A equipe brasileira da Indy

Tony Kanaan e Matheus Leist fecharam um primeiro ano bastante duro na Foyt, mas aproveitaram bons momentos juntos e confiam na reação da reformulada equipe em 2019

Gabriel Curty, de São Paulo
A temporada 2018 foi bem diferente de todas as outras que a Foyt teve. Em total reformulação, a equipe apostou alto para o primeiro ano dos novos kits aerodinâmicos universais e mexeu em basicamente todas as peças que eram possíveis, como engenheiros e mecânicos, mas o carro-chefe era a dupla de pilotos 100% brasileira: Tony Kanaan e Matheus Leist.
 
E a escolha da equipe fazia bastante sentido. Apesar de Conor Daly e, principalmente, Carlos Muñoz não terem tido culpa alguma pelo insucesso anterior, a Foyt botou suas fichas em dois pilotos do mesmo país e com perfis opostos, já que Tony era um dos mais experientes do grid e Matheus era um novato.
 
Só que o que parecia uma temporada bem promissora para a Foyt, com todo mundo tendo de conhecer os novos carros, acabou sendo mais um ano de bastante sofrimento para o time que, hoje, é um dos mais fracos do grid. As boas atuações de Matheus e, principalmente, de Tony não foram suficientes para fazer, por exemplo, o time ficar no top-5 em momento algum de 2018.
 
E o curioso é que a Foyt começou o ano bem, fazendo Fast Six com Leist e quase top-10 com Kanaan em São Petersburgo. Mas a explicação para a queda não é tão difícil assim: quando todo mundo estava conhecendo os kits e antes do desenvolvimento começar de fato, estava mais fácil para a Foyt competir com as gigantes do grid.
"Difícil falar de evolução, acho que o nosso começo foi muito melhor que o final. Como era tudo novo, a gente conseguiu aproveitar um pouco, mas depois foi se tornando cada vez mais difícil, já que eles evoluíram mais do que a gente", comenta Tony com exclusividade ao GRANDE PREMIUM
 
Depois da estreia bastante promissora, Kanaan ainda beliscou duas vezes a oitava colocação no oval curto de Phoenix e nas ruas de Long Beach. Parecia que a Foyt poderia até brigar por vitórias, mas o primeiro misto, no Alabama, trouxe uma série de problemas e uma ducha de água fria no time.
 
"Sofremos bastante principalmente com os pneus nos mistos. Isso durou desde a primeira corrida em Barber até a última em Sonoma. E não tinha nada que a gente fizesse que melhorasse isso, tomamos sempre quase 1s. Ainda não descobrimos o que estava de errado, mas sei que chegaremos mais preparados em 2019, com mais testes e simulador. Com algumas trocas como de mecânicos e engenheiros, tenho certeza que vamos evoluir", conta Leist ao GP*.
Apesar da falta de horizonte claro para a Foyt nas pistas mistas, Kanaan revela que o time teve o foco muito voltado para a Indy 500 no início do ano. Até por isso, aliás, o rendimento tão bom na principal corrida do calendário, já que ambos largaram perto do Fast Nine e tiveram ritmo excelente na prova, com Tony sendo um candidato à vitória até ter um pneu furado.
 
"Sofremos bastante nos mistos, mas é porque nos concentramos muito em Indianápolis e deu certo. Não fosse o pneu furado, estaríamos ali na briga. Temos um problema muito sério de amortecedor, precisamos achar o caminho para evoluir", resume.
 
Pessoalmente, Tony admitiu que ficou frustrado especialmente pelo fato de não ter conseguido nenhum top-5 no ano, algo inédito em sua vitoriosa carreira na Indy, mas voltou a bater na tecla que vem batendo desde que foi apresentado na Foyt: tudo faz parte da reformulação da equipe.
 
"Foi uma temporada difícil, a primeira vez que não tive nenhum top-5 na minha carreira, então não dá para dizer que foi bom, foi um ano ruim. Mas foi um ano de bastante aprendizado, eu aprendi a ter muito mais paciência. Desde o começo venho falando que a gente chegou para reestruturar a equipe. Com as limitações que a gente tinha, consegui fazer muito pouco em termos de resultado, mas bastante para evoluir a equipe", diz.
 
Sem deixar de confiar que 2019 será um ano diferente, Kanaan garantiu que a equipe seguirá fazendo as mudanças necessárias, inclusive em suas peças, para botar 2018 no passado.
 
"Tenho certeza que ano que vem teremos algumas mudanças maiores em algumas coisas que entendemos que precisam melhorar bastante, como mecânicos, enfim, coisas que não deram certo. Mas foi um primeiro ano ruim", segue.
 
