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A grande chance

A incrível epopeia na Nova Zelândia que o levou ao título do Toyota Racing Series fez Igor Fraga virar a bola da vez. O brasileiro nascido no Japão revela como recebeu o convite de Helmut Marko para integrar o Red Bull Junior Team, conta como tem sido a vida durante a pandemia e fala sobre o momento dos eSports em épocas sem corridas no mundo real

A trajetória de Igor Fraga no automobilismo é incomum, marcada por inúmeros perrengues, mas valorizada por cada conquista obtida dentro e fora das pistas. Como um verdadeiro operário das pistas, o brasileiro nascido há 21 anos em Kanagawa, no Japão, mas criado na cidade mineira de Ipatinga, começou a correr aos 3 anos, no Japão, ‘comeu grama’ no Brasil e lá fora, teve de dormir no carro nos finais de semana de corrida da USF2000 nos EUA para economizar dinheiro de hospedagem e tornou-se conhecido no planeta ao vencer o Mundial de Gran Turismo nos eSports, título chancelado pela FIA, em 2018.

Com o apoio da plataforma desenvolvedora do jogo, conseguiu patrocínio para correr na F-Regional Europeia no ano seguinte. Marcou pole, venceu corridas no mundo real e chamou a atenção do mundo para um talento raro, forjado no fogo e que se converteu em título do cobiçado Toyota Racing Series, na Nova Zelândia, no começo de 2020, com uma jornada impecável entre janeiro e fevereiro.

A conquista obtida do outro lado do mundo veio após confronto direto com vários pilotos badalados, experientes e apoiados por montadoras e equipes da F1. Para citar alguns deles, o neozelandês Liam Lawson — campeão do tradicional torneio de verão no ano passado — e o japonês Yuki Tsunoda, os dois vinculados à Red Bull, e o brasileiro Caio Collet, da Renault Sport Academy. Com 4 vitórias, 3 poles e 9 pódios, Fraga deixou a concorrência para trás e faturou a primeira competição relevante das categorias de base em 2020.

Com os vários troféus na bagagem, Fraga voou da Nova Zelândia para Praga, capital da Tchéquia, para iniciar os preparativos para os testes da F3 Internacional depois de ter sido contratado como piloto da equipe Charouz. Tão logo chegou ao país europeu, quando se preparava para alugar um carro e ir para a base da Charouz, recebeu uma ligação inesperada. Helmut Marko, o poderoso consultor da Red Bull, estava do outro lado da linha para oferecer uma oferta até pouco tempo inesperada e improvável: fazer parte do programa de jovens pilotos da marca dos energéticos, que revelou, dentre tantos nomes, Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo e Max Verstappen.

Ao GRANDE PREMIUM, Fraga conta como encara a chance de estar vinculado a uma grande equipe da F1, como espera lidar com a inevitável pressão, o início dos trabalhos na F3 e a perspectiva ao longo de uma temporada que ninguém sabe ao certo se vai acontecer, além de falar sobre a sequência da sua trajetória nos eSports e como enfrenta os dias de quarentena no Brasil.

Glória do outro lado do mundo
 

O Toyota Racing Series é uma das mais importantes competições da base do automobilismo mundial e ganha ainda mais notoriedade num período em que poucas corridas são realizadas, no começo do ano. Tradicionalmente disputado na Nova Zelândia, o torneio de verão já teve como campeões nomes como Lance Stroll, Lando Norris, Robert Shwartzman e Liam Lawson. O último deles, campeão em 2019.

A edição 2020 do TRS reuniu não somente Lawson, mas pilotos que certamente vamos ouvir falar muito nos próximos anos: Yuki Tsunoda, Petr Ptacek, Lirim Zendeli, Caio Collet e Franco Colapinto. E, claro, Igor Fraga.

Desde a primeira corrida do campeonato, em Highlands, a disputa começou a se desenhar entre Lawson e Fraga. O neozelandês triunfou por somente 0s794 de vantagem. A favor do piloto da casa, além de conhecer todas as pistas, também pesava a experiência no campeonato, que Fraga disputava pela primeira vez.

A batalha entre Lawson e Fraga durou até a última das 15 corridas do calendário. O brasileiro largou para o chamado GP da Nova Zelândia, em Manfeild, com 327 pontos, contra 329 de Lawson. Ou seja, quem terminasse na frente ficaria com a taça. Igor não deu chances ao adversário, largou na pole e venceu de ponta a ponta, garantindo o título que o elevaria de vez à condição de um dos principais nomes da nova geração do automobilismo brasileiro.

