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Ford, Ferrari e os últimos românticos

Mais do que um filme sobre automobilismo, ‘Ford vs Ferrari’ é uma homenagem àqueles que viviam o sucesso nas pistas como resultado de sangue, suor e graxa

O automobilismo surgiu com o primeiro carro, exatamente quando o primeiro motorista acelerou fundo e se tornou o primeiro piloto. Tudo isso movido pelo amor, com um desejo de superar o limite e de unir homem e máquina em apenas um ser, híbrido. 

Estes eram os tempos românticos.

Os negócios e negociatas vieram depois, junto com os números, o marketing. Sucesso nas pistas passou a se refletir nas vendas de carros. Estampar marcas de produtos passou a fazer diferença no balanço das grandes corporações – para mais ou para menos. 

Bem no meio entre essas duas realidades existe ‘Ford vs Ferrari’, filme que estreia nos cinemas nesta quinta, dia 14.

Dirigido por James Mangold (que você deve conhecer por trabalhos como ‘Logan’ e ‘Johnny & June’), o longa-metragem adapta para a tela grande uma das mais curiosas histórias do automobilismo mundial: a disputa entre Ford e Ferrari, como o título entrega, pela vitória nas 24 Horas de Le Mans. Não é por menos que na Europa a produção recebeu o interessante título 'Le Mans '66'. 

Ken Miles é interpretado por Christian Bale, mais uma vez em um grande trabalho
Mesmo que com liberdades poéticas, o roteiro segue aquilo que lemos nos livros de história e vemos nos documentários: a Ford Motor Company passava por dificuldades em meados dos anos 1960, sem entender o que os baby boomers (a geração que nasceu após o fim da Segunda Guerra Mundial) desejava. Na prática, Henry Ford II continuava o legado do avô: fabricava carros sem graça em massa. A estratégia tinha funcionado por mais de 50 anos, mas essa época tinha passado. 

Na mesma época, a Ferrari era um grande expoente do automobilismo. Se na Fórmula 1 a competição com os garagistas ingleses era feroz, os italianos dominavam entre os carros esportivos e protótipos: entre 1958 e 1965, a marca do Cavallino Rampante só perdeu uma vez a vitória no Circuito de La Sarthe, onde acontece a mítica prova de endurance. Nas ruas, inclusive na Califórnia, os carros vermelhos eram sinônimo de um charme que vinham regado com vinho Barolo e embalado com o cinema italiano de Sophia Loren. 

Henry the Deuce, como era chamado o manda-chuva da Ford, teve então a ideia genial: comprar a Ferrari.

‘Ford vs Ferrari’ conta a batalha de Le Mans no ano de 1966 pela ótica dos americanos

É claro que Il Commendatore nunca aceitaria aqueles ianques de carros feios comprando a sua preciosa fábrica. Desaforos ditos, a Henry Ford II sobrou apenas uma escolha: vencer a Scuderia Ferrari em Le Mans.

Entram em cena Carroll Shelby, ex-piloto e único americano a vencer as 24 Horas até então (interpretado por Matt Damon), e o piloto esquentadinho e sem muita perspectiva na carreira chamado Ken Miles (Christian Bale, merecendo mais uma vez indicações na temporada de premiações de Hollywoood). Assim começa o conflito verdadeira do longa, em uma história de idas e vindas.

É aqui, também, que ‘Ford vs Ferrari’ se diferencia de outro blockbuster recente baseado nas corridas: ‘Rush: No Limite da Emoção’. Se o filme sobre a disputa do título da Fórmula 1  em 1976 focou mais na briga na pista, a nova produção da Fox explica como Shelby e Miles, junto com outros engenheiros, transformaram os belos GT40 em carros rápidos. Também é o retrato de uma época na qual os grandes pilotos precisavam ser, além de tudo, mecânicos. 

O belo Ferrari 330 P3 em ação no filme

Por motivos de tempo e para construir uma narrativa que envolva o espectador, o longa-metragem reduz bastante essa história. Sabemos apenas de relance que o GT40 foi originalmente desenvolvido na Inglaterra (em parceria com a Lola, algo não mencionado). Grandes pilotos da época, como Bruce McLaren, Chris Amon, Dan Gurney e outros são citados rapidamente ou possuem pouco tempo de tela. Ainda assim, há tempo de fazer uma bela homenagem: Dan é interpretado pelo próprio filho, Alex Gurney, que também é piloto profissional.

Vale mencionar que o roteiro usa como ponto de vista o lado dos desafiantes, dos americanos. Ainda que respeitoso ao lado dos europeus, eles estão ali apenas como os grandes adversários.

De qualquer forma, até mais do que o título revela, ‘Ford vs Ferrari’ não é apenas sobre a grande disputa entre as duas tradicionais marcas. Temos o embate entre aqueles movidos pela paixão – Shelby, Miles e Ferrari – contra aqueles que estavam nas pistas apenas pelas fotos de divulgação e pelas ações de relações públicas – os engravatados de Detroit, incluindo o próprio Henry II. 

Uma dualidade que se tornou parte do automobilismo e nos persegue até os dias atuais (talvez, hoje, com o lado do marketing muito maior do que deveria).

O longa é até que respeitoso ao retratar Enzo Ferrari – famoso por sua personalidade forte

As cenas de corrida se diferenciam um pouco dos outros filmes sobre automobilismo (ou corridas em geral) que tivemos recentemente. Afinal, o mesmo conflito que move os personagens foi trazido às cenas de ação, que procuram trazer para o espectador a sensação de estar no limite que existe na vida real. 

Se você for um fã da velocidade, assista ‘Ford vs Ferrari’. Após as 2h32 de duração do longa-metragem, certamente terá algumas lágrimas nos olhos – e, se respirar profundamente na escuridão da sala de cinema, sentirá o doce aroma de gasolina e borracha, mas salgado pelo sangue de todos aqueles que deram a vida por essa paixão que nos une.

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