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Grandes Entrevistas

"Eu não assisti Drive to Survive"

Ao GRANDE PREMIUM, Günther Steiner abriu o jogo sobre diversos assuntos: Haas em 2019, os seus pilotos, o que esperar da Fórmula 1 em 2021, além de Drive to Survive

A Haas completou sua quarta temporada na Fórmula 1 em 2019 e poucos times na história recente da categoria tiveram uma trajetória tão interessante quanto a do time americano. A equipe se estabeleceu de início como uma potência do pelotão intermediário. Empurrada pela sólida parceria técnica com a Ferrari, a esquadra foi capaz de brigar com as rivais mais experientes logo de cara e foi colecionando boas atuações em sua evolução, como o sexto lugar de Romain Grosjean na Austrália, em 2016, e a quarta colocação do franco-suíço na Áustria, em 2018.

Porém, a evolução foi interrompida de forma abrupta em 2019, com o time encarando muitos problemas e somando apenas 28 pontos ao longo da temporada. À frente da equipe de Kannapolis desde o seu nascimento está Günther Steiner, uma carismática figura que está presente no paddock da F1 desde 2001. E que se tornou rapidamente um dos dirigentes mais interessantes do grid.

Günther Steiner é chefe de equipe desde 2016 (Günther Steiner (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio))

O horrível 2019

Steiner manteve a postura simpática ao receber a equipe do GRANDE PREMIUM em Interlagos, mesmo quando foi perguntado sobre o delicado momento que o time atravessa. Ao total, foram 16 corridas fora dos pontos em 2019.

"Ah se eu soubesse…", brincou o chefe ao ser perguntado sobre o grande problema da Haas. "Eu acho que nas corridas temos altos e baixos. Não há tempo para desculpas, não fomos bem neste ano. Você nunca pode esperar que vá apenas melhorar, porque ninguém estaria no fundo. Acho que tínhamos um carro bom, mas o desenvolvimento não seguiu em um caminho certo”, declarou.

“Talvez não tenha uma explicação simples, mas, às vezes, no desenvolvimento, você não acerta, não faz as coisas certas e os outros te superam. Tenho consciência de onde estamos, não queremos estar aqui. Nosso objetivo é melhorar no próximo ano", explicou ao falar da não evolução da Haas, que muitas vezes tentou usar especificações antigas visando melhorias, sem muito sucesso.

Uma das reclamações constantes de Steiner e da dupla de pilotos são os compostos da Pirelli utilizados em 2019. Para o italiano, a janela de funcionamento dos pneus é muito curta, com eles superaquecendo muito rapidamente.

"Sim, a janela de funcionamento dos pneus é muito pequena. Se o seu carro não é bom, mostra muita deficiência porque sai dessa janela de funcionamento. Todos têm os mesmos pneus, mas a Haas parece pior porque você sai dessa janela muito rapidamente", disse.

Com um crescimento tão interessante e uma queda tão brusca, Steiner falou sobre o incômodo que foi passar por este momento difícil. Para ele, tudo é mais fácil quando o seu carro é bom, "até acordar de manhã", mas mantém orgulho pelo que foi conquistado pela equipe até o momento na Fórmula 1.

“Somos ambiciosos, e quando você sente o gosto de uma boa temporada, não quer ver isso. Eu não diria que é depressivo, mas se você vai para uma corrida com um carro bom, você tem energia, todos estão com energia no espírito. Tudo acontece certo. Se o carro é ruim, tudo é mais difícil. É complicado acordar cedo com um carro ruim. Viajamos muito, você fica mais cansado, você sabe que não é bom. Se você sabe que pode lutar, sabe o que está fazendo. Eu quero lutar, quero brigar com os melhores. Não temos as ferramentas para brigar. Devemos ficar orgulhosos do que fizemos, mas precisamos ter certeza que vamos melhorar no ano que vem. Se isso acabar logo, tenho certeza que podemos focar 100% no próximo ano", citou.

Para Steiner, Grosjean e Magnussen não tiveram chance de mostrar potencial em 2019 (Günther Steiner (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio))

Os pilotos

Uma das decisões que mais surpreendeu neste ano foi a manutenção da dupla formada por Kevin Magnussen e Romain Grosjean, constantemente criticada pela mídia, entusiastas da categoria e até pelo próprio Steiner, como no acidente provocado por ambos no GP da Inglaterra ainda na primeira volta.

Para Günther, seria muito injusto demiti-los, especialmente por entender que eles não tiveram uma chance justa de mostrar o potencial em 2019 por conta do péssimo carro. "Do jeito que estamos agora, os pilotos não têm culpa. Trazer novos pilotos não adiantaria. Primeiro porque precisamos dar uma chance justa, com um bom carro, para eles mostrarem do que são capazes. Romain foi muito bem conosco no começo, então pensei em alongar o contrato por mais um ano. Existem outros pilotos no lado de fora, mas o problema é o carro, não os pilotos. As pessoas dizem que trocar os pilotos dá uma nova vibe ao time. Eu mesmo posso dar essa nova vibe. Não preciso de novos pilotos", cravou.

