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Mão na massa

Enquanto o mundo busca mais e mais formas de combater o novo coronavírus, o esporte a motor não passa ileso dessas iniciativas. Além de contribuições financeiras, também teve gente que botou a mão na massa e partiu para a ação

Difícil encontrar alguém que não tenha sido afetado pela pandemia do novo coronavírus. Enquanto os casos de Covid-19 seguem se multiplicando, a maioria dos países do mundo enfrenta dias de isolamento social, reforço nos sistemas de saúde e, claro, muita incerteza.

Enquanto pesquisadores e cientistas buscam remédios eficazes e uma vacina capaz de imunizar a população, a maior parcela da sociedade tem uma única missão: ficar em casa, na medida do possível, para ajudar a reduzir a curva de contágio. 

Sendo assim, a maior parte das competições esportivas está parada ao redor do mundo, incluindo as disputas do esporte a motor. Acostumados a viajar de um lado para o outro, pilotos de MotoGP e Fórmula 1, por exemplo, vão se ocupando como podem: exercícios físicos, simulador, aulas de música, videogame e etc., mas tem também aqueles que decidiram ir mais além e colocar a mão na massa.

No Mundial comandado pelo Liberty Media, por exemplo, são muitas as equipes envolvidas em iniciativas para ajudar no atendimento aos doentes. A Mercedes, por exemplo, tem ajudado na produção de respiradores. Em colaboração com a University College London, a equipe de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas desenvolveu um aparelho respiratório de fácil produção, que já foi aprovado pela OMS (Organização Mundial de Saúde). 

A Ferrari, por sua vez, passou a produzir válvulas para respiradores, além de utilizar suas impressoras 3D para produzir escudos faciais para auxiliar na proteção aos profissionais de saúde. 

No fim de março, a F1 anunciou uma iniciativa batizada de ‘Projeto Pitlane’, uma aliança entre o governo do Reino Unido e as equipes sediadas por lá: Red Bull, Racing Point, Haas, McLaren, Mercedes, Renault e Williams. O projeto conta com três frentes de trabalho: engenharia reversa em equipamentos médicos existentes, auxílio na produção em larga escala de versões atuais de ventiladores mecânicos e desenvolvimento de novos respiradores. 

Do lado da MotoGP, Valentino Rossi colocou a mão no bolso. Apesar de nunca fazer alarde de suas iniciativas, o italiano teve uma doação revelada pelo Hospital Marche Nord, que divulgou que o piloto da Yamaha deu uma “generosa contribuição”. Além disso, o #46 também fez questão de entrar em contato com Italica Grondona, uma senhora de 102 anos que sobreviveu à Covid-19. O sobrinho da italiana que se tratou em Genova contou em uma entrevista à CNN Italia que ela sonhava em conhecer o piloto da Yamaha.

Namorada de Rossi, Francesca Sofia Novello revelou o contato entre os dois, mas não deu maiores detalhes. A modelo disse apenas que Italica estava “muito feliz”.

Mas o #46 não foi o único a fazer uma contribuição financeira. Pilotos como Maverick Viñales e os irmãos Marc e Álex Márquez também abriram a carteira, enquanto Francesco Bagnaia promoveu um leilão para ajudar Torino, sua cidade natal. 

A Repsol, uma das principais patrocinadoras do campeonato, também agiu. A empresa espanhola doou 400 mil máscaras de proteção ao governo da Espanha, passou a usar seus laboratórios para produzir gel da limpeza das mãos, que foi repassado ao Ministério da Saúde espanhol, além de ter doado 1.500 kg de polipropileno para a produção de viseiras de proteção facial. 

Fornecedora dos pneus da Fórmula 1, a Pirelli doou 8 mil pneus que serão destinados à ambulâncias e veículos de assistência pública sanitária no Brasil. A Moto Honda da Amazônia, a fábrica nacional da marca, também assinou um termo de cooperação técnica com o Governo do Amazonas e a Universidade do Estado do Amazonas para o desenvolvimento de protótipos de respiradores artificiais. Além disso, a montadora também apoiou uma iniciativa conjunta de manutenção de respiradores que estavam fora de operação. 

