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Conteúdo Especial

O diário da grande missão

Vitor Baptista conta, em detalhes, como foi cada um dos dias da sua participação no Shootout do Porsche Junior Program global, processo seletivo que envolveu outros 11 jovens de todo o mundo para escolher o mais novo piloto oficial da marca para 2020

12 homens e uma meta. Jovens pilotos de várias partes do mundo participaram, na semana passada, do Shootout do Porsche Junior Program global, processo que compreende a escolha do novo nome para representar oficialmente a marca de Stuttgart em competições importantes, como a Porsche Mobil 1 Supercup, a partir do ano que vem, garantindo também uma bolsa de € 225 mil (ou, na cotação atual, pouco mais de R$ 1 milhão). Neste ano, as provas foram realizadas no Autódromo de Portimão, no Algarve, em Portugal.

Dentre os 12 escolhidos para fazer parte do Shootout esteve um brasileiro. Vitor Baptista, piloto da Academia Shell Racing, entrou no universo Porsche a partir do ano passado por meio do primeiro Junior Program realizado no Brasil, garantiu a bolsa para bancar parte da sua primeira temporada na Porsche Carrera Cup, classe 3.8, foi campeão e assegurou a permanência para 2019, mas disputando a categoria 4.0.

Baptista lutou pelo título e liderou a temporada até o fim, mas teve de abrir mão de disputar a rodada dupla final, que poderia lhe garantir mais uma taça, por um objetivo que perseguia há dois anos: fazer parte da seletiva global da Porsche.

Aos 21 anos, Baptista competiu contra o italiano Diego Bertonelli, o francês Hugo Chevalier, o canadense Roman de Angelis, o britânico George Gamble, o turco Ayhancan Güven, o sueco Robin Hansson, o australiano Jordan Love, o chinês Daniel Lu, o luxemburguês Dylan Pereira, o japonês Ukyo Sasahara e o holandês Max van Splunteren. Todos foram selecionados por campeonatos nacionais e/ou continentais da Porsche ao redor do mundo.

O processo de seleção do novo piloto oficial da Porsche consiste em avaliação dentro e fora da pista. Na verdade, o jovem candidato inscrito no Shootout passou a ser avaliado desde o momento em que foi apanhado pela comitiva da montadora no aeroporto de Lisboa, o que aconteceu na sexta-feira, 15 de novembro.

12 homens e um objetivo: a seleção no Shootout do Porsche Junior Program global (Os 12 pilotos no processo seletivo do Porsche Junior Program Global (Foto: Porsche))

Desde então, os concorrentes foram submetidos a sessões de media training, tiveram a chance de conhecer os mecânicos e engenheiros que prepararam os carros e, na pista, viveram praticamente um fim de semana de corrida, com treinos livres e simulações de classificação e corrida. Os tempos dos candidatos não foram compartilhados, tendo como referência a marca registrada pelo francês Julien Andlauer, que venceu o Junior Program em 2018.

O Junior Program é uma iniciativa tradicional da Porsche, que há tempos costuma valorizar jovens pilotos nos seus quadros. O principal exemplo é o neozelandês Earl Bamber, vencedor do Shootout em 2013 e, dois anos depois, triunfou pela primeira vez nas 24 Horas de Le Mans ao lado de Nico Hülkenberg e Nick Tandy, correndo na classe LMP1. Dois anos depois, venceu novamente em Sarthe e, nesta temporada, faturou o título do IMSA Sportscar na classe GTLM ao lado de Laurens Vanthoor.

É em busca deste objetivo, de ser o mais novo piloto oficial da Porsche, que Vitor Baptista partiu rumo à Europa. Mas sua preparação começou bem antes, no Brasil, tão logo assegurou sua vaga no Junior Program. O piloto contou com o suporte da Academia Shell Racing, inclusive com as instruções de Vanthoor, e intensificou sua preparação técnica e física para o desafio que estava por vir.

A seguir, Baptista conta ao GRANDE PREMIUM cada dia da sua aventura na Europa, revela detalhes da imersão no chamado ‘universo Porsche’ e detalha os desafios da sua participação no Shootout do Junior Program global.

Quinta-feira, 14 de novembro
 

Vitor Baptista chegou à Alemanha depois de um voo de mais de 11h saindo de São Paulo. Desembarcou no enorme aeroporto de Frankfurt e, de lá, seguiu para Stuttgart, onde mergulhou definitivamente no ‘universo Porsche’ por meio de uma imersão. O piloto visitou a fábrica e o museu da montadora alemã, onde estão localizados carros que fizeram a história do automobilismo em várias épocas distintas.

À noite, depois de um dia bastante cheio, Baptista ainda demorou a dormir, uma vez que dedicou as últimas horas da quinta-feira para estudar o material de pista, desenvolvido no Brasil, visando o início das atividades no Algarve.