Ao lembrar a conquista, Fraga falou sobre as dificuldades que sempre enfrentou na carreira. “Fiquei muito contente com a conquista porque é uma coisa pela qual venho batalhando há muito tempo. Para alcançar meu sonho, tenho de passar por alguns obstáculos, e creio que pude passar por mais um desafio, mais um obstáculo, de uma forma muito boa. Isso pode me abrir mais portas daqui pra frente e abriu a porta da Red Bull”.

“Foi uma coisa que eu vinha batalhando e consegui conquistar. Claro que ainda falta muito caminho pela frente, mas me dá uma motivação a mais para seguir batalhando daqui para a frente”, diz o piloto de fala mansa e pés no chão.

“Falta uma caminhada… Claro que conseguimos chegar até aqui, mas ainda falta um pouco de chão e vamos seguir batalhando da melhor maneira para alcançar esse sonho. Agora, fazendo parte do programa da Red Bull, isso vai abrir mais portas daqui para a frente, mas tenho de seguir entregando resultados. Estar envolvido num projeto como esse é uma oportunidade que vinha sonhando há alguns anos, agora é aproveitar ao máximo para que eu consiga chegar lá”, afirma Igor, mencionando a meta de estar um dia na F1.

Igor é uma das crias da antiga F3 Brasil, que revelou nomes como Pedro Piquet, Vitor Baptista, Matheus Iorio e Guilherme Samaia. Fraga foi o campeão da categoria Academy em 2017 com a PropCar, equipe chefiada por Dárcio dos Santos, antes de seguir caminho no exterior: USF2000 em 2018, nos Estados Unidos; F-Regional Europeia no ano passado e, em 2020, Toyota Racing Series e a chance de ser contratado pela equipe Charouz para correr na F3 Internacional.
 

(Igor Fraga brilhou no Toyota Racing Series na Nova Zelândia (Foto: Toyota Gazoo Racing))

Surpresa na locadora de carros: o convite da Red Bull
 

A cereja deste bolo de uma carreira de muita luta veio pouco depois de desembarcar em Praga para iniciar os trabalhos com seu novo time na F3 dias após a glória no outro lado do mundo.

“Depois do Toyota Racing Series, estávamos retornando da Nova Zelândia para a República Tcheca. Tínhamos acabado de chegar lá, isso na terça-feira. Eu e meu pai estávamos na locadora de automóveis para pegar um carro, e foi quando recebi um telefonema da Áustria, vi um +43 (código DDI) e me liguei que era de lá. Você já fica meio assim…”, relembra.

“Atendi o telefone, e era o Dr. [Helmut] Marko. Ele me deu os parabéns sobre o TRS e disse que queria fazer uma reunião na sexta-feira e que enviaria mais detalhes por meio da secretária dele. E foi nesse encontro que ele formalizou o convite para fazer parte do Red Bull Junior Team. Foi bem surreal”, conta o piloto.

Apesar de Marko carregar o rótulo de rígido e falastrão, Fraga revelou que a primeira conversa entre os dois foi bem amena. “Foi a primeira vez [que falei com ele]. Pelo menos para mim foi tranquilo. Ele tem fama de não ter paciência, mas foi um cara bem tranquilo comigo. Querendo ou não, é um dos projetos mais bem-sucedidos, e tenho uma grande chance pela frente. Agora é seguir trabalhando e entregando resultados. Esse é o ponto chave”.

Se ao mesmo tempo fazer parte do programa da Red Bull é o caminho que aproxima Fraga da F1, por outro lado o piloto sabe que precisa corresponder com resultados imediatos para se manter e chegar lá. Muitos pilotos bons já ficaram pelo caminho, como António Félix da Costa. Ano passado, talentos como Dan Ticktum e Pato O’Ward foram limados do Red Bull Junior Team.

Entretanto, tal cenário nem de longe intimida Fraga, que traz na mente as cicatrizes de uma carreira marcada por dificuldades. Dificuldades que hoje são sua força para enfrentar o novo desafio.

