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A esperança brasileira (e nordestina) da Indy

"Sinto que posso ser como um novo pontapé inicial na história. Espero fazer sucesso e conseguir incentivar mais pilotos do Nordeste"

 

Francisco Melo Domingues Porto tem apenas 16 anos, mas uma boa carga de responsabilidade nas costas. Ao lado de Dudu Barrichello, Kiko Porto, como é conhecido, é um raro brasileiro no Road to Indy de 2020. Além disso, tem a oportunidade de colocar o Nordeste em evidência em uma categoria de ponta nos próximos anos.

E o jovem piloto sabe disso tudo, sabe o tamanho e o significado que tem seu momento de ascensão no automobilismo americano e, mais do que isso, se sente bem com a responsabilidade. No geral, Kiko assimila a pressão e pensa em um futuro promissor que pode começar a desenhar a partir de sua carreira.

 

Com uma maturidade impressionante apesar da pouca idade, o piloto fala bastante sobre suas origens, do orgulho que tem de representar o Nordeste e o Brasil no período de entressafra agora com a saída de Matheus Leist e com Tony Kanaan e Helio Castroneves com programas reduzidos.

 

"É muito bom. Sempre que falo que sou piloto aqui no Nordeste o pessoal comenta da escassez. E eu sinto que posso ser um novo pontapé inicial nessa história. Sei que já tivemos muitos outros pilotos, mas das últimas levas eu sou um dos únicos a conseguir levar isso para frente, como meta de vida. Fico muito feliz em representar o Nordeste, não tenho dúvida de que terei uma torcida imensa comigo", comenta em entrevista exclusiva ao GRANDE PREMIUM.

(Kiko Porto (Foto: Chris Burger/USF2000))

Um amigo veterano

 

Nascido em Recife, capital de Pernambuco, Kiko se inspira no pai, empresário de mesmo nome, e também em Beto Monteiro, piloto conterrâneo de belíssimo currículo e que hoje está na Copa Truck. Aliás, os caminhos de Kiko e Beto se cruzaram de uma forma bastante inesperada, mas foi um encontro que simplesmente colocou a carreira do garoto no rumo certo.

 

"A gente se encontrou em um shopping em 2017. Estava pensando em correr na Itália de F4, tentamos a Prema, mas eram € 450 mil uma temporada – atualmente R$ 2,2 milhões, ou então € 370 mil em uma equipe menor. Meu pai estava vendo que não ia dar, uma coisa é fazer um ano, mas e depois? Não dá para fazer um ano e depois parar, tem de ter uma visão lá na frente. Aí, conversando com Beto, abrimos o olho, ele falou da F4 Americana e também de campeonatos de GT por lá, que tem um leque muito amplo de categorias. Foi por meio dessa conversa que marcamos para testar na F4 e tudo começou", conta.

 

Além do conselho de ir tentar a sorte nos EUA que mudou a história dos Porto nos últimos dois anos e permitiu a chegada ao Road to Indy para, em 2020, vestir as cores da DEForce, Beto também se transformou em uma inspiração próxima do jovem piloto.
(Kiko Porto (Foto: F4 Americana))

"Ele me ajudou muito mesmo. Além de me passar toda experiência que tem, é um cara que já correu de tudo, é impressionante, mas também um cara que começou no duro, no difícil e no ardil. Tenho muito mais condições do que ele teve na época dele, mas essa força de vontade dele, a garra, a determinação, é isso que mais brilha meus olhos. A técnica, a experiência, tudo conta, mas a garra dele é algo que eu realmente vou levar sempre comigo", explica.
 
Correndo desde o final de 2011, Kiko Porto acumulou uma série de títulos regionais em Pernambuco, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, vencendo também o nacional de kart em 2016 e, no ano seguinte, partindo para campeonatos no exterior. Foi nessa época que chegou a pensar no caminho para a F1, mas trocou a rota rapidamente pelos valores e possibilidades reais. Hoje, já pensa de forma bem mais ampla no futuro.
 
