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Um dia na vida de Long Beach

Uma visão da famosa pista de rua californiana em um momento incomum para os fãs de automobilismo: o de um dia comum

Estava marcado no calendário: 19 de abril de 2020. Neste dia aconteceria a 46ª sexta edição do tradicional GP de Long Beach. Aconteceria. A cidade californiana, assim com o resto do mundo, foi atingida pela pandemia da covid-19, doença causada pelo SARS-CoV-2, o novo coronavírus. A corrida acabou cancelada, rompendo com uma sequência de provas automobilísticas que vinha desde 1975. Neste ano, nada de Long Beach para a IndyCar. 

Além do vácuo da prova, o cancelamento também trouxe um (menor) problema em termos de conteúdo aqui para o GRANDE PREMIUM. Afinal, nos últimos anos, visitei a região do circuito em algumas oportunidade para, também, trazer para cá um “dia na vida” da cidade — parafraseando a música ‘A Day in The Life', dos Beatles. Um instantâneo, por meio de palavras, de um dia no qual não vemos carros correndo a mais de 200 km/h por aquelas ruas, mas sim carrinhos de bebê empurrados por pais e mães sorridentes. 

A corrida caiu levando consigo a pauta.

Porém, com três meses de isolamento social, faz falta respirar ar puro. O automobilismo até tenta voltar dentro do tal “novo normal”, mas o que vem aos pulmões é oxigênio misturado com fumaça de óleo diesel. Por isso, mesmo que no isolamento de nossas casas, faz sentido olhar para além da janela. 

Nesse intuito, resgato (ainda que de forma diferente daquela planejada) o tal dia de verão na vida de Long Beach. Não apenas como forma de conhecer o circuito fora dos dias de competição, mas para relembrar a beleza da vida normal, aquela que não dávamos o devido valor antes disso tudo. 

As zebras ficam lá o ano inteiro, tendo corrida ou não

Pelas ruas de Long Beach

Ainda que com mudanças desde 1975, o circuito sempre foi montado a partir das ruas da cidade – inclusive na época que sediava o GP de Fórmula 1. A geografia do lugar é uma das mais interessantes: fica à margem da foz do rio Los Angeles, que desemboca na Baía de Queensway e, por consequência, no Oceano Pacífico. 

De um lado dessa foz existe um grande e importante porto. Do outro, uma marina, dois parques (com direito a um lago), um shopping a céu aberto e um aquário. Ainda que a corrida seja uma prova anual, ela foi a responsável por revitalizar a região (que chegou a ficar degradada por um bom tempo) e é o maior evento da cidade. 

Quem chega de carro – e carros são o principal meio de transporte do sul da Califórnia, que é bastante hostil a pedestres – nem precisa ser avisado que, ali, automóveis de competição também circulam: algumas zebras continuam no asfalto, o que certamente contribui para o charme turístico. 

A famosa praça do golfinho, com o aquário (já ampliado) ao fundo

Algumas dessas zebras, inclusive, ficam no entorno da praça com o chafariz em golfinho que, certamente, você já viu nas transmissões da TV. O uso do mamífero aquático ali tem um motivo: bem em frente fica o Aquarium of the Pacific (Aquário do Pacífico, em português), um dos maiores espaços do tipo do país – inaugurado em 1998 e que teve uma ampliação concluída em 2019. 

Em um dia de verão, o aquário fica lotado de turistas e de locais com suas famílias para ver peixes e animais marinhos dos diversos tamanhos e origens, incluindo pinguins e, claro, golfinhos. São 500 espécies para se conhecer lá dentro.

É possível também passear pelo entorno do Rainbow Harbor, sentindo a brisa do final de tarde de verão e admirando alguns iates que, ainda que não na mesma quantidade, não devem muito aos de Mônaco.

O gigante RMS Queen Mary, agora permanentemente fincado em Long Beach

Para quem gosta de barcos, tem ainda um bem maior. E não me refiro aos grandes cargueiros do porto, mas sim a um transatlântico que, no começo das transmissões, sempre aparece nas tomadas aéreos do circuito. É o RMS Queen Mary.

Inaugurado em 1934, o navio de passageiros partiu de Liverpool para se tornar um dos maiores transatlânticos de sua época. Chegou, durante a Segunda Guerra Mundial, a ser usado como transporte de soldados, mas a sua maior vocação foi a de levar passageiros civis em viagens de turismo ou negócios – isso em uma época na qual viajar de navio não era feito apenas por prazer, mas também por ser um meio viável de se ir de um ponto a outro quando estes eram divididos por um oceano. 

O Queen Mary parou de transportar os seus 2.139 passageiros, divididos em três classes, em 1967. Em 1971, o gigante de aço foi levado para Long Beach, onde repousa até hoje e mantém praticamente as mesmas características originais. Transformado em uma mistura de museu e hotel (com 400 quartos, foto de um dos corredores ao lado), virou uma janela para se ver como era o mundo de um antigamente não tão antigo assim, mas muito diferente dos tempos atuais.

Tudo isso separado do circuito de Long Beach pela voz de um rio e uma enorme ponte.

À esquerda, a margem do rio Los Angeles na qual fica o circuito e a marina. À direita, o RMS Queen Mary, um transatlântico atracado e a antiga geodésia do Spruce Goose

Grandes asas

Curiosamente, ao lado do Queen Mary fica uma outra construção das mais interessantes, que também aparece nas panorâmicas da região, mas, com tanto detalhes para ver, fica despercebido. E envolve um pioneiro do ar.

Trata-se de uma enorme redoma, ou uma geodésia, que de 1980 a 1993 foi o local de exposição do Hughes H-4 Hercules, um gigante construído com madeira no final da Segunda Guerra Mundial pela Hughes Aircraft Company, de Howard Hughes. Batizado pejorativamente por seus detratores de Spruce Goose (“Ganso feito de Pinho’, em tradução livre) foi, até 2019, o avião com maior envergadura a sair do solo. 

Hoje, o Spruce Goose está em exposição no Oregon – e a cúpula onde ele ficava funciona como terminal de passageiros para uma companhia particular de navios de passageiros. 

É curioso pensar que, de formas tão distintas, porém próximas fisicamente, temos os transportes rodoviário, marítimo e hidroviário levados aos seus extremos. Seja em velocidade, tamanho ou audácia. 

Pena que neste momento, aquelas ruas não ouvem os roncos dos motores ou a risada de uma criança. Apenas a solidão do distanciamento é o que ecoa por lá. Não há mais dias de Fórmula 1, de Indy, ou de verão. Os dias na vida de Long Beach não são mais os mesmos. 

A nós, resta imaginar momentos melhores no futuro.

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