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No túnel do tempo da Indy 500, parte 2

As duas vitórias de Emerson Fittipaldi e o crescimento do show: acompanhe uma época de profundas transformações nas 500 Milhas de Indianápolis por meio das transmissões da TV, completas e de graça

A consolidação da Indy como entretenimento e a busca da internacionalização da marca. Foi isso que marcou as 500 Milhas de Indianápolis nos anos 1980 e 1990. Afinal, por mais que tivesse acontecido a chamada “Invasão Britânica” na década de 1960, o Brickyard foi realmente ganhar um caráter internacional apenas duas décadas depois.

É justamente essa fase que vamos rever agora, a partir das transmissões completas da Indy 500, todas disponibilizadas de forma gratuita pelo próprio Indianapolis Motor Speedway e pela IndyCar. São os anos entre 1978 e 1993, incluindo as duas vitórias de Emerson Fittipaldi no circuito e uma enorme polêmica no tapetão no sobre o resultado final de 81, que envolveu até a transmissão da TV.

(Mears na frente do pelotão (Foto: Getty Images))

Leia primeiro

– No túnel do tempo da Indy 500, parte 1

Al Unser Sr. com o carro que o levou à vitória em 1978

1978, a primeira sem Tony Hulman e a última antes da divisão

A transmissão das 500 Milhas de Indianápolis continuava em videotape e editada, exibida na noite de domingo no canal aberto ABC. Porém, todo o resto estava em processo de mudança.

Começando pela abertura da transmissão, com a música 'African Simphony' da obscura banda Saint Tropez – em uma tentativa, talvez, de evocar modernidade. Afinal, os carros da Indy se tornavam cada vez mais tecnológicos. No grid de largada, um rookie conquistava um lugar na primeira fila: Rick Mears, pela Penske, era o terceiro colocado. Além disso, Mary Hulman – viúva de Tony Hulman – foi a responsável por entoar a célebre frase “lady and gentlemen, start your engines”. Hulman, o mítico presidente do Speedway desde os anos 1940 e tradicionalmente responsável pelo comando, tinha morrido meses antes. 

O que ninguém sabia é que aquela era a última edição das 500 Milhas do jeito que todos conheciam. Pouco depois, Roger Penske, Dan Gurney e Pat Patrick liderariam um levante dos donos de equipe que criaria a Championship Auto Racing Team, uma categoria dissidente do National Championship Trail organizado pela USAC. Depois de uma disputa entre dirigentes, a Indy 500 passaria a contar pontos para os dois certames, mas a CART triunfaria no longo prazo – história que já contamos em mais detalhes aqui no GRANDE PREMIUM

Aquela corrida acabou vencida por Al Unser, o pai, depois de liderar 121 das 200 voltas. O carro, preparado pela Chaparral Racing, era um chassi Lola equipado com motor Cosworth DFX – marcando a primeira conquista da fabricante inglesa no Speedway. A usina, vale lembrar, era uma variação do DFV que dominava a Fórmula 1, mas com a capacidade cúbica diminuída de 3l para 2,65 e com a adição do turbo. O motor venceria ininterruptamente no Brickyard até 1988. 

Acompanhe tudo no vídeo a seguir!

Bobby Unser, irmão do Big Al, com o Penske #3 que venceu em 1981

1981, com disputa no tapetão

Pulamos para 1981. Na transmissão tudo permaneceu quase igual – apenas que, com a evolução tecnológica que ainda engatinhava na televisão, a ABC apostava em gráficos mais coloridos e animados, informando parte do grid para o espectador. No protocolo, Mary Hulman, que havia acabado de passar por uma operação, foi pontualmente substituída pela filha, Mari George. 

A corrida em si foi marcada por um forte acidente. Danny Ongais, com um Interscope-Cosworth construído especialmente pela equipe de Ted Field, um magnata e cineasta americano, liderava a prova até ter problemas em um pit stop e perder 46 segundos. Logo após retornar à pista, o piloto foi ultrapassar um adversário que vinha mais lento na curva 3, perdeu o controle e atingiu o muro. O chassi pegou fogo e se desfez na hora, deixando o corpo de Ongais totalmente exposto em uma época na qual as células de sobrevivência ainda não existiam. Alguns espectadores também foram atingidos pelos detritos do carro.

