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Os 7 anos que mudaram tudo

Paisagem linda com toques mortais, um local incomum, isolado e uma geração que crescia em devoção à velocidade. Quase perdidas na história, as Pebble Beach Road Races são parte importante da formação do esporte a motor pós-Guerra

Imagine uma corrida recém-criada que forma os maiores nomes de uma geração enquanto desfila em ambiente bucólico, arborizado, sob o ensolarado céu que banha o mar logo ao lado. Imagina uma corrida que enche as ruas onde é disputada, atrai estrelas de cinema, torna-se o centro de um movimento de popularização de uma forma de velocidade diferente daquela tradicional por aquelas bandas. Imagina que essa corrida capturou cabeça, alma e coração de toda uma geração de pilotos, mecânicos e aficionados. Agora imagine que tudo isso aconteceu num espaço de sete anos. Velocidade, beleza, perigo e glamour entralaçaram os braços sete décadas atrás para criar um clássico: as Pebble Beach Road Races.

No mesmo 1950 em que a Fórmula 1 tomou corpo e passou a existir em sua forma moderna, o movimento do outro lado do Oceano Atlântico, nos Estados Unidos, era diferente. Na realidade, nem era, assim, no Atlântico. Era do outro lado do país, nas beiradas do Pacífico. Na Costa Dourada da Califórnia eclodia um movimento de carros esportivos, protótipos e afins. Tratava-se de uma novidade, mas que encantava toda uma geração que passara a ter acesso aos modelos que circulavam nas pistas e ruas europeias ainda durante a guerra. Significava muito ter aquelas máquinas arrojadas, mas era necessário ter onde colocá-las a latir. 

O movimento iniciou e cresceu nos arredores de Los Angeles durante o fim dos anos 1940, mas o estado da Califórnia é grande. Era preciso algo mais ao norte, onde o dinheiro corria com tremenda liberdade e os competidores em potencial cresciam a olhos vistos. A recém-formada SCCA (Sports Car Club of America) também começou a investigar o que poderia ser a resposta. “Esse evento poderia facilmente ser um evento nacional um dia”, dizia o então piloto Sterling Edwards em carta enviada em fevereiro de 1950 com a tentativa de receber permissão para ir adiante com o plano que encabeçou de correr em Pebble Beach. A carta foi desvendada no documentário ‘Racing Through the Forest (2015)’. Edwards trabalhou ao lado da família Morse, que detinha boa parte das terras da Floresta de Del Monte, em Pebble Beach. Pensavam ser uma boa ideia para vender o local, para o qual tinham interesses imobiliários. 

O traçado original da corrida, em 1950 (O traçado de 1950 (Foto: Pebble Beach))

“É difícil ranquear as corridas por ordem de importância, mas eu diria que as corridas de Pebble Beach tiveram um papel enorme na popularização das corridas de protótipos nesta parte da Califórnia nos anos 1950”, disse Jim Turley, jornalista autointitulado “nerd profissional”, ao GRANDE PREMIUM. Turley é especializado em tecnologia, mas é também um aficionado por automobilismo e piloto amador que chegou a competir na F-Ford dos Estados Unidos no começo dos anos 2000.

“Naquela época, as corridas eram eventos amadores organizados por algum clube local, normalmente em estradas públicas ou pista de pouso e decolagens da Segunda Guerra. Cada um tinha seu próprio estilo local. As pessoas viajavam uma ou duas horas para assistir uma corrida, mas não mais que isso, não seis horas. Então, cada local tinha suas próprias corridas. São Francisco está a mais ou menos duas horas de Pebble Beach, enquanto Los Angeles está a umas seis horas, então fazia sentido ter uma corrida local aqui em vez de ter de viajar até lá”, afirmou.

Pebble Beach é uma comunidade costeira residencial da Classe A, conta com famosos hotéis luxuosos e campos de golfe que recebem personalidades conhecidas durante o ano. É um dos locais com maior renda per capta dos Estados Unidos e é administrado quase que como uma vizinhança privativa. É uma aldeia de sonhos, praticamente, e na época estava em vias de ser propagandeada como tal. As corridas ajudariam.

