'Massa só tem o que agregar na FE'

Lucas Di Grassi é um piloto com uma carreira consolidada tanto no Brasil quanto no exterior. Com opiniões fortes e decididas sobre tantos temas, o GRANDE PREMIUM conversou com o competidor sobre Fórmula E, Felipe Massa e até privatização de Interlagos

Nathalia De Vivo, de São Paulo

É inegável dizer que Lucas Di Grassi já se consolidou como um dos principais nomes do Brasil no automobilismo mundial. Com vitórias em categorias importantes como o Mundial de Endurance e Stock Car, e um título na FE, escreveu em definitivo o seu nome no esporte a motor.

O competidor, entretanto, também é bastante conhecido por seu forte envolvimento com a categoria dos carros elétricos e toda a tecnologia que a envolve, tornando-se um defensor ferrenho dos motores elétricos no futuro – e não só nas pistas, como também no dia a dia das pessoas.

Com opiniões fortes e marcantes, que podem ser lidas tanto em entrevistas quanto em suas redes sociais, fala sempre sua visão de muitos assuntos e aproveita para levantar discussões sobre os mais diversos tópicos.

O GRANDE PREMIUM, então, conversou um pouco com o ex-F1 e perguntou sobre temas mais recentes, como seu balanço da temporada 2017/18 da FE, e pautas bastante importantes, como a privatização de Interlagos, e você pode ler o resultado da entrevista abaixo.

 

Di Grassi em seu carro na FE
Audi Sport

 

Lucas Di Grassi viveu uma reviravolta em sua temporada na Fórmula E. Com um início complicado, chegou a somar seus primeiros pontos apenas na quinta etapa da temporada, no México. Antes, contou com quatro abandonos, algo difícil de lidar sendo o atual campeão com a missão de defender o título da categoria.

Mas bastou encaixar o primeiro bom resultado para abrir a porteira. Com a segunda colocação em Punta del Este, e primeiro pódio do campeonato, somou mais seis top-3 consecutivos – sendo duas vitórias, uma em Zurique, e a outra na corrida 1 em Nova Iorque, para terminar o ano como o vice-campeão, 54 pontos atrás do vencedor Jean-Éric Vergne.

Ao analisar sua temporada, o titular da Audi reconheceu que as primeiras provas foram as que minaram suas chances de brigar pelo campeonato. “Minha temporada, no final, foi muito boa, terminei em segundo, como vice-campeão. O que foi uma pena foram as primeiras corridas, foram quatro quebras seguidas, e depois uma penalização por causa da última quebra”, contou.

“Então, praticamente perdi cinco corridas. Isso me deu uma desvantagem muito grande, mas conseguimos recuperar com sete pódios seguidos, mas não foi o suficiente para conseguir o título. Pelo menos terminei em segundo e conseguimos o campeonato de construtores com a Audi, o que foi muito importante. Olhando de forma geral, foi um campeonato muito bom, pilotei melhor do que quando fui campeão, errei menos, fui mais agressivo, fui melhor na classificação e corrida, foi uma pena essas quebras”, continuou.

 

 

E com o ciclo de quatro temporadas completas, a Fórmula E vai contar com uma grande novidade para 2018/19, que é a mudança de chassi. Abandonando o design do SRT01, usado desde a estreia, a categoria vai passar a usar o SRT05, que possui uma aparência futurística e bastante diferente de qualquer coisa já vista no automobilismo.

Mas Di Grassi evitou falar sobre o que espera para o próximo campeonato, já que tudo está muito mais próximo e a competitividade cada vez maior. “A FE está ficando muito competitiva, muita gente investindo, muitas montadoras, vai ser cada vez mais difícil, cada vez um nível maior. E estamos nos preparando cada vez mais, pois sabemos que a competição vai ser maior”.

Mas para os brasileiros, certamente, a maior expectativa para 2018/19 é a chegada de Felipe Massa. O ex-piloto da Ferrari e Williams na F1 assinou com a Venturi para fazer sua estreia na categoria dos carros elétricos. Inclusive, já vem treinando no carro e trabalhando no simulador da equipe.

Di Grassi, a quem chamou Felipe de ‘grande amigo’, ainda ressaltou a importância e visibilidade que o competidor vai dar para a Fórmula E por ser um nome tão conhecido no meio do esporte a motor.

“O Felipe é um excelente piloto, ele ainda está em um das melhores fases da carreira, é jovem ainda, apesar de ter 20 anos de F1, só tem 37 anos, tem muitos anos bons pela frente. Ele tem muita experiência, além disso, vai agregar do lado do reconhecimento da FE no Brasil, pois ele é muito conhecido aqui, e isso é o que falta para nós aqui”.