Também no Brasil, Lucas Di Grassi idealizou e desenvolveu um equipamento que emite luz ultravioleta para sanitizar vagões de trens e ônibus usados no transporte público. Antes, o piloto da Fórmula E já tinha comandado uma arrecadação de fundos para compra e distribuição de álcool gel e promovido a produção dos escudos faciais.

Dominique Aegerter vai disputar a Copa do Mundo de MotoE em 2020 (Dominique Aegerter (Foto: Divulgação/MotoGP))

Mãos à obra

 

Dominique Aegerter foi um pouco além: o piloto da MotoE efetivamente atuou na limpeza nos arredores de um asilo. O lar de idosos pertence ao preparador físico do suíço, que optou por permanecer na Espanha para ajudar a sanitizar e desinfetar os arredores da Residencia Sant Pere.

“O que ele fez veio do coração, não tinha obrigação nenhuma”, conta Pol Rueda ao jornal espanhol ‘El Confidencial’. “Nós somos muito amigos. É um cara que, além de ser muito amável e respeitoso, está lá para o que for preciso. O que ele fez esses dias é algo de que vou me lembrar pela vida toda”, segue. 

“De manhã, ele treinava e, de tarde, passava aqui, mostrando uma empatia sincera conosco. Eu emprestei a ele o carro da empresa, para que ele pudesse se deslocar e nos ajudar com o material. Eu até fiz uma justificativa para que ele pudesse mostrar à polícia caso fosse necessário”, conta. 

Depois de ser convencido pelo treinador a divulgar o que estava fazendo, Aegerter postou um vídeo no Instagram, e explicou sua função no lar de idosos.

“Todo ano, eu venho à Espanha fazer a minha preparação física com o ‘Coach to Top’. Quando a temporada da MotoGP foi cancelada pelo coronavírus, eu decidi ficar aqui para treinar online em casa. Pol, meu preparador, também tem um lar de idosos, e eu me ofereci para ajudá-lo como pudesse. Eu disse: ‘Você sempre me ajuda, agora eu tenho de ajudá-lo’. Toda semana, eu compro água sanitária para eles e desinfeto o exterior todo”, conta. “Eu treino em casa toda manhã e, de tarde, eu colaboro com a prevenção e a desinfecção do lar de idosos dele. O vírus é letal para pessoas mais velhas. Eu não podia ficar trancado em casa vendo todo o problema”, justifica. 

“C.G. Sant Pere é o nome do asilo, e eles são um dos poucos lares de idosos com zero casos de coronavírus, então estou orgulhoso de ajudar nesta causa. Encorajo a todos que ajudem onde possível, pois, juntos, vamos vencer esse vírus”, escreve.

De volta à Suíça, Aegerter conversou com o GRANDE PREMIUM, mas preferiu falar de sua rotina de treinos e do dia-a-dia, sem dar detalhas de seu trabalho no Sant Pere.

“Eu fiquei na Espanha nas últimas semanas, últimos meses, pois eu sempre treino na Espanha no inverno. Eu vou para lá em fevereiro, primeiro para Valência por algumas semanas, e aí para Barcelona. No início de março, nós tivemos a sorte de fazer o primeiro teste da MotoE, em Jerez, aí eu voltei para Barcelona. Em meados de março, eu teria um teste com a Superbike da Honda em Sepang, na Malásia, mas isso já tinha sido cancelado, então eu disse que ficaria na Espanha para fazer a minha preparação lá. Mas aí estava ficando cada dia mais difícil, e, no final, tivemos de ficar de quarentena. Aí eu fiquei lá por mais três semanas e, na semana passada, voltei à Suíça”, relatou Dominique em meados de abril. 