“Cara, para mim não traz pressão nenhuma. Você sabe, já passei por muitos perrengues na carreira, especialmente nos Estados Unidos. Dormia no carro [para economizar dinheiro], corria cada corrida como se fosse a última, tinha de dar resultados e, ao mesmo tempo, não bater, porque uma batidinha poderia até me tirar do campeonato. E tudo aquilo me deixou muito forte dali para a frente. Foi uma experiência muito dura para mim. E hoje vejo um campeonato pela frente, onde posso me desenvolver. É muito mais tempo do que tive no passado. Isso acrescenta cada vez mais motivação para trabalhar e dar os resultados”, diz.

Igor Fraga acelerou nos testes da F3 no Bahrein antes de voltar pra casa (Igor Fraga acelera nos testes da F3 no Bahrein (Foto: Igor Fraga/Twitter))

F3: a primeira missão taurina
 

Em meio à epopeia que culminou com o título do Toyota Racing Series, Fraga foi anunciado como o novo piloto da equipe Charouz na F3 Internacional. A equipe tcheca definiu a formação para a temporada 2020 com o brasileiro, David Schumacher (filho de Ralf e sobrinho de Michael Schumacher) e com o experiente Niko Kari.

A subida para a F3, depois de um ano correndo na F-Regional Europeia, é um passo natural para todo piloto que almeja chegar na F1 em alguns anos. Enzo Fittipaldi, por exemplo, segue os mesmos passos de Fraga e vai correr neste ano pela equipe HWA.

Além do debute em uma categoria particularmente difícil como é a F3 (antiga GP3), Fraga tem pela frente outro grande desafio em 2020: medir forças com outros pilotos Red Bull que vão disputar a categoria. Além de Liam Lawson, seu grande adversário no TRS, Igor vai competir também contra nomes como o norueguês Dennis Hauger — campeão da F4 Italiana em 2019 — e o australiano Jack Doohan.

“Meu objetivo neste ano é tentar aprender ao máximo. Tenho um companheiro de equipe que é muito experiente na F3, bem rápido também. Como nosso pacote para a temporada com a equipe foi fechado antes de a Red Bull me contratar, então o nível dela é um pouco diferente do que tem os outros pilotos da Red Bull”, explica.

“Então, essa comparação direta eu não sei se vai ser avaliado por eles em termos de resultado. Mas vai ter outros tipos de avaliação dentro da Red Bull, do simulador, e isso, com certeza, vou ter de mostrar meu potencial. Como um todo, vou tentar aprender ao máximo e extrair o máximo que a gente vai ter nessas condições”, afirma.

Pouco antes da paralisação do automobilismo por conta da pandemia, Fraga se uniu a outros 29 pilotos para a pré-temporada da F3, entre 1º e 3 de março, em Sakhir, no Bahrein. Dono da quarta maior quilometragem, com 979 km e 189 voltas percorridas, o brasileiro avalia positivamente os testes e aborda uma das peculiaridades da categoria.

“Conseguimos alguns bons resultados em algumas sessões, porém é uma categoria bem difícil, justamente por conta do pneu, que tem uma degradação muito rápida. Você tem praticamente uma volta rápida, a segunda já não é tão competitiva, e, a partir da terceira, pode esquecer… Você tem de ir para o ataque quase sem referência, já que a condição de pista muda bastante, ainda mais porque lá [no Bahrein] é um deserto, a pista pode ir limpando ou sujando, a depender do vento, então uma série de coisa muda”, conta.

“E, na primeira volta, você tem de extrair tudo o que tem. Na simulação de corrida, também, é bem difícil manter um tempo competitivo e tentar desgastar o pneu o mínimo possível. Conseguimos progredir bastante nessa questão. Tenho dois companheiros de equipe com muita experiência: o David já correu lá no ano passado e o Niko Kari já vai para seu quarto ano na F3/GP3. Foi bom ter companheiros experientes para a gente conseguir evoluir durante esses dias”, diz.

Igor Fraga foi campeão da F3 Brasil Academy com a PropCar Racing (Igor Fraga campeão da F3 Brasil Academy (Foto: Divulgação))

Quarentena e incerteza: a rotina na pandemia
 

Igor Fraga revela que teve de correr contra o tempo para conseguir voltar ao Brasil na época em que a pandemia do novo coronavírus já começava a levar vários países a fechar suas fronteiras. Tão logo encerrou sua jornada na pré-temporada da F3, Fraga iniciou uma saga que terminou com sua chegada à casa da família, em Ipatinga.

