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Conta-giro

Muito além de "hoje não, hoje sim"

Este mês de maio marca a ‘maioridade’ da mais famosa narração de Fórmula 1 das transmissões brasileiras: quando Cléber Machado soltou o famoso "hoje não, hoje sim". Mas o global foi além da famosa frase, e aqui o GP* disseca tudo

Maio de 2002 – Maio de 2020. A melhor e mais famosa narração de Fórmula 1 da história da televisão brasileira completa neste mês 18 anos e alcança sua 'maioridade'.

"Hoje não, hoje não. Hoje sim… Hoje sim?"

Foi no dia 12 de maio de 18 anos atrás que Cléber Machado proferiu as célebres palavras que TRANSCENDERIAM o imaginário do fã de F1, passando a ser um bordão do dia a dia de qualquer pessoa brasileira. 

A narração do GP da Áustria de 2002 não ficou presa aos ouvidos de quem assistiu na hora, em VT, ou simplesmente gosta de automobilimo e foi atrás. Ela atraiu todo mundo com um mínimo interesse em esorte – ou mesmo sem -, tamanho seu brilhantismo e perfeição na escolha das palavras.

Para quem não lembra (ou simplesmente na obrigação jornalística de explicar tudo detalhadamente), Rubens Barrichello foi pole na Áustria e liderou de ponta a ponta. Até que, nos instantes finais, foi obrigado pela Ferrari a diminuir o ritmo e deixar Michael Schumacher passar. A manobra valeu quatro pontos a mais ao alemão – algo que não mudou a vida de ninguém -, mas queimou a escuderia italiana para todos que assistiam. Por outro lado, produziu algo incrível.

A narração de Cléber Machado.

Todos onhecem aquele trecho. Mas a maneira com que a história foi contada vai muito além – e é isso que o GP* disseca neste Conta Giro. Porque em tempos em que a TV Globo transmitia o pódio – e até mesmo a entrevista coletiva dos pilotos, tamanha a gravidade do ocorrido -, Cléber teve espaço e tempo para produzir minutos incríveis, indo da esperança ao inconformismo em questão de minutos, acompanhado por Reginaldo Leme.

Se você só conhece as palavras mais famosas, chegou a hora de conhecer tudo. Porque Cléber produziu um épico.

 

Este é o trecho famoso. Mas teve muita coisa antes – e também depois.

"Você está nervoso aí, né Reginaldo?"

Na última curva da penúltima das 71 voltas do GP da Áustria, Cléber começa a pavimentar o caminho para o ápice de pouco mais de um minuto depois. Ele levanta a bola para Reginaldo Leme, que saca na hora o que o companheiro quer e já avisa que espera que a Ferrari mande Barrichello e Schumacher chegarem próximos, mas com o brasileiro na frente: "Não há como não ficar nervoso".

"E vão para a última volta. Última volta! Rubens Barrichello vai caminhando para aquela que pode ser sua segunda vitória."

Atenção ao uso de "PODE". Experiência jornalística. Cléber sabe que não há como cravar a vitória, e deixa em aberto. Tudo pode acontecer e, se o pior vir em instantes, ninguém poderá dizer que ele 'secou'.

"Para deixar o domingo de Dia das Mães mais colorido, mais bonito, mais festejado, tendo esse toque de vitória esportiva no domingo."

Cléber ainda adiciona o tempero de que se tratava de um dia especial não só esportivamente, mas porque logo após a prova os brasileiros iriam se juntar e celebrar o triunfo junto às mães. Soube aliar o que estava acompanhando com o que seu público aguardava para logo depois.

 

"No meio da rua o pessoal ainda grita quando me vê: "Hoje, não! Hoje, sim!" 

18 anos depois, ele ainda é reconhecido por aquele momento. Ou seja, transcende, de fato, a F1.

"É bacana, foi uma coisa que saiu naturalmente, eu acho bem legal", disse Cléber Machado ao GP em 2019, no GP do Brasil. 

 

(Cléber Machado, Globo, Divulgação)

"Para a Dona Ideli, a mãe do Barrichello. Dona Ideli feliz da vida vendo o filho ganhar a segunda."