Por sorte, Ongais foi resgatado com vida – “apenas” com um concusão, além de ambas as pernas e um braço quebrados. Ele retornaria ao Speedway dois anos depois. 

Apesar disso, a luta pela vitória foi muito animada, em uma disputa entre Bobby Unser (Penske), Mario Andretti e Gordon Johncock (ambos da Patrick Racing) já no trecho final. Johncock quebrou o motor faltando apenas dez voltas, com Unser cruzando a linha de chegada em primeiro, com Andretti em segundo. 

Só que a partir daí se desenrolaria uma das mais famosas disputas no tapetão da Indy 500, que envolveu até a transmissão da TV.

Acontece que na volta 149, durante uma bandeira amarela, Unser fez um pit stop e, ao retornar, ficou abaixo da linha branca que demarcava a pista auxiliar e ultrapassou 14 carros, se juntando ao pelotão em seguida. Andretti tomou uma atitude parecida, ultrapassando dois ou três carros. Naquele momento a manobra passou despercebida pelos fiscais e pela transmissão via rádio, com a corrida continuando normalmente. 

Logo após o fim da prova começaram a surgir reclamações sobre a atitude de Bobby Unser, inclusive da Patrick – a USAC, no entanto, tinha como política publicar os resultados oficiais apenas às 8h da manhã do dia seguinte.

Foi então que, durante a noite, a ABC exibiu a versão compacta da corrida. Como você pode ver a partir do trecho de 1h43m45s do vídeo, o locutor Jim McKay e o comentarista Jackie Stewart percebem quase que instantaneamente que o piloto da Penske estava ultrapassando os adversários em bandeira amarela, condenando a atitude. Havia, no entanto, um porém: aqueles comentários não foram feitos ao vivo, mas sim gravados em estúdio a partir de um roteiro pré-escrito. Eles, por outro lado, não fizeram qualquer comentário em relação à atitude de Andretti.

Após a exibição da comemoração de Bobby Unser, McKay e Stewart apareceram na cabine, ao vivo, ao lado de Mario Andretti, que explicou que sua equipe estava entrando com recurso contra a vitória do adversário. Apesar de alegarem que tentaram conversar com Unser para ouvir o outro lado, o piloto da Penske diria depois que nunca foi contatado e estava disponível no Howard Johnson's Motel, bem em frente ao autódromo. 

No dia seguinte, a USAC divulgou o resultado oficial e penalizou Unser em uma posição, dando a vitória para Andretti. Roger Penske entrou com recurso, colocando que, na interpretação do regulamento feita por deles, o ponto no qual o carro deveria se unir ao resto do pelotão era após a curva 2 e que, antes desse ponto, poderia continuar acelerando na área abaixo da linha branca por ser uma continuação do pit – que não seguia a mesma limitação de velocidade em bandeira amarela. A atitude era tão legal que o próprio adversário havia ultrapassado outros carros em situação parecida, dizia Penske. Na visão de Andretti e da Patrick Racing, o fim do pit era após o término da mureta, ao fim da reta principal, com o competidor se unindo ao pelotão logo em seguida. 

Acontece que o regulamento não era claro nesse sentido e que aquilo tudo era mais uma genial jogada de Roger Penske, famoso por encontrar esse tipo de brecha. Além disso, a controvérsia também estava sendo manipulada pela USAC para rachar a união entre Patrick e Penske, dois dos pilares da criação da CART. 

No final, a corte de apelação decidiu que era dever dos fiscais terem percebido a infração na hora e que, ao não fazer isso, o erro era deles. No final, a punição foi julgada imprópria e Bobby Unser recuperou a vitória.

Ufa. 

Bom, depois disso tudo, acompanhe a transmissão:

O famoso “spin and win” de 1985

1985, o ano do “spin and win”

Esta é, sem dúvida alguma, uma das edições mais lembradas da história das 500 Milhas de Indianápolis – que entrou para os livros como o “spin and win” (“rodada e vitória”) de Danny Sullivan, da Penske.

