Christian Fittipaldi

Aposentado das pistas desde o final das 24 Horas de Daytona, o neto do Barão, o filho do Wilsinho, o sobrinho do Emerson, consolidou sua própria marca no esporte. Com a carreira repassada, o agora ex-piloto se mostrou satisfeito com os dignos resultados na F1 e na Indy

André Avelar, São Paulo

Christian Fittipaldi já era um piloto bem resolvido consigo mesmo. Sem nunca ter se importado com o sobrenome famoso, o glamour da F1, as tantas temporadas na Indy ou qualquer coisa assim, o paulistano conseguiu ficar ainda mais em paz e realizado desde que se despediu das pistas, no fim de janeiro deste ano, nas 24 Horas de Daytona. No auge dos seus 48 anos, quase todos atrás de diferentes volantes, o paulistano agora se dá tempo para planejar o futuro e quem sabe, um dia, voltar a participar de uma ou outra prova.

O problema é que já há quem especule sua volta para a próxima corrida do calendário do SportsCar, em março, em Sebring, também nos Estados Unidos. Como um dos pilotos da Action Express Racing, Mike Conway, se atrasou para Daytona, a ausência sugere a não-permanência do britânico para a sequência do campeonato a bordo do Cadillac #5 DPi, ao lado dos portugueses Filipe Albuquerque e João Barbosa.

“Se me chamassem, faria pela equipe. Mas não é vontade minha, não estou cutucando ninguém para ir correr, não quero… Enfim, faria por eles”, fez questão de deixar claro na entrevista exclusiva ao GRANDE PREMIUM, dias depois de encerrar sua trajetória nas pistas. De uma forma ou de outra, Christian seguirá sempre vinculado ao automobilismo e também à Action Express, atuando a partir de agora como diretor-esportivo.

Tamanha tranquilidade com situações inusitadas vem desde os tempos em que, de Minardi, fez 5º lugar no GP de Mônaco. Mais do que isso, garante com toda confiança, que teria subido várias vezes ao pódio com a Footwork, em 1994, se não fosse por uma mudança no regulamento depois do trágico GP de San Marino. Na Indy, para onde buscou novos horizontes a partir do ano seguinte, teve como marcante também o segundo lugar nas 500 Milhas de Indianápolis, em 1995, logo o seu ano de estreia. “Foi até um pouco surpreendente”, relembrou.  

A seguir, o neto do Barão, o filho do Wilsinho, o sobrinho do Emerson, repassa a sua carreira. Entre as memórias, as lembranças na F1, a vida além do Mundial, a chegada à Indy — consequentemente ao automobilismo norte-americano — e as glórias alcançadas no endurance, com marco especial para as 24 Horas de Daytona, vencidas três vezes por Fittipaldi.

 

Grande Premium: Inicialmente, gostaríamos de saber se você está feliz com a decisão tomada?

Christian Fittipaldi: Estou feliz. Óbvio que, durante o fim de semana inteiro de corrida, houve alguns momentos como de montanha-russa. Em alguns momentos estava feliz, em outros estava triste, mas acho que o mais importante de tudo é que estou me entendendo comigo mesmo. Estou tranquilo da decisão que tomei. Em paz e sem agressões internas.  

GP*: Daytona é um lugar em que você já venceu três vezes. A despedida tinha que ser ali? [Ao lado dos portugueses Filipe Albuquerque e João Barbosa, foi o 7º]

CF: Esse foi um dos motivos. Além de vencer, terminei seis ou sete vezes no pódio. Daytona sempre significou bastante para mim e, se fosse possível, quando falei lá com a equipe em julho que iria parar de guiar, queria ver se poderia correr mais uma vez naquela pista. Todo mundo estava de acordo e em nenhum momento teve algum problema. Foi por isso que escolhi Daytona.  

GP*: Mesmo depois de tanto tempo no automobilismo, a noite antes da corrida de despedida foi agitada? Você ficou ansioso por ser a última corrida?

CF: (pensativo) Vou ser sincero: achei que fosse gerar uma ansiedade e acabou não gerando porque você está em uma situação em que foi o que foi e é o que é. Óbvio que você fica um pouco ansioso. Mas, ao mesmo tempo, recebi várias homenagens nas quais estou muito honrado. Fui com a cabeça trabalhada para Daytona e sabia que não poderia misturar as coisas. Sabia que alguma parte de mim estaria muito emotiva por um lado, mas não poderia esquecer que estava lá para tentar ganhar a corrida, do mesmo jeito.