Aqui começa a se ganhar contornos angustiantes. Porque, ao se citar a mãe do piloto brasileiro, o telespectador já sente aquele toque pessoal na narração, partindo para o emocionante. Ou seja: quando tudo der errado, esse trecho se torna ainda mais doloroso.

"Vai ter música de vitória? A Ferrari não vai atrapalhar o nosso domingo?"

Cléber sabe demais: ele precisava construir uma narrativo que misturasse triunfo e dor, para que ao final seu público estivesse preparado para ambas as situações. Ao mesmo tempo, já constrói toda a culpa para a Ferrari – merecidamente, claro.

Em seguida ele passa a ficha de Barrichello, que não vencia desde o GP da Alemanha de 2000. Mas, logo depois, comete um deslize. É pequeno, é discreto… Mas "grave":

"Das 14 mães que foram para a corrida, a Dona Ideli não foi. Ele não está aí perto para comemorar essa que vai ser a vitória."

É, não foi a vitória. Quase Cléber sai ileso, mas é fácil entender: foi logo antes da últiam curva. Parecia que a Ferrari não estragaria tudo. Não havia tempo…

Rubens Barrichello e Michael Schumacher no pódio do GP da Áustria de 2002 (Rubens Barrichello sendo abraçado por Michael Schumacher no pódio do GP da Áustria de 2002 (Foto: Bridgestone))

Porém havia tempo. Pouco, mas havia.

"Vem Barrichello. Encosta o Schumacher. Eles vão para a última curva. Foi na última curva do ano passado."

Um ano antes, o GP da Áustria já havia visto Barrichello ceder a posição para Schumaher no mesmo lugar (a segunda posição. O vencedor foi David Coulthard). Pode ser menos lembrado na atualidade, mas Cléber foi preparado para isso e fez a comparação. 

Que acabaria sendo perfeita.

Afinal, as próximas palavras foram: "Hoje não, hoje não! Hoje sim… hoje sim?"

 

"É inacreditável."

E aí começa a revolta – e a parte mais legal, porque revoltas saem sempre do fundo do coração.

"Olha, é inacreditável".

Não há palavras que descrevam melhor.

"Se eu tivesse apostado todo meu dinheiro, eu teria perdido."

Todos nós.

"Não havia nenhuma necessidade da Ferrari fazer isso."

Verdade.

"No último metro."

Análise.

"O Schumacher não vai comemorar a vitória, né Schumacher?"

E não comemorou mesmo. Cléber 100%.

 

"Aquele dia chocou a mim tanto quanto a qualquer outra pessoa. Cleber, Reginaldo, vocês viram de perto a minha indignação."

Em entrevista ao podcast 'Hoje sim', do Globo Esporte, Barrichello conversou com Cléber sobre a narração e o momento. E mostrou que a indignação com o ocorrido não era exclusividade do narrador, como mostrou nas palavras ditas no ar.

 

(Rubens Barrichello e Michael Schumahcer, Áustria-2002, Jean Pierre Müller/AFP)

"O mundo inteiro vai criticar a decisão da Ferrario O Michael Schumacher não precisa disso. Está com tudo para ser pentacampeão do mundo. É só para criar um clima dentro da equipe não é possível."

Cléber novamente levanta a bola para Reginaldo Leme, que em vez de cortar, levanta de volta, mostrando entrosamento: "O Schumacher não dveria nem aceitar."

"Pois é!", exclama Cléber.

Após os comentários de Reginaldo, incluindo até um "a torcida da Ferrari deveria se retirar do autódromo", o narrador volta:

"Dá uma ouvida. Vê se você já ouviu ago assim em autódromo."

As vaias tomam o áudio da transmissão por segundos.

"Não precisa dizer mais nada, né?"

Cléber sabe que poderia encerrar ali. Mas auge é auge, e ele seguiu porque, simplesmente, estava 'on fire', como dizem por aí. Pegando fogo. A chance de errar era zero.

