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Conteúdo Especial

Automobilismo virtual, investimento real

A importância cada vez maior dos eSports no automobilismo ganha corpo quando grandes empresas passam a investir maciçamente nas corridas virtuais. É o caso, por exemplo, da Shell, que recrutou Erick Goldner para ser o primeiro piloto de simulador da prestigiada Academia

Nos últimos anos, é possível dizer que a modalidade esportiva que mais cresceu foi a virtual. Os eSports, no Brasil e no mundo, deixaram de ser uma mera brincadeira de vídeo game entre amigos para virar mesmo coisa séria. Jogos como Counter Strike, League of Legends e Fifa, por exemplo, ganharam campeonatos nacionais e mundiais, prestígio global, premiações milionárias e até transmissões ao vivo por canais de TV. As corridas virtuais também ganharam uma grande importância, com o envolvimento de muitas marcas e pilotos. Aqui, recentemente, o GRANDE PREMIUM contou como o brasileiro Igor Fraga, campeão mundial de Gran Turismo em 2018, assinou contrato para ser um dos pilotos do cobiçado projeto Red Bull Junior Team e passou a ser um dos nomes da marca dos energéticos para o futuro na F1.

Também é possível dizer que as corridas de simulador ganharam ainda mais força nestes tempos em que não há esporte a motor de verdade por conta da pandemia do novo coronavírus. Pilotos, muitos deles renomados — como Charles Leclerc, Lando Norris e Max Verstappen, para ficar no exemplo da F1, mas também nomes de peso do Brasil, como Rubens Barrichello e Pietro Fittipaldi —, passaram a se organizar para disputar provas e campeonatos. Categorias de ponta como F1, Indy, Nascar e até a MotoGP promoveram temporadas virtuais e com a presença maciça dos competidores das pistas de verdade. As corridas passaram a ser exibidas na TV e em canais de streaming, sendo que algumas competições passaram do milhão de espectadores.

As empresas envolvidas no esporte a motor já haviam enxergado antes que os eSports são uma ótima via em termos de investimento e garantia de visibilidade. Lá fora, marcas como Mercedes, Ferrari, Nissan, Porsche e a Williams já tinham seu próprio programa de pilotos virtuais. No Brasil, em abril deste ano tão incomum, a Academia Shell Racing promoveu um programa para escolher seu primeiro piloto de simulador. A seleção aconteceu na Corrida das Estrelas, prova virtual promovida pela Porsche Cup, que contou com a presença de nomes de peso, como Gaetano di Mauro, Felipe Fraga, Marcos Gomes, Felipe Baptista e Sergio Jimenez, mas também com muitos talentos do automobilismo virtual, mas até então desconhecidos do grande público.

No traçado virtual de Interlagos, Erick Goldner, mineiro de 34 anos, nascido em Juiz de Fora e radicado em Brasília, superou a concorrência, venceu a prova e conquistou a chance de integrar o projeto da patrocinadora que mais investe no esporte a motor brasileiro. Goldner se uniu a nomes como Gianluca Petecof, Di Mauro, Átila Abreu, Ricardo Zonta e Galid Osman e agora faz parte da Academia Shell Racing, tendo os mesmo direitos e atribuições de um piloto membro do projeto.

“Eu realmente não imaginava que isso fosse possível. Nós, amantes desse nicho tão específico, que é o automobilismo virtual, sempre desejamos mais investimento e apoio, principalmente vendo outros tipos de eSports se dando bem, como jogos de tiro e estratégia. Com esses tempos loucos e a pandemia, imaginávamos que fossem ter olhos mais atentos e que começaríamos a ter mais oportunidades, mas começar assim, de forma tão expressiva, de ser um piloto da Academia Shell, imagino que nem o mais otimista conseguiria imaginar isso. É, realmente, uma oportunidade sensacional”, explica o novo integrante da Academia ao GRANDE PREMIUM.

Nos dias de hoje, é comum ver times de futebol recrutarem jogadores profissionais de eSports. São atletas virtuais que dedicam praticamente o tempo todo para treinamentos e competições. 

No caso de Erick e de boa parte dos pilotos do chamado AV (automobilismo virtual), há uma carreira dentro do universo real. O mineiro, por exemplo, é formado em Ciências da Computação e desempenha a profissão de Analista de Negócios em Tecnologia da Informação. Ou seja, o tempo à frente da tela de um computador é quase integral.

