Corrida para ser o novo Charles Leclerc

Academia de Piloto da Ferrari auxilia jovens na parte mental, física e técnica, assim como fez com o monegasco que está pronto para assumir uma vaga de titular na escuderia italiana. Brasil tem duas promessas sob guarda-chuva da equipe

André Avelar, São Paulo

O vermelho do macacão, o escudo amarelo, o cavalinho rampante preto… Não há dúvida. Trata-se da Ferrari. Junto com algumas das simbologias mais icônicas do esporte a motor, a inscrição que, no momento, indica algo próximo de ‘futuro promissor na F1’: Academia de Piloto. Charles Leclerc ainda nem assumiu a vaga de titular da escuderia italiana para a temporada 2019, mas já faz involuntariamente parte de uma corrida para saber quem será seu sucessor.

Enquanto jovens de até 22 anos em geral estão iniciando suas carreiras no mercado de trabalho, atualmente oito pilotos de diferentes países e categorias do automobilismo buscam quem sabe um dia só repetir o sucesso do piloto monegasco, que está pronto para tomar o lugar de Kimi Räikkönen no ano que vem. A faculdade para isso é a academia na pacata Maranello, no norte da Itália. Além da fábrica, da pista de testes e do museu da Ferrari, apenas algumas cantinas típicas.

Além de Leclerc, o programa dá suporte às carreiras do italiano Antonio Fuoco (F2), do chinês Guanyu Zhou (F-3 Europeia), do francês Giuliano Alesi (GP3), do neozelandês/italiano Marcus Armstrong (F-3 Europeia), do inglês Callum IIott (GP3), do russo Robert Shwartzman (F-3 Europeia) e dos brasileiros Enzo Fittipaldi e Gianluca Petecof (ambos nas F4 Alemã e Italiana).

Charles Leclerc entrou para o time em 2016 e agora representa o sucesso do programa italiano
Divulgação/Ferrari

Fábrica de carros e de pilotos

Leclerc é o principal expoente dessa geração de pilotos do programa. O #16 da Sauber — dono de incríveis 21 pontos no Mundial, 15 a mais que seu companheiro Marcus Ericsson— ganhou o símbolo no macacão em 2016 e logo naquele ano conquistou o título da GP3 com a ART Grand Prix. Naquela mesma temporada, testou pela Haas e teve seu nome cogitado para assumir uma vaga na equipe no ano seguinte. O próprio chefe de equipe, Guenther Steiner, teria pedido para o garoto não pular etapas e correr a F2.

A decisão se mostrou das mais acertadas. O piloto não só teve mais tempo para conhecer um carro de tamanha agressividade tendo testado a Sauber e a própria Ferrari, como ainda conquistou o título da categoria de acesso com algumas atuações inclusive exuberantes. A partir dali, o seu nome era falado em cada circuito da F1 e, mais, a tal da Academia de Pilotos da Ferrari ganhava em relevância. Como tudo vira instrumento político em um mundo de negócios, o ex-presidente Sergio Marchionne, morto em julho deste ano, teria passado a então a repetir um mantra de Enzo Ferrari:

“Adoro pensar que a Ferrari pode criar tanto pilotos quanto carros”, era a frase do fundador da escuderia, hoje missão institucional da academia.

Adoro pensar que a Ferrari pode criar tanto pilotos quanto carros
Enzo Ferrari

Gianluca Petecof

Nascimento: 14 de novembro de 2002

Naturalidade: São Paulo, Brasil

Academia Ferrari desde: 2017

F4 Alemã: 10º lugar (92 pontos)

F4 Italiana: 6º lugar (128 pontos)

Enzo Fittipaldi

Nascimento: 18 de julho de 2001

Naturalidade: Miami, Estados Unidos

Academia Ferrari desde: 2017

F4 Alemã: 3º lugar (223 pontos)

F4 Italiana: 2º lugar (257 pontos)

Mas Leclerc não é o primeiro grande nome da iniciativa que levou para a F1 o mexicano Sergio Perez e, mais recentemente, o canadense Lance Stroll. Jules Bianchi era preparado para ser o primeiro recruta e rosto de sucesso da companhia. Em agosto de 2009, durante o afastamento de Felipe Massa, o piloto francês teve seu nome cogitado para assumir a vaga pelo restante da temporada. Os experientes Luca Badoer e, depois de duas corridas, Giancarlo Fisichella ficaram com o assento.

Credenciado pelo título da F3 Europeia, dois terceiros lugares na GP2 e um segundo lugar na F-Renault 3.5, Bianchi assumiu a titularidade da modesta Marussia, em 2013. Assim como no primeiro ano, as dificuldades no seguinte era terríveis mas, mesmo assim, o francês conseguiu o oitavo lugar no GP de Mônaco, os primeiros pontos da equipe, para verdadeira reviravolta no mundo da F1. Até que veio o trágico acidente nove corridas depois. Nove meses após chocar sua cabeça contra um guindaste no GP do Japão, o promissor piloto morreu aos 25 anos.

Leclerc, pelo lado mais cruel de um esporte de risco, acabou de certa forma herdando a posição de Bianchi. Os dois inclusive eram amigos pessoais, já que nos tempos de kart o primeiro foi ajudado pelo mais velho e ambos tinham Nicolas Todt como empresário. Leclerc também correu no kartódromo administrado pelo pai de Bianchi, em Brignoles, na França. A partir da temporada que vem, o monegasco inicia uma história que poderia não ser a sua tão cedo, mas já carregada de expectativa. Isso sem falar em uma nem tão futura assim aposentadoria de Sebastian Vettel.

 

Corpo, mente e técnica

Os pilotos da Academia da Ferrari não vão para Maranello para propriamente fazer exercícios físicos ou testar reflexos em modernos aparelhos sempre à disposição. Já não há dúvida que a F1 dos dias atuais depende da técnica e muito do físico, mas esse tipo de atividade só faz parte da rotina. O mais importante está em que os responsáveis pelo programa chamam de “avaliações multimensionais”, trabalhando o corpo e a mente de cada um.

Além de se respirar automobilismo e cuidar do corpo como um todo, há no programa uma importante parte relacionado ao comportamento de cada piloto na pista. O engenheiro Massimo Rivola, ex-Toro Rosso, é quem comanda com mãos de ferro a academia e também senta com os pilotos para apontar acertos e erros depois de suas corridas no final de semana. O trabalho desenvolvido é como se além da reunião com a equipe de sua determinada categoria, também há um feedback com membros da Ferrari.

Apesar de tamanho foco e responsabilidade, os pilotos conseguem desenvolver algumas amizades. Conforme revelou Gianluca Petecof ao GRANDE PRÊMIO, quando visitou o Paddock GP #132, ele e Enzo Fittipaldi — os dois brasileiros da turma que ainda tem um italiano, um chinês, um monegasco, um francês, um neozelandês, um inglês e um russo — passaram bons momentos juntos sob o guarda-chuva da companhia.

“No kart, por exemplo, você não tem ninguém para fazer esse briefing sobre como a coisa acontece. No kart também são poucos assuntos a se discutir. No carro, já é uma coisa maior. Você tem as estratégias e a dinâmica do final de semana”, disse Petecof, que corre nas F4 Alemã e Italiana.

Se haverá um próximo Leclerc? Nem a Ferrari, nem a F1, são capazes de dizer neste momento. O caminho de sucesso está pavimentado e, por enquanto, oito iniciaram a corrida para já suceder o jovem piloto.