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A triste história por trás da música do pódio da F1

Tocada no momento de ápice da Fórmula 1, a canção é o começo de uma ópera que chocou o público quando estreou – e que ainda diz muito sobre a nossa realidade atual

Foto: Twitter / Mercedes

Cheios de sorrisos em seus rostos, quatro homens (ou, muito raramente, três homens e uma mulher) sobem uma escada para um mezanino. Lá, com seus macacões cheios de patrocinadores, pagam respeito a um ou dois hinos nacionais. Em seguida, estouram algumas garrafas de espumante e comemoram, enquanto um homem grita “the champagne!”. Esse é o pódio da Fórmula 1. No entanto, essa última parte acontece ao som de uma música que tem por trás uma história que nada lembra comemoração, glória ou vitória – mas sim fracasso, imoralidade, ilegalidade e morte trágica.

Essa é a história da ópera ‘Carmen’.

Antes de continuar, clique no play a seguir e ouça a música do pódio da F1:

‘Carmen’

A música que toca há mais de 20 anos nos pódios da Fórmula 1 é a introdução de ‘Carmen’, ópera composta pelo francês Georges Bizet e que foi encenada pela primeira vez em Paris no dia 3 de março de 1875. Aquela estreia foi um choque, um ultraje na sociedade parisiense da época. “A heroína é imoral”, reclamou parte da crítica. “Ela é a encarnação do vício”, descreveram alguns. O fato é que o mundo não estava preparado para Carmen, a protagonista.

Baseada em uma novella (termo italiano que define uma narrativa breve, com um tamanho entre o conto e o romance) escrita por Prosper Mérimée, ‘Carmen’ é uma ópera em quatro atos que conta a história da sedutora protagonista, uma cigana que “rouba” o cabo Don José da noiva, Micaëla. A partir daí, uma série de desencontros e tragédias se sucedem.

Tudo começa em Sevilha, Espanha, por volta de 1820. Após causar uma confusão em uma fábrica de tabaco onde trabalhava, Carmen é presa por Don José – que é seduzido pela cigana, a liberta e, por consequência, ele mesmo é preso. Os dois se reencontram meses depois, agora com Carmen como integrante de um grupo de contrabandistas. Don José, então, deserta do exército para ganhar a amada, o que ele consegue – no entanto, também se torna obcecado e ciumento.

O ciúmes só cresce, até Carmen romper com o relacionamento. Don José retorna para a ex-noiva, Micaëla.

Tempos depois, José e Carmen se reencontram. A essa altura, a cigana vive um novo amor, com um toureiro, o que deixa o ex-amante fora de si. Ele ameaça, exigindo o retorno de Carmen, que recusa. Don José, então, esfaqueia Carmen, que morre em seus braços. “Minha amada Carmen”, lamenta o assassino. Fim.

Versão cantada da música do pódio da F1

Quem nunca viu ou ouviu ‘Carmen’ não sabe, mas a abertura da ópera, a música das cerimônias do pódio da F1, é um tema que se repete em em outros momentos da composição de Bizet – já que é justamente a canção dos toureiros. A mais marcante é próximo ao encerramento da obra, na música chamada ‘Les voici! les voici! Voici la quadrille!’ (“Aqui estão eles! Aqui estão eles! Aqui está a quadrilha!”, em tradução literal).

A melodia toca pouco antes da morte de Carmen, já no quarto ato da peça. É a entrada dos toureiros que, pouco depois, se apresentariam na arena de Sevilha. É, certamente, um dos momentos mais importantes do ápice da peça, com praticamente todo o enorme elenco no palco. Trata-se do último momento de alegria na encenação – e, talvez por isso, tenha despertado essa correlação com as comemorações do automobilismo.

Assista a essa versão no vídeo a seguir, encenada em Verona no ano de 2014.

Depois, a música se repete ao fundo, de longe, durante o assassinato da protagonista.

Reprovação do público

Escrito para ser um drama com a vida das pessoas comuns e suas paixões mundanas, ‘Carmen’ fugiu do clichê da época, que era recheada de óperas feitas para levantar a moral do público. Mais do que isso, trazia uma mulher de personalidade como protagonista, alguém que amava a liberdade e, ainda mais chocante para aqueles tempos, era sexualmente livre. Tudo isso para morrer nas mãos de um homem abusador e opressor.

“Como músico, se você me disser que eu devo suprimir ódio, fanatismo ou o mal, não seria mais possível escrever uma nota de música”, comentou Georges Bizet sobre sua própria obra. Isso em uma época na qual o Romantismo glorificava comportamentos abusivos e o sentimentalismo excessivo.

Tudo dentro de um gênero chamado “Opéra Comique”, que tinha esse nome não por ser exatamente cômica, mas por ser também o nome do teatro onde esse tipo de apresentação se tornou popular. Tal gênero reúne diálogos falados e música, algo que era visto como para toda a família.

“Não apenas ‘Carmen’ era uma história muito naturalista, mas também com uma música muito sensual que foi considerada muito ofensiva”, explica Burton D. Fisher, ex-maestro e autor de diversos livros sobre ópera, na análise publicada na introdução da versão impressa da obra publicada nos EUA em 2001. “Em uma geração anterior, mães proibiam que suas filhas ouvisse a música de Beethoven porque tinham medo de que as corrompessem, ou mesmo fossem seduzidas pelo que era percebido como um erotismo latente.”

A música do pódio da F1 é da ópera 'Carmen'. Aqui, uma montagem de 2014 na Itália
Montagem de ‘Carmen’ realizada em Verona, Italia, em 2014 (Foto: Flickr / Tony Hisgett)

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“No final, ‘Carmen’ foi considerada completamente desagradável, grosseira, vulgar e até mesmo imoral. Em particular, o assassinato de Carmen no palco foi considerado inadequado em uma casa de ópera familiar, e a lenda diz que o público vaiou o último ano”, explica Fisher, contextualizando a recepção do público na primeira apresentação da obra.

