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Protesto solitário

Único preto no paddock da MotoGP, Francis Bradfield assumiu sozinho a responsabilidade de levar o debate antirracista para dentro do Mundial

Francis Bradfielf (Foto: Václav Duška Jr.)

O incomodo som do silêncio ecoa no paddock da MotoGP. Enquanto a Fórmula 1 optou por dar espaço para protestos antirracistas, o principal dos campeonatos promovidos pela FIM (Federação Internacional de Motociclismo) se limitou a fazer uma postagem nas redes sociais. Desde o início da temporada, não houve um ato conjunto sequer para que as estrelas da categoria se colocassem do lado certo da história e aderissem às manifestações que clamam por igualdade racial.

Diferente da MotoGP, a Fórmula 1 tem entre os seus um astro da dita minoria. Cada vez mais próximo de fazer história nas pistas ― já que está perto de quebrar o recorde de 91 vitórias de Michael Schumacher ―, Lewis Hamilton vem desempenhando um papel social de maior destaque: o britânico não se limitou a denunciar nas redes sociais o racismo, mas também cobrou a manifestação de seus pares e ainda compareceu a um protesto nas ruas de Londres em junho passado, na esteira do covarde assassinado de George Floyd por policiais de Minneapolis, nos Estados Unidos.

A morte do homem de 46 anos que ficou sob o joelho do então policial Derek Chauvin por mais de 8 minutos desencadeou uma onda de protestos ao redor do mundo. E no esporte não foi diferente. As manifestações, porém, não foram o bastante para encerrar de uma vez por todas a brutalidade policial contra a população preta.

Lewis Hamilton protestou no pódio do GP da Toscana (Foto: Jenifer Lorenzini/Pool/Getty Images)

Em 26 de agosto, os jogadores da NBA lideraram um movimento histórico após Jacob Blake, um homem preto de 29 anos, ser baleado sete vezes nas costas por um policial branco em Kenosha, no Wisconsin. O Milwaukee Bucks decidiu boicotar a partida contra o Orlando Magic, válida pelas quartas-de-final, uma iniciativa que foi acompanhada pelos outros times, o que forçou a organização a suspender os jogos na bolha da Disney.

No mundo do tênis, os protestos também se fizeram presentes, especialmente durante o US Open. Naomi Osaka usou a cada confronto do Grand Slam uma máscara com o nome de um negro vítima da violência policial: Breonna Taylor, Elijah McClain, Ahmaud Arbery, Trayvon Martin, George Floyd, Philando Castile e Tamir Rice. A tenista de 22 anos foi campeã do torneio.

Na MotoGP, a primeira manifestação mais contundente entre os atletas aconteceu apenas em 12 de setembro, quando Franco Morbidelli apresentou um capacete especial para o GP de San Marino e da Riviera de Rimini.

O casco tem um desenho de Morbidelli estilizado como a personagem Mister Señor Love Daddy, um radialista interpretado por Samuel L. Jackson no filme ‘Faça a coisa certa’, de 1989. O clássico, que foi produzido, escrito, dirigido e protagonizado por Spike Lee, conta uma história de tensão racial no Brooklyn, em Nova Iorque, e, em 1999, foi considerado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos um filme “cultural, histórico e esteticamente significativo”.

A parte de trás do capacete tem a palavra ‘igualdade’ escrita em diversos idiomas.

“Quando decidi fazer um design especial para o evento deste ano, eu queria lidar com uma questão importante e um tópico importante: o racismo”, conta Morbidelli. “Mas eu também queria ter todo 2020 nisso, porque este ano começou realmente mal e muitas coisas pouco agradáveis aconteceram em 2020”.

Franco Morbidelli pediu igualdade com capacete especial em Misano (Foto: SRT)

“Mas nós estamos tentando fazer um show para a audiência e fazê-los se sentir bem, então, eu queria abordar o assunto com leveza, sem ser muito pesado. Tem um filme do Spike Lee, chamado ‘Faça a coisa certa’, que trata deste assunto da maneira correta, e eu o indico a todos vocês. Tem uma personagem em determinado ponto do filme que diz: ‘Parem com toda essa merda, parem de odiar uns aos outros, deem um tempo’. Decidi me colocar no lugar dele e colocar a mim mesmo o capacete”, detalha.

“Eu queria passar uma mensagem de igualdade em diferentes idiomas também, porque essa é uma das coisas mais importantes de lembrar: somos todos iguais. E o vírus nos lembrou disso de uma forma ruim. Precisamos lembrar das coisas boas também, e acho que foi a melhor maneira de mandar uma mensagem dá forma mais leve possível”, pondera.

Antes, em uma entrevista ao site Cycle World, Franco, que é filho de uma brasileira ― do Recife ―, já tinha falado em tomar para si a responsabilidade de ser um embaixador social na MotoGP.