 

“Um dos problemas, não problema, mas das coisas ruins da FE, é que a mídia brasileira ainda não se atualizou que essa nova onda elétrica vai tomar conta do mundo. O Brasil está dando uma acordada agora, uns quatro, cinco anos mais atrasado que o resto do mundo. O Felipe vai ajudar nessa transição, vai ajudar a FE no Brasil, vai ser um prazer correr novamente com ele novamente, não corro com ele desde 2010 na F1. Ele só tem o que agregar na categoria”.

Envolvido com a FE desde antes de sua estreia, Lucas já mostrou profundo interesse pelo futuro elétrico. Inclusive, contou ao GRANDE PREMIUM sobre a criação de um kart elétrico – ideia essa que chegou a falar com Massa, que hoje é presidente da comissão de kart da FIA.

“O kart elétrico é um ótimo jeito de promover o veículo elétrico, jeito de promover o esporte sustentável. O kart elétrico faz total sentido ter na Olimpíada. Inclusive, falei com o Massa sobre isso, falei que fazia total sentido, inclusive hoje eu estou fazendo um kart elétrico da mesma empresa que fez a minha bicicleta, um kart elétrico totalmente brasileiro e que vai ficar bastante interessante.”

 

Lucas Di Grassi
Audi

 

Já quando o assunto foi o incentivo do Brasil ao esporte a motor, o paulista foi bastante crítico em seu discurso. “Pelo automobilismo ser um esporte caro, reflete muito a situação econômica do país. O esporte sofre um pouco, o Brasil tem outras prioridades além de construir autódromos”, afirmou.

“Além disso, o país toma decisões absurdas na hora de destruir autódromos, como o Rio de Janeiro fez, que é um autódromo que daria para usar ainda. Se não fosse a iniciativa privada, os autódromos novos como o Velo Città, o Brasil estaria sofrendo ainda mais. Nós esperamos que Interlagos se mantenha, que essa parte da tradição que gera tanto emprego, gera tanta mídia, que gera pilotos profissionais, que isso se mantenha no futuro”.

Aproveitando o grancho de Interlagos, Di Grassi também deu sua opinião. Fortemente apoiador que o tradicional circuito paulista passe para as mãos da iniciativa privada, como já falou em diversas oportunidades, o competidor acredita que assim, e com uma grande reorganização do espaço útil do local, é possível que os lucros comecem a subir. “Eu não acredito que Interlagos vai acabar, mas acho que tem que passar para a iniciativa privada”.

“O autódromo ainda dá um lucro muito pequeno perto do potencial do autódromo inteiro. Acho que uma transferência de mãos, reorganização do autódromo, mesmo com subida de custo operacional, é melhor que a extinção do autódromo, então torço por esse cenário. Acho que dá para fazer algo interessante. Outro ponto interessante também é não olhar o autódromo como uma massa, um terreno de imóvel. Ele faz parte do legado de São Paulo, faz parte da tradição”.

“Não dá para você calcular o índice de qualidade de vida das pessoas, os empregos que pode gerar. Algo que poderia fazer era realmente acabar com o kartódromo e colocar para dentro do autódromo, e então usar a área para construir prédios, se quiserem fazer isso, com a condição da construção do kartódromo novo. Daria para fazer oficinas, galpões, nas quais montadoras teriam acesso, fazer uma série reestruturações".

"É ir para a Europa e ver quais autódromos viáveis e que geram lucro. Por exemplo, SIlverstone não dá, Hockenheim não dá, Nürburgring não dá, mas existem aqueles que tem essa capacidade de gerar eventos e retorno no investimento. Então, acredito que temos que copiar o modelo desses, trazer para o Brasil e manter o funcionamento de Interlagos".

 

 

E Di Grassi é aquele piloto que não consegue ficar parado. Além de correr simultaneamente na FE e na Stock Car, ainda participa de provas esporádicas em outras categorias, como fez na abertura da temporada da Porsche Endurance Series.

Para encerrar o bate-papo, o competidor frisou a importância de estar sempre na ativa, afinal, automobilismo é um esporte como qualquer outro.

“Na verdade, os campeonatos estão muito colados. Já estamos treinando com o novo carro da FE, já testei em abril, maio e junho. É minha escolha participar dos dois campeonatos, é importante estar sempre na ativa, é importante para o piloto, da mesma forma para qualquer esportista, para o tenista, o surfista, tem sempre que estar treinando”, encerrou