Novo país, novo futuro (Uus riik, uus tulevik)

Quando olhamos para as categorias formadoras de pilotos, percebemos um país em ascensão. Com Ralf Aron e Jüri Vips, a Estônia parece capaz de deixar de ser apenas um lugar exótico para traçar o mesmo caminho da Finlândia nas pistas

Vitor Fazio, de Berlim

Reino Unido, Alemanha, Brasil, Espanha, França, Austrália, Itália. Quando um piloto qualquer da Fórmula 1 vem à cabeça, provavelmente trata-se de alguém vindo desses países. Salvo mudanças sutis aqui e ali, o automobilismo desenvolveu um status-quo em termos de países protagonistas. Uma mudança aqui e ali acontece, mas nada tão surpreendente assim. Ou ao menos até agora: a Estônia, país de 1,3 milhão de habitantes, surge como novo player na luta por espaço ao sol no automobilismo.

O caminho é árduo e, até aqui, incipiente. Nos monopostos, são dois pilotos com maior destaque: Ralf Aron, na F3 Europeia desde 2016, e Jüri Vips, que alcançou tal certame em 2018. O resultado final na temporada passada, aliás, foi marcante: Vips foi terceiro e Aron foi sexto no campeonato vencido por Mick Schumacher. Para um país que até três décadas atrás nem existia, certamente não é fazer feio. As limitações históricas dão as mãos às estruturais, como a falta de autódromo ou mesmo de dinheiro, e impõe um desafio dos maiores a qualquer estoniano que queira desbravar as pistas. Mesmo assim, certamente não insuperável.

Jüri, que fez a estreia na F3 Europeia em 2018, serve como exemplo. Nascido na capital Tallinn, de meros 440 mil habitantes, não é o que poderia se chamar de heroi óbvio nas categorias formadoras de pilotos. Além do desfavorecimento de nascer em uma região sem presença forte do automobilismo, o piloto de 18 anos ainda lidou com perrengues financeiros.

“Nem sabia se tinha condições de ser competitivo ou não, já que não tinha dinheiro para testar”, recorda Vips. “O ano estava começando e eu não sabia se teria condições de fazer a temporada inteira. Em termos de quilometragem, estava para trás. Apesar disso, acho que tudo correu muito bem. Estive lá no topo, na briga pelo campeonato, e acho que ainda posso alcançar mais. Cometi erros e perdi pontos por coisas de novato. Eu poderia ter liderado o campeonato, na verdade. Superei minhas expectativas na temporada [de 2018]”, define.

Vips tem bons motivos para ficar feliz com o andar da temporada 2018. Tendo como principal credencial o título da F4 Alemã em 2017, o piloto de 18 anos levou quatro vitórias rumo ao quarto lugar na classificação final, 24 pontos atrás do badalado companheiro Dan Ticktum. Não foi possível acompanhar Schumacher, mas foi um ano que abriu portas. O estoniano foi confirmado como reforço no programa de jovens pilotos da Red Bull – mesmo status de Ticktum – e vai disputar a nova F3, chancelada pela FIA, como nome de maior peso da Hitech.

"A equipe me impressionou muito até aqui e eu realmente gosto do jeito que eles trabalham. A FIA F3 vai ser um campeonato muito competitivo nesse ano e vai ser difícil vencer. Mesmo assim, é bom ver como todos estão motivados para alcançar esse objetivo em comum que temos”, segue.

Os passos incomuns de Vips também são vistos na jornada de Aron. Ao contrário de países estabelecidos do esporte a motor, em que a imagem de um ídolo nacional pode servir de motivação, os estonianos têm até aqui como atrativo essencialmente o interesse por carros ou motos.

"Sempre amei tudo que anda rápido e que traz adrenalina", relata Aron. "Acho que isso faz parte da família, porque uma das primeiras memórias que eu tenho é da minha avó me dando uma carona na moto dela. Velocidade e motores são coisas que sempre nos aproximaram e cumprer um papel importante na família", comenta.

“Eu era louco por motos, mas elas eram perigosas demais. Foi aí que meu pai me colocou em um kart. Comecei quando tinha 6 anos. Andei de kart no nível nacional até meus 14 anos, e aí fui correr ao redor da Europa por alguns anos. Em 2014 eu queria estar em uma equipe de ponta de kart na Europa e brigar por campeonatos. Não tinha levado o automobilismo a sério, a ponto de querer ser profissional, até 2015. A questão é que tudo era tão caro [no kart], e ainda tínhamos propostas de equipes de monopostos”, segue.

 

Enquanto a inspiração de Aron foi o motociclismo, a de Vips foi familiar. “Meu irmão alugava karts para andar, era um hobby. Um dia, quando eu tinha 6 ou 7 anos, ele me levou junto. Comecei a ir cada vez mais, e tudo progrediu a partir daí. Competi na Estônia e depois na Europa quando tinha 13, já que os campeonatos da Estônia não eram tão competitivos”, avalia.

Os dois trilharam o caminho da F4 sem maiores problemas. Aron venceu a F4 Italiana em 2015, enquanto Vips levaria a Alemã em 2017. Ralf não empolgou tanto na F3 Europeia, mas conseguiu a primeira vitória de alto nível do país nos monopostos: foi na corrida 1 da rodada tripla de Hungaroring de 2016. O problema é que, mesmo levando mais quatro triunfos na sequência de três anos no certame, Ralf não aparenta ser capaz de chamar o mesmo tipo de atenção que o compatriota Jüri. Prova disso é que, apesar de ter a F2 como passo natural na carreira, o piloto de 21 anos ainda não tem planos concretos para a temporada 2019.

