Um ano marcante

Depois de trilhar uma carreira vitoriosa no kartismo, o paulista viveu um ano de aprendizado, descobertas, evolução e vitória em sua estreia na F4 em 2018. Inspirado por Sebsatian Vettel e Charles Leclerc, o piloto da Academia Shell Racing e da Academia da Ferrari já prepara os próximos passos

Fernando Silva, de Interlagos

Tão logo teve confirmada a sua ascensão aos monopostos para correr nos campeonatos italiano e alemão de F4, Petecof se mostrou confiante: “2018 promete ser um grande ano para mim”. Afinal, tudo representava uma enorme mudança na trajetória do jovem piloto paulista, que realizava a sempre desafiadora transição do kart para os carros fórmula. Com o apoio da Academia Shell Racing, projeto do qual faz parte desde 2015 e que vem sendo fundamental no desenvolvimento dentro e fora das pistas, Petecof teve as portas abertas para ingressar na Academia da Ferrari e deu um passo muito importante para sua carreira.

Ao longo do ano, o brasileiro se deparou com cenários bastante distintos e difíceis, mas que o tornaram muito melhor nos mais variados aspectos. O ingresso em Maranello para fazer parte da Academia da Ferrari, compondo o projeto ao lado de talentos como Enzo Fittipaldi, Giuliano Alesi, Marcus Armstrong e a grande estrela, Charles Leclerc — o primeiro piloto da história da Academia a receber a chance de ser titular da mais lendária equipe da F1 — foi deveras marcante.

Gianluca fez 18 corridas na F4 Italiana, outras 20 na Alemã e teve a chance de acelerar em alguns dos circuitos mais icônicos da Europa, como Hockenheim, Nürburgring, Mugello e Paul Ricard. Conheceu o modus operandi de uma das principais equipes do automobilismo de base, a Prema Powerteam, e aproveitou bem a oportunidade.

E o reflexo disso foi visto a cada etapa, culminando com a última rodada tripla da F4 Italiana, em Mugello, onde Petecof venceu, de forma irretocável, pela primeira vez no ano e faturou outros dois pódios em condições de chuva extrema. O piloto garantiu o quarto lugar no campeonato peninsular, que teve Enzo Fittipaldi como campeão, e foi o melhor novato do ano. Na Alemanha, em temporada igualmente difícil, o jovem finalizou na décima colocação e competiu contra pilotos com até três temporadas de experiência na categoria.

O GRANDE PREMIUM falou com Gianluca Petecof durante o fim de semana do GP do Brasil. Em Interlagos, vestido com as cores da Ferrari e da Shell Racing, o piloto, de 16 anos recém-completados, expressou sua felicidade com o crescimento que alcançou durante 2018 e tem a consciência de que é apenas o começo de uma longa caminhada rumo ao seu grande objetivo: chegar ao grid da F1.


“Esse ano foi muito positivo para a gente. Um grande ano, com certeza. Um ano bem desafiador. Na primeira metade, tive um pouco mais de dificuldade por não ter experiência, não estar acostumado com a dinâmica das corridas, com a equipe e com a categoria, então sempre tem aquele processo de adaptação. Mas depois, ganhando experiência e me acostumando com o ambiente ali, a segunda metade do campeonato foi muito forte, com cinco pódios, vitória na última etapa, em Mugello”, lembra o piloto, dono do carro #5 ao longo do ano.

“Depois vieram outros dois pódios em condições muito difíceis, na chuva — a última corrida, inclusive, foi paralisada por conta das condições extremas —. Então fechei o campeonato na quarta posição, sendo o melhor estreante, e com certeza isso prova e consolida toda a evolução e o progresso que a gente fez nesse ano”, avalia.

De olho em 2019, Gianluca tem como planejamento seguir na categoria, em programa semelhante ao que a Academia da Ferrari traçou para Enzo Fittipaldi. “Para o ano que vem, é muito provável que eu faça uma segunda temporada na F4 para procurar usar essa experiência, essa confiança que a gente adquiriu nesse fim de campeonato e começar mais forte do que nunca e com potencial para vencer o título”.
 

Uma estrutura de campeão
 

Desde que passou a integrar a Academia de Pilotos da Ferrari, Petecof começou a viver um processo de amadurecimento muito grande ao deixar de morar com a família para se mudar para Maranello, exatamente ao lado da sede da escuderia italiana.

Lá, o brasileiro trabalha diariamente para aperfeiçoar atributos técnicos, físicos e mentais junto a outros integrantes do projeto coordenado por Massimo Rivola. Gianluca destaca toda a intensa preparação feita na Itália — o que é realizado antes, durante e depois da temporada — como de fundamental importância para seu desenvolvimento de forma global.