“Por conta da cor da minha pele, talvez devesse seguir o exemplo [de Lewis Hamilton] e me tornar um embaixador de valores sociais. Mas, primeiro, preciso ganhar credibilidade na pista. Isso é [chave] se você quer levantar sua voz e ser ouvido”, comenta. “Protestos contra o racismo e preconceito são muito importantes para mim. Não sou preto, mas ‘mais escuro’, e sofri discriminação por causa da cor da minha pele, especialmente na escola em Roma. Muita coisa foi feita na luta contra o racismo, mas ainda há muito a ser feito e acredito que lendas como Lewis Hamilton podem contribuir”, opina.

Onde estão os outros?

Mas se as maiores estrelas não compram a briga, sempre tem quem compre. No caso da MotoGP, a iniciativa partiu de Francis Bradfield, o único negro do paddock. Desde a abertura da temporada, no GP da Espanha, o britânico tem se ajoelhado em apoio ao movimento ‘Vidas Pretas Importam’.

Em 19 de julho, Francis, que trabalha como técnico de capacetes no Mundial, além de atuar como social media de uma start-up de eSports e executivo de conta de uma agência de comunicação de esporte a motor, fez um desabafo no Instagram.

Francis Bradfield segue protestando sozinho na MotoGP (Foto: Václav Duška Jr.)

“Por que fui o único ajoelhando ou mostrando apoio antirracismo na corrida da MotoGP deste fim de semana?”, questionou. “MotoGP, se você está lendo isso, você decepcionou a mim e a todas as pessoas no mundo que ainda encaram as atrocidades da discriminação com o seu silêncio”, seguiu.

“Eu sou o único preto no paddock da MotoGP e me nego a ficar em silêncio. Você tem uma plataforma. È hora de mostrar apoio”, defendeu.

Desde então, Bradfield, que está no paddock entre idas e vindas desde 2016, segue protestando. Mas ainda solitário.

“Comecei, pois o racismo ainda é muito predominante em todo o mundo e em todos os aspectos da vida. Isso precisa parar agora”, fala Bradfield ao GRANDE PREMIUM. “Também conheço e vivencio essa falta de diversidade no esporte a motor e é nosso papel abrir a indústria para ser mais inclusiva. E isso não se limita a raça. Também precisamos considerar os problemas que as pessoas enfrentam por causa de gênero e sexualidade também”, defende.

“Tenho protestado sozinho, mas tive muito apoio nos bastidores. Algumas pessoas não podem se envolver por causa do horário ou questões relacionadas ao trabalho, mas eu realmente aprecio o apoio delas, ajuda muito. Também tiveram algumas entrevistas com várias pessoas influentes e alguns pilotos expressaram opinião sobre o assunto, o que é importante”, entende.

O post no Instagram, porém, resultou em uma ação por parte da Dorna, a promotora do Mundial de Motovelocidade. De acordo com Francis, Carmelo Ezpeleta, diretor-executivo da Dorna, o chamou para falar das ações do campeonato, com destaque especial para a ‘2 Wheels for Life’, uma ONG que tem como proposta facilitar a mobilidade de recursos de saúde em países africanos com o uso de motocicletas.

“Tive uma reunião com Carmelo Ezpeleta. Ele me chamou para uma conversa, onde falou sobre o motivo de a MotoGP não ter feito nada. Ele tinha alguns pontos interessantes e deu uma boa visão da história do esporte em relação a raça e ações que foram tomadas, no passado e no presente, especialmente em relação à caridade ‘2 Wheels for Life’ e correr na África do Sul. No entanto, ainda sinto que falta apoio. Falar em correr depois do Apartheid nos anos 80 e no início dos anos 90 não é o bastante, isso foi há mais de 30 anos. A desigualdade social ainda é um grande problema infelizmente e precisamos agir hoje”, frisa, acrescentando que “meus empregadores apoiam totalmente a mim, as minhas ações e o movimento”.

Questionado pelo GP* se entende que o silêncio dos pilotos é resultado da falta de diversidade no grid, Bradfield respondeu: “Sim, isso é em parte uma explicação, mas não é uma desculpa. O fato de outros esportes terem atletas pretos de alto nível ajuda muito, mas não deveria ser necessário ter ou não um atleta preto para um campeonato ou organização agirem”.

Desde que Francis iniciou os protestos, alguns jornalistas se manifestaram em apoio pelas redes sociais, mas ao menos por enquanto, ninguém apareceu para acompanhá-lo no protesto.

“Ninguém se ajoelhou comigo ainda. Seria ótimo se alguém sentisse que também pode fazer isso, mas não estou pedindo especificamente isso. Estou me ajoelhando para mostrar apoio e dar visibilidade ao problema. Se outros quiserem participar, ótimo!”, diz. “No entanto, isso vai muito além de quem ajoelha ou não. É uma questão de fazer mudanças para acabar com o problema para gerações futuras”, sublinha.

Se mudanças efetivas ainda não vieram, é fato que ao menos algumas pessoas agora procuraram se informar e entender melhor o que é o racismo estrutural.

“Muitas pessoas estão tentando se educar e entender coisas que podem fazer no dia a dia para fazer a diferença. Agora converso com mais pessoas sobre as minhas experiências pessoais, história e como as coisas podem melhorar. É uma grande mudança em relação ao que era há menos de um ano”, observa Francis ao GP*.

