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A ânsia por resultados

Alex Bowman teve na etapa de Charlotte da Nascar um princípio de crise de ansiedade, um problema até então desconhecido pelo público. É a outra face da busca por resultados em esportes de alta performance: a dificuldade de cuidar da saúde mental

Alex Bowman colocou a saúde mental em primeiro plano nas últimas semanas (Foto: Nascar Media)

Estados Unidos, Carolina do Norte, Charlotte. O dia é 11 de outubro e a Nascar visita esta cidade para realizar uma corridas das mais duras da temporada: no Roval, misturando características de oval com outras de misto, é dia de decidir os quatro pilotos que serão eliminados na segunda fase dos playoffs. Foi um dia de tensão e angústia para todos os envolvidos, mas principalmente para Alex Bowman: com quadro de ansiedade, o piloto precisou lutar contra rivais e contra si mesmo para ter tudo sob controle. E foi muito além disso: expôs uma nova face da luta por saúde mental em um esporte de alta performance.

A ansiedade de Bowman era desconhecida. Não que fosse um segredo guardado a sete chaves, mas simplesmente não se tornou aparente. Isso mudou durante uma das bandeiras amarelas em Charlotte: com a corrida paralisada e tempo livre para pensar no risco de eliminação dos playoffs, Alex ficou inquieto no rádio. “Desculpa, essa é minha versão ansiosa. O Alex normal vai voltar em seguida”, comentou o piloto do #88 em seguida. De fato: o recomeço da prova trouxe tranquilidade e permitiu o oitavo lugar necessário para avançar no ‘mata-mata’ da Nascar.

Alguém poderia imaginar que o caso de Bowman é algo raro, uma peculiaridade. Ledo engano: a Associação de Ansiedade e Depressão dos EUA estima 40 milhões de casos de ansiedade só nos Estados Unidos. A maioria sem diagnóstico ou tratamento. Uma face cruel de uma sociedade cada vez mais exigente, e que não poupa nem aqueles que mais precisam de frieza para atuar como atletas de alta performance. À luz dos problemas de Bowman, é isso que o GRANDE PREMIUM relata no Conta-Giro desta semana.

Para começo de conversa, é importante destacar: a ansiedade é um problema que pode afetar a grande maioria das pessoas com um estilo de vida moderno, com intensidade e estresse da hora de acordar à de dormir. A Dra. e PhD Luciana Ferreira, especialista em psicanálise, psicopedagogia e neurociência, reflete sobre esse cenário, ainda mais real para atletas de alta performance.

A etapa do Roval mostrou o lado ansioso de Alex Bowman (Foto: Nascar Media)

“Funções de alta demanda, assim como esportes de alto rendimento, ativam grande descarga de adrenalina para que o atleta prepare-se para essa função”, diz Ferreira, entrevistada pelo GP*. “Se essa adrenalina é consumida pela própria execução da atividade, é ok, temos aí um equilíbrio. Mas se não for aproveitada, o excesso transforma-se em cortisol, que é o hormônio do estresse. Logo, se o profissional não estiver bem ajustado emocionalmente para suportar a cobrança de resultado, muito provavelmente não conseguirá manter o equilíbrio. Isso gera ansiedade e leva a um quadro de retroalimentação negativa. É mais estresse, mais ansiedade e menos força necessária para executar tarefa. Isso leva a mais adrenalina e mais estresse”, segue.

“Há de se considerar que a ansiedade na medida adequada é positiva, é o que vai dar o ‘start’ para alcançar o objetivo. A ansiedade é uma resposta neurofisiológica a uma situação interpretada como exigente. Isso quer dizer que a ansiedade em equilíbrio e ‘controlada’ pelo profissional ou atleta é positiva”, pondera.

Ansiedade pode, então, ser positiva. Cabe ao atleta, mas também ao resto da sociedade, aprender a encontrar um ponto de equilíbrio se possível for. Para Bowman, o catalisador foi o anúncio de um novo contrato com a Hendrick, encerrando cansativos rumores sobre a permanência na Nascar.

“Sendo sincero, isso [anúncio] provavelmente me distraiu durante a semana”, reflete Bowman. “Falar sobre outra coisa, não ficar pensando tanto na questão dos pontos. É duro. Vamos para o roval, é estressante. Semana de eliminação, estressante. Você fica cercado de campeões, ainda mais estressante. Você tenta superar o Kyle Busch e vai chover. São tantos elementos de estresse quanto possível”, continua.

Há vezes, entretanto, que a busca por soluções é menos óbvia. No caso de um atleta de alta performance, a solução é tão óbvia quanto estigmatizada: o uso de terapia e acompanhamento psicológico.

Pesquisas sobre os benefícios do acompanhamento psicológico a atletas de alta performance são extensas e comuns ao longo das últimas décadas. No automobilismo, esse benefício é visto mesmo em casos de pilotos sem um quadro patológico – Romain Grosjean passou a fazer terapia como forma de lidar com a tumultuada temporada 2012, quando causou série de incidentes e chegou até mesmo a ser suspenso por uma corrida. Quando se fala de ansiedade, os benefícios são ainda mais notórios.