Questionado pelo GP* se teve medo de contrair o coronavírus enquanto estava na Espanha, Dominique respondeu: “Nas primeiras semanas, quando começou o lockdown, eu estava com um pouco de medo. Meus pais também me disseram para voltar para casa, tomar bastante cuidado, meu irmão estava no Vietnã, ele não podia ir para casa. O noticiário também era muito ruim, então eu prestava bastante atenção, ficava em casa. Quando ia às compras, colocava máscara, luvas e lavava todos os itens. E, no resto dos dias, eu ficava em casa. Mas eu tive sorte por não pegar o vírus”.

Agora em casa, o piloto de Rohrbach notou certa mudança na vida local, mas com muito mais abertura do que na Espanha. De acordo com dados da OMS, a Suíça tinha registrado até o último dia 24 um total de 28.414 casos, com 1.267 vítimas fatais.

“Na Suíça está um pouco menos, digamos, fechado do que na Espanha, porque na Espanha você não podia sair ou praticar esportes por causa do lockdown. Aqui na Suíça, muitas coisas estão fechadas, como todos os restaurantes, o shopping, apenas a farmácia e o mercado estão abertos, mas ainda posso sair para correr ou pedalar, é só ficar atento. Mas, no resto do tempo, eu também fico em casa aqui na Suíça”, explica.

Apesar da maior liberdade em território suíço, Aegerter planeja voltar à Espanha tão logo possa retomar os treinos de moto.

“O meu plano é voltar para a Espanha assim que as pistas de motocross e supermotard sejam reabertas. Pois a minha van, com todas as minhas motos, ficou na casa do meu treinador, então eu vou voltar quando a situação melhorar”, garante ao GP*.

Por fim, o suíço comentou o impacto deste período de isolamento nos pilotos, mas ressaltou que a nacionalidade é, de certa forma, uma vantagem. 

“Eu acho que, para alguns pilotos, é muito difícil não poder andar de moto, ficar em casa e ficar motivado para treinar em casa, em, sei lá, uns 20 metros. Mas, digamos, para os suíços, é bem normal no inverno. Nós temos dois, quase três meses sem pilotar moto, então para nós é um pouco normal, mas, para os espanhóis ou italianos, eles pilotam toda semana, então acho que eles vão ter um pouco mais de problemas para recomeçar. É melhor para mim”, completa.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Every year I come to Spain to do my physical preparation with @coachtotop When @motogp season was cancelled for the CORONAVIRUS, I decided to stay here to train online at home. Pol my coach also has a nursing home, and I offered to help him in any way I could. I said, "You always help me, now I have to help you." Every week, I buy bleach for them and disinfect the whole exterior. I train at home every morning and in the afternoons I collaborate in the prevention and disinfection of his nursing home. This virus is lethal for older people. And I couldn't be home locked up watching all the trouble. C.G. Sant Pere is the name of the nursing home, and they are one of the few nursing homes that have 0 CORONAVIRUS cases, so I am proud to help in this cause! I encourage everyone to help where possible, because together we will beat this virus! #stayathome #stayhealthy #staysafe #help #nursinghome #people #together #we #win #race #clean #friends #coronavid19 #2020 #barcelona #domi77 #aegi77 #77 #ad77 #domifighter #livefullgas www.domi77.com

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José Butrón recebeu um pedido para doar os óculos que usa em provas de motocross (José Butrón (Foto: Reprodução))

Protege do barro e do vírus

 

Outra iniciativa também partiu do mundo do esporte a motor. 13 vezes campeão espanhol de motocross, José Butrón iniciou um movimento para fornecer óculos usados em provas off-road para o pessoal de saúde. A iniciativa nasceu do pedido de um médico. 

“Um médico chamado Jesús Fernández, do hospital Paterna de Rivera, localizado em Cádiz, me ligou para perguntar se eu podia doar um óculos, que seria útil na hora de trabalhar para evitar de se infectar pelo maldito coronavírus”, conta Butrón ao jornal espanhol ‘As’. “Eu respondi que não um, mas que daria todos que encontrasse em casa. Achei cerca de 20 e pedi aos meus amigos, que gostaram da ideia e doaram os seus. Tomara que mais pilotos e lojas de moto possam fazer o mesmo, já que toda ajuda é boa para frear a propagação do coronavírus”, defende. 