“Acho que o trabalho com eles foi essencial para tudo o que eu pude conquistar na pista, desde os treinos físicos e mentais, ajudou na parte técnica também, o apoio dentro da pista... Acho que toda a evolução que pude ter com eles nesse ano foi incrível”, analisa.

“Cheguei lá com muito pouco desenvolvimento fora da pista, sem conhecer como tudo funcionava, por isso mesmo demorei um pouco mais para me adaptar no começo. Mas depois, quando fiquei confortável com todo o staff da academia, a gente fez um trabalho incrível, o que me ajudou muito dentro da pista”, diz o brasileiro.

Contudo, Petecof vai além ao dizer que sua trajetória se transformou graças a um projeto igualmente vitorioso e crucial. “Minha carreira mudou muito desde 2015, quando entrei no projeto da Academia de Pilotos da Shell Racing. Foi um programa realmente pioneiro aqui no Brasil, e até hoje em dia é um dos maiores programas, uma das maiores plataformas de patrocínio e de apoio à base do automobilismo no mundo”, exalta Gianluca.

“Então é realmente um orgulho poder estar lá desde o começo, o apoio deles fica maior a cada dia, e todo ano que passa a gente alcança muito mais juntos. Foi um grande passo entrando na Academia da Ferrari através, claro, da ajuda deles, do apoio deles. E poder ter essa relação entre Ferrari e Shell, vinda do Brasil, também é muito importante para mim”, emenda.

Gianluca Petecof fez seu primeiro ano como piloto da Academia da Ferrari
Ferrari Driver Academy

 

 

 

 

 

 

 

As inspirações para chegar lá
 

Desde os tempos de criança, até pela semelhança física, Gianluca sempre teve um grande ídolo no esporte: Sebastian Vettel. Ao mesmo tempo em que o alemão iniciava sua dinastia no início da década na F1, do outro lado do mundo, no Brasil, o menino paulistano começava a carreira no kartismo.

De longe, Petecof admirava os feitos de Seb nas pistas com o carro da Red Bull, equipe com a qual enfileirou quatro títulos mundiais consecutivos, entre 2010 e 2013. Quando ainda estava no kartismo, em 2015, era chegada a chance de conhecer de perto o trabalho da Ferrari nos boxes em Interlagos e conversar por longo tempo com o ídolo. Dois anos depois, na mesma São Paulo, teve o privilégio de ouvir do tetracampeão que pode ocupar seu lugar na F1. A fala de Vettel o encheu de orgulho.

Com o ingresso de Gianluca na Academia de Pilotos da Ferrari, os dois passaram a defender as mesmas cores. E ainda que não tenham um contato tão constante — uma vez que o cronograma das categorias é muito distinto e cheio de viagens —, o tetracampeão do mundo sempre demonstra muito apreço ao brasileiro, que traz uma admiração mútua e ainda maior quando tem a chance de conversar com o ídolo e, porque não dizer, companheiro de equipe.

E esse contato é intensificado quando os pilotos têm a chance de estar no mesmo paddock, como foi em Interlagos neste mês. “Para mim, poder ter essa relação bem próxima com ele é incrível. Desde pequeno acompanho a carreira dele, é meu ídolo dentro das pistas, e quando estava começando a correr de kart ele estava começando a conquistar os títulos na F1”, recorda.

Vettel afirmou que vê Petecof com potencial para substituí-lo na F1
Shell Racing/Divulgação

“Então, depois de tantos anos, através da Shell aqui no Brasil, em 2015, pude vê-lo pela primeira vez, e desde então ele tem um carinho muito especial por mim. Ele me levou à garagem e, o que era para ser uma conversa rápida, de cinco minutos, acabou se estendendo para 40 minutos, quase uma hora, com ele me falando sobre o carro, respondendo às perguntas que tinha sobre como é ser um piloto de F1... E depois de tantos anos, todo ano no GP do Brasil nos vemos”, diz.

Quanto ao futuro, Gianluca sonha com a chance de ter de contar com os conselhos de um tetracampeão mundial de F1. “Com certeza, daqui a alguns anos, quem sabe, ele pode se tornar um mentor dentro das pistas também”.

Ao mesmo tempo em que tem Vettel como grande inspiração para chegar à F1, Petecof tem em Charles Leclerc o exemplo de que é possível alcançar a grande oportunidade de defender a Ferrari vindo da Academia.