Aclamação

Pouco depois do fiasco inicial, Bizet assinou um contrato para a produção de ‘Carmen’ pela Ópera da Corte de Viena – hoje, Ópera Estatal de Viena. Ele, no entanto, morreria pouco depois, em 3 de junho de 1875, exatos três meses após a première francesa. Deprimido com o fracasso de sua grande obra e fumante inveterado, se deixou levar por dois ataques cardíacos. Ele tinha apenas 36 anos.

A estreia em Viena aconteceu pouco depois, em 23 de outubro do mesmo ano, com algumas mudanças para transformá-la em uma “grand opera” – ou seja, com os diálogos falados transformados em versos, o que se tornaria o padrão para a obra no século seguinte.

Na capital austríaca, ‘Carmen’ foi um sucesso. Compositores como Richard Wagner e Johannes Brahms ficaram encantados. Esse último, inclusive, dizem que assistiu ao espetáculo 20 vezes. Para o filósofo Friedrich Nietzsche, uma das maiores influencias da modernidade intelectual, ‘Carmen’ era uma saudável antítese justamente dos personagens introspectivos das óperas de Wagner, tão criticadas por ele. “Eu me tornei um homem melhor quando Bizet conversou comigo”, definiu o filósofo.

Com o sucesso, ‘Carmen’ recebeu uma nova montagem em Londres, já no ano de 1878. Depois foi para a Alemanha, onde teve também grande repercussão e, dizem, foi assistida 27 vezes por Otto von Bismarck, o Chanceler de Ferro responsável pela unificação da Alemanha.

Com tanta aclamação pela Europa, da Opéra-Comique se viu obrigada, pelo clamor popular, a dar a ‘Carmen’ uma nova chance em Paris. No entanto, a obra foi bastante alterada para retirar suas “impurezas” e “inapropriedades”.

‘Carmen’ hoje

Sem dúvida alguma, ‘Carmen’ se tornou uma das óperas mais conhecidas em todo o mundo. Mais do que isso: ainda que se passe na primeira metade do século XIX, a história se mostra extremamente atual. Fala sobre liberação e traz uma protagonista que, hoje, poderia ser vista como feminista.

Há, no entanto, um debate importante sobre o final. Será a morte de Carmen uma denúncia dos males do machismo, um retrato cruel da realidade, ou a glorificação de que, pela honra ou por culpa da própria vítima, o feminicídio é algo válido? Carmen seria apenas um personagem criado por um homem para satisfazer os desejos de sua mente masculina?

“Para a sociedade da época, Carmen foi morta porque era uma mulher demoníaca, que desconcertou seu amante com sua sedução e subsequente desprezo até levá-lo à loucura”, explicam Heloísa Helena Silva Pancotti e Aline Albieri Francisco em uma dissertação sobre a ópera. “A reflexão que se impõe é que nos dias atuais, a sociedade ainda pensa como em Carmen.”

“Na sociedade machista, na qual a mulher era, e ainda é, vista como propriedade masculina, frequentemente a defesa dos homicidas de mulheres, se ocupavam de levantar inúmeras dúvidas sobre a ‘virtuosidade’ da vítima com a finalidade de justificar, para além dos privilégios, a atitude extrema. Nada de novo, nada que nossa sociedade moderna não conheça. Trata-se da ‘culpabilização da vítima'”, continuam.

A música do pódio da F1 é da ópera 'Carmen'. Aqui, uma montagem de 2010 na Flórida
Montagem da ópera ‘Carmen’ no projeto ‘Opera for All’, na Florida Grand Opera, em 2010 (Foto: Flickr / Knight Foundation)

Em um momento de desconstruções e ressignificações, no qual vivemos hoje, algumas montagens repensaram o final de Carmen na ópera. Uma delas foi em Florença, Itália, em 2018. Em vez de ser morta, é a protagonista que mata José (retratado como um policial na releitura).

“O tema da morte na ópera é um forte elemento masculino – a mulher deve se sacrificar para salvar sua própria liberdade”, explicou Leo Muscato, diretor da releitura, em entrevista ao ‘The Telegraph’. “É um ponto de vista que hoje não faz mais sentido”.

“Eu não acho que a ópera seja sobre quem mata, quem sobrevive”, faz um contraponto Barrie Kosky, diretor da Royal Opera House de Londres, em entrevista para a ‘BBC’. “Tem três horas antes disso. Vamos ser sérios. Por 400 anos, a história da ópera é misoginia. Sério! É sobre mulheres histéricas, mulheres doentes”.

Ainda assim, a versão de Kosky traz um final diferente do original. Quer dizer, na visão do diretor esse seria o verdadeiro encerramento planejado por Bizet, mas nunca executado. Após ser esfaqueada, Carmen se levanta e, antes do fim da peça, dá de ombros para o público. “Então não termina com uma mulher morta e o tenor chorando, ela volta. A música dela volta. É sobre ela”, diz o músico.

Seja como for, o feminicídio da época de ‘Carmen’ continua em tempos atuais. Só no Brasil, durante os primeiros dois meses da atual pandemia, uma mulher foi morta a cada nove horas de acordo com o levantamento “Um vírus e duas guerras”, feito pelos veículos independentes ‘Amazônia Real’, ‘Agência Eco Nordeste’, ‘#Colabora’, ‘Portal Catarinas’ e ‘Ponte Jornalismo’.

Ainda que seja um momento de alegria e champagne, que a canção de ‘Carmen’ nos pódios da Fórmula 1 nos faça refletir sobre essa dura e atual realidade.

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