A iniciativa de Butrón foi acompanhada por nomes como Laia Sanz e Nani Roma. O bicampeão do Rali Dakar, aliás, foi pessoalmente entregar óculos em hospitais, asilos e clinicas de atenção primária. Além disso, a campanha conseguiu o apoio da 100%, uma marca que produz equipamento de proteção para provas off-road, que também fez uma doação à iniciativa liderada por Nani.

A marca já doou mais de 3 mil unidades, além de apoiar uma iniciativa chamada ‘Goggles For Docs’ (Óculos para médicos, em tradução livre), para incentivar doações individuais nos Estados Unidos. Além dos óculos de motocross, também são úteis os de esportes de inverno. O site da campanha revela que a arrecadação já superou as 35 mil unidades.

Caio Collet testou em Valência após cumprir quarentena em Tenerife (Caio Collet (Foto: Dutch Photo Agency))

Quarentena em Tenerife

 

Um dos primeiros brasileiros a ser afetado pelo coronavírus foi Caio Collet. Membro da Academia de Pilotos da Renault, o brasileiro ficou em quarentena em um hotel na ilha espanhola de Tenerife junto com os colegas Christian Lundgaard e Hadrien David, além do dirigente Mia Sharizman.

Nas Ilhas Canárias para uma série de testes físicos, Collet ficou preso no hotel após a confirmação de um caso entre os hospedes. 

“Foi no dia em que a gente tinha que ir embora. A gente tinha acabado o training camp e, no dia em que a gente ia embora, teve um paciente que foi diagnosticado com coronavírus dentro do hotel. No dia que a gente ia embora, eles fecharam o hotel inteiro e anunciaram que ia começar a quarentena”, conta Collet ao GRANDE PREMIUM

Sem poder deixar o hotel, Caio e os colegas se dedicaram aos treinos físicos, já que o preparador também estava por lá. 

“Nossa rotina era bem simples. A gente acordava de manhã, porque a maioria dos pilotos ainda estava lá, e nosso preparador físico também estava lá, então a gente acordava de manhã, usava a academia do hotel por 1h30min, 2h, depois ia um pouco para a piscina, para o quarto. A gente não entrava na piscina, lógico, mas a gente circulava no hotel de máscara e luva, como recomendado, e à tarde, no final da tarde, a gente fazia mais uma sessão na academia. Basicamente era isso. Então a gente fazia academia duas vezes por dia”, explica. “Ao longo da semana, eles também desenvolveram alguns desafios para a gente fazer para não ficar com a mente parada também, então a gente desenvolveu uma rotina e seguiu com ela nesses 14 dias que a gente ficou em quarentena”, segue. 

“Eu estava com um colega no quarto e os outros dois estavam no quarto do lado, então a gente se via todo dia e treinava junto também, a gente passava todos os dias juntos”, detalha.

Perguntado pelo GP* se foi submetido a algum teste durante os dias em Tenerife, Collet respondeu: “Eu, particularmente, não, mas alguns que quiseram ser liberados antes fizeram o teste de coronavírus. Foi um pouco confuso para falar a verdade esses 14 dias. Mas eu tive de fazer não o teste de coronavírus, mas todo dia a gente checava a temperatura para ver se tinha aumentado ou não e também via se tinha algum sintoma ou qualquer outra coisa. Mas, no dia anterior a minha partida, eu tive que checar a minha temperatura e fizeram meio que um testezinho, mas nada do teste, teste mesmo de coronavírus”.

Apesar da situação inusitada, Caio explica que sua principal preocupação era não perder nenhum teste.

“Acho que medo não muito. Eu estava um pouco preocupado de perder algum teste ou coisa assim, mas, graças a Deus, o meu teste era dois dias depois que eu fui embora, um dia depois que eu fui embora, então deu bem certo para mim, para falar a verdade. A minha maior preocupação era perder alguma coisa dentro da pista, como aconteceu com o outro piloto que estava junto com a gente, mas, graças a Deus, deu tudo certo”, celebra.

