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E a F2, como fica?

No esporte a motor, a Fórmula 1 provavelmente é quem mais sofre com as consequências do coronavírus. Só que os impactos vão além: na Fórmula 2, a necessidade de fazer contas fecharem também cria clima de incerteza

Os últimos dias foram de apreensão na Fórmula 1. A pandemia do coronavírus trouxe uma grande crise, capaz de trazer demissões em massa e flertes com a falência. Isso para gigantes como McLaren ou Williams, que precisam rever planos para o futuro. Se gente desse porte já sofre, o momento se torna de reflexão obrigatória para todos no automobilismo. Com isso em mente, o que o futuro reserva para a Fórmula 2, categoria imediatamente abaixo da F1 e responsável por revelar novos talentos nas pistas?

Uma rápida olhada no noticiário já indica o momento difícil da F2. A categoria foi uma das primeiras a sentir na pele as consequências do coronavírus, tendo pilotos e equipes sofrendo para participar da pré-temporada no Bahrein. Meses depois, o cenário ainda é preocupante: tanto questões financeiras quanto de calendário precisam ser resolvidas. As primeiras provas do ano ganharam datas, mas ainda não se sabe como 2020 terminará.

As consequências do coronavírus sobre a F2 ainda são incertas (Largada F2)

 

O que se sabe é que se trata de um momento de reflexão. A questão dos altos custos já existe há anos na categoria, assim como em outras formadoras de pilotos. Esse, inclusive, é um dos pontos que norteou mudanças técnicas recentes, com raras concessões feitas na luta contra os cifrões. Para a Carlin, uma gigante do automobilismo de base, é uma abordagem essencial. E que já estava demorando para chegar na F1.

“Em termos de custos e cortes, tudo estava indo na direção certa até a parada forçada pelo covid-19”, diz Trevor Carlin, homem forte da escuderia que carrega seu sobrenome, sobre a F2. “Isso [redução de custos] era algo necessário. Na F1 nós ainda temos gastos muitos altos, e nem há motivos para que seja assim. Pegando a Indy como exemplo, trata-se de um campeonato muito menos caro, mas ainda com corridas espetaculares. No fim das contas, o público quer boas corridas e um bom espetáculo”, destaca. A equipe britânica alinha carros tanto na F2 quanto na Indy, citada como exemplo a ser seguido.

“Ter um carro rápido não é uma coisa que depende de pagar mais. Isso é uma coisa que tem a ver com o peso do carro, por exemplo. Se ele for mais leve, ele será mais rápido, e isso não custa nada. Se for mais leve, você não precisa tanto de freio, potência, pneus, suspensão. Isso tudo passa a custar menos”, segue.

 

(Louis Delétraz)

Um mundo de gastos, mas reduzidos

Quando comparados com os gastos da F1, é natural que os da F2 pareçam insignificantes. Enquanto um teto orçamentário de US$ 145 milhões [R$ 779,8 milhões] já sufoca muitas escuderias do campeonato principal, o orçamento médio de uma equipe na classe formadora fica na casa de US$ 5 milhões [R$ 26,9 milhões].

A diferença enorme tem motivos óbvios. Para começo de conversa, ninguém na F2 precisa criar e desenvolver carros ao longo do ano. Pelo contrário: o modelo é desenvolvido pela Dallara e, quando comprado pelas equipes, tem um custo que gira na casa de US$ 500 mil [R$ 2,69 milhões]. A lista de economias é longa, indo desde a folha salarial menor até as viagens mais curtas.

Mesmo assim, é inocência acreditar que a situação da categoria é tranquila. Os patrocinadores, sejam eles próprios das equipes ou consequência de pilotos pagantes, só fazem a TED para a conta das equipes de acordo com corridas realizadas. Sem carros na pista, sem exposição, sem dinheiro. Aí não tem jeito: as engrenagens da categoria simplesmente emperram.
(Nikita Mazepin e Mick Schumacher)

Por mais que a F2 posso parecer frágil em primeira análise, há pontos que também jogam a favor. É comum que patrocinadores venham juntos de pilotos pagantes, o que diminui as chances de um divórcio causado pelo coronavírus. Talvez essa seja a arma secreta de equipes como a Trident: mesmo consciente da necessidade de cautela na atualidade, não há pânico para a escuderia italiana.

