Porta aberta em boa companhia: Bia conhece Daytona

As 24 Horas de Daytona de 2019 apresentaram duas experiências novas para Bia Figueiredo: a estreia no endurance internacional e a primeira vez em uma equipe inteiramente formada por pilotas mulheres. Bia conversou com o GRANDE PREMIUM sobre a experiência

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

O ano começou diferente para Bia Figueiredo. Com sua carreira importante no kart, vice-campeã da Indy Lights e com Indy e Stock Car no currículo, entre outras coisas, faltava uma prova de longa duração internacional. E, para abrir 2019, apareceu uma oportunidade que facilmente pode ser caracterizada como especial: participar das 24 Horas de Daytona. Mais do que isso, participar das 24 Horas de Daytona numa equipe inteiramente formada por pilotas. Foi o que aconteceu há duas semanas e que mostrou que Bia está pronta para voltar a competir em âmbito internacional.

Bia recebeu a chance de fazer parte do projeto ousado idealizado por Jackie Heinricher, alguém de outra área, onde, aliás, também é vista como revolucionária. Biocientista reconhecida no ramo ambiental e fundadora da companhia Booshoot, da qual é diretora-executiva, Jackie resolveu ingressar no desafio de se tornar também pilota profissional. "Ela é muito vitoriosa por fazer esse projeto acontecer e muito corajosa, imagina começar a correr aos 50 anos de idade sem ter experiência. É muito admirável o que ela tem conseguido fazer", elogiou Bia ao GRANDE PREMIUM.

As titulares para a temporada do SportsCar no carro #57, na classe GTD, são Jackie e Katherine Legge, velha conhecida tanto do endurance quanto dos monopostos. Mas a equipe foi aumentada para Daytona. As ex-Indy Bia e Simona de Silvestro foram convidadas inicialmente. De última hora, Heinricher não conseguiu se recuperar de uma lesão nas costas e ainda chamou a também consagrada Christina Nielsen para substituí-la.

Sem jamais ter participado de uma corrida no endurance internacional, Bia adicionou uma nova experiência ao currículo. "Foi minha primeira corrida de endurance internacional. Tinha participado só da final da Porsche Cup, de cinco horas, mas 24 horas é bem diferente. O evento todo é muito grandioso, além de contar com as companheiras mulheres, que foi muito diferente para mim. Mas foi muito surpreendente e positivo.”

O quarteto andou forte. Liderou no Roar Before 24, prévia que define a ordem dos boxes na semana da prova - com tempo de Bia, inclusive. As condições mudaram para o classificatório, assim como o resultado: o 11º lugar entre os 23 inscritos na classe mais cheia para a prova.

"Nós fomos muito bem no Roar e depois acabamos dando uma piorara na performance para a classificação por causa de uma mudança de pista. Choveu muito e estava muito calor no dia da classificação, bem diferente do Roar, e a gente não conseguiu tirar o mesmo desempenho do carro. Então, não consegui virar nem próximo do tempo do Roar - que provavelmente daria o quarto tempo", lembrou.

O #57
IMSA

 

"Foi um pouco decepcionante, mas numa corrida de 24 horas não fazia grande diferença. Voltamos a trabalhar no desempenho do carro para a corrida e conseguimos fazer com que voltasse ao esperado. Mas foi positivo (liderar o Roar), porque tem sempre aqueles questionamentos naturais de uma equipe feminina. Foi bem positivo para tirar um pouco daquela pressão e mostrar que a gente estava ali para vencer a corrida, fazer pódio.

O #57 chegou a aparecer entre os primeiros colocados na corrida: esteve em posição de pódio e brigou por ele durante longas horas. As chances de vencer a corrida ou ao menos subir ao pódio, entretanto, acabaram em meio à forte chuva que acometeu a pista da Flórida no fim de semana. O cenário caótico de corrida numa absoluta tormenta fez vítimas. Legge foi uma delas. O gostinho, no fim das contas, acaba sendo amargo.

"Nós estávamos bem. A corrida às vezes se direciona para coisas diferentes. Com entradas do safety-car nós fomos ajudados, depois muito prejudicados, ganhamos e retomamos voltas, sempre naquela briga. Mas chegamos a andar em terceiro, quarto, quinto e mostramos a condição de brigar pelo pódio", apontou.

 

No meio de uma absoluta tormenta
IMSA

"Fica um gosto amargo porque a gente pretendia se manter ali e até subir mais um pouco. Mas as condições foram difíceis para todo mundo, virou um pouco de loteria e nosso carro aquaplanou enquanto estava com a Katherine na reta oposta, tocou o muro e acabamos ficando dez minutos nos boxes para consertar. Voltamos, terminamos, mas ficou um gostinho de quero mais", admitiu.

Na prática, Daytona viu muito menos que 24 horas de carros acelerando na pista. A tempestade obrigou que a bandeira vermelha fosse chamada algumas vezes e tirasse horas da decisão. Inclusive as últimas duas horas. Apesar de privarem os fãs de um final explosivo, Bia acredita que a decisão foi a correta, apesar dos desejos dos espectadores.