A calma do piloto, aliás, serviu também para acalmar a família. “Eu acho que, nesta situação, qualquer um iria ficar preocupado, mas eu estava bem tranquilo, porque eu sabia que não estava sozinho ali. Eu tinha todo o suporte da Renault e alguns outros pilotos comigo, então eu consegui tranquilizar um pouquinho a minha família, principalmente a minha mãe, mas, no final, graças a Deus, deu tudo certo”.

Passado o isolamento, Caio seguiu para Valência, onde liderou um teste com a F-Renault Eurocup.

“Eu acho que o meu teste em Valência, eu fui com a cabeça focada no teste 100%, mas eu acho que já estava um clima um pouco estranho, porque foi a hora que o pico começou a vir na Itália e também começou a chegar na Espanha e na França nesses dias de teste. Até cancelaram o teste de Barcelona, que seria um dia depois. Então foi um pouco estranho, estava todo mundo preocupado, as equipes que vieram da Itália, estavam todos usando máscara, luva, para trabalhar e circular dentro do paddock, mas eu, particularmente, estava bem focado em fazer o meu teste”, relata.

Na volta para a casa, Collet manteve uma rotina parecida com os dias em que ficou preso em Tenerife, já que tem focado em manter a forma física. 

“Eu desenvolvi uma rotina de treino aqui no Brasil. Estou no Brasil, em casa, com a minha família, e, basicamente, eu tento sair para correr e pedalar em alguns horários que não tem muita gente lá fora ou de manhã bem cedo ou no final da tarde. Lógico, sempre sozinho. Também faço alguns exercícios dentro de casa e passo bastante tempo no simulador. Também, duas vezes por semana, a gente tem meio que umas aulinhas com a Renault. Eles juntam todos os pilotos da Academia e alguns engenheiros e passam para a gente algumas coisas básicas ou também coisas de aerodinâmica, mapeamento do carro, todas essas coisas para manter a nossa cabeça funcionando”, revela. “A minha rotina basicamente está bem parecida com o que eu vivi em Tenerife. A única coisa que muda é que eu não estou no hotel, eu estou em casa, mas a minha rotina está bem parecida. Eu passo bastante tempo no simulador e passo bastante tempo também tentando me manter bem preparado física e mentalmente, então esse é um dos meus maiores focos, bem parecido co
m o que eu fiz em Tenerife”, compara.

Por fim, Caio mostrou que tenta se manter positivo, já que seu estado de espírito não vai mudar a dinâmica do coronavírus. 

“Eu acho que ficar pensando que eu queria correr, que eu quero voltar, não vai mudar muita coisa, porque eu não vou fazer a pandemia passar antes ou depois, então eu tento focar dia após dia e seguir a minha rotina. Eu estou correndo bastante no simulador, então este está sendo o meu foco principal. E, também, passar bastante tempo com a minha família é uma coisa que eu não tenho feito nos últimos anos, então tenho que olhar o lado positivo, pois estou aqui com a minha família, com a minha mãe, com o meu pai, estou vendo eles toda semana, que é uma coisa que não acontecia acho que faz uns dois, três anos, então eu tenho que olhar o lado positivo e acho que se manter positivo nessas semanas, nesses meses que a gente vai ter pela frente é algo muito importante”, encerra.

Bruno Baptista é um dos brasileiros infectados pelo novo coronavírus (Bruno Baptista (Foto: Duda Bairros/Vicar))

Sentindo na pele

 

Apesar dos números alarmantes em todo o planeta, tem quem insista em minimizar a pandemia. Mas, quem sente na pele, sabe bem do que se trata. Bruno Baptista foi uma das vítimas da Covid-19 no Brasil e contou àNEWSLETTER GP como viveu o “momento mais triste” da vida. Com 23 anos, o piloto da RCM na Stock Car passou oito dias internado na semi-UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.  

