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A (pen)última dança de Kanaan

Um telefone sem fio gerou uma das grandes histórias de 2020. Afinal, Tony Kanaan pensou mesmo em se aposentar?

Tony Kanaan e aposentadoria - ou não - de 2020 (Foto: IndyCar)

2020 foi um ano completamente atípico nas mais diferentes frentes por conta de uma pandemia mundial. E o esporte e, mais especificamente o automobilismo, seguiram a mesma linha. Calendários modificados, mais apertados, portões fechados e a falta de testes ditaram o ritmo de uma temporada totalmente fora da curva. Mas, mesmo assim, é difícil que alguém tenha tido momentos tão inusitados quanto Tony Kanaan.

Aos 45 anos, o brasileiro vinha de 22 temporadas consecutivas na Indy, mas passou por uma mudança drástica em 2020. É que a Foyt perdeu a patrocinadora principal depois de 15 anos e viveu um ano de mera sobrevivência, apostando nos endinheirados Charlie Kimball e Dalton Kellett e deixando Tony apenas com os ovais. Uma virada e tanto nos compromissos do veterano piloto.

Eis que, no centro de decisões tão importantes, Kanaan ficou nos holofotes da Indy por causa do anúncio de sua “last lap”, a última volta. No fim, entendeu-se que Tony estava se aposentando da categoria após a temporada 2020, mas não era bem essa a ideia do baiano. Em momento algum.

“Quando anunciei, não era minha intenção, mas a mensagem acabou saindo errada e ficou”. É assim que Tony resume brevemente ao GRANDE PREMIUM aquele que foi o grande mal-entendido do ano. Um telefone sem fio que transformou a ideia de uma última temporada completa em uma possível aposentadoria, algo que Kanaan só foi cogitar para valer quando a pandemia bateu à porta.

Tony Kanaan teve a despedida em Gateway. De 2020 (Foto: IndyCar)

Já de férias da Indy e trabalhando para voltar ao grid em 2021, Kanaan conversou com o GP*, relatou como foi cada uma das etapas que disputou em 2020, fez um balanço do próprio desempenho e, claro, comentou como foi lidar com a expectativa de aposentadoria e as ações que a cercaram, como no GP de Gateway, em que o brasileiro era a atração principal para o que foi chamada pelos organizadores de corrida de despedida da lenda da Indy.

“O que aconteceu foi o seguinte: eu anunciei que ia ser minha última temporada completa, mas acabou que eu não fiz a temporada completa, isso gerou uma confusão. Eu disse que seguiria fazendo algumas provas, nunca que era meu último ano. A ideia da ‘last lap’ era a última temporada completa, mas, por motivos de forças maior, não consegui fazer”, explica Kanaan, que há meses já vem falando que gostaria de continuar no grid nos ovais e, principalmente, na disputa das 500 Milhas de Indianápolis.

O único momento em que o brasileiro considerou de verdade deixar a categoria americana foi durante a pandemia. Parado e sem contrato para o ano todo, Tony chegou a pensar se era hora de aproveitar o momento e dizer adeus ao grid de vez, mas a falta de público e de uma despedida da forma que merece pesaram.

“Veio a pandemia e, realmente, pensei se era o caso de aproveitar e parar de vez ou então seguir em Indianápolis e uns ovais. Mas é aquilo: tinha muita coisa preparada para os fãs, era tudo um agradecimento pela carreira com eles, então, não tinha como manter o plano sem os fãs, resolvemos adiar. É o que está acontecendo com todos os planos de todo mundo, zerando e recomeçando ano que vem”, conta.

Tony Kanaan viveu uma Indy 500 bastante esquisita com portões fechados (Foto: IndyCar)

O ponto decisivo para que Kanaan reparasse que aposentar em 2020 não seria a escolha certa foi justamente nas 500 Milhas de Indianápolis. Um dos pilotos mais populares na principal prova do calendário, Tony, pela primeira vez, não era cercado pelos fãs antes de ir para pista. E aquilo gerou um estranhamento único.