Por se tratar de um local reservado deste naipe, as corridas não atrairiam tanta gente quanto aquelas que podiam ser marcadas para vias mais populares em cidades mais povoadas, como Los Angeles, mas o pouco espaço e o cenário bucólico, aliados à participação da alta sociedade ajudaria as corridas na Floresta de Del Monte a fazer sucesso. Era a aposta e com isso em mente seguiram adiante. 

O evento saiu, após muita força da SCCA e interferências positivas de figura das forças armadas que haviam se encantado, tal qual a geração de soldados enviados para a guerra, com os carros esportivos com os quais se depararam no Velho Continente. 

Após muito deliberar, a permissão dos órgãos públicos condizentes veio para que o evento fosse realizado em maio. Mais precisamente na sexta-feira, 5 de novembro de 1950: apenas seis meses depois de, em 13 de maio, em Silverstone, na Inglaterra, Giuseppe Farina, a bordo de uma Alfa Romeo, vencer o primeiro GP da história do Mundial de Fórmula 1. A velocidade começava a ganhar diferentes trejeitos pelo mundo após os horrores da guerra que sufocara o esporte, o bom senso e a vida cotidiana por tanto tempo.

Com o nome de Pebble Beach Road Race, o evento principal em Del Monte era o que chamava a atenção, mas não era o único. Além dele, outras três corridas menores foram realizadas naquele dia, tal qual o Pebble Beach Concours d’Elegance. Quase uma competição de glamour, o Concours d’Elegance recebia carros antigos, clássicos de alguma sorte, que seriam julgados com base em alguns quesitos, como autenticidade, história e estilo, por exemplo. Oficialmente um evento de caridade, mas na realidade era o momento da alta sociedade californiana competir na sofisticação. A caridade era um detalhe, como na maioria dos eventos deste feitio.

A verdade é que os dois eventos não tinham muito a ver. Quem ia a Pebble Beach correr, queria sentir o cheiro de gasolina e ver novos modelos dos carros atuais. Por mais que a alta sociedade do rico condado de Monterey quisesse esbanjar, o fio condutor e razão de ser do evento eram as corridas, que passariam rapidamente a ser parte central do fenômeno cultural dos carros esportivos. 

“Os carros esportivos foram muito importantes nos anos 1950. Muitos soldados americanos voltaram da Europa após a Segunda Guerra e estavam animados com os pequenos carros esportivos que tinham visto por lá, queriam importar um para ter em casa. Carros americanos eram grandes e pesados naquela época, enquanto os europeus eram pequenos, leves e rápidos. Feras bastante diferentes”, lembrou Turley.

“Muitos americanos compraram carros MG, Triumph, Fiat, Ferrari, Jaguar, Porsche ou qualquer um outro com qual poderiam se divertir. A economia dos Estados Unidos ia bem no período, então muitos homens jovens tinham dinheiro para gastar em carros. Em comparação a lutar numa guerra, carros de corrida pareciam relativamente seguros!”, recordou.

As classes que corriam durante o dia, fora o evento principal, eram separadas por peso e tamanho dos carros. Mas não houve uma multidão para colocar as importadas máquinas europeias a rugir na pista. Carros americanos estavam representados também, por meio do Ford de Sterling Edwards – um modelo pessoal, bastante modificado -, um Mercury de Jim Seeley e um Crosley de Henry Manney. Mas os ingleses Allard, Frazer Nash e principalmente MG e Jaguar eram mesmo quem davam as cartas. Fazia sentido que a MG tivesse mais carros que qualquer outra montadora, já que o responsável pelas importações desde a Europa, Kjell Qvale, havia se colocado na linha de frente no trabalho de organização de diversas corridas daquele período, entre elas a protagonista desta matéria. Após 25 voltas pelo adorável cenário, 44min08s800 e 70,811 km depois completados a uma média de 98 km/h, a vitória ficou com Phil Hill num Jaguar XK120 M.
(O pôster da prova de 1950 (Foto: Acervo Art Evans))

Bill Pollack, 1951 (Bill Pollock em 1951 (Foto: Don Palmer/Tamsoldcarsite.net))

A pista, por si só, era uma coisa. Não apenas contava com árvores bem junto ao acostamento da estrada transformada em pista, mas nem sequer era completamente asfaltada: Certos trechos entre as ruas Drake Road e Forest Lake contavam com solo de terra batida e cascalhos. Entre sobes e desces e a velocidade em pista estreita, quase uma sandice se imaginada 70 anos mais tarde. Aquele traçado receberia uma alteração para 1951, aumentando a pista de 2,8 km para 3,3 km de extensão.

