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A paixão que mudou a vida

Attila Lázslo se tornou fiscal de pista para se aproximar do automobilismo. Entretanto, mal sabia que o esporte que tanto ama também seria responsável pela maior mudança de sua vida

Attila Lázslo (Foto: Reprodução)

A maior paixão de Attila Lázlo também se tornou o que mudou sua vida para sempre. Fiscal de pista em Hüngaroring, foi em 3 de junho de 2018, em uma corrida do DTM, que acabou atropelado por Lucas Auer. O resultado? Amputação da perna esquerda abaixo do joelho. Mas mesmo com a virada brutal que sofreu, não consegue ficar longe das pistas.

O amor pela velocidade começou quando ainda pequeno. Para tentar se aproximar mais do esporte que tanto acompanhava pela televisão com seu pai, fez curso em 2011 para se tornar fiscal. Ali, se colocou dentro do ambiente que sempre admirou e começou a realizar um sonho de infância. Entretanto, estava a alguns anos de encarar a maior batalha de sua vida.

Mas hoje, pouco mais de dois anos após o acidente e obrigado a se adaptar a uma nova rotina, Lászlo se vê mais apaixonado como nunca pelo esporte e atrás do grande objetivo: se tornar piloto profissional. Para conhecer mais de sua história, o GRANDE PREMIUM conversou com o profissional.

O NASCIMENTO DA PAIXÃO

O amor de Attila pelo esporte a motor começou ainda muito cedo, quando assistia a era dominante de Michael Schumacher na Fórmula 1 no início dos anos 2000. “Meu interesse em automobilismo começou quando era uma criança. Assistia com meu pai, pela TV, Michael Schumacher vencer corridas com a Ferrari vermelha. Em algumas noites, antes de dormir, pensava em como deveria ser incrível estar lá nas corridas”, conta ao GP*.

Entretanto, o automobilismo parecia uma realidade distante de Attila. O motivo é que nasceu em uma pequena cidade chamada Kézdivásárhely, na Transilvânia, Romênia, nação com pouca expressão no cenário do esporte a motor mundial. Entretanto, atualmente, um representante do país na Fórmula 1 é Otmar Szafnauer, chefe da Racing Point.

“Próxima à cidade tínhamos um circuito de kart abandonado. Então, algumas vezes fui até lá para andar com minha bicicleta. Mas teve uma vez em que tive a oportunidade de andar em um kart rental, que eu amei, mas não tive mais oportunidades depois disso. Mais tarde, me mudei para Budapeste [na Hungria] e comecei a competir de kart”, completa.

“Acho que todos se lembram da primeira experiência [em um circuito]. Minha primeira vez entrando em Hüngaroring foi em 2005, em um treino livre de sexta-feira. Fui com meu irmão na curva Alesi, um dos pontos mais distantes do pitlane, mas quando os motores ligaram nos boxes o som foi incrível. Quando passaram por nós pude sentir o chão vibrar sob meus pés. Se me lembro corretamente, tive a chance de estar lá em outras dez corridas”, destaca.

Lászlo com um grupo de fiscais (Foto: Reprodução)

SE APROXIMANDO DO AUTOMOBILISMO

Com o passar dos anos, a chama da velocidade só crescia dentro do romeno. Entretanto, a real vontade de se colocar dentro dos autódromos e entre os carros veio após um episódio em 2009, após uma corrida no Hüngaroring. “A razão por qual me tornei fiscal foi por conta da atmosfera. Naquele ano, houve um evento de graça no circuito, uma etapa da World Series Renault onde encontrei uma brecha na segurança e consegui andar na pista de segurança para tirar algumas fotos”, diz.

“Andei por lá quase o dia todo e uma vez que os carros estavam saindo para o grid, pude ouvir a largada e foi aí que começou tudo. Fiquei pensando em como é possível fazer tudo isso. Então, em 2011, comecei o curso. Foi tão animador me encontrar com as pessoas que trabalhavam em Hüngaroring, ouvir suas histórias. Por exemplo, um dos instrutores trabalhou no pós-acidente de Felipe Massa em 2009. O perguntei sobre o acidente e pude ver seu choque ao relembrar de tudo”, continua.