"Quando comecei, como quase com todo mundo, meu sonho era a F1, mas depois de um tempo eu fui vendo que a F1 está muito complicada, é muito complexo chegar lá, é um absurdo na parte do talento, mas também do dinheiro. Hoje, não basta ter talento, é um pacote, precisa ter sorte, precisa ter tudo, estar no lugar certo e na hora certa, virou uma coisa muito monumental. Aí parei para pensar na realidade e vi que existem outras possibilidades. Como sou muito fã de monopostos, a Indy seria a mais plausível, gosto muito da categoria e acho as corridas até melhores que as da F1. Mas eu sou totalmente aberto a uma Fórmula E da vida, andando de fórmula eu estou feliz".
Kiko Porto com Beto Monteiro (F4, Mrs Ridge, Pai, Kiko e Beto (Foto: Reprodução))
A aventura nos EUA

 

Fã de Ayrton Senna, da história de Lewis Hamilton, de churrasco, de comida japonesa, de praia, de viagens e espectador assíduo de tudo que é categoria, Kiko vem de um vice-campeonato na disputada F4 Americana que, naturalmente, fez seu nome ganhar projeção. Ainda assim, é cauteloso ao avaliar como foi seu desempenho.

 

"Comecei bem, fui rápido a temporada toda, mas acabei não tendo tanta consistência. Em Virgínia, por exemplo, não tivemos o melhor acerto para o carro, estava difícil, a gente era muito rápido, mas tinha vezes que não adiantava, a gente andava com pouca asa e ficava com a traseira bem solta. Tinha prova que ficava bem difícil. Tive também acidentes em Mid-Ohio e Austin, que fui acertado, que complicaram bastante as coisas. O Joshua Car, que foi campeão, conseguiu encaixar tudo, era rápido, era constante, então deu tudo certo para ele", diz.

 

Mesmo sabendo que o desafio não é fácil, o pernambucano deixa claro que, sim, o primeiro objetivo para 2020 é chegar na USF2000 e já subir de categoria. Até a Indy, a escada ainda tem a Pro 2000 e a Indy Lights.

 

"Nosso plano é acabar o ano e já subir para outra categoria. Tenho muito que aprender ainda, só fiz um ano completo nos carros, mas, pelos treinos que estou fazendo, vou chegar forte, acho que estaremos ali pelo top-5, aí fica bom", avalia.
(Kiko Porto (Foto: F4 Americana))

O momento não é nada bom para o automobilismo brasileiro em geral. Já não é de hoje que o país está sem pilotos na F1 e, cada vez mais, parece real o risco de ficar sem ninguém em prova alguma da Indy. Em 2020, por exemplo, é Castroneves na Indy 500, Kanaan nos ovais e só. Aumenta a pressão em quem está vindo?

 

"Já me preocupei mais com isso, mas hoje sou bem tranquilo com pressão. Lógico que sempre tem a pressão de ser brasileiro, promessa, mas me cobro com o que eu sei que posso fazer, sempre. Tem a pressão, sim, mas não deixo ela me atingir muito, tento fazer meu melhor todos os dias e ver o que consigo".

 

A firmeza do jovem brasileiro ao aceitar e lidar bem com a pressão não é a mesma quando o assunto é corrida em oval. Em tom de brincadeira, Kiko revela que não é mesmo seu tipo de pista favorito.

 

"Vai ser minha primeira vez correndo em um oval em 2020 e, meu Deus do céu, não sei o que eu vou fazer da vida (risadas). Acho que tudo é questão de experiência, na hora a gente vê como vai ser, mas, por vídeos, acho que sou mais fã dos mistos mesmo (mais risadas). Tenho um pouco de receio, mas vamos encarar", conclui.
(Kiko Porto (Foto: Divulgação))

 

Um futuro promissor para os pilotos nordestinos

 

O recifense falou de tudo na entrevista, mas talvez o tema que tenha comentado com maior propriedade seja o automobilismo do Nordeste e seu futuro. Para o piloto, uma série de ações podem ajudar no crescimento, desde movimentos em órgãos oficiais, passando pelos próprios apaixonados locais e, claro, também nos seus resultados na busca pela Indy.

