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Os 30 anos da MTV no Brasil, o canal que ousou estar em um carro de Fórmula 1

A emissora que revolucionou a TV brasileira nascia há exatos 30 anos. A MTV, marca que influenciou gerações, tem uma história riquíssima. Mundialmente, o canal esteve envolvido na Fórmula 1 nos anos 1990. Mas, desta vez, as lembranças não são tão felizes assim

Com patrocínio da MTV, a Simtek durou menos de duas temporadas na F1 (Foto: Reprodução)

No ar. “Ladies and gentlemen, rock’n’roll”.

Era 1981, nos Estados Unidos estreava uma TV diferente. A TV que dava cara à música. A TV que experimentava um novo formato quando isso parecia impossível. Foi na TV a cabo que surgiu aquela MTV que mudou de imediato o comportamento do consumidor. Porque as poucas gentes que tinham acesso àquele tipo de televisão passaram a procurar por aqueles artistas que nunca haviam ouvido antes, mas que estavam ali na tela diante daquela novidade: o videoclipe. Era uma revolução no mercado fonográfico.

Não demorou muito para que o canal ganhasse o mundo com as filiais. Levou mais de nove anos para que o Brasil tivesse a sua MTV, com as letras ditas em inglês mesmo. Foi o Grupo Abril, que engatinhava na empreitada da radiodifusão, quem adquiriu os direitos em parceria com a Viacom e, sobre o espólio imobiliário da TV Tupi no bairro do Sumaré, em São Paulo, ergueu a emissora que tinha como foco o público jovem 24 horas por dia na TV aberta. Era o 32 do UHF em SP e o 9 pela TV Corcovado do RJ – algo que, possivelmente, gente que viveu a época talvez nem se recorde – e pelas parabólicas.

A MTV revelou grandes nomes da televisão brasileira e marcou gerações desde 1990 (Foto: Divulgação)

A MTV era a modernidade na televisão com gente do rádio, o descolamento das figuras engravatadas e de voz empostada. Aos 20 dias de outubro de 1990, o sinal era ligado. “Oi, eu sou Astrid e é com o maior prazer que eu estou aqui para anunciar para vocês que está no ar a MTV Brasil”. A Astrid Fontenelle que hoje aparece de Saia Justa no GNT foi a primeira a surgir no canal. Logo aparecia a primeira turma com gente que ainda faz parte da nossa vida: Cuca Lazzarotto, Fábio Massari, Gastão Moreira, Luiz Thunderbird e Zeca Camargo.

Tal qual lá, a MTV se fez revolução. Os artistas então acostumados com o rádio e com aparições em programas de TV passaram a ter uma preocupação a mais no lançamento de seus álbuns: as músicas principais precisariam ser acompanhadas dos clipes. A falta de experiência dos mais diversos cantores e bandas fez com que a versão brasileira passasse a auxiliar na produção do material.

Naquele Brasil turbulento que remontava o cheiro da democracia, a MTV começou a entender o seu público e diversificar as atrações. Além de criar uma premiação nacional nos moldes do VMA – Video Music Awards, que aqui virou VMB, Video Music Brasil –, a direção foi se adaptando aos gostos do brasileiro. Foi no futebol que o canal ganhou um produto que é lembrado até hoje, o Rockgol. O Rockgol era o deboche e o escárnio sobre os músicos já famosos e a catapulta para outros tantos que mal apareciam. Nazi, do Ira!, virou o Volverine Valadão. Toni Garrido, do Cidade Negra, era a Chiliquenta. O Brasil conheceu Max Telefone de Contato e passou a gritar Clééééston. Paulo Bonfá e Marco Bianchi formavam a dupla da narração que nos prendiam nas noites de dia de semana para acompanhar aquele programa totalmente excelente.

O tempo trouxe novas caras e formatos. De Ana Babi Xavier a João Gordo, de Sabrina Parlatore a Marina Person, de Marcos Mion a Didi Wagner, de Sarah Oliveira a Titi Müller, de Marcelo Adnet a Tatá Werneck, a MTV trouxe o sexo sem pudor, o primeiro beijo gay, entrevistas e listas dos melhores do dia e da semana, os piores do mundo, acústicos, programas de verão e shows de humor. Só que a internet e a amplitude de canais e novos formatos de consumo começaram a minar a essência do canal. Passados seus 20 anos, os problemas financeiros da emissora eram evidentes. À boca pequena, a MTV Brasil estava à venda. Até dono de igreja evangélica quis comprá-la. No fim das contas, em 2013, a MTV devolveu o canal à Viacom. A despedida e passagem de bastão se deu em setembro daquele ano. Aquela MTV morreu para dar vida a uma outra concepção em que o VMB virou Miaw, os exs entram de férias e há uma variedade de shows e shores enlatados.

A MTV segue no ar. “Are you the one” que ainda acompanha?