“Após terminar o curso para me tornar um fiscal, minha primeira corrida como trainee foi uma corrida do campeonato nacional, onde aprendi muito com meus colegas. Algumas semanas depois, tive a chance de trabalhar no WTCC, a primeira vez da categoria no circuito”, relembra.

“Tínhamos Norbert Mischelisz no grid, que estava andando bem. As arquibancadas estavam cheias e me lembro que estava na parte de trás do circuito, mas pude ouvir os espectadores gritando ‘Norbi! Norbi! Norbi!’. São esses momentos que grudaram em minha mente. Durante os anos que trabalhei como fiscal fiz mais corridas do WTCC, World Series, corridas de 12 horas, campeonatos nacionais, alguns dias de testes, paradas nas ruas de Budapeste. Quando meu acidente aconteceu, era minha segunda vez no DTM”, emenda.

Attila quando foi fiscal da Fórmula 1 (Foto: Reprodução)

A FATÍDICA MUDANÇA

Mas estar tão próximo do esporte que sempre admirou custou um alto preço ao fiscal. No dia de seu aniversário de casamento, estava cumprindo sua função no DTM. Sua segunda participação na categoria de turismo alemã foi marcada por uma forte chuva durante a prova. Portanto, quando Lucas Auer foi aos boxes, o escorregadio asfalto o fez perder o controle e acertar em cheio os membros que estavam na garagem.

O competidor austríaco acertou três profissionais e, entre eles, Attila. Edoardo Mortara e Bruno Spengler também se envolveram em acidentes diferentes naquele momento e a corrida foi interrompida imediatamente. Posteriormente, o trio foi excluído do resultado da segunda prova do final de semana. Logo ambulâncias chegaram e os feridos foram enviados ao Hospital Militar de Budapeste – o mesmo que Massa foi encaminhado após o incidente com a mola em 2009.

“Eu me lembro de tudo. Antes dos pilotos chegarem ao grid, tirei uma foto da bandeira brasileira que era segurada por uma grid girl e mandei para minha esposa, já que ela é brasileira. Ela estava distante, no Brasil. Então, voltei para meu ponto para prestar atenção em meu time. Tive um momento antes da corrida em que vi Alex Zanardi andando entre os carros e tive um breve pensamento de como deve ser difícil a vida sem as pernas”, diz.

O momento do acidente em Hüngaroring (Foto: Reprodução)

“Alguns minutos depois tive meu acidente. Após os mecânicos puxarem o carro para trás, eu me lembro claramente do meu tênis sair voando e de ter visto como meu pé estava machucado. Pulei para dentro do box e deitei no chão. Meu primeiro pensamento foi ‘como vou brincar com minha filha de dois anos depois disso?’”, continua.

“Após os primeiros socorros, fui transportado de helicóptero para o mesmo hospital em que Felipe Massa foi tratado. Os médicos tentaram salvar meu pé, após a primeira cirurgia parecia que tinha a chance de não perder a perna. Entretanto, uma semana depois ficou totalmente preta, então, os médicos tomaram a decisão de que era necessária a amputação”, completa.

Ter de colocar todos os sonhos em espera e precisar se adaptar a uma realidade totalmente diferente se tornou a vida de Lászlo. “Após o acidente, precisei lidar com o fato de que isso era irreversível. Nada mais foi o mesmo. No início, até mesmo tomar um banho era um grande desafio, então, aos poucos tive de reconstruir minha vida, aprender e experimentar novas rotinas. Após um tempo, essas rotinas se tornaram um pouco mais fáceis, mas para ter uma boa vida precisava de prótese, o que não é barato”, diz.

O romeno explica ainda que as coisas começaram a realmente se encaixar após adotar a prótese. “Seis meses após o acidente recebi meu primeiro pé de fibra de carbono, o que era incrível, mas após um tempo me senti limitado novamente. Graças a Otto Bock Hungria tive a chance de experimentar, em abril de 2019, a melhor prótese, a esportiva. Com essa perna fui capaz de correr novamente dez meses após o acidente. Naquele mês, voltei como fiscal em Hüngaroring em uma corrida do WTCR. Tive alguns momentos assustadores, mas foi bom para minha alma encarar meus medos”, pontua.