Romain Grosjean precisou de ajuda psicológica para superar a fase ruim de 2012 (Foto: Reprodução)

“É imprescindível conhecer a si mesmo e conhecer os ativadores de sua ansiedade”, afirma Ferreira. “Falo ‘sua’ porque é algo individual, diferente de pessoa para pessoa. Quando o atleta aprende a lidar com a ansiedade, seja em terapia ou treinamento comportamental, ele fará dela uma aliada. Fala-se aí em ‘medida de ansiedade’, em que cada um precisa achar a sua ansiedade ‘ideal’. Os atletas de alta performance costumam ter a habilidade de se autorregular, como se conseguissem manter o nível de ansiedade necessário para atingir o objetivo. Isso se obtém com terapia e treino comportamental. Há pessoas que dispõe de mais facilidade para adquirir esta habilidade do que outras, como em qualquer aprendizagem. Alguns aprendem a tocar violão mais rápido do que outros, mas todos são capazes de aprender. Basta que estejam dispostos e suportem a frustração do erro”, compara.

Desafios especiais

A ansiedade é um problema que afeta todos, independente de origem e classe social. Dito isso, é inegável que é um problema de facetas diferentes para atletas de alta performance. A busca por resultados progressivamente melhores é um possível gatilho, assim como a dificuldade de aceitar uma inevitável decadência.

Bowman tem 27 anos e não sofre com qualquer sinal de perda de suas habilidades – pelo contrário, recebendo a renovação com a Hendrick por méritos próprios. Ainda assim, pessoas com predisposição a um quadro de ansiedade precisam de cuidado redobrado para não terminar em posição delicada num futuro não muito distante, reflete Ferreira.

“Com o passar dos anos, o atleta de alta performance costuma perder rendimento, o que é normal”, aponta a especialista. “É resultado do envelhecimento natural do ser humano, mas o impacto gerado por essa perda pode causar prejuízos emocionais. Por esta razão é de essencial importância que haja atenção para saúde física e mental. São pessoas muito expostas, muito exigidas e muito exigentes consigo mesmas. Quando o decréscimo de rendimento se manifesta, é difícil a aceitação, já que afeta a autoestima, autoimagem e autoconceito do atleta. Atletas de alta performance devem conscientizar-se de que levaram anos para atingir o topo. Eles vão galgando meta por meta, resultado por resultado. O caminho inverso precisa ser feito, pois o processo natural de envelhecimento chega de forma inevitável”, fala.

Objetos de estudo

A ansiedade é um problema que varia em intensidade de pessoa para pessoa. Os gatilhos para uma possível crise são diversos, dependendo das tarefas de cada um. Para atletas, entretanto, o motivo costuma ser um só: altas expectativas e pressão vinda de todos os lados.

Alex Bowman lidou com estresse dentro e fora das pistas (Foto: Nascar Media)

“Acho que não é algo muito comum [ansiedade], mas que acontece antes de corridas e em situações de alta pressão”, comenta Bowman, ainda refletindo sobre os acontecimentos de Charlotte. “Eu acho que estava simplesmente estressado. Significa muito para mim ficar entre os oito melhores nos playoffs. É algo que nós precisávamos, dada a situação de pontos. Com a equipe que o Mr. H [Rick Hendrick, dono da equipe] montou e a estrutura que temos, sinto que era necessário chegar entre os oito melhores. Significa muito para mim e me levou a colocar muita pressão em mim mesmo”, lamenta.

Bowman, entretanto, está longe de ser caso único. Ansiedade é um problema recorrente no futebol, muitas vezes vindo acompanhada de um quadro de depressão. Consequência de uma saúde mental frequentemente menosprezada.

Dentro das quatro linhas, um exemplo mais conhecido é do meio-campista Aaron Lennon. Jogando pelo Everton em 2017, o inglês teve uma crise de stress e foi encontrado perto de uma rodovia nas redondezas de Manchester. A polícia foi acionada para recuperar Lennon, que foi internado brevemente para recuperar a saúde mental. Os motivos para a crise foram revelados pelo próprio: era o último ano de contrato com o Everton e, tendo perdido vaga na equipe titular, o jogador viu o futuro em condições precárias.

“Como um jogador de futebol, eu sabia como cuidar do meu físico”, recorda Lennon, falando ao The Guardian em 2019. “Só que eu só sabia isso, não sabia o que fazer com minha saúde mental. Não sabia com quem falar quando me sentia para baixo, e foi assim que a situação terminou desse jeito”, diz.

Quando o assunto é depressão, a lista de vítimas no futebol cresce de forma assustadora: Adriano Imperador, Gianluigi Buffon e Andrés Iniesta são apenas alguns dos jogadores que admitiram já encarar depressão em algum momento de suas vidas. Em outros esportes, o nadador Michael Phelps, a tenista Serena Williams e a lutadora Ronda Rousey tiveram drama semelhante.

Um problema normalizado

A ansiedade é um problema recorrente, mas que ainda choca menos do que, por exemplo a depressão. Por mais que as duas possam ser vinculadas, é só a segunda que vem à mente quando se fala de temas como saúde mental. Acontece que não é só com um quadro patológico que tal comportamento vira problema.

“Deveríamos prestar mais atenção a ansiedade”, destaca Ferreira. “Não vejo campanhas mais diretas para ansiedade. Sequer há um dia ou algum laço colorido para ansiedade. Se pensarmos, Transtorno de Ansiedade está intimamente ligado ao quadro de depressão, faria sentido dar mais atenção. Na contemporaneidade, dado a agilidade de todos os processos, a ansiedade virou algo quase que instituído. Não necessariamente como transtorno, quadro já patológico, mas como comportamento ansioso. Acredito que a ansiedade está sendo subestimada”, encerra.

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