Vips, talvez por conseguir emplacar quatro vitórias logo na primeira oportunidade na F3 Europeia, tem um caminho mais claro pela frente. O contrato com a Red Bull, apesar de trazer pressão maior, abre um vínculo direto com a F1 e garante suporte no médio prazo. Por mais que nenhum dos dois estonianos possa ser considerado piloto ruim, fica a sensação de que Jüri é a grande aposta para os países Bálticos alcançarem o grid da principal categoria do automobilismo pela primeira vez na história.

Jüri Vips venceu a F4 Alemã e já venceu corridas na F3 Europeia
Jüri Vips/Divulgação

Raskusi Läänemeres

Competir em alto nível é um problema para pilotos de qualquer lugar do mundo. O automobilismo, com o passar dos anos, passou a ser um esporte elitista e que privilegia os mais abastados. Isso é um problema normal em qualquer lugar, tanto para quem quer competir na Inglaterra quanto para quem quer competir no Japão. Mesmo assim, é preciso lembrar que o buraco da Estônia é mais fundo.

Não que a Estônia seja um país pobre – o país é 40º no rankeamento de PIB per capita das Nações Unidas, tranquilamente acima da média mundial. A questão é que é simplesmente difícil começar a competir em um país que quase não tem autódromos. O Auto24ring, em Papsaare, é o único circuito permanente.

De resto, qualquer outra aventura automotiva se destina aos carros de rali: o Rali Estônia acontece anualmente desde 2010 e recebeu etapa do Europeu de Rali entre 2014 e 2016. Mesmo sem fazer parte do calendário de nenhum campeonato na atualidade, ainda é um evento teste importante para equipes do Mundial. Ott Tänak é, com sobras, a grande estrela do país no esporte a motor: com sete vitórias no WRC, Ott foi duas vezes terceiro colocado na classificação final e ganhou até um documentário – ‘Ott Tänak – The Movie’ tem lançamento marcado para 11 de abril. E isso já traz um questionamento: como imaginar um piloto de monoposto recebendo o mesmo nível de atenção?

O foco no rali não é por acaso. A Estônia tem muito em comum com a Finlândia, país que, apesar do sucesso nos monopostos, sempre teve como paixão principal o off-road. Os dois países tem grande vínculo cultural, tanto que até os hinos usam a mesma melodia – o que pode causar uma situação estranha caso um estoniano vença um GP de F1 no futuro. Se os finlandeses não parecem tão comprometidos com a necessidade de correr no asfalto, situação que se explica pelas condições climáticas, como esperar que os estonianos façam o mesmo?

 

Minevik ja olevik

A história serve como explicação para o florescer tardio da Estônia no automobilismo. Enquanto o fascínio pelos carros de corrida se alastrava pela Europa ocidental no começo do Século XX, o país báltico nem sequer existia: até 1917, a região fazia parte do Império Russo. A independência veio no Entreguerras, mas foi breve: em 1940, no contexto da Segunda Guerra Mundial e do tratado de não agressão entre Alemanha e União Soviética, o ainda jovem país caiu nas mãos de Josef Stalin.

Foi só em 1991, com a dissolução da União Soviética, que a Estônia voltou a ser plenamente autônoma. No período de 51 anos em que fez parte do mundo soviético, o país báltico não teve condições de praticar o esporte a motor da mesma forma que o mundo ocidental. O atraso teve consequência óbvias: mesmo independente, não havia como os estonianos virarem protagonistas de uma hora para outra. E não só pela falta de tradição: o colapso da União Soviética significou crise econômica e uma região empobrecida.

Foi só em anos recentes que as ex-repúblicas soviéticas começaram a crescer no automobilismo, mas ainda de forma muito lenta e com a Rússia como protagonista única. Vitaly Petrov foi, em 2010, o primeiro piloto originário de um país ex-URSS a competir na F1, abrindo uma porta importante. Das outras 14 ex-repúblicas soviéticas, nenhuma repetiu tal feito até aqui. A Estônia até já havia chegado perto antes, com Marko Asmer correndo na GP2 em 2018, mas sem qualquer sucesso. De qualquer forma, o tempo passa as chances de sucesso da Estônia servem como alento para as demais.

 

Järgmised aastad

É claro que dizer que a Estônia vai virar a Finlândia no automobilismo ainda é uma afirmação cheia de otimismo. O país escandinavo tem presença consolidada na F1 desde a década de 1980 – quando o vizinho báltico nem sequer era independente – e trouxe títulos com três pilotos diferentes.

Mesmo assim, é tudo questão de perspectiva. Para quem não tinha nada, ter ao menos um pouco já significa muito. Os dois pilotos a nível de F3 da atualidade representam isso. Paul Aron, irmão mais novo de Ralf, já representa a geração que vem depois: aos 14 anos, o kartista venceu campeonatos europeus e já parece destinado aos monopostos no futuro próximo. Com mais de uma geração no forno, a Estônia parece capaz de conseguir algo até mais importante do que ter um ou outro piloto: ser capaz de consolidar o país no mapa do automobilismo, buscando efeitos de longo prazo. E, depois desse começo, como dizer que é impossível?