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A Indy 500 que nunca aconteceu

Se em 2020 as 500 Milhas de Indianápolis aconteceram em agosto por causa da pandemia, em 1942 a situação foi ainda pior – e também polêmica

O ataque em Pearl Harbos (Foto: reprodução)

O mundo não é mais o mesmo. A situação global deteriorou-se rapidamente e há dúvidas sobre a viabilidade de grandes eventos esportivos. Há um inimigo em comum, e as atenções da sociedade se voltam a ele. A economia sofre e são necessários sacrifícios de todos – inclusive da corrida mais espetacular da Terra, as 500 Milhas de Indianápolis.

Não, não estou falando de 2020. O ano é 1942.

Claro, você sabe: a pandemia global da covid-19, doença causada pelo SARS-CoV-2, fez com que, neste ano, a tradicional prova automobilística fosse adiada da tradicional data do final de maio e acabasse realizada no último domingo, dia 23 de agosto. A vitória foi do japonês Takuma Sato, em uma corrida sem público nas arquibancadas e cheia de protocolos sanitários.

Isso, claro, não ocorreu sem idas e vindas. O novo dono do circuito e do campeonato, Roger Penske, tentou inicialmente manter a data original. No final de março, a Indy 500 foi definitivamente adiada para agosto – e com público. Penske chegou a dizer que teria, de alguma forma, os fãs nas arquibancadas, nem que precisasse adiar ainda mais o evento de 2020. No final, prevaleceu não apenas o bom-senso, como também a sensação de que a crise do novo coronavírus ainda tem uma longa trajetória pela frente.

Tal situação não é inédita na história do centenário Indianapolis Motor Speedway. A Primeira Guerra Mundial cancelou as edições de 1917 e 1918 – essa segunda, inclusive, durante a famosa pandemia da Gripe Espanhola.

Porém, o cenário de 2020 ecoa uma outra pausa na história de Indianápolis: a de 1942.

Mauri Rose, co-vencedor da Indy 500 de 1941 – o piloto teve um acidente no começo da prova e, na volta 73, assumiu o carro #16 após o dono da equipe ficar descontente com o desempenho do titular, Floyd Davis. A vitória é creditada a ambos (Foto: reprodução / IMS)

O mundo em guerra

Com os livros de história nos contam, os Estados Unidos demoraram para se envolverem diretamente na Segunda Guerra Mundial. O conflito se arrastava desde 1º de setembro de 1939, quando a Alemanha Nazista de Adolf Hitler invadiu a Polônia. Porém, no Brickyard, os carros continuaram andando em círculos nos anos de 1940 e 1941.

Foi em 7 de dezembro de 1941 que o Japão, parte do Eixo junto com Alemanha e Itália, bombardeou a base naval de Pearl Harbor. O ataque tirou os EUA da neutralidade, com o país se unindo aos Aliados. Começava a Guerra do Pacífico.

A essa altura, os ingressos para a Indy 500 de 1942 já estavam vendidos, como comprovam anúncios de jornal da época. A corrida estava marcada para 30 de maio, uma data que o então dono do autódromo, Eddie Rickenbacker (um veterano da Grande Guerra, diga-se), pretendia cumprir.

Porém, moradores de Speedway (cidade que existia desde 1926 por causa do autódromo) demonstravam preocupação com o grande evento, que teve um público estimado de 160 mil pessoas em 1941. “Citando alegado perigo de sabotagem para as grandes arquibancadas ou para a indústria de defesa em Speedway, a União Central dos Trabalhadores adotou uma resolução pedindo que o governador Henry F. Shricker use sua ‘influência’ para cancelar as 500 Milhas de Indianápolis do próximo ano”, dizia uma pequena nota do Indianapolis Star em 23 de dezembro de 1941 – cerca de duas semanas após Pearl Harbor.

Recorte do Indianapolis Star em 23 de dezembro de 1941 (Foto: reprodução / Newspaper.com)

“T.E. (Pop) Myers, vice-presidente do Indianapolis Motor Speedway, disse ontem a noite que os planos para a corrida de 1942 continuam avançados. Ele se negou a comentar a resolução”, continuava o jornal. O executivo citado era Theodore Myers, mais conhecido como Pop – e que trabalhou no Speedway de 1910 até 1952.

Vale destacar que, com o esforço de guerra avançando, a indústria do país rapidamente passou a produzir insumos, equipamentos e armas para serem usadas no front – isso incluía a indústria ao redor do Speedway. No final do conflito, a área continental dos EUA pouco sofreu em termos de ataques do inimigo, mas, ainda no começo dessa história, havia muito medo e paranoia.

Em dezembro de 1941, rumores de um ataque em Oakland, Califórnia, fizeram com que as autoridades locais causassem um apagão e um silêncio nas ondas de rádio, para não serem identificados pelos japoneses. Já em fevereiro de 1942, uma histeria coletiva fez muita gente imaginar um ataque aéreo em Los Angeles, também na Costa Oeste. Não eram tempos fáceis.

