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Quem foram os Hermanos Rodríguez?

Autódromo mexicano recebeu este nome em homenagem aos irmãos Ricardo e Pedro Rodríguez, que competiram na F1 e morreram prematuramente

No próximo domingo, dia 30 de outubro, acontece o GP do México no Autódromo Hermanos Rodríguez, localizado na capital federal. Uma pista que tem uma longa história na F1, começando pela dupla de irmãos que dá nome a ela.

Mas, você conhece essa história? Sabe quem são os tais Irmãos Rodríguez?

Pedro Rodríguez de la Vega e Ricardo Valentin Rodríguez de la Vega começaram, na verdade, nas bicicletas. No início da adolescência, os dois foram para as motos, estimulados pelo pai. Ganharam diversas corridas e títulos nacionais ainda muito jovens.

Migrar das duas para as quatro rodas era algo comum naqueles tempos — é só ver John Surtees, tetracampeão mundial de Motovelocidade e campeão mundial da F1 em 1964 — e os irmãos mexicanos também seguiram esse caminho. Em 1957, Ricardo, então com 15 anos, fez a sua estreia no automobilismo internacional, participando de uma corrida em Riverside no volante de um Porsche RS. Aliás, ele não só participou: o mexicano venceu todos os rivais na categoria de 1,5 L. Era um talento bastante promissor.

Depois dos primeiros sucessos, Ricardo e o irmão Pedro foram para a Europa (ao lado do amigo Jo Ramirez, que anos depois trabalharia na Copersurcar e na McLaren) e se inscreveram nas 24 Horas de Le Mans de 1958. Contudo, Ricardo Rodríguez ainda não havia completado 17 anos e foi impedido de participar pelos organizadores. Pedro correu então ao lado de José Behra, irmão de Jean Behra, em uma Ferrari 500TR. A dupla não terminou a prova — ficou em 26º na classificação geral — mas foi o suficiente para que o Rodríguez mais velho nunca mais largasse o Circuit de la Sarthe, participando da prova todos os anos até sua morte. Em uma dessas oportunidades, correu até ao lado de ninguém menos que Roger Penske. 

Largada das 24 Horas de Le Mans em 1958

A estreia de Ricardo no mítico circuito francês aconteceu no ano seguinte — já com 17 e finalmente com o irmão ao lado. Infelizmente, o resultado foi ainda pior: o Osca S187 da dupla quebrou após apenas 32 voltas, ficando em 48º na classificação final. Em 1960 a sorte sorriu, com o Rodríguez mais novo chegando em segundo, agora pilotando uma Ferrari 250 TR da North American Racing Team, a NART — responsável por promover a marca italiana nos EUA —, ao lado de André Pilette. Foi um recorde: aquele era piloto mais jovem a conquistar um pódio na história de Le Mans.

Com o bom desempenho no parceiro norte-americano, Ricardo Rodríguez chamou a atenção de Enzo Ferrari. O mexicano foi chamado pela Ferrari para correr no GP da Itália de 1961, em Monza, e surpreendeu: marcou de cara o segundo tempo na classificação, conquistando o recorde de piloto mais jovem a ficar na primeira fila de um GP da F1, com 19 anos e 208 dias de idade. A marca durou até 2016, quando foi batida por Max Verstappen.

A corrida foi, infelizmente, uma tragédia: o pole Wolfgang von Trips, também da Ferrari, bateu logo na primeira volta na Lotus de Jim Clark, voando e atingindo o público que estava ao lado da pista. O alemão e 15 espectadores morreram no acidente. A corrida, no entanto, continuou, com Ricardo disputando roda a roda com as Ferraris de Phil Hill e Richie Ginther. Em uma época na qual os carros sofriam com a confiabilidade, Rodríguez abandonou com problemas no sistema de combustível. O primeiro lugar  ficou com Hill, que foi declarado campeão mundial — o único piloto capaz de alcançá-lo na classificação do campeonato havia acabado de morrer.

Ricardo Rodríguez correndo pela Ferrari

Tudo isso valeu um convite para que Ricardo Rodríguez fosse piloto titular da Ferrari em 1962. No Endurance, o mexicano pilotou ao lado de Willy Mairesse e Olivier Gendebien para vencer na mítica Targa Florio com uma Ferrari Dino 246 SP. No entanto, na F1, a equipe italiana regrediu. O modelo 156 já era mais lento que a Lotus de Jim Clark e a Cooper de Bruce McLaren, ambas equipadas com o motor Climax, e também perdia em velocidade para a BRM de Graham Hill. Ainda assim, o mexicano conseguiu beliscar um quarto lugar na Bélgica, além de ficar em segundo na corrida extracampeonato de Pau.

Para piorar, a Ferrari foi vítima de uma greve dos metalúrgicos na Itália, fazendo com que o mexicano perdesse as etapas da França e da Inglaterra. Além disso, a equipe não foi para os EUA pelo terceiro ano seguido e deu de ombros para o primeiro GP do México, que era a oportunidade para Ricardo Rodríguez correr de F1 em casa pela primeira vez. O sonho vermelho havia se tornado um pesadelo.

Ele não desistiu, claro. O piloto fechou com a equipe privada de Rob Walker para participar da prova no circuito de Magdalena Mixhuca, que havia acabado de ser inaugurado na Cidade do México. Infelizmente, ainda durante os treinos livres, Ricardo morreu após um acidente com seu Lotus 24 na famosa curva Peraltada. Ele tinha apenas 20 anos de idade. 