“Quando eu passei pelo Gasoline Alley para entrar no carro em Indianápolis e vi que não tinha ninguém. Ali eu vi que aquela não podia ser minha última Indy 500, ali tive certeza que precisava fazer de novo, na frente do povo”, diz.

Outro momento bastante diferente para o piloto foi na rodada dupla de Gateway, a última etapa que Tony disputou em 2020. Com um número reduzido de torcedores nas arquibancadas, o evento se vendeu como a despedida do brasileiro da Indy, com direito a um vídeo especial e a promoção em cima da saída de Kanaan. O piloto da Foyt ficou de mãos atadas e apenas deixou rolar.

“Foi muito esquisito, foi uma sensação de estar perdendo alguma coisa, mesmo no fundo sabendo que não era isso. Não dava para ficar explicando tudo de novo, a pista também resolveu aproveitar a situação, fez umas ações, então: quer que seja minha última? Vai ser. E foi, né? A última do ano. Mas, assim, não está certo que eu voltarei em 2021, não tenho nada assinado. Tem chance de voltar? Sim, mas também pode ter sido minha última, posso não arrumar patrocínio. Todo mundo está esperando para ver se vai ter público, qual o calendário, quantas corridas, está todo mundo em cima do muro, eu sigo sem nada certo, pode ter sido minha aposentadoria da Indy, mesmo achando que não foi”, relembra.

Tony Kanaan iniciou 2020 no Texas (Foto: IndyCar)

As corridas da ‘Last Lap’

Se o próprio Tony diz que 2020 pode, ainda que não queira, ter sido sua última temporada na Indy, o GP* pediu para o brasileiro que detalhasse o que sentiu do campeonato em termos de performance, na equipe e, claro, de corrida para corrida. Em geral, foi um ano que satisfez Kanaan.

E tudo começou com uma preparação um pouco diferente da tradicional, mas não porque seria uma despedida, como ele já explicou, mas por dois fatores importantes: a pandemia que atrasou a temporada e apertou o calendário e, claro, a mudança brusca de deixar de guiar em circuitos mistos e de rua.

“Minha preparação foi mais mental do que física. Fisicamente eu sempre estou em dia, tive de me acostumar com o fato de que eu só faria algumas corridas e assistiria as outras. Uma coisa que me ajudou, pensando em um lado egoísta, mas positivo da pandemia, foi todo mundo começou a correr na prova que eu já estaria. Então, não tive aquele sofrimento de assistir eles em St. Pete de fora. Por outro lado, com só seis corridas, foi esquisito, como no final de semana retrasado: eu perguntei ao meu assessor a hora da corrida, estava perdido. No fim, acabei ficando mais em casa e treinando mais, não tinha nada para fazer, mesmo”, conta o piloto.

Tony Kanaan foi décimo no Texas (Foto: IndyCar)

O calendário de Tony em 2020 teve quatro pistas e seis corridas, já que os ovais curtos de Iowa e Gateway foram no formato de rodada dupla. No detalhamento das atuações, Kanaan valorizou, especialmente, o fato de ter conseguido andar com frequência no grupo dos dez primeiros colocados em todas as pistas. A estreia, no Texas, já foi com um décimo lugar, uma bela evolução para a equipe que tanto penou no traçado em 2018 e 2019.

“Foi um ano bem positivo, apesar de alguns resultados não terem feito justiça ao carro que a gente tinha. E começamos bem no Texas, ficamos entre os dez primeiros na primeira corrida do ano, algo que para a Foyt já é um passo importante, ano passado a gente penava para ficar no top-10 se a gente não desse uma sorte gigantesca como foi em Gateway, com a estratégia. Texas foi ótimo. Oito meses fora do carro, temos de considerar que os caras testaram, enquanto eu não andava desde Laguna Seca, em 2019, porque meus testes foram cancelados pela pandemia. Foram bem positivos o rendimento e resultado”, afirma.