“Vou ser bem sincero com você. Quando começou essa epidemia na China, lá para dezembro, eu não estava muito preocupado. Pensei que conseguiriam controlar. Não sabia a gravidade que era. Quando começou a chegar na Europa e começou a ter os casos aqui no Brasil, também não estava preocupado. O que eu pensava é o que todo mundo pensa hoje em dia: ‘Isso aí é uma gripe, não é nada demais, não vai acontecer nada. Prefiro trabalhar, ter corrida, ganhar meu dinheiro do que parar minha vida com isso’. É o que muita gente tá pensando. Não vou dizer que é a maioria, mas tenho certeza de que 40%, 50% do brasileiro está pensando que é assim, que é uma gripe, que não é nada demais”, recorda Bruno. “E depois, quando peguei Covid, vou te falar que foi o momento mais difícil da minha vida. Fiquei muito triste quando deu positivo. Quando senti os sintomas mais sérios e fui internado, foi o pior momento. Foi na hora de despedir, quando minha mãe me levou no hospital, quando falaram que tinha de internar, nem consegui dar tchau 
direito para minha mãe e meu pai. Foi um momento muito triste. Não cai a ficha para você, mas depois de um, dois dias de hospital, você fala: ‘Caraca, meu! Muita gente morrendo, você aqui no hospital, internado, e não sei se vou ver meus pais de novo. É um momento de angústia total, você lá, tomando remédio, com sintomas de falta de ar, muita gente morrendo…’. Esse foi o momento mais difícil, da despedida, da entrada no hospital”, revela.

“O que eu enxergo é que [respira fundo]… É difícil, sabe? Não culpo as pessoas de pensarem aquilo porque eu pensava também e só mudei minha cabeça quando peguei Covid. Mudei total minha cabeça, tive muito mais humildade. Saí do hospital, e minha humildade era totalmente diferente, meu modo de pensar sobre a vida, meu modo de pensar sobre tudo mudou muito. Tive muita reflexão lá dentro do hospital, que mudou completamente meus pensamentos. Não só sobre a doença, mas sobre a vida inteira”, explica. 

Ainda, Bruno ressaltou o impacto da Covid-19 nos sistemas de saúde ao redor do mundo e se disse “abismado” com notícias de manifestações e aglomerações.

“Eu vejo pessoas fazendo manifestações na rua, pedindo para tirar o isolamento, ir contra, vejo políticos brigando, um diz que precisa ter; outro diz que não… É um negócio que até fico assustado. Esse momento que estamos passando, da pandemia, a gente vê na Europa… A gente vê alguns países que têm uma estrutura melhor que a nossa, a maioria, e estão passando momentos super difíceis: Reino Unido, Espanha, Itália, chegando a 800 mortes por dia! E parece que as pessoas não estão enxergando isso. Isso é o que fico mais chateado. Parece que as pessoas não estão preocupadas com a vida”, observa. “Fico abismado vendo as notícias de manifestações, pessoal que se junta, aglomeração, e eu fico pensando: O que é isso? O que o pessoal tá pensando? É difícil porque o jeito que o pessoal está pensando, ‘ah, nada vai acontecer’, é como eu pensava. Eu entendo. Tem pessoa que está muito necessitada, está perdendo dinheiro, não tem dinheiro para colocar na casa, para alimentar a família. Tem gente que a empresa faliu, está falindo, é um momento em que todo mundo está perdendo dinheiro. Todo mundo está sofrendo nessa crise, pouquíssimos não estão”, sublinha.