A confusão aconteceu logo após a metade da prova. Sullivan estava em segundo, atrás de Mario Andretti, quando ouviu uma mensagem do engenheiro pelo rádio e entendeu, erroneamente, que faltavam 12 voltas para o fim – quando na verdade ainda tinham mais de 80 para completar. O piloto aumentou a pressão do turbo (o que também aumentava o consumo de combustível) e começou a acelerar o máximo possível para alcançar Andretti, a essa altura  piloto da Newsman-Haas. 

Sullivan ultrapassou o adversário na volta 120 e assumindo a liderança – mas a alegria durou milésimos de segundo. O piloto da Penske perdeu o controle do carro quase que instantaneamente, rodou e, com muita maestria, evitou que o seu chassi March atingisse o muro. O #5 perdeu muito tempo com o erro, mas continuou na prova. 

Uma jogada de grande habilidade dos dois pilotos, que envitaram qualquer contato.

Sullivan entrou em uma corrida de recuperação, ainda em segundo lugar, e retomou a liderança após ultrapassar Andretti novamente na volta 140. Não havia mais o que fazer: o bigode de leite da vitória era de Danny.

Confira tudo a seguir, com a ultrapassagem e a rodada acontecendo a partir de 1h16m30s de transmissão.

Al Unser, com o seu velho March, surpreendeu e venceu a indy 500 em 1987

1987, a quarta vitória de Al Unser Sr.

Tudo mudou, mais uma vez. Finalmente o Indianapolis Motor Speedway havia percebido que o mundo estava em transformação e, desde 1986, passou a permitir a transmissão ao vivo e na íntegra das 500 Milhas pela televisão, ainda via ABC.

No ano seguinte, 1987, o evento já era um verdadeiro show de entretenimento. Repórteres se espalhavam pelo Brickyard, com os preparativos da corrida nas garagens e até nos motorhomes dos pilotos. São nada menos que 50 minutos de transmissão antes da largada, em um estilo de transmissão que acabaria se transformando em padrão.

Outra novidade é a introdução das câmeras on board, que ajudavam na experiência de imersão do público.

Na pista, a surpresa foi novamente a Penske. Depois de correr alguns anos com chassis March, o time voltou a construir seus próprios carros, agora equipados com motores Chevrolet fabricados pela britânica Ilmor. No entanto, ainda no começo de maio, o time percebeu que os PC-16 eram extremamente lentos e foram deixados de lado, substituído por March-Cosworth reservas. Acontece que esses chassis eram do ano anterior – sem falar que aquele utilizado por Al Unser Sr. estava, até pouco antes, em exibição em um lobby de hotel em Reading, Pennsyvania, onde ficava a sede da Penske Racing.

Unser, aliás, nem era para ter participado da corrida: o piloto tinha perdido espaço, sendo substituído por Danny Ongais – aquele mesmo do acidente de 1981. Para variar, Ongais sofreu bateu durantes os testes e ele próprio acabou sendo substituído por Big Al.

Por isso, o que aconteceu foi mais um conto de fadas, ao estilo que os americanos adoram. Mario Andretti dominou aquele mês e liderou 170 das 200 voltas da corrida. Porém, um problema na ignição o fez abandonar – com a vitória caindo nas mãos de Unser e seu velho March. Foi a quarta do piloto, igualando o recorde de A.J. Foyt.

As 500 Milhas de 87 trazem, também, uma nota negativa: na volta 130, Roberto Guerrero acertou uma roda solta do carro de Tony Bettenhausen, que voou para a arquibancada e acertou a cabeça de Lyle Kurtenbach, de 41 anos. O espectador morreria pouco depois, já no Hospital Metodista. O acidente passou em branco pela transmissão da ABC, que estava no intervalo, e a informação da morte só chegaria aos espectadores após a bandeirada final. 

Confira tudo no vídeo a seguir:

Fittipaldi com o Penske-Chevy da Patrick

1989, quando Emerson Fittipaldi venceu

Esta é, por motivos óbvios, uma transmissão histórica para nós, brasileiros. Trata-se da edição da primeira vitória de Emerson Fittipaldi, a primeira do Brasil no famoso Brickyard e a primeira conquista de um piloto estrangeiro desde a vitória de Graham Hill, em 1966. 

