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A F1 na luta contra o novo coronavírus

Adversárias na pista, equipes se unem para produzir respiradores e ajudar no esforço para minimizar os efeitos da pandemia da COVID-19

A humanidade, neste momento, enfrenta a mais devastadora crise de saúde e social desde a Segunda Guerra Mundial. A pandemia da COVID-19, uma doença sem vacina ou antivirais aprovados causada pelo vírus SARS-CoV-2 (popularmente conhecido como novo coronavírus), está trazendo consequências inimagináveis para todos, incluindo no esporte. Nesse sentido, as equipes de Fórmula 1 resolveram se unir para ajudar, de alguma forma.

São dois os grandes fatores que fazem dessa nova doença tão preocupante. A primeira é a forma como o vírus se dissemina. Ainda que os estudos sejam iniciais, a Organização Mundial da Saúde indica que o novo coronavírus se espalha por meio de gotículas das pessoas infectadas (incluindo as assintomáticas), que depois são levadas por pessoas sãs às mucosas da boca e dos olhos, por exemplo, se contaminando no processo.

É uma situação mais grave que a pandemia de outro coronavírus, o SARS-CoV (sem o 2), responsável pela Síndrome respiratória aguda grave (SARS, da sigla em inglês) – e que se espalhou, em grande parte, justamente nas instituições de saúde e de tratamento dos pacientes durante a pandemia que ocorreu entre 2002 e 2004. Quando o controle sanitário foi melhorado, a disseminação da doença ficou mais lenta. 

De acordo com números oficiais, a pandemia do SARS teve um pouco mais de 8 mil casos confirmados e 774 mortes. Já a COVID-19, até o fechamento deste texto, acumula 1 milhão e 360 mil casos confirmados – e 81.103 mortes. Os dados são Universidade Johns Hopkins, uma das mais respeitadas no assunto no mundo.

Na pista, uma disputa por cada centímetro; fora dela, uma luta conjunta contra o novo coronavírus (Reprodução/Twitter/@F1)

O segundo fator é o que faz a atual crise se diferenciar da chamada “gripe suína”, de 2009. Causada pelo Influenzavirus A subtipo H1N1 (associado também com Gripe Espanhola, há mais de 100 anos), aquela doença começou no México, se espalhando depois pelo resto das Américas e, aí sim, pelo mundo. Durante a pandemia, mais de 1,6 milhão de pessoas foram identificadas com a doença – com 18 mil mortes, mas a própria OMS afirma que os números podem ser bem maiores, já que muitos doentes com sintomas de gripe não são normalmente testados. De acordo com o orgão, o número de mortos pode ter ultrapassado os 500 mil na estimativa mais pessimista (e 151 mil na otimista).

Desta vez, o surto começou justamente na China, como o SARS, e tem a propagação fácil como a do H1N1. Por isso, na tentativa de conter a curva de crescimento dos contaminados, a China fechou fronteiras, o comércio, os cinemas, mandou as pessoas ficarem em casa e, por fim, teve impacto direto naquele que é o grande parque fabril do mundo. A fabricação de tudo caiu – inclusive de produtos importantíssimos para conter o vírus e tratar os pacientes, como os equipamentos de proteção individual (os epis, como máscaras) e respiradores (equipamento importantíssimo para os pacientes mais graves da COVID-19, que precisam de ventilação mecânica). 

Assim chegamos ao cenário atual, onde bilhões de pessoas estão obrigadas ou recomendadas a ficar em casa conter o contágio e não sobrecarregar as instituições de saúde. Em diversos hospitais de vários países, faltam equipamentos com médicos obrigados a escolher quem vai ou não receber um leito de UTI equipado com um respirador. Os Estados Unidos tomam ações mais duras (e polêmicas) para conseguir esses equipamentos – e todos buscam formas de criar respiradores, inclusive as equipes de F1.

Projeto Pitlane

No final de março, sete equipes do grid da principal categoria do automobilismo mundial – Red Bull, Racing Point, Haas, McLaren, Mercedes, Renault e Williams – anunciaram que estavam se reunindo no chamado Projeto Pitlane em parceria com o governo do Reino Unido. O objetivo é levar conhecimento tecnológico para fábricas do país para produzir os ventiladores conhecidos como Pressão positiva contínua na via aérea (CPAP, da sigla em inglês). 

Dessa forma, os engenheiros dos times estão fazendo engenharia reversa dos modelos já existentes, ajudando os fabricantes a ampliarem a produção e também criando novos modelos, que possam ser homologados e fabricados durante a crise atual. A coordenação é de Pat Symonds, engenheiro com passagens por Williams, Benetton e Renault – e que chegou a ser defenestrado da categoria pelo envolvimento com o “Singapuragate”, quando pediu para Neilsinho Piquet bater de propósito e beneficiar Fernando Alonso no GP de Singapura de 2008.

"A cada passo, o Projeto Pitlane irá buscar recursos e capacidades de suas equipes-membros para o melhor resultado, focando sempre nas principais habilidades da indústria da F1: design veloz, produção de protótipo, teste e junção habilidosa dos fatores. A capacidade única da F1 em responder a desafios tecnológicos e de engenharia permite que o grupo some forças à resposta da indústria da engenharia", disse a categoria por meio de um comunicado. 

A Mercedes é, até o momento, a mais engajada na iniciativa. Os engenheiros da equipe estão, desde o dia 18, trabalhando em parceria com os técnicos da University College London para fazer engenharia reversa dos respiradores usados em hospitais da China e da Itália. “Demorou menos de 100 horas entre a reunião inicial e a produção do primeiro dispositivo”, informou a UCL em comunicado na última semana.

O respirador desenvolvido com a ajuda do Projeto Pitalne

“Dada a necessidade urgente, estamos agradecidos por termos conseguido reduzir um processo que poderia levar anos para uma questão de dias”, afirmou o professor Tim Baker, do departamento de Engenharia Mecânica da UCL. “Trabalhamos todas as horas do dia, desmontando e analisando um dispositivo sem patente. Usando simulações em computador, aprimoramos ainda mais o dispositivo para criar uma versão de ponta adequada à produção em massa”. 

Nesta terça (7), a Mercedes compartilhou o primeiro respirador produzido pelo Projeto Pitlane nas redes sociais, que já foi aprovado pela NHS – sistema de saúde que foi a inspiração para o nosso SUS. “Os projetos de um novo aparelho respiratório desenvolvido por engenheiros da UCL e da Mercedes-AMG High Performance Powertrains, trabalhando com médicos da UCLH [hospital público da universidade], foram disponibilizados gratuitamente para apoiar a resposta global ao COVID-19”, postaram no Instagram. “Depois de um pedido do governo do Reino Unido por até 10.000, os dispositivos estão sendo produzidos a uma taxa de até 1.000 por dia e toda a unidade de Brixworth foi re-proposta para atender a essa demanda”. dispositivo 

Estima-se, hoje, que o país precise de cerca de 20 mil ventiladores para conseguir lidar com o pico da pandemia. 

Por estar na Itália – e fora do esforço britânico -, a Ferrari não se envolveu no Projeto Pitlane. Ainda assim, a família Agnelli (que controla o grupo Fiat Chrysler Automobilies e a Ferrari) doou € 10 milhões (quase R$ 57 milhões) para comprar 50 respiradores, além de disponibilizar carros para as equipes de saúde.

Resta, agora, torcer para que os equipamentos cheguem o mais rápido possível para quem precise. E que todos fiquem em casa. 

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