Grosjean é o mais criticado, especialmente pela frequência de acidentes. O 2019 do francês foi terrível, com apenas 8 pontos e à frente apenas dos pilotos da Williams na classificação final. Steiner colocou o veterano como “8 ou 80”, um cara que pode ser muito bom e muito ruim ao mesmo tempo, dependendo do dia.

"Não. Nunca", brincou Steiner quando a equipe do GRANDE PREMIUM citou os erros de Grosjean. "A coisa com Romain é muito estranha. Em um dia bom, ele é ótimo. Em um dia ruim, ele é péssimo. Não tem nada no meio. Ele chegou em um nível da carreira onde precisa trabalhar muito nisso. Em dia bom, ele pode ser um dos melhores. Mas um dia ruim… Ele é muito ruim. Não quero comparar. Espero mais dias melhores do que dias ruins", disse o italiano de 54 anos.

Steiner gostou da entrada do teto orçamentário na F1 (Günther Steiner (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio))

2021

A Fórmula 1 promete uma revolução em 2021 com diversas mudanças no regulamento técnico e esportivo, passando por uma reformulação também na maneira de dividir a receita. A esperança da categoria é que o grid se aproxime cada vez mais e as disputas fiquem mais emocionantes.

Steiner gostou do novo regulamento, especialmente da entrada do teto orçamentário, que busca limitar os gastos de grandes equipes como Mercedes, Ferrari e Red Bull. Na visão do chefe, a distância criada entre as equipes não foi algo recente ou cavada nos últimos 20 anos, e as mudanças vieram com um atraso muito grande.

"Eu acho que vamos trabalhar bem em 2021. O carro parece bom, espero que é isso que eles queiram, que as ultrapassagens aconteçam. Estamos trabalhando muito. Acho que o alvo para aproximar os times é o teto orçamentário, porque estamos muito longe dos grandes times. Vai aproximar? Não, mas é um primeiro passo, e podemos ter um segundo passo nos próximos anos. Se você pensar, essa distância não aconteceu nos últimos dois anos. Tem sido construída nos últimos 20. Vai demorar bastante para aproximar. Você não pode esperar que os grandes times tenham um orçamento baixo do nada, porque eles não têm interesse. Isso era para ter acontecido dez anos atrás", citou.

E a Fórmula 1 A e a Fórmula 1 B? Steiner crê que a categoria sempre passou por eras de domínio em sua história, como a McLaren de Ayrton Senna e Alain Prost, a Williams com Nigel Mansell e a Ferrari de Michael Schumacher. Não é o cenário ideal, mas os esforços estão acontecendo para acabar com o hegemonia.

"O pelotão intermediário é muito forte e melhorou neste ano. Se você conseguir aproximá-los, seria bem legal. Se você tirasse os três principais times, teríamos vários vencedores neste ano, mas o objetivo é aproximá-los. Não diria que existe A ou B, acho que existem os principais times, mas se olhar na história da Fórmula 1, sempre teve um time dominante, é só olhar a época da McLaren, da Williams, do Schumacher com a Ferrari. É certo? Não é, mas estamos trabalhando para aproximar", declarou.

Steiner não assistiu a série produzida pela Netflix (Günther Steiner (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio))

Drive to Survive

Günther Steiner ganhou mais notoriedade entre os fãs de Fórmula 1 por conta da sua excêntrica participação na série-documental ‘Drive to Survive’, produzida pela Netflix e que abordou a temporada 2018 da F1. O chefe citou que não fez nada de muito diferente do que faz na vida pessoal ou dentro da equipe. Mas disse que não assistiu a obra com medo de ser mais autocrítico.

"É mais simples do que você pensam. Primeiramente, eu nem assisti ainda. Eu não quero assistir, porque vou ser autocrítico. Quando você se assiste, tenta mudar. Eu não atuei ali, não fiz nada diferente do que faço na minha vida. Acho que fizeram um bom trabalho, eu não fui na Netflix para ser o protagonista, só fiz o meu trabalho. Eles fizeram o deles e saiu uma boa história. Quero continuar assim. Não tenho aspiração para ser uma celebridade, só fiz o meu trabalho”, comentou com bom humor.

Steiner também reiterou a importância que a série teve para o aumento da popularidade na F1, citando exemplos de pessoas que não costumam assistir corridas e gostaram do conteúdo exibido.

“Acho que isso é ótimo para F1, porque muitas pessoas não assistem corridas e gostaram. Eu não ganhei dinheiro, mas nem preciso. Eu gosto do que faço, sou privilegiado por fazer isso, acho que fizeram um bom trabalho em me apresentarem para muita gente. Eu não mudei nada. Muita gente diz que é difícil trabalhar com a Netflix, mas só coloquei um microfone. Fiz algumas entrevistas, mas nada diferente do que faço com vocês. Sempre sou eu, não é problema, mas não me esforcei”, completou.

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