Aquela era para ser a última temporada de Pat Patrick antes da aposentadoria, que costurou um acordo com Roger Penske. O time concorrente forneceria um chassis Penske para Pat, que lutaria pelo título com o bicampeão mundial de F1. Ao final da temporada, Fittipaldi e o patrocínio da Marlboro migrariam para a Penske Racing, enquanto a estrutura do time iria para as mãos do engenheiro Chip Ganassi – que a partir deles fundaria a equipe que leva seu nome. 

Como parte desse trato, a Marlboro também patrocinaria um terceiro carro da Penske Racing apenas na Indy 500, a ser pilotado por Al Unser Sr.

A estratégia deu tão certo que Emerson dominou a corrida, liderando 158 das 200 voltas. Ainda assim, Al Unser Jr. travou uma grande disputa com o brasileiro nos giros finais. Little Al ultrapassou o brasileiro no giro de número 196. Duas voltas depois, o norte-americano foi passar por retardatários e deu espaço para Emmo, que colocou o Penske-Chevy #20 por dentro da curva e os dois se tocaram. Al Jr. então rodou, acertando o muro. A disputa estava encerrada. 

Na transmissão, a grande novidade foi a introdução de uma abertura ao som de ‘The Delta Force’, tema composto por Alan Silvestri para o filme ‘Comando Delta’, estrelado por Chuck Norris. Já a locução era, desde o ano anterior, de Paul Page, que havia sustituído Jim McKay. Page, aliás, chega a fazer uma narração apática da vitória de Fittipaldi. Unser Jr. era, afinal, um piloto filho de campeão e queridinho pela mídia local. 

A ABC destacava o domínio dos motores Chevrolet, desenvolvidos pela Ilmor a partir de um acordo orquestrado por Roger Penske. Porém, o trecho que ressalto é outro: a partir dos 22 minutos, com melancolia, o canal relembra a história da família Bettenhausen, um nome tão tradicional para o automobilismo dos EUA quanto Unser e Andretti, mas que nunca venceu no circuito e acumulou mais tristezas do que alegrias. 

Tony Bettenhausen, o patriarca da família, morreu durante testes, em 1961. Um de seus filhos, Merle, perderia um dos braços após um acidente na edição de 1972. Os outros dois, Tony Jr e Gary, correram por anos sem conquistar um resultado melhor que um terceiro lugar. Em entrevista à ABC, Gary Bettenhausen chega a se emocionar ao perceber que a carreira dele e do irmão estavam chegando ao final, encerrando a trajetória do clã no Brickyard. 

Confira tudo isso na transmissão:

Fittipaldi em sua segunda vitória no Speedway, já correndo pela Penske

1993, o bi de Emerson Fittipaldi

Mais um salto temporal, curiosamente para a segunda vitória de Emerson Fittipaldi na Indy 500. O brasileiro era, a essa altura, piloto da Penske ao lado de Paul Tracy, em um grid que incluía outros nomes como Nigel Mansell e Nelson Piquet. 

A disputa pela vitória foi uma das mais divertidas e interessantes da história das 500 Milhas, com 22 trocas de líderes. No trecho final a disputa ficou resumida a Fittipaldi e Mansell, com o Leão liderando até o giro de número 184. Ainda sem muita experiência na categoria, o inglês hesitou a liderar o pelotão em bandeira amarela e contornou a curva quatro muito lento antes da bandeira verde, sendo logo em seguida ultrapassado pelo brasileiro – que continuou em primeiro até o final da corrida. 

No círculo da vitória, Emmo negou ao menos duas vezes o tradicional leite reservado aos vencedores, bebendo suco de laranja no lugar – e alegando, ao vivo, que fazia aquilo por ser produtor da fruta no Brasil. Os mais tradicionalistas, claro, não engolem isso até hoje…

Continua!

Leia a seguir

– No túnel do tempo da Indy 500, parte 3

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