“Ao retornarmos da Nova Zelândia, fomos direto para a República Tcheca, porque a equipe [Charouz] é baseada lá. A situação ainda não estava tão ruim assim. Fizemos o molde do banco do carro, das pedaleiras, também algumas sessões no simulador antes de ir para os testes oficiais, no começo de março, no Bahrein. Depois, teve todo o acerto com a Red Bull, então foi uma correria danada para ter tudo pronto antes da primeira corrida”, diz.

“E aí, na sexta-feira, o evento foi adiado. No sábado, já decidimos voltar para o Brasil, já que tinha muitos países já com as fronteiras fechadas. Nesse dia, achamos um voo para segunda, mas este voo foi cancelado por conta do fechamento das fronteiras, então conseguimos encaixar um voo no domingo para chegarmos ao Brasil”, detalha.

A rotina em casa é de maiores cuidados. “Depois disso, estou evitando contato com pessoas. Já tem algum tempo que estou somente dentro de casa, mesmo, e tomando todas as precauções. Como fiz recentemente uma viagem, busco me prevenir e me cuidar ao máximo”.

Neste tempo, Igor segue em contato com a Red Bull. “A gente está trocando bastante e-mail. Estou tentando agendar alguma coisa já para frente em termos de simulador, preparação física, check-up médico. Está sendo uma situação bem complicada para todo mundo, não está sendo fácil [em razão do coronavírus]”.

No momento, com os adiamentos das etapas que seriam disputadas no Bahrein, Holanda e Espanha, a temporada 2020 da F3 está marcada para começar em 4 de julho com a primeira corrida da rodada dupla da Áustria, no Red Bull Ring. Mas, ao ser questionado se acredita que vai ter temporada neste ano, Fraga entende que o cenário é bastante incerto.

“Cara, para ser sincero, não sei. Espero que tenha uma temporada. A gente vem trabalhando muito duro para isso, e ficar esse tempo de molho não é muito agradável. No meio disso tudo, venho tentando me preparar da melhor forma possível, cada dia mais, para que, quando a temporada retorne ao normal, que eu possa estar preparado para o desafio e ir com tudo”, afirma.

Igor Fraga alcançou o estrelato com o título mundial do Gran Turismo (Igor Fraga alcançou o estrelato como piloto do Gran Turismo nos eSports (Foto: Facebook/Igor Fraga))

Protagonismo dos eSports em dias sem corridas reais
 

A pandemia levou a uma paralisação sem precedentes no esporte. As atividades de pista inexistem e, para suprir a falta de ação nos circuitos de verdade, categorias como a F1, Indy, MotoGP e Nascar realizam corridas virtuais para entreter os fãs e manter os pilotos em atividade de alguma maneira.

Os eSports fazem parte da vida de Igor Fraga porque foi graças à conquista do Mundial de Gran Turismo que o piloto ficou conhecido de vez no mundo do esporte a motor. O brasileiro enxerga a ocasião como uma grande chance de as corridas virtuais atraírem a juventude para o universo real do automobilismo.

“Acho que é um momento fantástico para os eSports. É um mundo do qual venho fazendo parte e fico muito contente por ver a proporção que isso está tomando. Do lado virtual, a única coisa que a gente quer é ajudar a impulsionar a popularidade do automobilismo. A gente sabe que isso não é como foi há 20 anos. Vejo como um gatilho para que a gente possa começar a retomar esse brilho. E ter muitos pilotos reais participando do virtual, fazendo essa conexão, vem sendo muito interessante. Acredito que todo mundo tem muito a ganhar com isso”, diz.

Por enquanto, Fraga é mais um dentre tantos pilotos a usar as plataformas virtuais para acelerar e se divertir. Mas, quando tudo voltar ao normal, Igor pretende conciliar bem as corridas nos eSports com as do mundo real.

“Vai depender realmente do calendário. Agora que estou em casa, já estou treinando no Gran Turismo, semana passada participei de algumas corridas, vou participar de mais algumas… Vamos ver, daqui para a frente, como vai acontecer em relação ao mundo real, mas, dependendo do calendário, gostaria de seguir participando porque é uma paixão que eu tenho e é um ambiente muito legal, pelo menos lá no Gran Turismo, vejo quase como uma família”, lembra.

“Essa confraternização que a gente tem, que são os World Tours, é tudo muito bom. Claro que tem o ambiente competitivo, mas, no fim das contas, está todo mundo caminhando para o mesmo objetivo, de modo que é bom demais fazer parte e tudo isso. Sempre que tiver oportunidade, vou querer estar na ativa”, finaliza o piloto que desponta como a nova esperança brasileira a caminho da F1.

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