Em Iowa, um toque no muro atrapalhou no resultado da corrida 1, mas, apesar de problemas com desgaste excessivo dos pneus, Kanaan voltou a frequentar o top-10 em ambas as provas. 18º e 11º, no fim, não refletiram exatamente a performance do #14 da Foyt.

“É uma pista em que eu sempre me dei bem. Largamos e classificamos bem para caramba, a equipe deu uma melhorada em classificação e corrida. A gente andou entre os dez em todos os ovais em algum momento da corrida. Para uma equipe como a nossa, andar no grupo da frente toda vez é um passo gigantesco, pegando pelo que foram os últimos anos comigo e com o Matheus [Leist], era bem difícil ser constante no top-10, então foi mais uma etapa que eu considero boa pelo rendimento”, explica.

Tony Kanaan voltou a ter ritmo de top-10 em Iowa (Foto: IndyCar)

A Indy 500 acabou sendo a grande decepção para Kanaan porque, por mais que o rendimento tenha sido bom de novo, é a prova em que só o resultado acaba interessando. No fim, uma 19ª colocação com gosto extremamente amargo para alguém que, por mais que estivesse sofrendo com a limitação da Chevrolet no IMS e o domínio da Honda, vinha na oitava posição e acompanhando os líderes até o último pit-stop.

“Tivemos um azar do caramba em Indianápolis no último pit-stop, em que tivemos um problema quando eu estava em oitavo. De novo, entre os dez primeiros na corrida. E, se a gente pegar as equipes Chevrolet, considerando os problemas de falta de potência, os Honda estavam melhores. E aí a gente largou na frente de três Penske e estava na frente de três Penske. Foi quando um cara estava saindo dos boxes e eu entrando e quase batemos, o carro parou torto, os mecânicos meio que se embananaram e a gente perdeu 20s e sete posições no pit-stop. A corrida acabou ali, principalmente porque é depois da última parada que as disputas começam”, lamenta.

Veio, então, a suposta rodada dupla da despedida, no oval curto de St. Louis. O GP de Gateway foi bastante esquisito e não apenas para Kanaan. É que a pista, que geralmente garante ótimos espetáculos, teve uma primeira corrida interessante e uma segunda horrenda. Assim, prejudicado por uma classificação complicada, Tony só conseguiu andar para frente no sábado, quando se posicionou em nono, na melhor posição final da Foyt em 2020.

“A primeira corrida foi muito boa, a gente tinha um carro bem competitivo, constante, rápido. Aí a segunda corrida foi ruim para todo mundo. O tempo mudou, ninguém passava ninguém, não sei o que aconteceu com a pista, mas praticamente todo mundo largou e chegou na mesma posição. Quando o [Josef] Newgarden pegou a liderança do Pato [O’Ward], o Pato não conseguiu fazer mais nada, mas foi uma etapa boa, sim, a gente chegou em nono na corrida 1, melhor resultado nosso e da equipe no ano. Acho que não foi mesmo um ano ruim, pensando em resultados e no fato de eu só ter feito seis corridas, foi bem positivo”, descreve.

Tony Kanaan vinha bem na Indy 500 até o último pit-stop (Foto: IndyCar)

O saldo final de 2020 acabou sendo positivo, e o brasileiro acha que a naturalidade com que todos reagiram ao anúncio de que buscaria uma vaga em 2021 foi a prova disso.

“Para mim, um ano positivo. Estou contente, até porque eu não corri todas as etapas e, de certa forma, isso quebra o ritmo, eu vinha de 22 temporadas completas, achei que seria mais estranho quando voltasse ao carro. Andei sempre no top-10, foi muito positivo, tanto que, quando eu avisei que queria seguir na Indy, a resposta de todo mundo foi muito positiva também”

Ainda que o futuro seja incerto e que não saiba nem se vai conseguir ser titular em algum time, Kanaan deixa claro que pode, sim, fazer novo acordo com a Foyt. Para o baiano, foram três anos de muita luta com a equipe, mas os sinais por lá começam a ficar promissores depois de tanto tempo.