“Passei quase a tarde inteira, desde a hora do almoço, na fábrica e no museu da Porsche. Foi uma baita experiência. A gente teve uma visita guiada pela fábrica com uma das meninas do museu, que explicou tudo: desde a montagem de peça, do painel do carro, do monobloco, do chassi, até a customização da linha do fio do couro do painel do carro. A gente fez um grande tour pela fábrica, viu toda a linha de montagem, toda a parte de estufa, de pintura, como chegam as rodas. São produzidos 250 Porsches por dia. O Taycan, há oito meses foi iniciada a produção, mas a visitação desta linha de montagem só vai estar aberta em abril de 2020, mas nesta que a gente viu são produzidos todos os modelos 911 e 718. Foi um dia muito bom, tirei muitas fotos do museu, mas na fábrica não é permitida a entrada de celulares. Foi bom estar junto com o pessoal da Porsche.”
 

(Vitor Baptista no Museu da Porsche em Stuttgart (Foto: Arquivo Pessoal))

Sexta-feira e sábado, 15 e 16 de novembro
 

Depois da breve passagem pela Alemanha, Baptista embarcou rumo a Portugal, desembarcando em Lisboa para ser recepcionado pela organização do Junior Program. A partir daquele momento, o piloto já passava a ser avaliado pela Porsche. Dali, seguiu rumo a Portimão, no Algarve, litoral português.

Na noite de sexta-feira, Baptista se uniu aos 11 pilotos para um jantar que serviu para integrar todos os concorrentes do Shootout. Não era um compromisso obrigatório, mas uma vez que já fazia parte do processo seletivo, a presença foi importante para ver e ser visto.

“O pessoal da Porsche foi me apanhar no aeroporto em Lisboa com destino a Portimão. Jantar opcional, mas que a gente aproveita para interagir e conhecer as pessoas, todo o pessoal do staff da Porsche. E a partir de amanhã [sábado], às 7h, começa tudo. Dia de checkup médico, entrevistas, ações para televisão e, à tarde, vamos para a pista com track walk, conhecer um pouco do carro, parte teórica, além de conhecer os engenheiros e mecânicos.”

Pilotos do Junior Program em palestra antes dos trabalhos de pista no Algarve (Os pilotos selecionados para o Shootout em palestra no Algarve (Foto: Porsche))

Domingo, 17 de novembro
 

A jornada de Vitor na pista começou definitivamente no domingo no Algarve, enquanto do outro lado do Atlântico o mundo do esporte a motor aguardava ansiosamente pelo GP do Brasil. Baptista viveu um dia bastante agitado, mas ainda sem pilotar o carro no seletivo circuito de Portimão. Ao fim do domingo, o jovem relatou um pouco de como foi o início dos trabalhos.

“As atividades do dia se encerraram. Foi um dia bem corrido com a parte de tempo, tivemos muitas atividades fora da pista: entrevistas, social media, exames médicos, exames físicos, exames cognitivos. Foi um dia todo baseado em atividades fora da pista. Na parte da tarde, fomos para a pista para arrumar detalhes, arrumar o banco, ver o carro, conhecer os mecânicos, e deixar tudo certo. A gente fez uma volta com o carro para conhecer a pista, e está tudo preparado para amanhã.”

Segunda-feira, 18 de novembro
 

Enfim, era chegada a hora de acelerar. Baptista e todos os outros 11 concorrentes no Shootout vivenciaram um dos pontos altos da avaliação visando a seleção no Junior Program. Cada um dos candidatos teve a chance de pilotar um Porsche 911 GT3, de 485 cv, nas mais variadas condições, simulando um fim de semana pleno de corrida, a começar pelos treinos livres.

“Foi um dia corrido. Primeiro dia de pista. A gente teve contato com a pista, contato com o carro. Tivemos duas sessões de treino. E em cada treino tivemos duas saídas, de seis, sete voltas, e nos dois treinos passamos pneus novos. A única referência de tempos de volta é do Julian Andlauer, que correu a Supercup neste ano, fez o Junior Program. Ele fez a volta referência. Foi bom, consegui desenvolver bem, meu ritmo está bem constante. Faltou só encaixar a volta no segundo treino para ter um tempo bom. De qualquer maneira, a gente viu que os setores estão bem legais, é só encaixar a volta mesmo. [Terça] tem simulação de classificação e corrida. E aí acaba. Vamos nos preparar porque logo o dia começa.”

Terça-feira, 19 de novembro
 

A programação do Shootout alcançou seu ápice na terça-feira, quando os concorrentes realizaram as simulações de classificação e corrida, fechando o que seria um fim de semana de competição.

Como o objetivo foi o de avaliar os pilotos por si só e não o de promover o confronto direto na pista, os tempos obtidos nos treinos e na simulação de classificação não foram compartilhados, de forma que nenhum piloto soube as melhores voltas dos seus concorrentes. Já a simulação de corrida foi para medir o ritmo e a constância de cada piloto, mas não compreendeu embates diretos ou ultrapassagens, por exemplo.

