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Lado a Lado

Ferrari: 1980 x 2020

A atual fase da Ferrari é um fundo do poço que ecoa um ano desastroso que ocorreu há quatro décadas

A Ferrari de 1980 em evento de carros antigos (Foto: Wikimedia Commons)

É difícil, na história da Fórmula 1, encontrar um ano tão desastroso para a Scuderia Ferrari quanto está 2020. Presente na categoria máxima do automobilismo mundial desde o seu começo, o time italiano quase sempre esteve no meio para frente no pelotão. Porém, desta vez, a equipe vermelha amarga apenas a sexta posição no Mundial de Construtores. Realizado desde 1958, isso aconteceu apenas em outras quatro oportunidades no campeonato. A última foi em 1980, há 40 anos.

Por isso, faz sentido comparar os dois fundos do poço. O que 1980 mostra de similaridades e diferenças em relação a 2020? O que a temporada que aconteceu há 40 anos ensina para a atual? Vamos ver.

1980 e 2020: anos de transição para a Ferrari

A Ferrari vinha de um grande título em 1979, o último antes do jejum que só seria encerrado com Michael Schumacher, em 2000. No entanto, a Scuderia havia ficado para trás.

O final dos anos 1970 havia sido palco do surgimento dos carros-asa, com seu efeito solo. O motor Ford-Cosworth V8 era um companheiro perfeito para as novidades aerodinâmicas, enquanto o grande e beberrão boxer de 12 cilindros em linha usado pelos ferraristas não ajudava em nada nesse sentido. Para piorar, os motores turbo estava começando a ganhar o protagonismo da F1.

Enquanto lá na frente a ex-pequena Williams levava o título mundial, os pilotos Jody Scheckter e Gilles Villeneuve sofriam com um Ferrari 312T5 que era apenas uma evolução do vencedor 312T4.

Ferrari de 1980
O defasado 312T5, de 1980, em evento de carros antigos (Foto: Wikimedia Commons)

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Lento, o carro se tornou um beco sem saída para os italianos: por mais que eles se empenhassem em evoluir o bólido, ele era conceitualmente defasado em relação aos concorrentes – e nada mudaria isso.

A Ferrari despencou dos 113 pontos em 1979 para apenas oito em 1980. Foi a primeira temporada sem uma única vitória do time desde 1973. Mais do que isso: os melhores resultados do 312T5 foram três quintos lugares. Muito pouco para um time que carrega um país nas costas.

Foi um triste fim para a série de carros 312T, introduzida em 1975 e que conquistou quatro títulos mundiais de construtores e um vice, além de outros três títulos de pilotos. Tudo isso em seis temporadas.

Carro da Ferrari de 2020
Charles Leclerc com a pintura comemorativa do SF1000 no GP da Toscana de 2020 (Foto: Twitter / Ferrari)

O ano de 2020 é, em diversos níveis, parecido com o de 1980 para a Ferrari. Ainda que o salto tecnológico dos adversários não seja tão abrupto, o SF1000 usado na atual temporada parece ser também um beco sem saída. O polêmico acordo com a FIA, que freou as artimanhas ilegais para ganhar desempenho na unidade de potência, não foi o único motivo para a perda de velocidade. O chassis é ruim, tanto é que sofre até contra concorrentes com o mesmo motor.

A volta por cima

Se uma coisa que a história da Ferrari é recheada é de voltas por cima – ainda que a recuperação do desastre de 1980 não foi tão vitoriosa quanto os italianos gostariam.

Para 1981 a Scuderia introduziu o 126CK, um carro inovador para a equipe em diversos sentidos. O motor boxer foi substituído por um V6 turbo dentro das novas tendências da F1. As linhas eram mais fluídas, procurando usar o efeito solo de forma mais eficiente.

Porém, o novo carro passava longe da perfeição. O turbo lag era enorme, fazendo com que a potência demorasse a chegar após o piloto pisar no acelerador. A aerodinâmica também não era boa, fazendo com que fosse muito difícil controlá-lo. “É um grande Cadillac vermelho”, chegou a definir Villeneuve.

A diferença é que o 126CK não era um beco sem saída. Com muito braço e ousadia, Villeneuve levou o modelo a primeira vitória no GP de Mônaco de 1981. Aquele é, certamente, um dos momentos mais emocionantes da passagem do canadense pela equipe, com seus integrantes chorando ao ver Gilles receber a bandeira quadriculada.

Villeneuve ainda venceria o GP seguinte, na Espanha. Porém, os abandonos eram constantes, muito por causa da falta de confiabilidade do novo motor, e a Ferrari terminou o ano na quinta posição do mundial.

As bases, porém, estavam lançadas para o 126C2, carro que foi usado em 1982. Extremamente rápido e confiável, o bólido era um foguete e foi campeão do Mundial de Construtores. Porém, o carro também tirou a vida de Gilles Villeneuve, em um trágico acidente em Zolder, na Bélgica. No GP da Alemanha, já na parte final da temporada, Didier Pironi teve a carreira na F1 encerrada por um acidente com o mesmo modelo ferrarista.

2021?

Jogar tudo fora e começar do zero poderia ser um alento para a Ferrari, como foi em 1981. No entanto, a Scuderia não poderá repetir a estratégia no próximo ano.

Tudo porque, por causa da pandemia da covid-19, a implementação de um novo regulamento aerodinâmico foi adiado para 2021. Pior do que isso: haverá muito pouco espaço para mexer no carro na próxima temporada, por contenção de custos dentro da atual crise. Na prática, a Ferrari continuará mais ou menos no mesmo nível em que terminar 2020.

Resta, ao menos, um alento: se em 1980 os italianos tinham em Gilles Villeneuve como sua grande promessa, podemos dizer o mesmo de Charles Leclerc. Guardadas as devidas proporções e épocas, o canadense e o monegasco acalentam os corações vermelhos. Isso sem falar da coincidência de ambos falarem francês.

Claro, 2020, esse ano tão diferente, ainda não acabou. A Ferrari ainda pode se reencontrar, marcar mais pontos e, ao menos, terminar o campeonato na quarta ou quinta posições. Mas nada mudará o fato de que o 2020 da Scuderia tem o cheiro de naftalina de 1980…

1980 da Ferrari em números

Pilotos: Jody Scheckter (#1) e Gilles Villeneuve (#2)
Carro: 312T5
Motor: 015 3.0 F12 aspirado
Número de GPs: 14
Pontos: 8 (71 considerando a pontuação atual)
Posição no campeonato: 10º
Melhor posição de chegada: 5º (x3)

2020 da Ferrari em números

Pilotos: Sebastian Vettel (#5) e Charles Leclerc (#16)
Carro: SF1000
Motor: 065 1.6 V6 turbo híbrido
Número de GPs: 9 (de 17)
Pontos: 66 (14 considerando a pontuação de 1980)
Posição no campeonato: 6º
Melhor posição de chegada: 2º (x1)

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