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Por Fora dos Boxes

Arbitragem ‘à brasileira’

A polêmica do rádio de Nico Rosberg e a punição dada a Sebastian Vettel no GP da Inglaterra trazem de novo à tona as decisões dos ‘árbitros’ na F1

           

Ninguém vai admitir, mas eu aposto, caros leitores, que os comissários não sabiam o que fazer com Nico Rosberg ao final do GP da Inglaterra. Eles não sabiam como punir a Mercedes por extrapolar os limites das conversas de rádio. E esse é um problema grave da F1 recentemente.

Quando a caixa de câmbio de Rosberg falhou, a Mercedes não só o avisou a respeito, o que teria sido OK, como o instruiu sobre como evitar o defeito.

Foi algo que ficou bem claro. Nico perguntou o que tinha de fazer quando o time lhe disse para “evitar a sétima marcha”, e Tony Ross, seu engenheiro, o explicou com todas as letras.

Afinal, a punição de Nico Rosberg foi justa? Exagerada? Branda? É subjetivo demais (Nico Rosberg (Foto: Getty Images))

  

Em primeiro lugar, é uma regra tosca, e pelo modo como o texto está escrito, claramente uma infração foi cometida. Tudo partindo do princípio de que o piloto deve guiar o carro “sozinho e sem ajudas”.

Só que punir o crime é algo extremamente subjetivo. Era um problema terminal? Se sim, então Rosberg deveria ser classificado, não? Afinal de contas, não chegaria ao final e não marcaria os 15 ou 18 pontos do terceiro ou do segundo lugar.

Fora isso, levaram mais de quatro horas para a sanção ser divulgada. Andy Murray venceu o Aberto de Wimbledon enquanto os comissários discutiam o que fazer com Rosberg e a Mercedes. Por mais que agora exista a “jurisprudência”, quem garante que na próxima corrida não vai se demorar tanto quanto para punir um piloto? Vão continuar fazendo o torcedor desligar a TV ou ir embora do autódromo tendo visto um resultado, uma festa no pódio e, horas mais tarde, descobrir que o resultado não foi mais aquele?

Assunto menor foi a punição dada a Sebastian Vettel. Ele acabou tendo os 5s acrescidos ao seu tempo porque não conseguiu devolver a posição para Felipe Massa, o que não foi possível porque o brasileiro entrou nos boxes pouco depois.

Vettel empurrou Massa para fora da pista, é um fato. Passível de punição? Talvez. Mas eu gostaria que lances assim parassem de ser punidos. Tais decisões dos comissários fazem mal para o esporte.

A F1 tem entrado em diversas novelas e polêmicas desnecessárias, e por erros próprios. Parece até a arbitragem do futebol brasileiro.

Vettel não gostou da punição que recebeu em Silverstone (Sebastian Vettel (Foto: Carsten Horst))

Não é a primeira vez que uma regra é introduzida de modo que fica a impressão de que não se pensou nas consequências. Não se pensou nas possíveis reações. Instruções mal dadas que suscitam dúvidas e apenas dão a impressão de que tudo se complicou. E, claro, as muitas “faltinhas” que incomodam o público das partidas e das corridas.

No caso de Vettel, foi uma faltinha. Considerando que a pista estava molhada e os pilotos tinham pneus slicks, e que ele não jogou o carro para cima de Massa, era mesmo preciso puni-lo?

Não é exatamente uma discussão nova, mas cada vez mais se inibe os pilotos de disputarem posições. Não é preciso ir longe para encontrar um caso que felizmente não foi punido pelos comissários: uma das melhores disputas deste século.

Muitas vezes se reclama da falta de iniciativa dos pilotos, da falta de ultrapassagens arrojadas. Essas manobras são arriscadas, e não é simples ousar uma manobra para ganhar dois, três, cinco pontos, mas saber que na tênue linha entre o acerto e o erro, pode-se perder dez com uma penalização.

  

E, sinceramente, não se deve dar importância a reclamações dos pilotos pelo rádio na hora. Lembram de Vettel reclamando de Daniel Ricciardo no GP da Espanha? O alemão depois disse que teria feito o mesmo se estivesse no lugar do australiano.

Existem casos e casos. Um não pode jogar o carro para cima de outro. Ponto. Manobras sujas sempre serão manobras sujas, é uma questão até mesmo de segurança. Rosberg jogou o carro para cima de Hamilton na Áustria e mereceu a punição (muito embora a manobra não me faça julgar seu caráter). Mas é preciso deixar os pilotos darem o show.

Assim como os árbitros precisam parar de ser protagonistas no futebol brasileiro, os comissários precisam aparecer menos na F1. A categoria precisa simplificar suas normas e, principalmente no que diz respeito às disputas de posição, deixar os pilotos escreverem as regras.

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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