 

"É isso mesmo. É vergonhoso", concorda Cléber, quando Reginaldo diz que aquilo há pouco visto jamais seria esquecido. Mal sabia ele que sua narração estaria na mesma.

Em seguida ele fala sobre como a Ferrari é como "um time de futebol", afinal tem torcida na "Alemanha, na Malásia, no Brasil."

A partir daí surgem as especulações: Schumacher poderia ter dito não para a ordem da Ferrari? Cléber não tem dúvida.

"Também tem essa! O Schumacher tem uma moral dentro da equipe que seria fácil dizer 'não, ganha o Rubinho'".

E um dos auges da narração vêm:

"Eu perdi sozinho essa", comenta, relembrando o que está escrito lá em cima. O unico deslize de sua narraão é aquele da última curva. E, dois minutos depis, ele já sabe disso.

 

 

"Olha a cara do Ralf!"

Se as imagens da época fossem em HD, Ralf Schumacher seria meme até hoje com a careta que faz para o irmão Michael quando este desce do carro após a vitória.

A cena pode não ser tão conhecida quanto deveria, mas Cléber Machado percebe na hora e pausa por segundos depois de exclamar.

E volta quente:

"É a imagem mais frustrante do esporte."

 

(Ralf Schumacher)

O narrador volta com todo o discurso sobre ética no esporte, sobre como torcedores vão às pistas para ver o melhor vencer, tirando o imponderável". Que os fãs que então vaiavam queriam ver o talento predominar.

"Gritam o nome do Barrichello e vaiam a Ferrari!"

E aí Ralf Schumacher vira assunto novamente. Cléber foi sagaz: sabia que aquela careta era um resumo de tudo que estava acontecendo.

"Viu a cara do Ralf Schumacher? A cara do Ralf Schumacher… Que não gosta do Barrichello, que não se dá com o Barrichelo e é IRMÃO DO SCHUMACHER!"

É na hora da revolta que as maiores percepções saem do âmago.

 

 

Neste ínterim, os pilotos chegam ao pódio. E assim que eles pisam na área de premiação, Cléber começa:

"O gande vencedor deste domingo é Rubens Barrichello! Quem ganhou a corrida foi o Rubens Barrichello! A grande derrotada do domingo é a Ferrari!"

E o tom sobe, as palavras tremem, quando Schumacher coloca o brasileiro no lugar mais alto do pódio:

"Olha, o Barrichello quer… Ó o Schumacher! O Schumacher bota o Barrichello no… No primeiro lugar do pódio! Vamos ouvir o hino nacional…"

"Da Alemanha".

Esse "da Alemanha" é no exato tom do primeiro "hoje sim…". O tom da decepção, dor, angústia. 

(é uma prévia de Galvão Bueno no 7 a 1 de 2014, também)

 

A narração completa está disponível neste link. 

Ao final do hino alemão, Cléber comenta sobre como era visível que Barrichello estava querendo chorar mais ali do que na vitória de dois anos antes, e também que Schumacher não queria estar ali. 

"Não é possível."

Reginaldo, inclusive, ignora o hino italiano, e fala em cima. Quase que como em provocação à própria Ferrari.

Os personagens principais se encontram no palco do drama (Rubens Barrichello e Michael Schumacher fizeram 24 dobradinhas como companheiros de equipe na Ferrari (Foto: Bridgestone))

A Globo segue com a transmissão mesmo ao final do pódio, algo imprensável nos dias de hoje, e Schumacher entrega o troféu para Rubinho: 

"E ele tá dando o troféu de primeiro colocado para o Barrichello. E o Barrichello está mostrando uma maturidade, um espírito de equipe, que poucos atleta teriam!"

Cléber, porém, aposta em seguida em algo arriscado, que é dizer que Schumacher não concordou com o que a Ferrari fez. Porém, o alemão foi lá e passou o brasileiro na pista. Então fica difícil concordar.

A partir daí, a narração foca nas críticas à postura da Ferrari. O que é um acerto. 

"Não há mais o que dizer", resume Reginaldo Leme. 

Porém, mesmo assim, 18 anos depois continuamos dizendo tudo que é possível sobre aquela narração. Merecidamente.

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