“Controlar gastos é uma preocupação que já existia e que vai continuar existindo”, afirma Giacomo Ricci, chefe de equipe na F2. “Nós estamos em uma boa posição em termos de patrocinadores, o que nos traz tranquilidade. Não há riscos imediatos de problemas [financeiros] graves”, segue. A equipe assinou com o endinheirado Roy Nissany para 2020, completando a dupla com Marino Sato.

“Os planos de 2020 estão em stand-by. Isso está acontecendo para todo mundo na F2, assim como em outras categorias e indústrias. Na Trident, nosso objetivo atual é garantir que todos ainda estejam saudáveis quando a situação se normalizar, não necessariamente lidar com questões financeiras de imediato. Por isso que fechamos as fábricas enquanto aguardamos novas decisões da F2. Acredito que todos tomaram medidas adequadas para o futuro tanto no curto quanto no longo prazo”, pontua. A equipe tem motivos particularmente bons para manter fábricas fechadas: a sede é em Milão, no norte da Itália, justamente uma das regiões que mais sofreu com o coronavírus.

“É difícil comparar [a F2] com a F1 porque são mundos diferentes. Lá você tem orçamentos maiores, mas isso também é verdade para os gastos. Eles têm pessoas competentes e estão tomando as decisões certas. O mesmo é verdade para nós na F2 e na F3. Não há motivos para entrar em pânico”, frisa.

O que se sabe é que, sim, há motivo de pânico para alguns. Não é novidade que algumas equipes enfrentam dificuldades para pagar salários, como já acontece na F1 e em várias outras áreas da sociedade. A F2 não é exceção. A questão, pois, passa a ser: como lidar com isso?

Para equipes sediadas no Reino Unido, há a alternativa do furlough. Trata-se de um programa do governo britânico para evitar demissões em massa. Como incentivo às empresas, a gestão de Boris Johnson se disponibilizou a pagar até 80% do salário de funcionários, desde que esse valor não passe de £2,5 mil (R$ 16,3 mil) por mês. A Hitech, equipe que estreia na F2 em 2020, confirmou ao GP* que já adota o esquema. Carlin e UNI-Virtuosi, as outras bretãs do grid, não deram retorno sobre a situação atual do quadro de funcionários.

De qualquer forma, é apenas a ponta do iceberg. E se demissões em massa se tornarem inevitáveis? E se as outras oito equipes que não operam no Reino Unido não tiverem a mesma sorte? Não há respostas. O que há é uma noção clara: se nem indústrias tão poderosas quanto a automotiva não conseguiram escapar ilesas, é uma doce ilusão pensar que uma categoria menor de um esporte de nicho está em posição confortável.

Questionada pelo GRANDE PREMIUM a respeito de possíveis impactos do coronavírus sobre a temporada 2020, a F2 se limitou a dizer que “monitora a situação de perto”. Do ponto de vista sanitário, prometeu “seguir os planos da F1 e da FIA para garantir que não haja riscos” na retomada.

O cronograma dos contratempos

Os problemas da F2 começaram em 28 de fevereiro, quando surgiu a informação de que o piloto Christian Lundgaard seria forçado a ficar de quarentena na Espanha, já que seu hotel nas ilhas Canárias teve casos de coronavírus. Enquanto isso, equipes e pilotos eram checados da cabeça aos pés antes de entrar no Bahrein, que recebeu os testes. Talvez mais por sorte do que por juízo, as atividades aconteceram sem novos contratempos.

Essa sorte, entretanto, não duraria para sempre. As etapas do Bahrein, da Holanda, da Espanha e de Mônaco caíram durante maio. O que jogou a favor da categoria é o número reduzido de provas fora da Europa, evitando os dilemas extras encarados pela F1. O calendário segue inalterado da Áustria, com rodada dupla nos dias 4 e 5 de julho, em diante.

Foi só agora, no começo de junho, que as peças começaram a se encaixar. No embalo da F1, com oito fim de semanas previstos na Europa, a temporada 2020 da F2 finalmente ganhou corpo. As etapas previstas são, além das austríacas, as de Hungaroring, Silverstone, Barcelona, Spa-Francorchamps e Monza.

Só que ainda é muito cedo para celebrar o fim dos problemas. Ainda é necessário realocar as etapas de Sakhir e Baku. De acordo com as previsões da própria categoria, é possível que o campeonato siga na ativa até perto do Natal.

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