Irmãos Rodríguez

Com a perda trágica do irmão, Pedro pensou em abandonar o automobilismo — mas a paixão falou mais forte e ele continuou participando de provas de Endurance pela NART. Em 1963, venceu as 3 Horas de Daytona e foi convidado para correr pela Lotus nos GPs dos EUA e do México — esse último agora contando pontos para o campeonato mundial. Pela própria NART, o mexicano também participou das corridas da F1 no México e nos EUA entre 64 e 65, retornando para a Lotus em mais provas esporádicas entre 66 e 67.

Foi só em 1967 que Rodríguez conseguiu um lugar efetivo em uma equipe, a Cooper-Maserati. Logo na estreia, na África do Sul, o mexicano bateu o companheiro Jochen Rindt e conquistou a vitória — isso apenas em seu nono GP na categoria. Foi a primeira vitória do México na F1. No resto do ano, Rindt teve um carro melhor que o companheiro e Pedro perdeu algumas etapas por conta de um acidente.

Em 1968 o mexicano foi para a BRM, por onde conquistou três pódios e ficou em sexto no mundial. Entretanto, a equipe não tinha mais o mesmo grande desempenho da época de Graham Hill e Jackie Stewart, mas aquele não foi um ano totalmente perdido. Na França, o piloto conquistou o maior marco de sua carreira: a vitória nas 24 Horas de Le Mans, pilotando um Ford GT 40 com Lucien Bianchi, tio de Jules Bianchi.

A vitória em Le Mans em 1968

No final da temporada, Rodríguez deixou a BRM e passou o ano de 69 se dividindo na F1 entre NART, Reg Parnell e Ferrari. Em 1970 o mexicano voltou para a BRM, naquela que foi a segunda — e última — temporada completa que teve na categoria. Ele venceu na Bélgica, além de ter ido ao pódio nos EUA. Quando Pedro chegou em sua corrida caseira, no México, o público estava incontrolável após os bons resultados do compatriota. Mais de 200 mil pessoas se acotovelavam em Magdalena Mixuhca, enquanto parte dos espectadores invadia a pista na tentativa de participar da festa.

Por conta disso, o GP mexicano ficou fora do calendário a partir da temporada seguinte.

O ano de 1971 parecia ser o de Pedro, já que a BRM havia construído o ótimo P160. No entanto, a equipe se perdeu enquanto tentava colocar quatro carros no grid em uma temporada que se revelou mediocre para seus pilotos. E foi aí que, pela segunda vez entre os Hermanos Rodríguez, a morte resolveu intervir.

Pedro estava correndo em Norisring, Alemanha Ocidental, pela Interserie, categoria que reunia carros das mais diversas fórmulas e configurações. Em certo momento da prova, o piloto foi ultrapassar o retardatário Kurt Hild quando foi jogado no muro pelo adversário. Com a batida, o Ferrari 512M pegou fogo quase que imediatamente, matando o mexicano. Ele tinha 31 anos. 

Ali acabava o sonho da maior dupla de pilotos do México. 

Pedro Rodríguez comemora a segunda – e última – vitória na F1

Em 1973 a pista de Magdalena Mixuhca foi renomeada, passando a se chamar Hermanos Rodríguez em homenagem a Pedro e Ricardo. Só que, nessa época, o autódromo não recebia mais a F1

O circuito acabou usado quase que exclusivamente para o automobilismo local entre 1971 em 1980. Em 1981 e 82, a Indy correu por lá com uma configuração menor do circuito, com apenas nove curvas e cerca de um quilometro a menos de extensão. Rick Mears, então na Penske, venceu as duas provas.

A F1 voltou ao México em 1986, trazendo todo um novo complexo de boxes e uma nova configuração para o traçado, agora com 14 curvas. Entre 1989 e 1991 o antigo Mundial de de Marcas também passou pela pista. O ano de 1992 foi o último dessa segunda fase da F1 no Hermanos Rodríguez.

Em 1993, sem a maior categoria do automobilismo mundial, o governo local resolveu trazer um uso mais diverso para o espaço. Assim, foi construído um estádio dentro do complexo, mais exatamente na parte interior da curva Peraltada, chamada de Foro Sol. Nos últimos anos, o estádio passou a ser utilizado de forma constante em partidas de beisebol, já que é o único local com grande capacidade para receber partidas do esporte na Cidade do México.

O estádio bem no meio do circuito

A partir dos anos 2000 é que o automobilismo internacional realmente redescobriu o autódromo. Entre 2002 e 2007 a CART correu por lá, enquanto a Grand-Am competiu entre 2006 e 2008, mesma época que a NARCAR Nationwide. A finada A1GP alinhou seus carros na pista do México em 2008.

Com o retorno de pilotos mexicanos ao grid da F1 e o crescente interesse do magnata da mídia Carlos Slim e de seu grupo de empresas, liderado pela Telmex, o México voltou a pleitear uma corrida para si. Após uma grande renovação comandada pelo arquiteto Hermann Tilke, Hermanos Rodríguez voltou ao calendário da F1 no ano passado — só que sem a Peraltada, com os carros entrando exatamente no estádio e passando entre as arquibancadas. Em 2016 o autódromo recebeu, em uma variação do antigo circuito oval, a F-E.

E assim, 45 anos após a morte do último Hermano Rodríguez, o nome das lendas Pedro e Ricardo permanece vivo. ¡Viva México!

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