Para Cacá e Camilo, é impossível fazer uma investigação sem acesso a ligações, e-mails, contas. Dadai, por outro lado, entende que os dados atualmente disponíveis serão suficientes para que se alcance a verdade dos fatos. E garantiu que a Comissão terá autonomia de trabalho.

“Em um primeiro momento, a Comissão vai avaliar a pasta de provas”, revela. “Acesso a ligações telefônicas não tem como, mas a Comissão pode pedir a esses comissários a transcrição total dessas conversas, e isso é importante. Vão ter autonomia. E as contas da CBA estão disponíveis no site também. E o fator principal agora é analisar que prejuízo cada um desses pilotos teve nos últimos anos”, argumenta.

O outro lado

O GRANDE PREMIUM também ouviu Chico Serra e Felipe Giaffone sobre a formação da Comissão de Inquérito e o trabalho que terão de conduzir a partir de agora. Ambos veem a “bucha” como uma forma de melhorar o automobilismo e a própria CBA. Mas deixaram claro que ainda é muito cedo para falar em procedimentos ou como as investigações vão funcionar. Ambos também ressaltaram que não cabe à Comissão julgar. 

“Na verdade, nós estamos começando esse processo agora”, diz Serra. “Eu fui comunicado sobre isso nessa semana. Eles me ligaram e me perguntaram se eu participaria dessa Comissão. Eu cheguei hoje aqui em Curitiba (sábado) e nós acabamos de nos reunir para falar sobre isso. Então, neste momento, nós estamos realmente montando tudo isso e vamos tentar esclarecer esse caso da melhor maneira possível”, afirma. “Agora é muito cedo para a gente falar alguma coisa. Mas a gente vai tentar apurar tudo que for possível e passar isso adiante. Uma decisão final ou um julgamento não cabe a nós. Nós estamos aqui apenas para colaborar.”

Serra também falou sobre o episódio em si e, deixando claro que a opinião é de alguém que está de fora e não do membro da Comissão, o ex-piloto criticou a atuação dos comissários e acha que o caso surge em um momento em que a CBA e o próprio esporte estão tentando melhorar. 

“Quero deixar bem claro uma coisa: na minha opinião, e não estou respondendo aqui como parte da Comissão, a minha opinião é que não acredito que um resultado na Stock Car tenha sido alterado ou diferente por causa de algum fiscal. Eu não acredito nisso. Eu não posso garantir, mas tenho quase certeza de que isso nunca aconteceu. Mas essa é a minha opinião”, frisa.

“Agora, tudo isso que aconteceu, essa troca de WhatsApp, as pessoas podem até falar que foi uma brincadeira, mas não cabe a um fiscal fazer uma brincadeira dessas. E, depois, isso tudo chegar na imprensa e chegar aonde chegou. Então, é claro que isso aí não é legal para o automobilismo. Não é legal para a categoria e nem para ninguém esta envolvido com isso aqui. Esse é um esporte sério feito por pessoas profissionais. E um negócio desses realmente não poderia ter acontecido. Claro que quando acontece um negócio desses as coisas tendem a melhorar, porque alguma coisa tem de ser feita”, completa.

Giaffone, por sua vez, foi um pouco mais longe. O piloto da F-Truck também acha a investigação que caiu em suas mãos é algo difícil de conduzir. E embora não vislumbre nenhuma grande mudança, entende que há uma luz no fim do túnel. 

“Caiu essa bucha na nossa mão, algo que eu não estava esperando”, admite ao GP*. “Por isso mesmo falei muito com o Cacá, porque é muito difícil. Tudo o que a gente pode fazer agora é colher todas as informações com o Cacá do que ele acha que pode ter sido atrapalhado no passado, levantar a pasta de provas que a CBA tem e ver se coincidem algumas coisas”, explica Felipe. 

“O Cacá não está esperando nenhuma mudança”, ressalta. “O que ele está sentindo, e isso eu não duvido, é que existe uma perseguição de uma pessoa pra cima dele, e isso aí a gente vai investigar. Não é impossível. Acho que tudo o que vai dar para aprender — nada de muita coisa vai acontecer — com essa história é que vamos tirar proveito e melhorar essa parte de comissários e cobrar mais da CBA formação, treinamento, porque o que a gente acaba desconfiando, como piloto, é que às vezes acontecem algumas coisas aqui, que lá em cima a não necessariamente se fica sabendo, e aí acabam pegando o pessoal por causa de uma ou outra pessoa.”

“Então é tentar fazer esse trabalho, mas, sinceramente, não acho que isso vai mudar nada. Mas acho que vamos tentar tirar proveito e conseguir com isso ir melhorando a CBA”, enfatiza.