 

Na visão de Porto, Waldner Bernardo, conterrâneo do piloto, tem focado algumas ações no desenvolvimento da região, mas o crescimento passa por mais e mais movimentos de pessoas diferentes.

 

"Acho que sim [que a CBA deva olhar mais para o Nordeste]. E acho que a gestão do Dadai [Waldner Bernardo] tem olhado mais, ele é um conterrâneo nosso, mas não é só isso. Tinha coisa que tinha de partir daqui. Tem muita gente dando a vida pelo esporte, mas também outros que só estão para criticar sem saber como é o esforço de cada um. Isso também ajuda a desanimar internamente, falta um pouco de respeito, de parceria", afirma.

 

Um ponto importante para Kiko é a falta de campeonatos na região, ou seja, muito mais custos para os pilotos se deslocarem para outras praças para competir. Treinamentos? Cada vez mais raros, mais até do que nos tempos de formação do próprio piloto da DEForce.

(Kiko Porto (Foto: F4 Americana))

"A escassez de kartódromo contribui para formar menos pilotos. Tem o Paladino (na Paraíba) que é uma coisa de louco, uma pista maravilhosa, o Tamboril (em Pernambuco), mas é pouco, acaba que ficam sobrando poucos campeonatos. Os pilotos de hoje têm menos formação do que eu tive na minha época, que já não era muita. Em São Paulo, por exemplo, você tem uma série de campeonatos, enfim, está cada vez mais difícil começar no kart por aqui", cita.
 
"Sinto que falta também incentivo, é meio que como em São Paulo estivesse chovendo pedra e o pessoal andando de kart. Lá, é muito difícil correr, o nível é muito alto, você demora até conquistar seu primeiro pódio. Por aqui, sinto que tem muita gente que começa e desanima rápido. Eu mesmo demorei dois anos para conseguir meu primeiro pódio, mas continuei, acho que mais gente faria o mesmo com mais incentivo a um esporte que é meio desconhecido por aqui", completa.
 
E quem vem, além do pernambucano, na esteira de pilotos de futuro? Porto aponta alguns, mas faz a ressalva que outros promissores pararam no caminho. Nos últimos anos, por exemplo, a região teve o baiano Luiz Razia perto da F1 e o paraibano Valdeno Brito com ótima jornada na Stock Car.
 
"O Rafael Câmara, kartista, já está bem engatilhado ali para o que ele quer, sem dúvida. Mas tem outros pilotos bons, alguns em Recife, por exemplo o Lucas Pontual, que está na classe Cadete. Ele ainda é muito novo, ainda está cedo, mas já consigo ver que ele não vai ser qualquer um. Tinha um amigo, Guilherme Teixeira, que parou de correr por causa da falta de recursos financeiros, mas é aquilo que eu disse: Pernambuco tem muito talento que não consegue chegar, queria que isso fosse quebrado", avalia.
Kiko e o pai Francisco, referência na vida (Kiko e o pai (Foto: F4 Americana))
E como ajudar que isso seja quebrado? Kiko quer ser referência, quer ser o cara para abrir portas e sabe que, assim, vai correr não apenas por ele em 2020, mas por todos os meninos da região que têm o mesmo sonho.
 
"Se eu conseguir chegar aonde eu quero chegar, sei que posso mudar um pouco esse foco de São Paulo e acho isso muito bom. O Rafael Câmara também vai dar o que falar, sempre foi muito rápido e muito humilde, é outra grande esperança para a gente. Acho que o pernambucano de maior destaque foi o Beto Monteiro, mas Pernambuco e Paraíba já formaram muitos bons pilotos que não tiveram as chances que mereciam, tem muita gente boa mesmo. Acho que eu posso acabar incentivando mesmo mais os pilotos daqui, é isso que eu quero".
 
Em uma das boas equipes do grid da USF2000 e com muito talento, Kiko Porto tem tudo para ser um dos destaques da categoria em 2020 e, mais do que isso, começar a trilhar um caminho iluminado para sua carreira e para outras tantas carreiras de seus vizinhos.

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