O combustível que faz a diferença

A Shell desenvolveu uma nova gasolina que se encaixou perfeitamente à nova versão do motor Ferrari a partir de Spa-Francorchamps. Resultado: um ganho de mais de 20% de performance

Fernando Silva, de Sumaré

Parceira da Ferrari há mais de 60 anos, a Shell tem uma história vitoriosa não apenas na F1, mas no automobilismo como um todo, por conta do trabalho de excelência e vanguarda no desenvolvimento de combustíveis e lubrificantes. A cada temporada, as exigências são ainda maiores em termos de qualidade e performance, afinal, todos buscam o mesmo objetivo: o topo do pódio.

A Ferrari tem como grande meta voltar ao Olimpo da F1 e, depois de quatro anos de domínio da Mercedes, parece ter encontrado a receita certa para finalmente quebrar o jejum de 11 anos sem títulos: um carro confiável e rápido, dois pilotos campeões, vencedores e experientes, e o melhor motor da categoria. O combustível desenvolvido pela Shell também entra na lista de fatores capazes de contribuir de forma determinante para o sucesso da marca de Maranello.

Se nas últimas temporadas convencionou-se a dizer que a Ferrari estava cada vez mais perto da Mercedes, atualmente os carros vermelhos reconhecidamente superaram as Flechas de Prata. Em Spa-Francorchamps, palco do GP da Bélgica que abriu o segundo semestre da temporada 2018 no fim de agosto, a Ferrari alcançou a superioridade com grande performance, a ponto de Sebastian Vettel cruzar a linha de chegada com mais de 11s de frente para Lewis Hamilton.

Em Monza, se a vitória italiana não veio, a força da SF71H ficou novamente nítida na definição do grid de largada, com Kimi Räikkönen quebrando o recorde de volta mais rápida da história da F1 e garantindo a pole do GP da Itália, com Vettel completando a primeira fila no ‘templo da velocidade’.

O novo combustível da Shell é mais uma arma da Ferrari na luta contra a Mercedes
Shell Motorsport

O grande passo à frente da Ferrari em relação à Mercedes diz respeito à nova evolução da sua unidade de potência. Se antes a equipe anglo-alemã se notabilizava pelo chamado ‘modo festa’, agora é a vez de a escuderia de Maranello assumir o protagonismo no quesito. Na esteira do desenvolvimento da nova versão do motor, a Shell trabalhou de forma alinhada à Ferrari e entregou uma evolução da sua gasolina, que conseguiu extrair ainda mais performance da unidade motriz.

Os segredos sobre os detalhes do novo combustível são, como quase tudo na F1 no aspecto técnico, guardados a sete chaves. Um deles é a respeito da composição da versão da gasolina Shell entregue unicamente à Ferrari: a produção de moléculas raras custa uma pequena fortuna, não mensurável, de modo que é possível fornecê-las apenas em quantidade bem limitada, ficando restrita aos dois carros da escuderia italiana.


Aditivos também foram desenvolvidos com o objetivo de conter o que se chama de batida do motor, um fenômeno que ocorre no ato da ignição e que diminui a performance da unidade de potência. O elemento químico age para tirar maior proveito da ignição, mas sem sacrificar demais o poderio calorífico do combustível, permitindo que o motor trabalhe a pleno por mais tempo, o que contribui, também, para o aumento da potência.

Ao todo, a base dos laboratórios de desenvolvimento de combustível para a F1 da Shell, em Hamburgo, na Alemanha, conta com mais de 50 cientistas e engenheiros, que acumulam mais de 21 mil horas trabalhadas ao longo do ano. Tudo para conseguir fazer a diferença e entregar um produto que ajude a Ferrari a escalar o topo do pódio da principal categoria do automobilismo mundial.
 

Evolução constante
 

Gerente de Inovação do departamento de motorsport da Shell, o britânico Guy Lovett é o engenheiro responsável não apenas pelo desenvolvimento do combustível que empurra os carros da Ferrari na F1, mas também as motos da Ducati na MotoGP, bem como tem atuação junto ao Automóvel Clube do Oeste no Mundial de Endurance.

A respeito do trabalho de atualização desenvolvido pela Shell com o combustível para o novo motor da Ferrari, Lovett explica que a meta é conseguir entregar sempre um ganho de performance extra. O que, numa F1 cada vez mais apertada na briga com a Mercedes, pode representar o décimo a mais na briga por uma pole-position — muitas vezes decisiva para uma vitória nas corridas.

“Nas três últimas temporadas, por meio do nosso trabalho de desenvolvimento de combustíveis e lubrificantes, contribuímos para mais de 20% de ganho de performance da unidade de potência da Ferrari”, analisa o engenheiro, entrevistado pela ‘Autosport’, salientando o fato de conseguir manter um bom nível de evolução de maneira contínua.

“Você sempre espera obter grandes ganhos no começo e, depois, que o progresso do desenvolvimento diminua. Ainda não encontramos o funil. Então, isso nos permite fazer contribuições significativas em termos de performance para a Ferrari, nessa faixa de mais de 20%”, diz.

Guy Lovett (à esquerda) explica o ganho obtido pela Shell com o novo combustível para a Ferrari
Shell Motorsport

“Ficamos muito surpresos, anos atrás, que o combustível pudesse fazer tanta diferença para o novo motor V6, mas conseguimos continuar assim”, explica Lovett.

Com maior liberdade para investimento e desenvolvimento de soluções capazes de extrair o máximo de performance dos complexos motores híbridos da F1, a Shell também consegue alcançar um altíssimo nível de excelência na esteira de muita pesquisa antes de a gasolina chegar aos carros de Vettel e Räikkönen na F1.

“As regras permitem um espaço suficiente para inovação, que podem ser provenientes de componentes distintos e produtos químicos, como a forma como formulamos os combustíveis. Se você olhar do ponto de vista dos alimentos, estamos ajustando os ingredientes, mas também a receita. Como fazemos isso é uma combinação de trabalho experimental em nosso centro técnico em Hamburgo, muitas atividades em modelagem, simulação, teste e provas desses produtos no dinamômetro, em Maranello, e na pista de corrida”, finaliza.

Gasolina Shell empurra Ferrari de Vettel na batalha pelo penta da F1
Shell Motorsport