Diante do ceticismo, Giaffone chegou a dizer à CBA que a interferência do Ministério Público no caso seria de grande valia e revelou que a entidade também se mostrou aberta à possibilidade. “Falei até isso para a CBA. Quem tem o poder de entrar lá, de acessar o computador deles, é o Ministério Público. E a própria CBA, pelo pouco que conversei com eles, está aberta a isso”, diz.

Questionado pelo GP*, Dadai de fato não mostrou objeção à uma investigação externa, mas fez um comentário a respeito. Ele imagina que o MP está sobrecarregado com as investigações referentes à política nacional: “Se for esse o caminho, vamos fazer. A gente não tem nada a esconder. Só não sei se o Ministério Público ia topar com a situação que há no país hoje.”

​Por fim, Felipe entende que é complicado dizer que Cacá Bueno é perseguido pelos comissários, mas não descarta a possibilidade. “O Cacá é sempre um piloto polêmico, é o jeito dele e, certo ou errado, essa é a forma como ele leva. E acaba ficando muito exposto. Se ele fosse o mais neutro possível, talvez não seria menos punido no passado. O problema é que se um comissário não vai com a cara de uma equipe, ele pode… E isso aí, infelizmente, não é só na Stock Car, é em qualquer lugar: da F1 ao kart. Mas acho que a CBA precisa estar sempre atrás para que isso não aconteça, ou que aconteça o menos possível. Então precisamos estar muito alinhados de que a CBA tenha pessoas que não vão tomar atitudes diferentes se o piloto é polêmico ou não”, pede.

O vazamento
 

 

"Eu sei da motivação e eu sei quem vazou. Mas eu não posso provar", afirma Dadai. "Se eu tenho um grupo de WhatsApp com cinco pessoas, e uma pessoa daquele grupo de comissários passa a não ser escalado, subentende-se que quem vazou foi aquela pessoa que não estava sendo escalada – até porque, em certo momento, ela questionou por que não estava sendo. 99,9% das possibilidades de ter sido essa pessoa."
 
O dirigente garante não sabia do grupo no WhatsApp, que tinha 20 participantes, mas também não vê sua existência necessariamente como um mal. "Quem não tem grupo hoje em dia? Eu tenho um monte. E depois já me disseram também que esse grupo era usado para questões práticas, para se tirar dúvidas."
 
A rota da notícia é outra razão que suscita curiosidade, afinal de contas, não parece ter sido uma investigação jornalística. A informação chegou às mãos de uma jornalista de alto escalão na sucursal carioca da 'Folha'. Uma teoria que surgiu no paddock, e com a qual Waldner Bernardo concorda “com a linha de raciocínio", é de que houve motivação política. Aproxima-se um período eleitoral na CBA, e o surgimento de um escândalo poderia abalar a sucessão de Pinteiro — no caso, o nome do próprio Dadai é cotado como candidato da situação.
 
"Seja uma ação isolada, seja uma ação articulada, essas pessoas não conseguiram entender que não estavam fazendo mal a duas pessoas. Elas fizeram um mal ao automobilismo", declara. "Uma situação dessa põe em xeque a seriedade da instituição. Consequentemente, o patrocinador que vai lá e põe dinheiro vai dizer 'será que esse é um negócio sério para que eu continue colocando dinheiro?'. Os pilotos ficam achando que a coisa não é séria. O promotor fica achando. O prejuízo que essa ação causou, seja ela por uma raiva individual, ou por uma ação arquitetada, é muito grande para o automobilismo brasileiro. É uma mancha que vai demorar a sair." 
 
Se com o tempo ficar provado que houve uma irregularidade, o vazamento terá sido positivo? "Eu não considero bom nem ruim. Não quero fazer nenhum pré-julgamento. Qualquer pré-julgamento é leviano. Posso te dizer que foi bom, e lá na frente a gente ver que foi muito ruim. E pode ser que, lá na frente, a gente separe o joio do trigo." 
 
"A minha opinião pessoal — não a da instituição, que fique muito claro isso: por ter sido comissário, por conhecer bem o Ygor e o Clóvis, eu acho que eles deixaram uma antipatia, no caso, não gostar do piloto A ou B, passar dos limites. Foi uma bobeira, bobagem, uma conversa de bar. Falando besteira. Eu acho que foi isso. Eu ficaria muito surpreso se efetivamente ficasse provado de que havia a intenção, que havia o 'não vou punir esse cara, mas vou punir esse', 'vou fazer vista grossa'. Eu ficaria muito surpreso."

O comissário técnico Clóvis Matsumoto está no centro da polêmica (Clóvis Matsumoto (Foto: Fernanda Freixosa/Vicar))
A formação dos comissários

 

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Não há um curso específico para se formar comissários da CBA hoje em dia. Dentro do automobilismo, a formação se dá "na prática", de acordo com o presidente da Comissão de Velocidade no Asfalto.
 