“Foram anos de altos e baixos. Nós tentamos inovações, mas que acabaram não dando certo por algumas coisas que eu não posso detalhar. Em 2020, eles mudaram muita coisa e meio que funcionou, pelo menos comigo. Não é segredo que a equipe estava sem grana, então trouxe dois pilotos com patrocínios e, com isso, eu e o [Sébastien] Bourdais ficamos meio que de fora, mas foi um ano que eles estavam tentando sobreviver. Já anunciaram o Bourdais, então é um passo para a frente. Foi um ano atípico para a Foyt, não só pelo coronavírus, mas pela perda de patrocinador de 15 anos, então tiveram de inovar e foi um ano de sobrevivência, puramente disso e, depois, para melhorar para 2021. E acho que o anúncio do Bourdais é um passo grande para isso”, avalia.

Tony Kanaan (Foto: IndyCar)

Os planos para 2021 e além

A ideia de Kanaan para a próxima temporada é clara: um bom acordo que englobe todos os ovais e uma possibilidade na Indy 500. Mas Tony também é objetivo quando diz que, ao menos por enquanto, não há nada certo para 2021. A meta do brasileiro, então, é ter o orçamento bem definido e, a partir disso, poder tomar frente nas negociações.

“Ainda não estou negociando com ninguém porque quero fechar o orçamento antes de ir conversar com os times. Não tem mistério sobre minhas possibilidades: só quero ovais, então existem algumas chances aí, inclusive na Foyt, mas, primeiro, estou tentando fechar meu orçamento, para que eu possa escolher o que eu quero fazer. A não ser que alguém me ligue com contrato pronto, sem precisar de patrocinador, mas isso não aconteceu ainda”, garante.

Com todas as informações dadas pelo baiano, é impossível não perguntar: que tal um revezamento com Jimmie Johnson, que só quer mistos e ruas, num quarto carro da Ganassi? Kanaan sabe que é uma possibilidade, mas afirma que ainda nem abriu conversas com sua ex-equipe.

“É uma possibilidade óbvia, já que eu quero os ovais e ele não quer os ovais, mas ninguém me ligou ainda. Os fãs falam bastante nisso, mas meu telefone não tocou. Todo mundo sabe, seria a melhor possibilidade no momento, juntaria o útil ao agradável, mas tem muita coisa ainda para acontecer. Prefiro que não tenham ligado ainda, melhor fechar meus patrocinadores antes, com certeza vou falar com eles também”, diz.

Tony Kanaan quer a despedida perfeita em 2021 (Foto: IndyCar)

E como ficam as 500 Milhas de Indianápolis nos planos de Kanaan? Bem, se a ideia parece ser fazer de 2021 a turnê de despedida, desde que, claro, exista a possibilidade de correr diante dos fãs, na Indy 500 Tony admite que pode ir um pouco mais além.

“A chance maior que eu tenho é seguir correndo a Indy 500. Sou bem popular lá, é a corrida em que todo mundo quer estar, muito interesse de patrocinador, então, é aquela prova em que eu olho e me vejo correndo ao menos mais uns dois anos, com certeza”, comenta.

Com 2021 incerto, mas decidido – já há bons meses – de que não quer parar por aqui, Tony planeja como seria sua última dança dos sonhos, mas dessa vez de verdade e, claro, com todo o carinho e atenção que merece receber pelos mais de 20 anos de conquistas em uma das categorias mais competitivas do mundo.

“A despedida perfeita seria fazer a Indy 500 de novo, com público, do jeito que tem de ser. Ganhar a Indy 500, na frente dos torcedores, e aí dizer tchau. Seria o melhor jeito de ir embora”.

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