Nada disso abalou a organização da Indy 500. “Os planos da corrida no Speedway continuam”, disse o Indianapolis Star em 28 de dezembro em 1941. Naquele momento, no entanto, começava a surgir um perigo muito maior do que o medo: era o racionamento.

O diário informava que já havia racionamento de pneus no país. Isso porque, naquele momento, o Eixo controlava boa parte da reserva natural de borracha no planeta – e o material, como se sabe, acaba sendo essencial em tempos de guerra. A borracha sintética já existia, mas era muito cara. Foi o conflito que diminuiu o custo da produção do material sintético, mas ainda havia uma longa trajetória para ser trilhada nesse caminho naquele final de 1941.

“T.E. (Pop) Myers, gerente geral do Indianapolis Motor Speedway, comentou ontem que o novo racionamento de pneus não trouxe mudanças imediatas nos planos de continuar com as 500 Milhas de Indianápolis deste ano, mas adicionou: ‘Nós não sabemos o que pode acontecer amanhã, ou o que pode acontecer na próxima semana'”, publicava o jornal.

“Oficiais do escritório local da Firestone Tire and Rubber Company, que fornece a maioria dos pneus usados na corridas, disse que possui um grande estoque de pneus que provavelmente é o suficiente para a corrida, mas não o suficiente para a classificação e a corrida”. A companhia informava, também, que não poderia vender aqueles pneus para outros interessados em tempos de conflito. Os compostos, já naquele tempo, não serviam para carros de rua.

Fim de papo

O cancelamento veio antes do fim do ano. A edição de 30 de dezembro de 1941 do Indianapolis Star já trazia a manchete: “Sem corrida no Speedway”. “A decisão do presidente Eddie V. Rickenbacker, de suspender as 50 Milhas de Indianápolis em todo o período da guerra, está dentro do espírito de nosso tempo e das pessoas”, trazia a matéria. “É apropriado que o evento seja omitido nesta temporada como parte do esforço de todos para trazer uma rápida vitória sobre o Eixo na atual luta”.

“Sem corrida no Speedway”, dizia o jornal em 30 de dezembro de 1941 (Foto: reprodução / Newspapers.com)

O texto continuava: “A corrida do Speedway, como um evento esportivo, é uma classe por si só. Ela usa materiais e equipamentos que são importantes em tempos de guerra. Ferramentas e maquinaria são de demanda urgente para fazer os utensílios de guerra. Borracha é necessária para o importante negócio de enfrentar os inimigos do país, e a habilidade de mecânicos e pilotos que seriam requisitados para a corrida são necessários para o serviço da nação.”

Ainda assim, o diário ressaltava a importância do entretenimento e da diversão em tempos difíceis de conflito. Porém, o esforço de vencer o inimigo era ainda mais importante. “Essa ação também serve para levar à casa das pessoas a seriedade da situação que está à frente de todos nós”, definia.

Como podemos ver, o cancelamento não aconteceu pela histeria – mas pela percepção, correta, de que havia algo mais importante em jogo do que o automobilismo.

No final de fevereiro de 1942, a American Automobile Association, espécie de CBA daqueles tempos nos EUA, suspendeu todas as corridas no solo americano. No dia 3 de julho, a decisão se tornou governamental: todas as provas automobilísticas do país foram banidas pelo Office of Defense Transportation, incluindo as corridas que não eram sancionadas pela AAA.

Tempos sombrios e recomeço

Como sabemos, a Segunda Guerra Mundial não foi resolvida tão rapidamente quando os americanos desejavam. O Indianapolis Motor Speedway foi trancado e abandonado em março de 1942 – e quase todos os funcionários perderam o emprego.

Foi apenas no final de 1944, já com o conflito caminhando para o seu fim, que o governo permitiu que a Firestone realizasse um teste de pneus no circuito, conduzido pelo piloto Wilbur Shawn – tricampeão em Indy, nos anos de 1937, 1939 e 1940. Curiosamente, foi Shawn que ajudou um já desinteressado Rickenbacker a vender o Brickyard a Tony Hulman. Seria o novo dono que levia o Speedway a voos ainda maiores na história do automobilismo mundial, com Shawn como presidente do Speedway até 1954.

A Segunda Guerra Mundial acabaria oficialmente em 2 de setembro de 1945, dias após a rendição do Japão. As 500 Milhas de Indianápolis retornariam em 30 de maio de 1946, em uma prova vencida por George Robson.

Desde então, a Indy 500 aconteceria todos os anos, religiosamente, no final de maio. Até 2020 – um ano que já entrou para a história e que, curiosamente, também traz um novo dono para o circuito.

Como podemos ver, tudo nessa vida é cíclico.

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