Segundo ele, a entidade frequentemente recebe mensagens de pessoas interessadas em começar a trabalhar no esporte. A orientação é para que se procure as federações locais como porta de entrada. "Tem que procurar a federação e se inserir no meio. Todos os comissários que estão aqui hoje são comissários de suas respectivas FAUs, trabalham também nos regionais. O meu exemplo: fui bandeirinha em autódromo, fui chefe de bandeirinha, você começa a se envolver com a federação, fui diretor de prova na federação, cheguei a ser presidente, hoje sou vice e assumi a Comissão de Velocidade", relata.
 
"Todo automobilista tende a ser formado na prática. A verdade é esta. Todos os comissários desportivos e técnicos são pinçados das federações. Os regionais são uma ótima escola", comenta. "O quadro técnico é formado em pelo menos 90% por engenheiros. Já os desportivos são, em sua maioria, advogados, pessoas que entendem de legislação."
 
O que a CBA faz é, "pelo menos uma vez por ano", organizar reuniões com o seu quadro de comissários para discutir procedimentos de trabalho, regulamentos, etc., bem como agregar novos colaboradores vindos das federações regionais. "O ideal é que tivesse uma frequência maior, mas, nos últimos anos, a gente vem com um problema de custos, de contenção, e você fica meio amarrado para fazer essas coisas", reconhece. Dentro destes grupos, comissários com maior experiência lideravam as discussões — Matsumoto é um destes 'comissários-sênior'.
 
Mas Dadai ressalta que isso não é exclusividade do Brasil. "Acho que a gente tem dois profissionais de automobilismo no mundo, do ponto de vista desportivo: Herbie Blash e Charlie Whiting. Os comissários da FIA nos GPs são amadores, não são remunerados. O Felipe Giaffone não fez curso para ser comissário da F1, e estamos da maior categoria do automobilismo. Por seu conhecimento e discernimento, ele vai ser comissário do GP do Brasil e de mais uma ou duas provas. E um dos grandes nomes do automobilismo brasileiro, Carlos Roberto Montagner, é arquiteto de formação."
 
E em meio ao coro dos pilotos pela profissionalização da CBA, o dirigente defende que não se pode confundir o profissionalismo no exercício do trabalho com um vínculo por CLT. "Todos estes que estão aqui são profissionais no que fazem."
 
Segundo Dadai, é inviável do ponto de vista financeiro ter comissários que são funcionários da CBA. Seu cálculo: partindo de um salário mensal de R$ 10 mil para um engenheiro no mercado de trabalho e contando os encargos sociais, um só comissário custaria R$ 195 mil por ano, sendo que a taxa paga pela Stock Car à Confederação é de R$ 275 mil em 2016, de acordo com o Regimento de Taxas do Código Desportivo do Automobilismo (CDA). Em Curitiba, contando comissários, auxiliares e diretor de prova, havia dez pessoas.
 
"Por que não aconteceu no resto do mundo?", questiona. "E não tem como repassar essa conta para o promotor, isso inviabilizaria o campeonato", pondera.
 
Chegou a existir, nos últimos anos da gestão de Paulo Scaglione, um Centro de Excelência de Oficiais de Competição, o CEOC. Tratava-se de um programa que funcionava no Autódromo de Interlagos e visava atualizar e uniformizar o trabalho dos oficiais já inseridos dentro do esporte, bem como formar novos profissionais — neste caso, eles deveriam procurar suas federações locais e então ser encaminhados para o CEOC. A curso foi descontinuado na atual gestão.

Segundo Dadai, Cleyton Pinteiro defendeu uma investigação profunda, “doa a quem doer” (A chefia do automobilismo nacional para por estes caras: Cleyton Pinteiro e Nestor Valduga (Foto: Diário Motorsport))

As consequências

 
A CBA está preparada para o caso de estar diante de uma conspiração? De precisar trocar todo o seu quadro técnico e rever os seus conceitos?
 
"Se você tirasse todo mundo hoje, teria gente para colocar no lugar na mesma hora? Não vamos mentir. Não tem. Até porque eu deixei claro aqui que a formação é pinçada. Só que, diante do acontecido, isso já foi levantado, e a gente tem que entender que, se houver necessidade de substituir peças, a gente tem onde buscar com uma filosofia diferente. Vamos supor que fique provado que houve uma grande conspiração. Se tiver que trocar toda a técnica, pode ter certeza que a gente vai encontrar gente gabaritada. Pode ser até que custe, que essa conta não esteja prevista, mas vai ser feito. O Cleyton deixou claro que, doa em quem doer, a coisa vai ser feita." 

 

Colaboraram Américo Teixeira Jr. e Fernando Silva

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