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Nada é capaz de pará-la

Nathelie McGloin é a primeira mulher com deficiência a ser pilota e é presidente da Comissão de Mobilidade e Deficiência da FIA. Apaixonada por velocidade, adora provar que pode ser e fazer o que bem entender

A pilota Nathalie McGloin (Foto: Divulgação)

Superar obstáculos e quebrar paradigmas sempre fizeram parte da vida de Nathalie McGloin. Nascida no Reino Unido e com 37 anos, é uma pilota que decidiu que não seria impedida de fazer o que ama por conta de um acidente em que quebrou o pescoço.

Tetraplégica e em uma cadeira de rodas, muitos podem olhar e pensar que aquela mulher ali sentada jamais poderia competir em alto nível contra homens sem qualquer deficiência. Ainda bem que nunca se conteve em viver sob as impressões que tinham de si, tratando de brigar para provar que todos estão errados.

O automobilismo entrou em sua vida por acaso, mas hoje se tornou o motivo de sua alegria diária e a principal plataforma para mostrar que pessoas com deficiência podem fazer e ser quem quiserem.  Para entender melhor, o GRANDE PREMIUM conversou com a pilota.

McGloin em ação com sua Porsche (Foto: Divulgação)

O começo no automobilismo

O interesse de Nathalie pelo esporte a motor tardou a aparecer. Enquanto pilotos começam suas carreiras no kart quando jovens, McGloin foi tomar gosto pelo negócio com quase 30 anos e após ir assistir suas primeiras corridas de Fórmula 1.

“Comecei em track days com meu carro de passeio no fim dos meus 20 anos. Se tornou um hobby que passei a amar e comecei a trocar meus carros por carros com mais potência para pistas, ganhando assim mais experiência. O amor pela velocidade e os circuitos me interessaram de uma maneira profissional e comecei a ir a final de semana de GP em Silverstone como espectadora”, explica ao GP*

“Após minha primeira corrida em Silverstone, comecei a seguir a F1 na TV. Nos anos seguintes, fui para Abu Dhabi e Spa e amei estar perto da ação na pista. Por mais que gostasse de assistir corridas, sentia que precisava estar mais envolvida, então, comecei a buscar para tirar minha licença de pilota”, continua.

E como foi a porta de entrada no sporte a motor? “Em 2015, tirei minha licença após mais ou menos seis anos de track days em meu carro. Comecei a correr no Campeonato Porsche Club, no Reino Unido, pilotando uma Porsche Cayman S. Ainda corro com esse carro hoje em dia”, fala.

A mudança da vida

Aos 16 anos, Nathalie viveu um episódio que mudou o rumo de sua vida. Em um passeio com seus amigos, entrou no banco de trás do carro. Então, durante a reunião, o colega que estava no volante precisou fazer uma manobra violenta para desviar de um carro que havia virado na frente deles. No final, acabaram se chocando contra uma árvore e apesar de ter ficado consciente durante todo o tempo, não se lembra de nada do acidente, onde acabou com o pescoço fraturado.

Nathalie chegou a entregar o troféu para Räikkönen no GP da Inglaterra (Foto: LAT Images)

Obviamente que um episódio desses impacta sua vida, mas como? “Tinha apenas 16 anos quando me lesionei, então, acho que ainda estava desenvolvendo minha visão de vida. Estava determinada em não deixar minha lesão afetar meu futuro imediato. Planejava ir para a universidade antes do acidente, isso se tornou meu primeiro objetivo depois que recebi alta. Uma vez que consegui boas notas e fui para a universidade, vi isso como um novo começo para mim já que ninguém me conhecia antes do acidente”, conta.

“Não que fosse uma pessoa diferente após meu acidente, mas muitas pessoas em minha cidade natal começaram a me tratar diferente. Na universidade, todos sempre me trataram apenas como Nathalie e fui capaz de reconstruir minha vida. Acho que minha visão da vida a partir desse ponto foi que só se tem uma vida, viva da melhor maneira que puder. Também comecei a assumir alguns riscos e aposto que isso foi o que me atraiu para o esporte a motor”, continua.

O acidente danificou as vertebras C6 e C7, deixando a competidora paralisada do peito para baixo e internada por quase um ano. Entretanto, apesar do acontecido, voltou para dentro do carro, agora como pilota. Mas não havia nenhum receio quanto a isso? “Quebrei meu pescoço em um acidente de trânsito e o que faço na pista são duas completamente diferentes. Nunca sofri com isso quando considerei começar a correr. Não tinha carteira de motorista quando sofri o acidente, era passageira. Acho que isso faz a diferença quando penso sobre isso. Não ter controle como passageira a ter alto nível de refinado controle como pilota faz isso não ser um problema para mim.”