Os tempos eram tremendamente distintos do que as últimas gerações se acostumaram a lidar. Os pilotos eram, praticamente em sua totalidade, amadores. Alguns, é verdade, recebiam um carro de algum mecenas para vencer as corridas, mas é algo completamente fora da realidade do profissionalismo que se estabeleceria décadas mais tarde. Os pilotos tinham certo grau de cavalheirismo uns com os outros não apenas pelo amor ao esporte e às máquinas, mas porque o amor ao esporte e às máquinas transformava os habitantes do universo velocidade em membros de um clube. Um clube restrito e orgulhoso, tão particular quanto aquelas propriedades ao redor da floresta, mas muito mais caloroso com os que postulavam aderir ao movimento e com aqueles que, de fato, ingressavam. Os carros eram cada vez mais populares, as adesões não paravam. 

A corrida principal estava bastante diferente em 1951. Não apenas porque a pista estabelecia uma competição mais diferente e a organização aumentou a duração da prova. Um total de 48 voltas e 162 km para quem quisesse vencer. O sucesso de 1950 foi de tão forma retumbante que a palavra foi espalhada junto aos outros membros do clube restrito da velocidade. Ao todo, 46 pilotos se inscreveram para a segunda edição, que fazia também parte do campeonato da SCCA. Destes, dois não compareceram e dez não se classificaram para a largada. Novas montadoras também apontavam no horizonte de Pebble Beach, caso da Ferrari, da Singer, Cannon e Alfa Romeo, essa última nas mãos do vencedor vigente Hill. No Allard J2 Cadillac de Tom Carstens, dono da máquina inscrita, Bill Pollack levou a vitória.

“A primeira vez que eu ia guiar aquele carro, sentei no banco e o velocímetro, o tacômetro e o medidor de óleo estavam todos cobertos com uma fita adesiva. Virei para o [Tom] Carstens e perguntei o que era isso. Ele respondeu que meu trabalho não era olhar para os instrumentos: era olhar para a pista. Carstens queria ter certeza de que eu estava prestando atenção, e estava certo. Deus te abençoe, Tom, obrigado”, disse Pollack no documentário ‘Racing Through the Forest’. Outros tempos, com certeza. Pollack, veterano de Segunda Guerra e um dos maiores pilotos desta geração, morreu em 2017, aos 92 anos de idade.

As Pebble Beach Road Races e a bandeirada de Al Torres (Pebble Beach Road Races (Foto: Elad Shraga/The Revs Institute))

Os vitoriosos se repetiriam nos anos seguintes, com Pollack e o Allard de Carstens vencendo em 1952 e Hill, agora no modelo 250 MM Vignale Spyder Series I da Ferrari que tantas glórias daria nos anos seguintes, em 1953 – e de maneira marcante, na chuva, com domínio notável. Hill engatinhava na Ferrari, mas o fenômeno em Del Monte começava a avisar que havia perigo na esquina. Os carros, antes importados e que contavam com a obrigação de ter assento de passageiro e pneu reserva, começaram a se transformar. 

A era das modificações e dos modelos construídos quase que do zero passaram a tomar conta, e os motores ficavam cada vez mais potentes. Os MG de 1950 já não apareciam mais, ao passo que os carros da Jaguar eram cada vez mais deixados para trás. A Allard, mais potente daquele princípio, resistia, mas agora tinha de lidar com diferentes Ferrari, além de Aston Martin, modelos especiais da Chrysler. Sterling Edwards venceria a prova principal de 1954 a bordo da Ferrari 340 MM que recém-comprara para completar uma volta de 1.000 milhas ao redor da Itália como presente de casamento a ele mesmo.

Em contraste com as corridas em aeroportos ou em cidades, o cenário de Pebble Beach seguia irresistível demais para ignorar, com toda aquela beleza aliada à velocidade mortal. É claro que Hollywood não deixaria passar em branco. Ginger Rogers, atriz vencedora do Oscar e reconhecidamente um dos maiores ícones da Era de Ouro hollywoodyana, lá comparecia quando namorava Jim Kimberly, piloto e mais tarde presidente da SCCA.