Goldner detalha o início de uma trajetória em corridas de simulador que já dura quase cinco anos. “Meu envolvimento nas competições virtuais começou em 2015, 2016. Comecei a correr com Lancer RS e com carros do Marcas, que são dianteiros, isso lá no Game Stock Car", conta. 
(Erick Goldner (Foto: Arquivo Pessoal))

“Logo em seguida, houve uma evolução para a plataforma Automobilista. Fiquei por volta de dois a três anos. No fim de 2016, tive conhecimento do iRacing, mas o Automobilista tinha mais campeonatos, então demorei um pouco para fazer a migração e mudar para o iRacing, o que ocorreu no fim de 2017”, lembra.

No asfalto, a quilometragem de Goldner se resume a algumas corridas de kart há muitos anos. No virtual, contudo, a prateleira já reúne uma bela coleção de troféus.

“Participei do Mundial de Endurance no iRacing, em 2018 e 2019, uma competição muito difícil de entrar. Fui tricampeão da Copa Turismo Sudamericana e, mais recentemente, fui campeão com o Audi RS3 TCR em uma competição do iRacing Brasil. Por fim, a conquista da Porsche Star Race 2, que acabou me levando à Shell”, comenta.
(O cockpit de Erick Goldner (Foto: Arquivo Pessoal))

Treino, estudo e estratégia
 

Há quem ainda tenha em mente que basta ter algum conhecimento das pistas para se dar bem e ser competitivo no automobilismo virtual. As plataformas, como os citados Automobilista e iRacing, têm um nível de realismo absurdo, feito para simular, em todos os detalhes, os desafios enfrentados pelos pilotos nas pistas de verdade.

São sensíveis as diferenças de comportamento de um carro de F1 para um protótipo LMP1, ou de um modelo de turismo, como do Brasileiro de Marcas, para um F3. Ao migrar de um bólido para o outro, é preciso entender não somente o estilo de pilotagem, mas, acima de tudo, treinar, treinar muito. Exatamente como é na vida real.

Semana passada, antes da polêmica corrida virtual promovida pela Indy em Indianápolis, Lando Norris chegou a afirmar que nunca havia treinado tanto na vida para uma prova em simulador. Para alguém que tem no automobilismo o seu ganha-pão, é possível dedicar muito mais tempo aos treinos virtuais. No caso de Goldner, mesmo tendo de dividir sua carga horária com a profissão, a dedicação não é menor. Longe disso.

“Lá no início, era mais fácil e possível chegar e correr no mesmo dia de uma etapa, não precisava de muito treino e ainda assim era possível ir bem. Hoje, principalmente no iRacing, que demanda uma dedicação maior que em outros simuladores, isso é inviável. É impraticável, hoje. Então, você precisa ter uma experiência para poder colher os resultados. Tenho meu trabalho normal, das 8h às 18h, então consigo me dedicar, no máximo, de 2h a 3h, de quatro a cinco dias por semana”, diz.

A oportunidade para Erick Goldner fazer parte da Academia Shell Racing começou a se desenhar somente poucos dias antes da realização da Corrida das Estrelas da Porsche Cup. “Recebi o convite no domingo à noite, então só tive segunda, terça e quarta-feira [para treinar], e também não era um carro ao qual me dedicava muito, sabia que esse estilo e essa questão teriam de ser muito focadas”, comenta o piloto, que teve de correr contra o tempo para estudar a pilotagem do carro e ficar pronto para o desafio.

O formato da Corrida das Estrelas compreendeu 41 inscritos e duas baterias de 30 minutos cada, com a primeira corrida tendo um caráter classificatório para a prova derradeira e decisiva.

Goldner conseguiu se classificar em oitavo no grid para a primeira corrida, se livrou dos habituais incidentes e cruzou a linha de chegada em quarto. Na corrida mais importante, Erick manteve um ritmo forte e, com pilotagem centrada e focada em evitar qualquer tipo de confusão, o piloto levou o Porsche #100 à primeira posição na linha de chegada.

O piloto virtual entende que o estilo empregado ao longo da disputa foi fundamental para vencer a Corrida das Estrelas e, por consequência, obter a chance de fazer parte da Academia Shell Racing.

“Acredito que foi meu estilo e meu jeito mais cerebral e seguro de guiar. Tento sempre manter uma lógica de que só é possível ganhar se conseguir sobreviver e passar das primeiras curvas. E isso, levado ainda mais, quando você considera o carro em que ocorreu a disputa, o Porsche Cup, um carro mais complexo de guiar porque não tem controle de tração, não tem freios ABS e tem um feedback no volante que é um dos mais fortes e pesados do simulador. Demanda uma dedicação ainda maior que os outros carros para entender e domar seu comportamento”, analisa.