A vida atrás do volante

Determinada em não se deixar abater pelo acidente, Nathalie foi atrás daquilo que a fazia feliz. Depois de perceber que poderia ser pilota mesmo com as limitações, foi atrás de todos os trâmites para, finalmente, alinhar para sua primeira corrida da vida, no circuito de Brands Hatch, na Inglaterra. O ano era 2015 e ali ela fazia história como a primeira mulher com deficiência a disputar uma prova.

“Estava tão nervosa antes da minha primeira corrida. Quase capotei meu carro na [curva] Paddock Hill Bend, em Brands Hatch, durante o teste no dia anterior e esse foi meu maior erro que havia tido até o momento em um circuito. Minha confiança foi destruída e fiquei com medo de que havia esquecido como se pilota”, conta.

“Mas assim que as luzes se apagaram, realmente aproveitei correr e consegui recuperar sete posições na corrida. Olhando para trás, essa corrida marcou um ponto no tempo quando fiz as pazes com minha lesão. 16 anos após ter quebrado meu pescoço em um carro de corrida para agora estar próxima de correr contra homens sem lesões, de repente acreditei que tudo era possível”, continua ao GP*.

A pilota com o troféu após sua primeira vitória (Foto: Divulgação)

A primeira vitória veio alguns anos depois, em 2018. A corrida aconteceu no circuito nacional de Silverstone a bordo do Porsche Cayman S. “Minha primeira vitória foi incrível, estava tão feliz em cruzar aquela linha de chegada em primeiro. Acho que qualquer piloto vai dizer que o primeiro triunfo é sempre muito especial e é difícil colocar esses sentimentos em palavras”, diz.

“O problema com a vitória é que é um sentimento excelente que quer a cada corrida. Isso me leva a ser melhor, mais rápida e mais forte para conseguir mais sucessos no futuro. Espero que minha próxima vitória esteja perto”, emenda.

Para conseguir disputar, é preciso que o carro seja modificado, algo que McGloin explica ao GP*. “Como minhas pernas não funcionam de nenhuma maneira, minha pilotagem é feita toda com as mãos. Tenho uma alavanca do lado direito do volante que controla o freio e o acelerador. Empurro para frear e abaixo para acelerar. Todo o controle é feito apenas com minha mão esquerda. O carro tem duas embreagens automáticas e que troca para mim. Fora isso, é como qualquer outro carro.”

E como enxerga o esporte para as mulheres? “Mulheres no esporte a motor estão fazendo grande progresso em termos de ficaram mais visíveis. As mulheres sempre tiveram a habilidade de competir no mesmo nível que homens, o problema foi e ainda é que não há mulheres suficientes correndo. Coisas como a W Series dão uma ótima plataforma para ótimas mulheres mostrarem ao mundo que o esporte a motor é um esporte misto”, fala.

“Essas mulheres estão tendo muito sucesso fora da W Series em diversas categorias independentemente de serem mulheres. Quanto mais vemos mulheres competindo na mídia, mais mulheres e jovens garotas vão ter a ambição de fazer o mesmo. Não vejo problema em campeonatos totalmente femininos para dar publicidade contanto que segregação não seja um objetivo a longo prazo”, segue.

A competidora também aproveitou para responder se já sofreu qualquer tipo de preconceito ou tratamento diferente por conta de sua deficiência ou pelo fato de ser mulher. “Essa vai ser uma resposta realmente curta! Não, nunca, e sou realmente grata por isso.”

Usando o esporte para mudar o mundo – ou um pedaço dele

Hoje, Nathalie assumiu o papel de presidente da Comissão de Deficiência e Acessibilidade da FIA que “é responsável pela criação da legislação mundial em volta do automobilismo e mobilidade para pessoas com deficiência. Nossa missão é tornar o esporte mais acessível sem comprometer a segurança. Nos primeiros dois anos após a inauguração, o trabalho tem se focou em tornar o esporte a motor mais acessível para aqueles que competem. Entretanto, neste ano, está começando a focar em outros aspectos do esporte onde pessoas com deficiência estão pouco representadas”, aponta.