 

CF's Last One: Christian Fittipaldi carregou no capacete a mensagem de última corrida da carreira
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GP*: Já que tanto falam, existe a possibilidade de você correr em março, em Sebring? Por que se cogita essa volta?

CF: Para mim não foi dito nada. Hoje em dia, não devo nada para ninguém e maior sinceridade do que essa não existe. Acho muito difícil disso acontecer, praticamente impossível, mas esse rumor acabou saindo pelo fato que o Mike [Conway] não foi para Daytona. E ele não indo, daí não faz mais sentido continuar com ele lá em Sebring. Ouvi esse rumor e, sinceramente, se for necessário, faria pela equipe. E tentaria fazer o melhor possível das minhas habilidades. Mas se você perguntar para mim: ‘Você está morrendo de vontade?' Não. 

Estou bem resolvido comigo, mas a gente trabalhou tão bem nesses últimos sete anos que seria o mínimo que poderia fazer por eles. Quero deixar bem claro. Se me chamassem, faria pela equipe. Mas não é vontade minha, não estou cutucando ninguém para ir correr, não quero… Enfim, faria por eles.

 

GP*: E também nada impede de você um dia costurar uma aparição especial para correr?

CF: Exatamente. Quero deixar bem claro, não estou mudando a história. Desde quando a gente anunciou, falei que não corro mais de uma maneira profissional, participando de todo o campeonato. Agora, se pintar uma Dubai 24 Horas, uma Spa ou até mesmo uma Daytona em uma condição diferente, eu não estaria completamente fora.

Com certeza, iria pensar. A única coisa é que isso não passa na minha cabeça. Absolutamente zero. Até mesmo… Sei lá, por exemplo, corri só duas vezes, mas gostei da experiência, de fazer uma prova ou outra de caminhão aí no Brasil. Ainda mais agora que está retomando toda a categoria depois de dois, três anos difíceis que eles passaram. Sei lá, daqui dois anos, três anos… Isso daí pode acontecer. 

 

GP*: Uma coisa que você entendeu bem desde muito cedo é que existe vida além da F1. Você hoje defende que existem outras tantas categorias para um jovem piloto?

CF: Sem dúvida nenhuma, existe vida fora da F1. Afinal de contas, você não pode limitar um universo de potenciais pilotos no mundo inteiro a brigar só por 20 assentos. Sendo que nesses 20, mais que mais do que nunca, não é só o talento que está ali. Você tem que estar na hora certa, no lugar certo e o dinheiro tem que aparecer de algum lugar. Seja da sua família, de um patrocinador ou se você tem um relacionamento com alguma montadora que já está participando da categoria. Alguém estará pagando essa conta.  

GP*: Você sempre lidou bem com o tal do mundo da F1. O sobrenome, o glamour, nunca te afetaram, certo? De onde veio essa tranquilidade para não se deslumbrar?

CF: Acho que veio de mim mesmo. Não sei. Com certeza, não nasci sabendo disso. Tive que aprender com os meus pais e outras pessoas. Acho que vem do modo como se relacionar com as pessoas. Sempre vi que todo mundo tem direitos iguais e ninguém é melhor do que ninguém.  

GP*: Qual o seu grau de relacionamento com o Enzo e o Pietro, que estão iniciando suas carreiras e no caminho da F1?

CF: Com o Pietro, falo bastante. É muito difícil passar uma semana sem falar com ele. Com o Enzo, menos, mas também falo bastante. 

 

Mesmo correndo com uma Minardi, Christian Fittipaldi fez o quinto lugar no GP de Mônaco de 1993
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GP*: Quando você olha para a sua carreira na F1, qual resultado de emociona mais?

CF: Na F1, com certeza, o quinto lugar de Mônaco [em 1993]. Foi o resultado que mais me tocou porque foi uma corrida ótima. Ali, como todo mundo sabe, é praticamente impossível de ultrapassar e consegui ultrapassar três carros durante a corrida e não era largando de Ferrari lá atrás no grid. Era pilotando um carro mediano [Minardi] e largando em 17º. E Mônaco sempre foi um lugar que gostei muito. Desde o meu primeiro contato. Foi muito forte, nunca tinha corrido lá. Nunca fiz F3 em Mônaco, ao contrário de uma série de outros pilotos. Então, quando cheguei, fiz 8º no meu primeiro ano e quinto no meu segundo ano. No meu terceiro, estava em 2º e daí quebrou uma peça de… Sei lá… 50 centavos e o carro ficou preso em segunda marcha, alguma coisa assim, e tive que parar.   