“Kimberly estava em ação em Pebble Beach, com sua Barchetta, até que rodou com o carro na 27ª volta. A batida não resultou em lesão [e o piloto ainda] saiu ajudado por um beijo de Ginger Rogers. Foi um clássico momento de Kimberly que a mídia adorava. Ele vendeu a Barchetta naquele ano [1952], mas seria para sempre lembrado como o primeiro homem a trazer uma Ferrari de corrida para o oeste”, escreveu em artigo de 2013 na revista ‘Forza Mag’ William Edgar, jornalista e filho de John Edgar, um dos donos de carros que participava dos eventos todos os anos. 70 anos depois, é tolice imaginar que um relacionamento entre piloto amador e estrela de cinema ajudaria a popularizar um evento assim, mas o mundo era diferente. A atenção desprendida a Kimberly, um dos poucos nomes que embarcaram da Costa Leste do país rumo ao estado da Califórnia para participar do evento, assinalou mais uma vez que era quente.

Em 1954, o filme ‘The Fast and the Furious’ – não confundir com a franquia que surgiria quase 50 anos depois – utilizou a fotogênica paisagem para cenas de perseguição. A qualidade pode ser discutida, mas a película marcava a estreia da nova produtora American International Pictures (AIP), uma das pioneiras do cinema americano em buscar produtos primordialmente de interesse de adolescentes e jovens adultos. A AIP funcionou por quase 30 anos e pisou em diferentes gêneros ao longo das décadas. Clássicos underground como ‘Foxy Brown (1974)’ e ‘Mad Max (1980)’ estão na conta da produtora que deu sua partida em meio aos pinheiros.

O cinema descobrira a velocidade. A década de 1950 ainda veria ‘Johnny Dark’, com Tony Curtis, e arrumaria o caminho para ‘Le Mans’, na década seguinte.
(Ginger Rogers e Jim Kimberly (Foto: Reprodução/Pinterest))

De volta à floresta, a Ferrari não voltaria a perder. Hill mudou o modelo, comprou uma Ferrari 750 Monza e venceu em 1955. Edwards, também com a 750 Monza, ficou em segundo e Ken Miles, por melhor e mais rápido que fosse – e era -, só conseguia levar seu MG Special ao terceiro lugar e uma volta atrás. Miles, sem muito de onde tirar dinheiro, era o único que ainda insistia nos MG em 1955 e rendia bem. Ainda conseguia vencer algumas das provas auxiliares do fim de semana.

Se a primeira edição da corrida fora em novembro, marcada um tanto quanto às pressas, o evento de Pebble Beach passou a maio em 1951 e para abril no restante dos anos. O dia 22 de abril de 1956 marcou o suspiro final das corridas da floresta. O evento estava recheado de participante para a prova principal e para as três auxiliares.

Dale Johnson, com um Porsche 356 Carrera Speedster, venceu na Classe de Carros de Produção sob 1.500cc; nos Carros de Produção acima de 1.500 cc, Tony Settember levou um Mercedes 300 SL à vitória; nos Carros Modificados sob 1.500cc, Jack McAfee e um Porsche 550 Spyder assumiram a liderança e partiram para a bandeirada após a quebra no motor da Ferrari OSCA 1.500 guiado por Ernie McAfee – os dois, apesar do sobrenome, não eram parentes.

O evento principal teve um novo vencedor. Quem é que falta nessa história do cenário dos Estados Unidos dos anos 1950? Claro que Carroll Shelby. E a vitória veio com a mesma Ferrari Monza que Hill levara ao júbilo no ano anterior e vendera para Dick Hall nos meses seguintes (foto ao lado).