Nathalie McGloin (Foto: Divulgação)

“No Dia Internacional de Pessoas com Deficiência em 2020, a FIA anunciou duas iniciativas para pessoas com deficiência no automobilismo. A primeira é uma bolsa que vai dar a oportunidade para jovens com deficiência um estágio na FIA com os engenheiros ou setor administrativo da Comissão, tanto nas áreas de esporte e mobilidade. Como organização, a FIA reconhece que as oportunidades em todos os aspectos do automobilismo são limitadas para aqueles que têm requisitos específicos de acesso por conta de uma deficiência. Portanto, o papel vai ser preenchido para trabalhar tanto nos escritórios em Geneva ou remotamente em seus países. Os interessados precisar ter que apresenta problemas de mobilidade para serem considerados”, destaca.

“A Comissão quer mostrar o apoio para aqueles que estão criando iniciativas sustentáveis ou programas que contribuem para aumentar as oportunidades de participação no automobilismo para pessoas com deficiência. Portanto, a segunda medida que anunciamos foi o Prêmio Disability Sport Action FIA [Prêmio de Ação no Esporte de Deficiência, em tradução], que reconhecerá empresas, organizações ou indivíduos que estão promovendo ou facilitando a participação de pessoas com deficiência em qualquer aspecto do automobilismo. Os critérios para as nomeações incluirão qualquer iniciativa criada para aumentar a participação, conscientização ou produtos desenvolvidos especificamente para o automobilismo com deficiência. O prêmio será entregue durante a Entrega de Prêmios FIA no final de cada ano”, emenda.

Nathalie ao lado de Jean Todt (Foto: Reprodução)

A inglesa aproveitou para dizer também como ela se sente sendo a primeira mulher tetraplégica a correr e se espera ser uma inspiração para outras mulheres e pessoas em situações semelhantes a sua. “Ser a primeira mulher a fazer alguma coisa é sempre muito legal. Sempre escolhe viver minha vida de forma diferente, nunca fui alguém que segue os outros. Particularmente após minha lesão, sempre quis desafiar os pré-conceitos que as pessoas tinham sobre mim como mulher com deficiência. Se alguém diz que não podia fazer algo, sempre tento fazer para provar que estão errados. Nunca se deve subestimar uma pessoa independente de sua situação”, fala.

“Espero que com minha visibilidade no mundo do automobilismo e nas comunidades de pessoas com deficiências, possa ajudar a mostrar a outras mulheres tetraplégicas que podem ser o que quiserem. Precisamos de mais mulheres com deficiência envolvidas com o automobilismo, em qualquer aspecto, não apenas pilotando. Esse esporte é para todos, homens, mulheres, com deficiência ou não, não importa. Encorajaria qualquer um a se envolver no esporte, foi a melhor coisa que fiz na vida”, segue.

No automobilismo, exemplos não faltam de pilotos que sofreram acidentes praticando o esporte e tiveram suas carreiras e vidas mudadas. Alguns desses nomes podem ser Alex Zanardi, Robert Kubica, Robert Wickens e Billy Monger, com a pilota apontando a importância desses competidores virem cada vez mais à público para prestar um serviço para a comunidade de pessoas com deficiência.

“Não acho que devemos ter vergonha de falar sobre pilotos que sofreram lesões que mudaram suas vidas no esporte a motor. Acidentes acontecem no automobilismo, mas como essas pessoas conseguem se recuperar que é o importante. Automobilismo é o único esporte no mundo e que pode competir um piloto sem deficiência e um piloto deficient na mesma corrida ao mesmo tempo. Não há nenhum outro esporte no mundo em que você está competindo, sofre um acidente e volta como um piloto deficient e compete no mesmo nível”, pontua.

“Isso é único em nosso esporte e algo que devemos comemorar. Pilotos com essas lesões, que falam sobre elas e sobre a recuperação de forma aberta na mídia, ajudam muito a comunidade a ver que a recuperação mental é quase tão importante quanto a física. Ter um esporte que dá a essas pessoas as mesmas oportunidades que pessoas sem deficiências, oferece esperança ao redor do mundo que, no futuro, possamos todos ser iguais”, diz.

Por fim, Nathalie contou qual sonho ainda nutre no esporte a motor. “Adoraria correr no rali. Adoro derrapar nas pedras e correr no asfalto, então, rali combinaria minhas duas paixões. Também gostaria de correr uma prova de 24 horas em um país quente, algo como Abu Dhabi ou Dubai seria perfeito. Tenho planos para correr em um time no ano que vem que pode tornar esse sonho realidade”, encerra. Com tudo o que já conquistou, não é absurdo pensar que consegue mais isso.

Nathalie McGloin (Foto: Reprodução)

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