 

GP*: Você se lembra de algum conselho que alguém deu antes de correr em Mônaco?

CF: Sempre ouvi muito as pessoas. O Jean Alesi morava perto de casa, naquela época na Suíça, e disse: ‘Você vai largar, vai andar, vai andar e andar muito. Daí você vai olhar na placa de box e vai ver que ainda faltam 70 voltas. E ele tinha razão. Disse para não me preocupar, me concentrar que a corrida iria para a frente. Outra coisa que ouvi do meu pai foi que na rua a sua última volta provavelmente vai ser a mais rápida por causa da pista. Pode não ser pela condição de pneu, mas provavelmente será.

GP*: Além desse resultado, no seu primeiro ano de Indy, em 1995, você faz o 2º lugar em Indianápolis, outro templo da velocidade. Como aconteceu isso?

CF: Também é um resultado que coloco entre os grandes da minha carreira justamente por tudo isso. Vou ser sincero, foi até um pouco surpreendente para o meu ano de estreia. O carro estava bom na corrida, de novo, naquele caso, o Emerson me ajudou bastante, segui bastante os conselhos que ele tinha dado e consegui um ótimo resultado lá. Fiquei muito contente mas, de uma certa maneira, por ter sido a minha primeira visita em Indy, não vou negar que foi um pouco surpreendente.   

GP*: Você sente esse reconhecimento pelos resultados aqui no Brasil ou não pensa nisso?

CF: Nunca corri por causa disso [reconhecimento]. Não é algo que está no topo da minha lista. Fiz o que fiz e tem várias pessoas que acharam ótimo e imagino que devem ter as pessoas que acharam normal ou não gostaram. Como tudo na vida. Não é todo mundo que gosta de você ou de mim. É uma coisa que não me preocupa nem um pouco. 

Christian Fittipaldi elege Footwork de 1994 como melhor carro que guiou na carreira
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GP*: Você pensa em voltar a morar no Brasil, trazer a família para cá, viver o dia-a-dia daqui?

CF: Nesse momento, não. Por incrível que pareça, nesse ano vou viajar mais do que quando corria. Profissionalmente, de repente, ainda tenho muito para oferecer aqui nos Estados Unidos, mas penso em voltar para o Brasil um dia. Apesar de morar fora desde 1990, penso em voltar em um momento que for o certo. E agora, com certeza, não é o momento certo.  

 

GP*: Qual foi o seu carro de corrida mais bonito e o mais prazeroso de guiar?

CF: O mais prazeroso foi a Footwork, antes de cortarem todo o difusor, logo depois da corrida de Mônaco [de 1994]. Infelizmente, por causa da tragédia de Ímola, eles acabaram com uma mudança radical no regulamento e acabamos sofrendo um pouco com isso. Se não mudasse o carro até o final do ano, tenho certeza que aquele carro teria entrado não uma vez, mais várias vezes no pódio naquela temporada. As primeiras quatro corridas foram fantásticas, mas tivemos muitos problemas mecânicos. Na única corrida em terminei, em Aida, fui o quarto.

GP*: E o carro mais bonito?

CF: Gostei muito do preto da Newman/Haas, de 2.000, aquele que tinhas as faixas nas laterais. Também gosto muito do nosso carro da Action dos últimos dois anos. E o carro de Watkins Glen, que eles fizeram em razão do 4 de Julho [Dia da Independência dos EUA], com fotos de todos os heróis americanos… Todos os detalhes daquele carro eram imagens históricas. De longe, ele não é tão bonito, mas nos detalhes, na história que ele tinha, foi muito legal.  

GP*: Você teve um dos capacetes mais icônicos de toda uma geração. Chegou a ter dúvida sobre o modelo da última corrida?

CF: Estava em dúvida, sim. Ou corria com o do meu pai, ou com o vermelho da época da Budweiser ou o meu original. Chegaram a me dar uma ideia de correr com uma mistura dos três, mas iria ficar muito confuso. Acabei escolhendo o original, exatamente como corri a primeira corrida, em São Carlos, em 1981.