O próprio Hill, com uma nova 860 Monza, ficaria em segundo, com Jack McAfee em terceiro. Mas a tragédia atacara, e a atmosfera era sombria. A corrida teve de ser interrompida e reiniciada. Shelby venceu após o reinício, mas o ambiente era taciturno.
(Carroll Shelby, 1956 (Foto: Don Palmer/tamsoldracecarsite.net))

Ernie McAfee e a Ferrari #276 momentos antes do acidente fatal (Ernie McAfee momentos antes do acidente fatal em Pebble Beach (Foto: Reprodução/Twitter))

Como muitos daqueles velozes pilotos de fim de semana, Hill, Shelby e Miles entre eles, Ernie McAfee era um mecânico primordialmente. Entretanto, naqueles meados dos anos 1950, resolvera apostar na carreira de piloto. Apoiado por William Doheny, recebeu uma Ferrari 121 LM para a corrida principal. O carro era bom e permitia briga pelas primeiras colocações, até que na volta 17 de 48, teve problemas na entrada de uma curva. Na tentativa de resolver, o carro chicoteou e acabou direto numa árvore. Ernie McAfee morreu no mesmo dia, aos 35 anos. Foi o fim para as Pebble Beach Road Races como originalmente concebidas, consideradas perigosas demais.

Além da beleza e da situação reservada do local, é inegável que o perigo daquela pista era parte daquilo que criava um quê de sonhos para as estradas de Del Monte.

“Aquela pista era absolutamente perigosa. Mas isso era normal nos anos 1950. De maneira alguma permitiriam correr em algum lugar assim hoje em dia. É estreita demais e tem muitas árvores. É assustador até para dirigir um carro normal”, disse Turley ao GP*.

“Olhando da perspectiva de um piloto, porém, impressiona que alguém tenha tentado [correr] aqui. Eu não iria querer disputar roda com roda com alguém nestas ruas estreitas. Talvez com uma bicicleta, mas não com um carro de corrida. É estreito demais e as árvores estão logo na beira da estrada, não existe área de escape, bancos de areia e nenhuma medida segurança a não ser alguns fardos de feno. Parece estreito demais para ultrapassar outro carro. É de um bom tamanho para karts, não protótipos”, avaliou.

Com o respeito, a importância e o tamanho que as corridas de Pebble Beach haviam tomado, uma solução tinha de ser encontrada – e o dinheiro aplicado naquele evento, aquele todo que vinha dos bolsos da família Morse. Um novo clube foi formado, o SCRAMP – Sports Car Racing at the Monterey Peninsula – e, em parceria com o Exército dos Estados Unidos, descolou um pedaço de terreno que as forças armadas tinham perto dali. 

Em alguns meses estava construído o autódromo de Laguna Seca, que fica a menos de 10 km da Floresta de Del Monte. Sem a floresta, as corridas em Monterey podem até ter perdido no glamour, mas acabaram levando o mundo ao condado, por meio de algumas das maiores categorias do esporte a motor internacional.

De acordo com Turley, é a própria pista de Laguna Seca a que mais se assemelha ao que havia em Pebble Beach naquele começo dos anos 1950. “Creio que algumas pistas ‘reais’ têm similaridades com Pebble Beach se você pensar em algo muito mais comprido e sem as árvores. A comparação óbvia é Laguna Seca, que é a pista construída para substituir Pebble Beach. Também tem curvas apertadas e seções de subida e descida. Até o cenário é parecido, mas com mais asfalto e sem as árvores nas beiradas. Acho que Laguna Seca é o mais próximo que dá para chegar de Pebble Beach nos anos 1950”.

As Pebble Beach Road Races seguiriam por mais um ano, em 1957, mas já realizadas na nova pista. A Floresta de Del Monte jamais voltaria a receber uma corrida de automóveis. O único vestígio do evento que sobreviveu ao tempo foi, claro, o Concours D’Elegance, que segue firme a cada mês de agosto. 

As corridas em Del Monte nunca foram as que mais contavam com carros e competidores, mas conseguiram levar os melhores e fazer com que aquele movimento capturasse a imaginação de uma geração. A evolução da potência dos carros fez com que aqueles pilotos que ali estavam pegassem a mão do que acontecia na Europa. E, é claro, houve quem decidisse ir para lá.