“É um momento que não pode haver divergência entre políticos, é preciso ter uma união de todo mundo. Quanto mais união a gente tiver, mais rápido essa crise vai passar. É algo que vejo nas notícias, todo dia, aqui, vejo jovens da minha idade morrendo, já morreu pessoas da faculdade, que conheço, amigos próximos. Não sei o que o pessoal está pensando. Não é uma gripe qualquer, é uma gripe forte, que ataca o pulmão, ataca a respiração dos humanos e está afetando muita gente. A maioria das pessoas é assintomática e não vai sentir a Covid? Sim. Mas as pessoas que estão sentindo a Covid estão tendo os sintomas… É absurdo. Não sei qual é a estimativa, mas 4% a 5% das pessoas internadas está morrendo”, aponta. “Já já a gente vai passar pelo pico da doença, e é aí que vai morrer mais gente ainda, porque não vai ter mais leito no hospital. Então, a pessoa que tiver com sintomas como falta de respiração não vai ter os equipamentos para recuperar, a pessoa vai ficar com falta de ar e vai morrer. É uma cadeia, isso aí. Está morrendo muita gente no Amazonas, em São Paulo estão acabando os leitos, Rio de Janeiro… A população precisa ter mais consciência porque a vida de um amigo seu, de um familiar seu ou a sua própria vida vale muito mais que qualquer dinheiro ou qualquer luta que você batalha”, defende.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Hoje posso dizer que é o dia mais feliz de 2020, depois de 8 dias internado na semi-UTI do Einstein depois de ter pego o corona virus e ele causando uma pneumonia no meu corpo e causando diversos sintomas de falta de ar e afetando 40% do meu pulmão , venho aqui agradecer o @dr.henrydina e toda a sua equipe, eles e todos os enfermeiros e médicos do Brasil estão sendo os nossos heróis nessa batalha, saiu daqui hoje com outro pensamento e com muito mais respeito e humildade a esse vírus, onde antes eu pensava o mesmo que maioria pensa “ somente uma gripezinha”, fiquem em casa e fiquem em isolamento, vamos respeitar essa fase que estamos passando, com seriedade e amor ao próximo.

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Michele Zasa comanda a Clinica Mobile na MotoGP (Michele Zasa (Foto: Reprodução))

Testemunha ocular

 

Diretor da Clinica Mobile da MotoGP, Michele Zasa está trabalhando na linha de frente no combate ao novo coronavírus na Itália. Apesar do volume de trabalho, o médico tem dedicado algum tempo para conceder entrevistas e alertar a população.

Entre um plantão e outro, Zasa atendeu ao GRANDE PREMIUM e deu seu relato sobre a situação. Na Itália, já são mais de 195 mil casos de Covid-19, com mais de 26 mil mortos.

“Tem sido difícil, não preciso nem dizer, já que, como muitos outros médicos, tenho vivenciado coisas terríveis no último mês e meio”, conta Zasa. “Trabalho em veículos de resposta rápida para o serviço de emergência pré-hospitalar local, atendendo os pacientes mais críticos. Agora a situação parece ser um pouco melhor aqui na Itália. Vamos torcer para o pior já ter passado”, segue.

O trabalho no serviço de emergência, porém, não é uma novidade para Michele.

“Isso é o que eu normalmente faço quando estou fora do paddock. Eu trabalho para o serviço de emergência pré-hospitalar da minha cidade e sou anestesista em um centro médico privado. Claro, estando em casa por causa da pausa forçada da MotoGP, me envolvi mais com o serviço de emergência, fazendo muito mais turnos do que normalmente faço”, conta. 

Questionado pelo GP* se entende que algo foi feito errado na Itália para que a situação chegasse ao ponto que chegou, o médico evita apontar o dedo e explica que só o tempo vai dar a imagem real das coisas.

“Prefiro não julgar, uma vez que já têm muitas pessoas julgando e, normalmente, sequer são médicos. Com certeza, no início os políticos pareciam com medo de parar a economia e talvez tenham esperado demais. Eles não consideraram que uma pausa imediata talvez nos permitisse ter menos mortes e um retorno mais rápido a algum tipo de “normalidade”, também em termos econômicos. No entanto, essa realmente foi uma situação nova para todo mundo e nós só poderemos julgar o que aconteceu em alguns anos, quando todos os dados estiverem disponíveis”, pondera.

Conforme os números de casos foram crescendo na Itália, Zasa declarou seguidas vezes que se tratava de uma guerra.

