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O perigo do virtual é real para a mente dos pilotos

Atletas que cobram alta performance em casa ou nas pistas de Fórmula 1 podem desenvolver uma série de transtornos psicológicos ao tentar compensar a falta de atividades dentro do carro com horas a fio em equipados simuladores de corrida

Tão certo quanto o novo coronavírus não se importa com o histórico de atleta, são os simuladores de corridas, esses sim, praticados cada vez mais por atletas em tempos de pandemia e isolamento social. A falta de provas reais faz pilotos recorrerem ao virtual para se manter ativos, mas é daí que surge a preocupação com a saúde mental de quem se cobra em alta performance em casa ou em uma pista de Fórmula 1.

O ponto de largada para o assunto foi deixado nas entrelinhas por Helmut Marko, em geral, não lá muito preocupado com o bem-estar dos seus pilotos. Além das conhecidas e polêmicas trocas de pilotos promovidas ao curso da temporada, o consultor da Red Bull chegou a sugerir uma ‘casa da covid-19’, com seus atletas morando lá para que desenvolvessem anticorpos para a doença. Ideias parecidas já haviam sido vetadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Outro tema, no entanto, chamou ainda mais a atenção. O chefão da Red Bull relatou ao jornal austríaco Krone, em março, que Max Verstappen, seu principal piloto, estava verdadeiramente aterrorizado, com medo de se infectar. Competitivo, o holandês não aderiu ao campeonato de eSports organizado pela própria F1 por não se sentir familiarizado com o game utilizado na competição. No entanto, todos os dias é possível vê-lo em ação em outras corridas virtuais, inclusive, com transmissões ao vivo, fazendo-o com que passe muito mais tempo diante das telas do que nas pistas de verdade.

“Ele [Verstappen] me disse por telefone que estava aterrorizado, com medo de se infectar. O melhor seria que ele se infectasse agora por que com 22 anos você não faz parte de nenhum grupo de risco. Depois que o vírus passar, ele seria imune e poderia empreender seu caminho rumo ao título da F1”, aventou Marko.

Sem poder sequer frequentar uma academia, atletas de maneira geral conseguiram levar equipamentos ou improvisar exercícios e atividades em casa mesmo. Trabalhos específicos com preparadores físicos também são feitos, com atenção para os grupos musculares mais exigidos durante uma corrida como no caso dos pilotos. Nesse momento então, com dias muito parecidos e à espera da retomada das atividades normais, que transtornos mentais podem aparecer. Medos, ansiedades, pesadelos e quadros depressivos são recorrentes em momentos de incerteza ou vulnerabilidade.

A psicóloga Cristiana Renner, da Clínica Arthur Guerra, alerta justamente para que “atletas mantenham ou comecem a ter cuidado com a saúde mental” e, em hipótese alguma, esse treinamento pode ser minimizado.
(Reprodução/Instagram/@LandoNorris)

F1 realizou até agora três corridas virtuais em seu game oficial, na versão 2019, com pilotos e convidados (Divulgação/Fórmula 1)

“Nesse momento de quarentena, atletas entram em quase que uma obsessão, com receio de que se não fizerem a parte deles, ficarão para trás porque outros estarão fazendo. O pensamento é como se outros atletas estivessem treinando mais e passando mais tempo no simulador. Esse atleta precisa prestar a atenção para não colocar as habilidades dele no uso da tecnologia ainda que esteja querendo simular atenção, concentração, habilidade de movimentos e tudo mais”, disse a doutora em ciências.

Além da própria resiliência para se manter otimista em tempos de uma situação extrema, filmes, séries, biografias e demais temas relacionados diretamente ao trabalho são bem-vindos desde que respeitados horários e limites. No caso dos pilotos, de nada vale trocar uma madrugada no simulador por exigidas boas horas de sono para recuperação do corpo e da mente. Isso sem falar no risco da dependência dos games.

Thabata Telles, presidente a Abrapesp (Associação Brasileira de Psicologia do Esporte), que lançou inclusive uma campanha para ações nos impactos psicológicos pela covid-19 no meio esportivo, reforça que o conhecimento é a base de tudo também para os atletas. Mais do que isso, a saúde mental pode ser a diferença entre estar ou não no pódio ao final da corrida.

Charles Leclerc, da Ferrari, venceu as duas últimas provas da competição organizada pela própria F1 (Reprodução/Instagram/@Charles_Leclerc)

“Um simulador, por melhor que seja, não tem o barulho, o cheiro do asfalto e, principalmente, o medo por perto. Claro que se consegue simular bastante, mas é necessário um profundo acompanhamento profissional”, afirmou Thabata. “Algo que sempre recomendo aos atletas é o ‘diário de treino’. Nele você tem um lugar para registrar o que foi bom ou ruim, o que deve ser refeito ou aperfeiçoado, o que não foi legal. O interessante é trabalhar a parte física com a mental sempre”.

Por conta dos impactos do coronavírus, a F1, que chegou a se reunir em Melbourne para a abertura da temporada, teve os GPs da Austrália e de Mônaco cancelados. As provas no Bahrein, Vietnã, China, Holanda, Espanha, Azerbaijão e Canadá foram — ao menos por enquanto — adiadas. O campeonato, então, começaria só em 28 de junho, com o GP da França.

Enquanto aguardam definição, grandes nomes do automobilismo e convidados atuam no campeonato virtual promovido pela F1, sob o game oficial em sua versão 2019 para computadores, desenvolvido pela Codemasters. Diferentemente do modo analógico dos videogames mais comuns, os simuladores podem contar com pressão nos pedais de aceleração e freio e exigir força bem parecida com a real para virar o volante por exemplo. Na competição, os carros têm desempenhos iguais, além de freios ABS e controle de tração opcionais. Guanyu Zhou venceu no Bahrein e Charles Leclerc levou a melhor nas corridas seguintes, na Austrália e na China. Lando Norris, aficionado por simuladores, foi o único piloto da atual F1 que esteve nas três provas.

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