Figuras como Bill Pollack e Jack McAfee ficaram nos Estados Unidos, mas outros tentaram o sucesso pela Europa. Pete Lovely, Lance Reventlow, o terceiro colocado do Mundial de F1 em 1963 Richie Ginther e, claro, Ken Miles e Carroll Shelby são bons exemplos. Mas ninguém representou tão bem aquelas aventuras quanto Phil Hill. De carros ingleses para a Ferrari com que ganharia o mundo, Hill passou de dominante localmente a alguém que tinha contas a acertar com os rivais do outro lado das águas.
(Laguna Seca)

Phil Hill em Pebble Beach (Phil Hill em 1956 (Foto: Don Palmer/Tamsoldcarsite.net))

Ao lado do belga Olivier Gendebien e a bordo de uma 250 TR, seria o primeiro piloto dos Estados Unidos a vencer as 24 Horas de Le Mans, em 1958. O sucesso se repetiria nas temporadas 1961 e 1962, novamente ao lado de Gendebien e com diferentes modelos de um Cavallino Rampante que dialogava com ele como com poucos outros. Hill participou das 24 Horas de Le Mans em 14 edições, era um dos parceiros mais requisitados do circuito. Contou com companheiros como Peter Collins, Wolfang von Trips, Bruce McLaren e Chris Amon. Todos queriam tê-lo ao lado na busca pela glória de La Sarthe. 

A Fórmula 1 era um caminho natural no fim dos anos 1950. Em 1958, largou para duas provas com um Maserati de Jo Bonnier, mas a grande oportunidade viria de mais um desastre. Quando exatamente Peter Collins morreu num acidente no GP da Alemanha daquele ano, a Ferrari correu para encontrar alguém que pudesse representar a marca. E quem melhor do que um piloto que já vencia de tudo com vestido de vermelho? Hill terminou o ano como piloto oficial de Maranello e seguiu para 1959. Quando venceu o GP da Itália de 1960, quebrou novo tabu: o primeiro estadunidense a vencer um Grand Prix – Indy 500 à parte – desde Jimmy Murphy, no GP da França de 1921. Era o primeiro na ‘Era F1’. Seria também pioneiro ao se tornar campeão mundial, em 1961. É até hoje, 60 anos depois, o único piloto nascido nos Estados Unidos a ser campeão da F1 – Mario Andretti é americano naturalizado.

Entre meados dos anos 1950 e 1960, Hill venceu de tudo. Além de Pebble Beach, Le Mans e F1, ganhou as 12 Horas de Sebring, os 1.000 kms de Buenos Aires e Nürburgring, todas múltiplas vezes. Ganhou o Targa Florio, Road America 500, os 500 km de Brands Hatch. 

No dia seguinte de sua morte, aos 81 anos de idade, em 2008, o jornal americano ‘The New York Times’ trouxe um obituário que contava com uma declaração de John Lamm, editor para a revista ‘Road & Track’, para a qual Hill escreveu artigos ao longo dos anos. “O mais incrível é que tenha guiado numa época em que as pessoas estavam morrendo à esquerda e à direita, mas a única lesão que ele sofreu foi na corrida Pan-Americana. Estava saindo do carro e cortou a mão”.

A história negligencia Hill. Talvez a personalidade low-profile de quem morreu na mesma casa em que foi criado, em Salinas, na Califórnia, tenha algo a ver com isso. Ou talvez, ao menos nos Estados Unidos, tenha a ver com o fato de jamais ter corrido as 500 Milhas de Indianápolis. Vai saber… O que se sabe, sim, é que Hill foi grandíssimo entre os maiores.

(Phil Hill no caminho do título mundial de F1 de 1961)

Esquina de Sombria Lane com Drake Road, partes do antigo traçado que seguem de pé em 2020 (Sombria Lane com Drake Road, uma das curvas do antigo traçado (Foto: Reprodução/Google Maps))

Já Pebble Beach continuou por lá. Como sempre se tratou de um distrito privado, o tempo afetou as antigas rotas, ainda que a maior parte ainda resista. No começo dos anos 2000, houve um projeto para novos campos de golfe que destruiriam enorme parte do que um dia foi o lar das corridas em Monterey. É aí que Jim Turley entra na história. O jornalista resolveu começar um site, naquele período mais inocente da internet, tentando movimentar os aficionados para que, ao menos, dessem adeus e conhecessem a história. Turley recorda, entretanto, que não houve grande revolta quanto à possibilidade.