Nomes como Didi Wagner, Daniela Cicarelli e Cazé Peçanha passaram pela MTV nos 30 anos de vida da emissora (Foto: Divulgação)

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A MTV na Fórmula 1

Esporte e MTV não só se uniam no saudoso Rockgol. A emissora chegou a patrocinar o Fluminense nos anos 90 aqui no Brasil. E a marca global esteve em algumas categorias do esporte a motor e até mesmo na Fórmula 1, com grande destaque nos carros.

Em 1989, Nick Wirth e Max Mosley, que viria a ser presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) anos depois, fundaram a Simtek Research. A empresa de engenharia atuou desde o início no ramo do esporte a motor e desenvolveu peças em seu túnel de vento para equipes não somente da F1, mas da Fórmula 3000 e até da Indy.

Com a expertise adquirida, a organização sediada em Banbury, Oxfordshire, Reino Unido, habilitou-se para construir um carro para a BMW, que pretendia ingressar na Fórmula 1 como equipe de fábrica em 1990. O projeto da fábrica de Munique foi abortado, mas o carro, com algumas atualizações e vendido por Wirth, foi para a pista dois anos depois como o carro da folclórica Andrea Moda.

Mas Wirth nutria o sonho de ser um construtor envolvido diretamente com a Fórmula 1 como dono de equipe. Em julho de 1993, o engenheiro anunciou na imprensa local que a Simtek estaria no grid a partir da temporada seguinte, inclusive anunciando a suspensão ativa – que posteriormente seria banida – no carro. Apesar da boa vontade, faltava dinheiro, mesmo com algumas parcerias que ajudaram a fazer a pré-temporada de 1994.

Roland Ratzenberger em ação nos treinos para o GP do Brasil. Austríaco não conseguiu se classificar para a prova (Foto: Reprodução)

Antes do GP do Brasil, etapa que abriria a temporada, a Simtek anunciou a principal patrocinadora para a disputa do certame: a filial europeia da MTV. O logo da emissora combinou com a pintura roxa e preta do S941, tornando-se rapidamente um dos preferidos dos fãs. Em visita ao paddock de Interlagos, o cineasta Zé do Caixão elegeu o carro como seu favorito.

Apesar do apoio, a temporada 1994 foi muito complicada e triste para a Simtek. Não apenas pela falta de resultados competitivos, mas também pelos acidentes que marcaram a breve passagem da equipe na F1. Na classificação para o GP de San Marino, em Ímola, Roland Ratzenberger, piloto austríaco que estreava naquele ano, perdeu a asa dianteira do carro em alta velocidade, bateu com força no muro da curva Villeneuve e morreu horas depois.

Semanas depois daquela tragédia, o italiano Andrea Montermini, durante treinos para o GP da Espanha, escapou da pista na última curva do circuito de Barcelona e bateu com muita violência, de frente, no muro. A forma como Montermini ficou desacordado fez com que muitos temessem pelo pior, mas o piloto sobreviveu. David Brabham, durante testes privados em Silverstone, também foi vítima de outro sério acidente que, no fim das contas, colocou em pauta a fragilidade do carro projetado por Wirth.

Na televisão, especificamente em um canal, a Simtek ganhava destaque. A MTV Europe passou a contar com uma equipe cobrindo as corridas da F1, entrevistando pilotos, ex-pilotos e dirigentes. A atenção maior era dada para o time que estampava o logotipo da empresa, claro, com conversas exclusivas com pilotos e o chefe. A pegada jovem, tradicional da emissora, era mantida nas reportagens, algumas vezes com perguntas fora do comum para os entrevistados, como sobre a gravidez da esposa de Brabham.

Para 1995, o contrato entre Simtek e MTV mudou. O acordo de patrocínio era mais complexo. Caso a equipe encontrasse novos patrocinadores, estes teriam o direito de colocar comerciais no ar nos intervalos da emissora, pagando diretamente à Simtek um valor reduzido. Uma tática que, na teoria, seria benéfica a todos. Mas o S951, modelo daquele ano, no entanto, não ajudava muito.

Jos Verstappen pilotou pela Simtek em 1995 (Foto: Reprodução)

Apesar de uma ligeira evolução no desempenho, como o abandono de Jos Verstappen quando andava em sexto no GP da Argentina, a falta de pontos persistiu. O dinheiro começou a sumir e, após o GP de Mônaco, Wirth se reuniu com parceiros, inclusive a MTV, pediu mais dinheiro, mas a proposta foi recusada. Sem o chamado combustível financeiro, a equipe fechou as portas pouco depois.

A MTV também sumiu da Fórmula 1 naquele momento, junto com a Simtek. Chegou a negociar com a Jordan em 1996, mas as conversas não avançaram. A emissora ainda esteve presente no automobilismo em outras ocasiões. Na Fórmula 3000 de 1993, estampou o chassi da equipe Omegaland. Entre 2011 e 2012, colocou um logo do programa ‘Yo! MTV Raps’ no carro de Brad Adams na Pirelli World Challenge – atualmente chamado de GT World Challenge. E em 2011, organizou um reality show na Índia, com desafios e provas de resistência, para ver quem passaria um fim de semana com a equipe McLaren na corrida inaugural da F1 no país.

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