Tão logo as atividades se encerraram, era chegada a hora de voltar pra casa. Foi quando Baptista ressaltou detalhes do dia final de Junior Program e também as suas impressões sobre a seleção e seu desempenho como um todo.

“Já estou pronto para embarcar para o Brasil. O dia foi muito bom. Saio daqui com a sensação de dever cumprido, dei o meu melhor, que é o que mais importa. A gente sabe que não é só pista que está valendo, não é só entrevista, parte física… É um conjunto. E o vencedor vai representar a Porsche. Dentro do que eles imaginarem, lá, vai ser a decisão. A gente teve uma simulação de classificação pela manhã, à tarde uma simulação de corrida. E todos os pilotos se sentiram bem confortáveis. Acho que a gente estava num nível alto, bem parecido, dentre todos os pilotos ninguém rodou, ninguém bateu. Acho que foi um dos shootouts mais desafiadores, com um dos níveis mais alto de pilotos. Muitos deles já têm carreira na Supercup, muitos têm mais de quatro anos de Porsche, só gente que manda bem”, diz.

“Agora é esperar o resultado, tomara que dê certo. Feliz com a experiência que adquiri, com todo o relacionamento que consegui com os outros 11 pilotos, com toda a equipe da Porsche desde a chegada ao aeroporto até o desembarque aqui, até eles levarem de volta ao aeroporto. Foi um trabalho impecável e, cada vez mais, admiro mais a marca”, afirma.

Vitor explica também a dinâmica das simulações de classificação e corrida, revelando nuances que desafiaram os jovens pilotos.

“Durante as sessões de treino, o único tempo que a gente tinha era a referência do Andlauer. Mas os tempos dos 12 pilotos não eram compartilhados, ninguém sabia. E aí nem adiantava a gente perguntar um para o outro porque, querendo ou não, a gente está no meio do programa [seletivo]. A simulação de corrida foi feita assim: foram três grupos, cada grupo com quatro pilotos, e cada grupo fazia a simulação de corrida, um seguido por outro, com os mesmos carros. Era de 15 voltas, e ao abrir a primeira volta já estava valendo. Eles fazem o tempo médio. Algo muito interessante neste teste, algo que no primeiro dia todos os pilotos pecaram — isso foi algo que eles queriam que fossem as regras, que fosse o mais justo possível —, todo mundo estava ultrapassando os limites da pista. E foi algo legal para a gente trabalhar em cima. No fim, na corrida, tinha essa regra, de não ultrapassar os limites da pista”, relata.
 

(Os pilotos foram submetidos a testes dentro e fora da pista (Foto: Porsche))

Um dos pontos abordados pelo brasileiro foi a relação com seus concorrentes. E, apesar de estar em um ambiente naturalmente competitivo e tenso pelo fato de estarem todos a vivenciar uma grande avaliação, o clima entre todos foi o melhor possível, garante Vitor.

“A convivência com o pessoal, pra te falar bem a verdade, foi até melhor do que imaginava. Tem a tensão, obviamente, aquele feeling de você estar ao lado do cara que pode tomar sua vaga, mas a gente não fazia de igual para igual. Se tem a simulação de corrida com os quatro saindo juntos, com ultrapassagem e tudo mais, teria uma situação um pouco mais delicada, o pessoal ia ficar um pouco mais separado. Mas não foi o caso, cada um fez o seu. Então não teve um confronto direto. Foi legal porque a gente conseguiu fazer amizades novas, todo mundo lá saiu amigo de todo mundo. E a gente não teve conflito em momento algum”, conta.

Baptista agora conta os dias para saber do resultado do processo seletivo feliz e satisfeito pela forma como se desenvolveu ao longo do Shootout do início ao fim em Portugal.

“O resultado está previsto para sair dia 29, quando eles têm o anúncio do campeão da Supercup, então eles querem fazer tudo conectado. É muito difícil de a gente falar se foi muito bem ou muito mal. Obviamente, se você vai mal, você sente. Mas acho que consegui entregar o potencial e mostrar para eles o potencial. É o que mais importa. Mesmo que não tenha sido o mais rápido, ou tenha sido, o importante é você mostrar evolução durante o teste inteiro, você mostrar que tem potencial para trabalhar e representar a marca. Estou muito feliz com meu resultado, com o que entreguei, com a minha performance, porque dei o meu melhor e é a sensação que mais vale. Chegar lá, se comunicar bem, sentir que você se preparou para aquilo e deu o seu melhor”, finaliza Vitor Baptista.

Clima de amizade entre os concorrentes à vitória no Porsche Junior Program global (Os 12 pilotos no processo seletivo do Porsche Junior Program Global (Foto: Porsche))

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