“Nos treinos, vi que não era um dos mais rápidos, então estabeleci uma estratégia de ir tentar sobreviver nas primeiras curvas. Vários carros ficaram pelo caminho, algo que sempre acaba acontecendo. Existem pilotos muito agressivos e que já querem determinar os resultados nas primeiras voltas, de modo que acidentes acabam sempre acontecendo. Depois, mantive meu ritmo e, se fosse necessário, forçaria uma ultrapassagem para entrar no top-5 da primeira bateria. Isso acabou funcionando muito bem, larguei em quarto e pude, depois, baseado nos treinos que fiz, isso acabou me ajudando muito na segunda bateria para manter o ritmo e o controle do carro para vencer”, diz Erick.
 

(Erick Goldner foi selecionado para a Academia Shell Racing (Foto: Porsche Cup))

Intercâmbio e o início na Academia Shell Racing
 

O primeiro compromisso de Goldner como representante da Shell foi na terceira etapa do Desafio Virtual das Estrelas, competição de caráter beneficente idealizada por Dudu Barrichello e Enzo Fittipaldi e que conta com a presença de vários nomes de peso do automobilismo real, como Rubens Barrichello, Daniel Serra, Felipe Massa, Felipe Drugovich, Caio Collet, dentre tantos outros.

A competição também foi realizada em duas baterias, na pista virtual de Silverstone. A missão era acelerar o Dallara F3. Erick fez bonito e, depois do 14º lugar na primeira corrida, foi top-5 na segunda, com o detalhe de não ter muita prática com a pilotagem daquele tipo de carro.

“Foi uma experiência e uma oportunidade incríveis. Não esperava ter conseguido um top-5 na segunda bateria. Nem experiência com o carro que foi usado nessa bateria eu tinha. Tive pouco tempo para treinar e me adaptar ao estilo do fórmula, que é completamente diferente. Foi um pouco complexo fazer essa mudança de chave. Mas foi sensacional aquela segunda bateria, largando de 14º e conseguindo sobreviver a dois acidentes ali na primeira volta, depois impor o ritmo e ganhar confiança no carro ao longo da corrida, conseguir disputar e fazer quatro, cinco ultrapassagens, foi realmente sensacional e não esperava. Foi bom participar e fazer um bom trabalho com a Shell”, conta.

Dias depois do Desafio, Goldner fez parceria com Gaetano di Mauro na corrida ‘Race for Health’, que reuniu vários pilotos do automobilismo real — como Rubens Barrichello, Helio Castroneves, Felipe Nasr, António Félix da Costa, Felipe Fraga, Kelvin Van der Linde, Tom Dillmann, Richard Verschoor e Matheus Leist — e virtual e foi disputada na pista de Le Mans. A prova reuniu doações que foram encaminhadas ao projeto Médicos Sem Fronteiras.

A bordo de um Porsche, a dupla cumpriu uma boa jornada, largou em sexto, mas caiu para 27º lugar após sofrer uma batida no início da prova e teve de partir para uma prova de recuperação. A evolução ao longo da corrida foi interrompida quando o carro estava em quinto lugar. Gaetano sofreu um problema técnico raro, que travou a plataforma do simulador, e a dupla não teve chance de disputar um lugar no pódio.

Para Erick, foi a primeira chance de dividir o carro virtual com um piloto profissional de automobilismo real. Goldner destacou justamente a chance de fazer este intercâmbio, ajudar a Academia Shell Racing nas corridas de simulador e também acumular conhecimento de esporte a motor como um todo.

“Tenho tentado auxiliar no que é possível em relação aos simuladores e às corridas. Ainda não tive a oportunidade de conhece-lo pessoalmente, mas já nos conversamos pelo telefone sobre algumas questões. Gaetano demonstrou ser um cara muito apaixonado pelo esporte, e isso demonstra um fator sensacional para o nosso ramo. Espero, em conjunto com ele, representar muito bem as cores da Shell e dar um retorno com essa oportunidade que está sendo disponibilizada para mim”.

No fim das contas, fica o sentimento de estar no lugar certo e na hora certa para poder evoluir ainda mais a sua capacidade como piloto nos simuladores e levar a Academia Shell Racing a um patamar diferente também no automobilismo virtual.

“Espero poder evoluir ainda mais, ter todo o apoio que a Academia Shell Racing vai conseguir prover. E poder demonstrar, com dedicação e trabalho, da melhor forma para a Shell. De modo que isso não seja só aquela visão de que é um só um jogo. É paixão, dedicação, algo que todos nós que competimos estamos lá não para brincar, mas para demonstrar serviço e mostrar que somos apaixonados por este esporte, que é incrível. Por consequência disso, espero que mais empresas possam vislumbrar nisso uma boa oportunidade de investimento e apoio para trazer ainda mais chances para todos nós, que corremos”, conclui Erick Goldner.
(Erick Goldner (Foto: Arquivo Pessoal))

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