“Essa foi a minha impressão. Muitos chamados, rodando sem parar de um paciente para o outro, como em um campo de batalhas. Vi muitas pessoas com necessidades, muitas pessoas morrendo em casa. No hospital, vi muitas camas alinhadas, com pacientes muito doentes morrendo sozinhos. Foram cenas fortes, que vão ficar para sempre na minha mente”, relata.

Ao ser perguntado sobre como a população em geral pode ajudar os profissionais de saúde nesta guerra, Michele foi claro: “Só pediram que as pessoas seguissem algumas regras simples, como ficar em casa, manter o distanciamento social e usar máscaras cirúrgicas apropriadas. Essas medidas são realmente importantes e foram adotadas na Itália e ao redor do mundo. No entanto, é incrível ver quantas pessoas, inclusive muitos idosos, que correm mais risco em caso de infecção, estão ignorando essas regras simples. Isso é uma total falta de respeito com a sociedade da qual fazem parte e com todos os profissionais de saúde que se sacrificam ― alguns deles morreram”.

No Brasil, apesar de o cenário mundial indicar o contrário, as informações acabaram por ser conflitantes. Enquanto muitos governadores adotaram o isolamento social e tentam reforçar o SUS (Sistema Único de Saúde), o presidente Jair Bolsonaro fala em “gripezinha” e acredita que não teria grandes problemas com a Covid-19 por conta de seu “histórico de atleta”.

“Eu discordo totalmente”, rebate Zasa. “O primeiro caso na Itália foi um jovem, um esportista muito ativo. Subestimar esse vírus, especialmente agora que temos tantas informações sobre seu potencial, é muito perigoso. Pense no que aconteceu com o primeiro-ministro do Reino Unido, que subestimou o vírus e eventualmente foi internado na UTI ― felizmente, ele agora está se recuperando. O vírus pode infectar todo mundo, e acho que ninguém pode negar essa evidência”, defende. 

“Em relação às consequências mais sérias, você não precisa ser um cientista para entender que pessoas com mais de 60 anos e com comorbidades correm mais riscos. No entanto, embora algumas classes da população tenham um risco maior, ninguém está a salvo, já que pessoas de todas as idades acabaram no hospital e na UTI, e algumas morreram”, alerta.

Apesar de o esporte passar longe de ser uma prioridade no momento, Zasa torce pelo início da MotoGP. Afinal, isso significaria alguma normalidade.

“Vai depender de como a pandemia evoluir ao redor do mundo e de como os governos locais vão reagir. Se tivermos sorte, acho que podemos recomeçar em agosto/setembro, tomando precauções. No entanto, para uma estimativa mais realista, nós precisamos esperar e ver como a situação evolui. Os pilotos estão ansiosos para isso, assim como todos nós, pois isso representaria um retorno parcial à normalidade”, comenta.

Indagado se acredita que o mundo será um lugar diferente passada a pandemia, Michele responde: “Quem sabe… Espero que seja diferente de uma maneira positiva, que as pessoas sejam mais responsáveis, que os governos entendam a importância dos sistemas de saúde, que os países contribuam para construir um mundo melhor. Mas e se nada mudar depois de uma tragédia como essas? Se esse for o caso, isso significa que não existe esperança para o nosso futuro”.

Por fim, o médico deixou claro que ficará com as imagens da pandemia gravadas eternamente na memória e lançou um alerta final à população.

“Tenho imagens na minha mente, mas elas são bem assustadoras e não tem necessidade de compartilhá-las com outras pessoas. Quando for possível, vou apenas tentar voltar à normalidade, passar tempo com os meus amigos e família, e não pensar nesses horrores. No fim das contas, isso é o que os médicos (e profissionais da saúde, em geral) sempre fizeram: encarar a morte, segurar as mãos do paciente, superar a frustração e o fracasso, e recomeçar com novos desafios tentando não olhar muito para trás”, fala. “Mais uma vez, não subestime o perigo, fique em casa, adote o distanciamento social, use máscaras cirúrgicas adequadamente quando não estiver em casa. É simples assim. Mas pode realmente fazer a diferença”, encerra.

*Colaborou: Fernando Silva

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