“Não teve repercussão negativa ou revolta, só alguns caras velhos (como eu) se sentindo tristes com a possibilidade de ver as estradas destruídas e um campo de golfe no lugar, mas não chegou a haver qualquer oposição oficial. Nenhum protesto, nenhuma carta para jornal, nada assim. Só algumas caras tristes na mesa do bar”, recordou.

Para a sorte da memória do esporte a motor, o projeto não foi adiante. Quem quiser conhecer as estradas em que os barulhentos carros esportivos dos anos 1950 fizeram ferver o sangue de toda uma geração, ainda é possível.

“Hoje a estrada é muito linda e pitoresca. Sempre foi. É uma estrada campestre bastante quieta, não é uma pista para corridas. Há muitas e muitas árvores, algumas casas escondidas atrás das árvores… É uma coleção de estradas residenciais normais com algumas curvas fechadas nas intersecções e trechos sinuosos. Nada é realmente reto. Definitivamente, a intenção jamais foi fazer uma pista de corrida de carros, mas deve ter sido divertido naquela época”, comentou.

“Diria que 90 a 95% da pista original ainda está lá atualmente, mas um pedaço curto da antiga estrada está atrás de uma cerca, é propriedade privada. Outro trecho da estrada foi redesenhado e, agora, uma parte da estrada antiga está embaixo da casa de alguém. Mas ainda é possível dirigir por uns 90% da rota das antigas corridas e andar por mais ou menos 95%. Houve o plano para escavar mais da estrada velha e construir um novo campo de golfe no lugar, mas nunca aconteceu”, continuou.

O GRANDE PREMIUM questionou, claro, como é para um fã e alguém que se importa de tal forma com a história das corridas locais como é passar pelas bandas marcadas na memória.

“É muito divertido dirigir e andar na pista antiga. Como eu disse, são somente ruas residenciais com algumas casas, então não tem nada de notável. Se você não conhecer a história, pensa que é uma vizinhança normal, embora cara. Não existe placa ou qualquer indicação em lugar algum de que costumavam organizar corridas por lá, mas se você tiver um mapa ou conhecer a história, pode seguir quase que toda a rota antiga. É uma área muito prazerosa com árvores altas, pelicanos e névoa matinal. Pebble Beach é um lugar muito caro para morar, então as casas são bem legais. É uma cidade bastante quieta e reservada, não há lojas, semáforos, calçadas, quase nenhum barulho. Os locais chamam de Floresta Del Monte e, de forma geral, parece mesmo um parque ou uma pequena floresta. A quietude de hoje é um contraste com os barulhos que as corridas deviam gerar”, imaginou.

E como Hollywood ainda não caiu em cima de uma história destas, com a ensolarada Califórnia como pano de fundo para jovens desafiando o perigo e a morte, carros mais velozes do que as estradas podiam receber e americanos que sairiam dali para se tornarem nomes históricos do esporte mais deslumbrante que existe? “Boa pergunta! Existem muito poucos filmes bons de corrida. De alguma maneira Hollywood sempre faz um trabalho terrível com as corridas. É uma pena”, encerrou Turley.

O cipreste solitário, símbolo de Pebble Beach (O cipreste solitário de Pebble Beach (Foto: Reprodução))

É curioso pensar que uma geração inteira correu para a Califórnia à procura de pepitas de ouro, a partir de 1848 – deixando um genocídio indígena no caminho -, e um século depois a única corrida era pela linha de chegada. A geração que nasceu nas pistas californianas e brilhou nas entranhas da Floresta de Del Monte, nas estreitas ruas onde a luz do sol caía caprichosamente pelas frestas abertas entre as copas das árvores, saiu rumo a mostrar aos europeus que também podia correr com eles. Que a história de um esporte de estrondos possa ter sido escrita com tanto esmero num local em que todas as propriedades estabelecidas nos dias atuais contam com alguns milhões de dólares em valor para chamar de seu, não é menos que extraordinário.

E por um momento é até possível esquecer o golfe de Bing Crosby, o paraíso particular de Clint Eastwood e o coração de uma das estações mais libidinosas de luxo que o dinheiro é capaz de arrematar. É possível lembrar que num curto ensejo da história, num momento guardado e que hoje sequer conta com memoriais, placas ou estátuas, alguns irresponsáveis resolveram mostrar na terra do cipreste solitário que sabiam acelerar carros de corrida. Ainda bem.

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