A onboard de Auer (Foto: Reprodução)

A PERSEGUIÇÃO DO SONHO

O amor por automobilismo sempre falou mais alto na vida de Attila. Tanto que, há nove anos, começou a trilhar o caminho para fazer parte ativa das competições – agora como piloto. “O ano de 2011 foi de mudança na minha vida. Comecei a competir em um campeonato amador de kart, onde meu melhor resultado foi uma terceira colocação. Nos anos seguintes, comecei a participar de corridas de longa duração onde tive bons resultados, algumas vitórias”, fala.

Entretanto, no meio do caminho, teve de lidar com o acidente. Mas nem mesmo a amputação freou seu desejo de se profissionalizar e logo assim que terminou a reabilitação, já estava pensando em retornar às pistas. “Após meu acidente, quando deixei a reabilitação, falei para meus amigos para irmos a uma pista de kart, pois queria saber se era capaz de apertar o acelerador com a prótese. Foi tão bom que fui mais rápido que meus amigos, então, duas semanas depois comecei a correr novamente e decidi começar com as competições”, diz.

“No último ano, tive alguns bons momentos, mas com essa nova situação, tive de encarar alguns problemas como ter de segurar minha prótese sobre o pedal de aceleração, então, não posso controlar meu corpo usando minha perna. Isso me causou uma costela quebrada uma vez. Neste ano, por conta da situação da Covid-19, começamos a temporada tarde, mas meu companheiro e eu estamos próximos do sucesso. Espero poder comemorar no final do ano”, completa.

Lászlo andando de kart (Foto: Reprodução)

E a Zengö Motorsport, comandada por Zengö Zoltán, o deu um gostinho de como é ser um competidor profissional. Em 2019, a escuderia forneceu um teste com um carro do WTCR [World Touring Car Cup]. A sessão, em Hüngaroring, foi separada em duas partes e com duração de 30 minutos cada. O carro precisou passar por mudanças, especialmente nos pedais de freio.

“Graças a Gáspár István e Zengö Zoltán [dono da Zengö Motorsport] tive a oportunidade de dar 17 voltas em Hüngaroring. Foi um ótimo dia e uma experiência para a vida, sentir a força do carro. Não pude pilotar no limite, mas mesmo assim foi inacreditável. Pilotei muitas vezes no simulador em Hüngaroring e conhecia bem o traçado, mas andar assim é uma dimensão completamente diferente. Se eu tiver novas oportunidades quero estar lá, estou começando a ir atrás disso”, relembra.

E Lászlo tem em grandes nomes do esporte a motor mundial uma enorme inspiração para sempre seguir adiante. “Acho que o piloto com deficiência mais conhecido é Alex Zanardi, mas também acompanho Billy Monger, Nathalie McGloin e há um piloto húngaro, Zoltán Bessenyei, que é bicampeão europeu de rali. Todos são grandes batalhadores e grandes exemplos para mim”, sublinha.

O dia que Attila teve a chance com um carro do WTCR (Foto: Reprodução)

OS NOVOS AMORES

Mas a amputação trouxe novos gostos para a vida do fiscal voluntário. Amante de bicicletas, se tornou paraciclista, ideia que surgiu ainda no hospital. “Um amigo me disse para começar a criar objetivos como correr uma maratona em dois anos. Mas disse a ele que correr não é meu esporte, mas sempre gostei de pedalar. Então, decidi que, em 2019, iria pedalar em volta do Lago Balaton [lago na Hungria], que é um caminho de 206 km. Após cumprir esse objetivo, tive a ideia de começar a competir de bicicleta e rapidamente me tornei membro do time nacional”, conta.

Mas esse não foi o único esporte em que se envolveu. Attila também começou a jogar Teqpong, esporte de raquete que se assemelha ao tênis de mesa, mas jogado exclusivamente em uma mesa desenhada para a modalidade. “O parateqpong e o parateqis são minha profissão. Trabalho em uma companhia como animador, então, estou levando o esporte para pessoas ao redor do mundo. Mas também trabalho no parateqball e espero que alcancemos nosso sonho em alguns anos: nos tornar um esporte paraolímpico”, diz.

Por fim, Lászlo conta qual o seu maior sonho. “Acho que o mais importante é ser um bom marido e um bom pai, mas com certeza também tenho outros sonhos, todos temos. O meu é me tornar um piloto e estar nas paralimpíadas como paraciclista”, encerra.

Lászlo praticando parateqpong (Foto: Reprodução)

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