A primeira grande aposta do projeto foi Jules Bianchi, que morreu de forma precoce nove meses depois do trágico acidente sofrido no GP do Japão de 2014. Um ano depois, Leclerc ingressou na Academia de Pilotos da Ferrari e provou na pista que o investimento na sua carreira foi correto: campeão da GP3 em 2016 e campeão da F2 no ano seguinte. Assim, com a influência cada vez maior da casa de Maranello na Sauber, a fábrica garantiu uma vaga ao jovem talento na equipe suíça para a temporada 2018 do Mundial de F1.


Leclerc foi além das expectativas e fez uma temporada notável, sendo um dos grandes nomes de 2018 mesmo correndo pela equipe que era, até o ano passado, a pior do grid. Com várias presenças no Q3, sexto lugar como melhor resultado — no GP do Azerbaijão — e 39 pontos somados, o piloto de 21 anos fez a Ferrari quebrar um conservadorismo histórico ao optar pela sua juventude, encerrando assim o segundo ciclo de Kimi Räikkönen no time vermelho.

Na visão de Gianluca, Leclerc é a grande referência para quem almeja repetir todos os passos trilhados pelo monegasco até chegar ao objetivo tão sonhado: correr na F1 pela Ferrari.

“O Charles, depois de entrar na Academia da Ferrari, conquistou resultados incríveis: campeão da GP3, campeão da F2 e agora, nesse ano, fez um ótimo trabalho na Sauber para entrar na Ferrari”, elogia.

“Mas isso não poderia ter sido feito sem o suporte da Academia da Ferrari. Isso prova que a força que a Ferrari tem, os recursos que a Ferrari tem para desenvolver um piloto e colocá-lo em condições de poder no carro da Ferrari na F1 é muito importante para todos nós dentro da Academia. Isso mostra não só força dentro da própria Ferrari, mas mostra a todo mundo o potencial que temos lá dentro. Com certeza, com muito trabalho e muito esforço, um dia a gente pode estar nessa posição”, afirma o piloto, feliz também com a nova geração de talentos brasileiros.
 

O que vem por aí
 

2019 vai trazer uma das maiores e mais impactantes renovações no grid do Mundial de F1. A chegada dos talentosos Lando Norris, George Russell e Alexander Albon. Antonio Giovinazzi, também membro da Academia Ferrari, vai ter a chance de fazer uma temporada completa correndo pela Sauber, enquanto Pierre Gasly foi promovido para ser titular da Red Bull, assim como o já citado Leclerc na Ferrari.

No Brasil, a renovação no quadro de pilotos também é flagrante. Sergio Sette Câmara e Pietro Fittipaldi, contratados recentemente por McLaren e Haas para a função de piloto de testes, são quem mais se destacam, mas outros nomes despontam com grande relevância, como Felipe Drugovich — campeão com sobras da Euroformula Open —, Caio Collet, Enzo Fittipaldi e Petecof.

A confirmação dos passos de Sette Câmara e Pietro rumo à F1 é vista por Gianluca como um sopro de esperança para o automobilismo do Brasil lá fora. “Fico muito feliz. Aliás, fico feliz duas vezes, por cada um, porque tenho ótima amizade com todos eles. Esse ano conheci um pouco mais de perto o Enzo e o Pietro. Dá um orgulho extra ver o carinho e a atenção que todos dão ao Brasil no cenário do automobilismo mundial”, conta.

“Ter o Pietro e o Serginho como pilotos de testes, fazendo parte do cenário da F1, e tantos outros, como eu, crescendo nas categorias de base, só mostra a força que a gente tem, o potencial que a gente tem para chegar lá um dia”, diz, esperançoso no futuro.

Petecof ressaltou importância da Academia Shell Racing na sua carreira
Prema Powerteam

Por fim, Petecof foi falou sobre o sonho de sair do paddock da F1 e ir para o outro lado, da pista, e poder correr diante da torcida brasileira em Interlagos e, de preferência, com a Ferrari. Com uma maturidade que impressiona, o brasileiro ressalta seu objetivo, mas tem os pés cravados no chão.

“É um pouco difícil dizer exatamente quando. Mas a cada dia que passa, o trabalho mais forte dá uma motivação maior para chegar lá um dia e, quem sabe, com a ajuda da Shell e da Ferrari no futuro eu possa chegar lá também”, complementa.

Claro que há uma infinidade de fatores capazes de atrapalhar ou ajudar nessa estrada, mas Gianluca Petecof parece ter caminho bem traçado para trilhar a ‘escadinha’ rumo ao Mundial: com estrutura muito sólida, maturidade que salta aos olhos dedicação e talento de sobra, o jovem piloto mostra, dia após dia, que é capaz de chegar lá. Que o futuro lhe diga ‘sim’.