Leist também recordou o início de ano bem promissor em São Petersburgo - apesar da quebra durante a corrida -, mas destacou o fato da Foyt não ter conseguido se aproximar do acerto correto em diferentes pistas do calendário.
 
"A estreia criou altas expectativas dentro da equipe. Aquele foi o melhor ou um dos melhores finais de semanas para mim e para o Tony, já que bateram nele na largada, ele caiu para último e ainda chegou em décimo. Eu classifiquei em terceiro também, então foi um grande final de semana e que fez a gente esperar mais. Acontece que a gente não conseguiu achar os acertos ideais no resto da temporada e sofremos com isso", fala.
Tony Kanaan e Matheus Leist tiveram um ano de sofrimento com a Foyt
IndyCar

Apesar de Tony ter sido mais enfático ao falar do ano ruim do time, o gaúcho também reconheceu que a Foyt poderia ter ido melhor e até dava sinais de que isso aconteceria no começo.

"Não foi a temporada que a gente esperava. Todo mundo trabalhou muito forte, mas a Indy sempre exige 110% se você quer competir com Penske, Ganassi e Andretti. A gente deu tudo de nós, mas nem tudo se encaixou 100% e os resultados mostraram isso. Todo mundo esperava a gente entre os 15 ou entre os dez na maior parte das corridas, então foi meio frustrante para todos nós", admite.

Se tem algo de muito positivo para o veterano e o novato, porém, é a relação que um tem com o outro. Num clima de irmão mais velho e irmão mais novo, até pelo espírito bastante brincalhão de Kanaan, ele e Leist formam, sem dúvidas, uma das duplas mais entrosadas do grid da Indy.

"O nosso relacionamento é muito legal, a gente sempre está junto fora da pista. Sempre levamos tudo na amizade, na brincadeira, nunca ficamos exagerando na competitividade, em querer ser mais rápido que o outro e isso nos ajudou, sempre um levando o outro para os dois evoluírem. Também tivemos muitos momentos bons, demos muita risada, fizemos besteiras juntos e aproveitamos o que dava", conta Leist.

Além disso, dentro do carro, os dois também se dão bem. Tony, bem mais experiente e com bagagem de já ter trabalhado com nomes como Scott Dixon, contou que Leist, mesmo que novato, já conseguia dar algumas contribuições. Mas o baiano também falou de como tem sido ter o gaúcho quase como seu pupilo.
 
"Matheus é um menino que ainda tem muito a aprender e que teve seu primeiro ano, então ele ainda não tinha muito como ajudar em termos de acerto, eu ajudava ele muito mais, ele era um novato. Mas o nosso entrosamento é muito bom, a gente se dá muito bem. Acho que a partir do ano que vem ele vai poder contribuir bastante para a equipe. Na parte pessoal, tenho ajudado ele bastante. Com a minha experiência, com conselhos, então, no que ele precisar, sabe que pode contar comigo", explica.
 

Matheus também falou de sua evolução enquanto acertador de carro e do trabalho que faz em conjunto com Tony que, aliás, tem grande parcela no desenvolvimento do piloto de 20 anos.

"Trabalhar com o Tony é um momento bom da minha carreira. Várias vezes a gente se ajudava, ele testava uma coisa e eu testava outra, coisa de companheiro de equipe. Na parte do acerto, foi tudo como em qualquer equipe, mas eu destacaria que eu evoluí em como explicar melhor tudo para o time e isso passa pela experiência do Tony e as dicas que ele me passou também", diz.

Leist com apenas 20 anos e Tony com seus 44 não parecem desesperados por resultados. Sabem que vão colher os frutos com o trabalho da Foyt sendo consolidado. A equipe sabe bem também que seus problemas estão longe de passarem por seus pilotos, por isso, renovou o contrato de ambos ainda com a temporada em andamento. 

Matheus Leist e Tony Kanaan se dão muito bem um com o outro
IndyCar
"A temporada teve algumas coisas complicadas. Comecei o ano com um engenheiro muito bom, mas que ficou só até Indianápolis e depois teve de sair por problemas familiares. E nós não conseguimos substituí-lo, puxamos um outro engenheiro de dentro da equipe que ficou comigo durante as outras corridas. A evolução que tivemos foi a natural, sintonia maior com o engenheiro, mas na Indy você precisa sempre de mais. Acho que o que mais aprendemos em 2018 foi o que não podemos fazer, isso já é uma coisa valiosa", fala Leist.
 
Tony e Biro, como Leist é carinhosamente chamado, seguirão dando boas risadas no paddock e, agora, com 2018 ficando para trás, miram um 2019 de glórias.
 
"A meta para a Foyt em 2019 segue exatamente a mesma que foi a desse ano: ganhar uma corrida", completa Kanaan.