"[Corrida nessas condições] vira uma loteria para os pilotos: pode ser que a gente consiga consertar o carro, pode ser que bata. E a gente vê isso na pista. Entendo que como evento é ruim ficar em bandeira vermelha o tempo inteiro. Eles fizeram o melhor possível para tentar agradar a todos - acho que a própria Rolex - patrocinadora-máster da prova - fez uma votação no Twitter: você gostaria que a prova parasse com essa chuva ou não. E os fãs querem bandeira verde, querem ver o pau comer. Faz parte do show, não deixa de ser um show", opinou.

Mesmo com a boa atuação com o Acura NSX GT3 #57, o quarteto viu a classificação final sacrificada após o acidente: 13ª colocação na GTD, 33ª no geral. O que não quer dizer de forma alguma que a equipe tenha desapontado ou tido qualquer problema interno causado pela batida impulsionada pela chuva. Além de um ótimo ambiente entre todas elas, Legge, única que tinha conhecimento profundo do carro, ainda serviu como uma espécie de professora para as companheiras.

"Tínhamos o mesmo foco: vencer a corrida juntas. Principalmente a Katherine, que tem mais experiência com o carro e a corrida, precisou se doar bastante para direcionar a mim, a Simona e a Christina - que já tinha corrido em Daytona, mas não conhecia bem o carro", contou.

Além de tudo, ainda passaram por uma experiência totalmente diferente daquelas que já viveram no esporte - mesmo que todas as quatro sejam profissionais de longas carreiras no esporte: puderam trocar figurinhas sobre como é ser uma mulher num esporte ainda tão fechado como o automobilismo.

"O entrosamento foi ótimo dentro do ambiente de corrida, sempre focado em performance, e divertido fora, por sermos mulheres que tiveram carreiras importantes e vieram de lugares diferentes. A gente nunca tinha aberto algumas experiências para as outras, e foi bem engraçada essa parte do extra-pista", revelou.
Bia Figueiredo

 

A resposta de Bia pelo trabalho realizado nos Estados Unidos foi positiva. Tão positiva que ela vai voltar: a participação de Bia na temporada do SportsCar está fechada para as etapas mais longas. Sempre, claro, ao lado de Heinricher e Legge.

"O feedback foi muito bom. Pelo menos da minha parte, com a equipe, a Katherine... A ideia é ter a Katherine e a Jackie como titulares até o fim do ano - a Jackie ainda passa por uma fase de aprendizado, não é tão simples. Ainda não sabemos se esse ano ela vai conseguir chegar à velocidade ideal. Tem as provas de endurance que eu devo fazer junto com elas: Sebring, Watkins Glen e Petit Le Mans", abriu.

"Se a equipe precisar de mim, estarei à disposição para as provas que não baterem com a Stock Car, mas isso tudo vai depender se a Jackie vai estar apta a correr ou não", afirmou.

No cômputo geral, a participação elogiada fez muito bem para a moral de Bia após alguns anos difíceis na Stock Car. E, aparentemente, suscitou um novo interesse pelas corridas de longa duração.

"Foi incrível pela oportunidade, grandiosidade do programa e pelo que ainda pode crescer. Também por ter me sentido muito bem com o carro, ter andado muito bem", falou.

"Tenho minhas dificuldades na Stock Car, então ter a possibilidade de fazer melhor tempo e brigar por vitória foi muito bom para a Bia, internamente, como confiança de piloto. Além de voltar a correr nos Estados Unidos, o que é positivo, e de uma forma muito profissional. Estou muito feliz pelo meu desempenho e tudo que aconteceu. Tenho esperança de novas oportunidades de correr lá", avaliou.

 

Oportunidade em Le Mans? O interesse existe, mas apenas se a Heinricher Racing conseguir descolar uma vaga para disputar a prova em 2019. “É um assunto crítico porque todas as equipes do mundo querem correr Le Mans, então não é algo muito comentado para nós. Depende dessa fase de patrocinador e se a vaga vai estar aberta ou não.”

W SERIES

Com uma carreira sólida e parte de uma equipe com outras pilotas de histórias reconhecidas, Bia não se opõe à W Series, categoria totalmente feminina e que ainda divide opiniões mundo afora. Para ela, a questão é simples: qualquer argumento que seja capaz de aumentar o número de pilotas com oportunidades é válido.

“A W Series é uma iniciativa para incentivar meninas no automobilismo. Fizeram um estudo que mostra que as meninas andam muito bem no kart, andam até a F3 e param. A ideia é dar um destaque para essa campeã da W Series para que ela possa chegar à F1 e a Indy”, explicou. 

Bia Figueiredo em Daytona
IMSA

 

“Eu consegui isso por outros meios, correndo com homens, mas entendo que é uma dificuldade, sim, e entendo que qualquer iniciativa é muito positiva. Precisamos de mais mulheres correndo para que tenhamos mais chances de chegar a uma grande categoria. É diferente, eu, a Simona e a Katherine somos veteranas, já chegamos onde queríamos. Continuamos em categorias top: eu estou no Brasil, a Simona está na Austrália e a Katherine nos Estados Unidos, seja com turismo ou endurance. As duas maneiras incentivam mulheres no automobilismo, e isso que importa”, finalizou.

Aos quase 34 anos de idade, está longe de diminuir ritmo. Muito pelo contrário. Com mais uma temporada de Stock Car pela frente, ainda aumenta os compromissos internacionais e busca o espaço nas corridas de longas durações. Vai ser um ano para assistir Bia em muitas pistas pelo mundo.