Em julho, às vésperas do início da temporada, o chefão da MotoGP foi questionado se haveria alguma manifestação antirracista na abertura da temporada, até na esteira do protesto realizado no GP da Áustria de F1. O dirigente espanhol não considerou necessário.

“Não temos esse problema aqui, pois já correram pilotos de quase todas as raças. É claro que somos contra qualquer tipo de racismo e nos manifestamos muitas vezes nesse sentido”, afirmou na época. Carmelo, porém, não listou as vezes em que a MotoGP se manifestou pró-inclusão ou diversidade.

Na história do Mundial de Motovelocidade, jamais um piloto preto integrou o grid da categoria. Nas duas rodas, James Stewart correu por muitos anos de motocross, especialmente no AMA, o campeonato dos Estados Unidos. Há também Lance Isaacs, que disputou o Mundial de Superbike entre 1999 e 2000.

Perguntado pelo GRANDE PREMIUM se já sentiu alguma forma de discriminação dentro do paddock, o britânico de Londres respondeu: “Essa é uma pergunta realmente boa e difícil de responder. Não, nunca vivenciei discriminação direta contra mim. No entanto, estava conversando com um amigo, que é um engenheiro preto e escritor técnico no esporte a motor. E estávamos falando sobre o fato de nos sentirmos intrusos, especialmente quando temos de conversar com pessoas que não conhecemos muito bem. Às vezes, sentimos que existe uma suposição de que não sabemos o que estamos fazendo ou falando, e temos de expor nosso conhecimento ou intelecto mais do que a média das pessoas no paddock. E, quando as pessoas com quem estamos falando entendem um pouco mais do que conhecemos e quem somos, podemos ver uma mudança de atitude em relação a nós, pois se tornam mais abertos e mais inclinados a nos levarem a sério”.

Esse tratamento, aliás, não acontece apenas com negros. É frequente que mulheres tenham de comprovar reiteradamente conhecimento e/ou habilidade em meios dominados por homens brancos, por exemplo.

“Exatamente, é uma maneira muito boa de olhar para isso. As mulheres enfrentam muitos dos mesmos problemas”, comenta Francis.

Único preto no paddock do Mundial, Bradfield conta que conseguiu se livrar da sensação de ser um estranho no ninho por conta das pessoas que tem ao redor.

“Em alguns casos, você se sente como um intruso, como se não tivesse ninguém com quem você pudesse se relacionar, mas existem muitas pessoas boas ao meu redor, então essa sensação foi superada”, relata.

Ainda, Bradflied ponderou que a educação é o primeiro passo para que o esporte seja mais inclusivo.

“Precisa existir um conhecimento maior sobre os atuais problemas e apoio ao movimento. Para entender melhor como podemos efetuar mudanças, me juntei a uma força-tarefa da organização ‘Driven by Diversity’ com a meta de entender exatamente o que precisa ser feito e como podemos melhor implementar iniciativas e estratégias da maneira correta”, revela.

Por fim, ao ser indagado pelo GRANDE PREMIUM se espera ver mais diversidade racial dentro do paddock, não apenas entre pilotos, mas também entre engenheiros, jornalistas e médicos, por exemplo, Francis respondeu: “Gostaria de pensar que sim. No entanto, acho que existe um longo caminho pela frente antes de vermos mudanças reais”.

Quem se manifestou?

Os protestos antirracistas não foram solenemente ignorados por todos os pilotos da MotoGP. Piloto da Moto2, Joe Roberts participou de manifestações em Los Angeles, divulgou imagens dos protestos, assim como o link de uma campanha para arrecadar fundos para a causa, e teve a paciência de rebater criticas de um seguidor que o mandou “ir para a casa treinar”, sob a alegação de que “Márquez é o melhor, pois não brinca ou se torna um peão para a mídia de esquerda”.

“Ei, aprecio o apoio, mas encarar isso como uma coisa política é bobagem. Conheço pessoas de esquerda e de direita e com outras visões políticas que estão presentes nisso. Eu pediria que você visse isso além de um movimento político, pois é de fato uma questão de diretos humanos que afeta a todos nós. Não concordo com saques e destruição do comércio, especialmente do pequeno comércio, mas também não concordo com a forma como cidadãos americanos estão sendo tratados pelas autoridades enquanto tentam exercer os direitos previstos na Primeira Emenda [à Constituição dos EUA ― que, entre outras coisas, veta o limite à liberdade de expressão]. Posso te mandar vídeos se você não viu o que eu estou vendo”, respondeu na ocasião.

Além disso, em 2 de junho, alguns pilotos aderiram ao movimento ‘Blackout Tuesday’, um manifesto que surgiu na indústria fonográfica: Marc Márquez, Álex Márquez, Cal Crutchlow, Tito Rabat, Miguel Oliveira, Arón Canat e Fabio Quartararo. O francês da Yamaha SRT, aliás, postou uma foto no início de agosto vestindo uma camiseta com a expressão ‘end racism’, que, em tradução livre, significa acabar com o racismo.

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